Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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13 de dezembro de 2013

A infanta D. Teresa (2)

A infanta D. Teresa partiu para a Flandres em 1184 e o rei seu pai morreria no ano seguinte. Já se previa que o seu fim estava próximo. Afonso Henriques andava à volta dos 75 anos e havia 15 que se encontrava impossibilitado de se descolcar pelos próprios meios (ver Desastre de Badajoz), o que muito o deveria ter debilitado. Aquela filha, de trinta e três anos, que nunca se havia separado dele, não o confortaria, nos seus últimos momentos, nem assistiria à sua morte. A separação deve ter sido muito difícil, para os dois.


            Quando os cavaleiros chegaram a Coimbra, a fim de escoltar a noiva com o seu dote, restavam a Teresa quatro dias para tratar dos últimos preparativos. Na véspera da partida, a infanta veio atirar-se em pranto aos pés do pai:
           - Não posso deixar-vos... Não sou capaz!
           - Não digas isso! Desejaste tanto este casamento!
           - Mas, então, porque me custa tanto partir? Talvez pudéssemos aguardar só mais um ano...
           - Acaba com isso, Teresa! O conde da Flandres enviou uma frota para te vir buscar. Quão incorteses seríamos, se a mandássemos de volta, sem ti!
           - Não quero saber de diplomacias e razões de estado! Só sei que não sou capaz de vos deixar.
           Afonso replicou, de voz muito calma e segura:
           - Deus confiou-nos missões e tarefas importantes, filha. Eu posso ser um velho fraco e enfermo, mas sou ainda el-rei de Portugal. Tu és a infanta, noiva do conde da Flandres. E cumprirás o teu dever, quando ele de ti é exigido!
           Teresa levantou-se e limpou as lágrimas. Mais do que nunca, admirou o pai, aquele velhinho mirrado, preso àquela cadeira, de cuja cabeleira imponente de outros tempos restava apenas uma coroa de cabelos brancos. Mas era ele que, naquela hora tão difícil, ainda possuía força suficiente para a chamar à razão. Ouviu-o dizer:
           - Já te roubei tempo demais, minha filha. Mereces ter, finalmente, a tua própria vida.

           Família real, nobres e criadagem (desde a mais fina aia, íntima das princesas, ao mais grosseiro moço de estrebaria): a corte juntou-se em peso, no recinto da alcáçova, a fim de se despedir da infanta, num processo mais triste do que um enterro, tantas lágrimas se vertiam, tanto fungar se ouvia.

          Quando Teresa desapareceu no interior da sua carruagem e o corso se foi lentamente pondo em movimento, as netas de Afonso afagaram-lhe as mãos trementes. Ninguém duvidava de que o velho rei vivia um dos momentos mais difíceis da sua vida.





10 de dezembro de 2013

A infanta D. Teresa (1)

No meu post evocativo da morte de D. Afonso Henriques, fazia referência a uma filha do nosso primeiro rei:

Afonso pensava muito em Teresa. Sabia-a feliz e segura na Flandres. Mas, de todas as mulheres que amara, era sem dúvida daquela filha que ele sentia mais saudades e seria ela quem mais gostaria de ter a seu lado.

De facto, Afonso Henriques parece ter tido uma relação muito especial com uma de suas filhas, que, por ironia do destino, ostentava o nome da avó: Teresa. Esta infanta permaneceu ao lado do pai até aos trinta e três anos, o que não era comum na época. As princesas costumavam casar muito cedo, algumas, ainda crianças.

Embora o Professor Mattoso, na sua biografia de D. Afonso Henriques (Temas e Debates 2007), não refira o assunto, o Professor Freitas do Amaral, o primeiro a escrever um livro deste género (Bertrand 2000), pergunta-se que razões teria havido para que a infanta fosse mantida durante tanto tempo na corte paterna.

No romance, esforcei-me por dar uma versão verosímil. Mas há uma outra história curiosa à volta de Teresa: acabou por casar com Filipe da Alsácia, conde da Flandres, que conhecera na cidade do Porto. Acontece que neste seu primeiro encontro, Filipe da Alsácia era ainda casado. Mas, assim que ficou viúvo, sete anos depois da sua passagem pelo Porto, pediu a infanta em casamento, pelo que enviou uma frota a Portugal apenas para a ir buscar.

Também se podem especular sobre as razões que levaram a este casamento, pois não existem fontes que o expliquem. Alguns historiadores admitem que o conde da Flandres tenha ficado bem impressionado com a figura e o porte da infanta, que se sabia ser culta, já que o próprio Afonso Henriques a apontou como sua sucessora, caso o infante D. Sancho falecesse sem filhos.

Eu gosto de acreditar na ideia de um amor à primeira vista, uma paixão a que Teresa teve de renunciar, sem imaginar que Filipe da Alsácia enviuvaria sete anos depois.

Certo de que completara a sua missão neste mundo, Afonso redigiu o seu testamento naquele mesmo ano, deixando grandes quantidades de dinheiro a obras pias. Estava convencido de que não aguentaria mais um Inverno. Sem se poder mover, os músculos iam-se-lhe mirrando e ele ia perdendo o apetite.
Mas não sobreviveu apenas àquele Inverno e a estação fria tornou-se uma tortura para o velho monarca, que ficava, então, mais sujeito a febres e, muitas vezes, não se conseguia aquecer, embora lhe pusessem na cama tijolos quentes embrulhados em mantas. Nesses tempos difíceis, Teresa era o seu maior consolo. Sentia-se tão dependente do carinho e dos cuidados da filha, que se lhe assomava impossível viver sem ela.
Ao mesmo tempo, a infanta fazia-lhe pena. O seu olhar perdera a energia de outros tempos e fixava-se muitas vezes numa distância imaginária, alheio ao que se passava à sua volta. Afonso sabia então que ela recordava a semana do Porto, esforçando-se por manter vivos os instantes que partilhara com Filipe da Alsácia, desde o primeiro ao último dia. Por mais que o velho rei desejasse ter aquela filha a seu lado, chegava a achar conveniente arranjar-lhe um esposo, que a fizesse olvidar de vez o conde da Flandres. Mas, quando lhe propunha tal, a infanta já nem se dava ao trabalho de recusar. Suspirava, simplesmente, e afagava as mãos do pai.



6 de dezembro de 2013

O que tem D. Afonso Henriques a ver com o Pai Natal?






No dia de São Martinho, o infante D. Sancho festejou o seu trigésimo primeiro aniversário. Foi a última vez que o velho rei deixou os seus aposentos.
O seu fim aproximava-se e, apesar de todos se desdobrarem em cuidados com ele, Afonso pensava muito em Teresa. Sabia-a feliz e segura na Flandres. Mas, de todas as mulheres que amara, era sem dúvida daquela filha que ele sentia mais saudades e seria ela quem mais gostaria de ter a seu lado.
O seu estado piorava de dia para dia e, apesar de a morte representar o alívio do seu sofrimento, ele receava-a. Em momentos de mais desespero, pedia que lhe trouxessem o neto. Ao tocá-lo, Afonso sentia-se imortal. Aquela criança de meses dava-lhe a certeza de que a sua obra persistiria. Seria o terceiro rei de Portugal, o segundo com o seu nome. E D. Afonso II teria igualmente os seus filhos e netos…

Afonso Henriques morreu a 6 de dezembro de 1185. Foi sepultado no túmulo do mosteiro de Santa Cruz, onde a rainha D. Mafalda jazia há quase trinta anos.

 In Afonso Henriques, o Homem


Passam hoje, portanto, 828 anos pela morte de D. Afonso Henriques. E este é igualmente o dia do falecimento de São Nicolau, bispo de Mira, no século IV. A Alemanha é um dos países em que se celebra a festa de São Nicolau. Dita a tradição que o santo distribui presentes pelas crianças. Os presentes passaram a doces, pelo que os mais pequenos costumam receber, neste dia, guloseimas dos pais e parentes. Nalguns mercados de Natal alemães, surge mesmo a figura do bispo São Nicolau, a distribuir a almejada doçaria.


Acontece que foi a figura de São Nicolau que deu origem à do Pai Natal, criada nos EUA. Em Portugal, o santo inspira as festas de estudantes de... Guimarães, intituladas de Festas Nicolinas.
Ele há coincidências...


20 de novembro de 2012

Bula "Manifestis Probatum"

aqui e aqui falei na dificuldade de atribuir uma data para a independência de Portugal. Acrescente-se que uma situação dessas não é anormal, tendo em conta que estamos a lidar com a Idade Média, uma época em que ainda não se entendiam as nacionalidades como hoje em dia. Não existiam fronteiras definidas e o poder estava na mão de potentados regionais, que, em determinadas circunstâncias, conseguiam alargá-lo, ousando ignorar a autoridade de reis e imperadores. Afonso Henriques não foi caso único na Europa, ou na Cristandade, como se dizia. A haver uma entidade superior, seria a Santa Sé, mas mesmo essa se revelou dúbia, durante décadas, quanto ao caso português.

Só no Verão de 1179, D. Afonso Henriques terá segurado nas mãos o reconhecimento oficial da independência de Portugal. O papa Alexandre III emitiu a Bula Manifestis Probatum a 23 de Maio de 1179 e, tendo em conta as viagens morosas daquela época, essa prova documental terá chegado à corte coimbrã, na melhor das hipóteses, cerca de dois meses mais tarde, ou seja, na segunda quinzena de Julho.

Imagem daqui
D. Afonso Henriques estava, em 1179, velho e muito debilitado. Tinha cerca de 70 anos e já há dez que se encontrava incapacitado, na sequência do desastre de Badajoz. Parece certo que não se conseguia mover pelos próprios meios, o que lhe deixaria os músculos muito fracos e ele próprio estaria mais sujeito a doenças e infeções. Ainda assim, só morreria a 6 de Dezembro de 1185, constituindo um caso raro de longevidade, na época, sobretudo, considerando as circunstâncias em que viveu os seus últimos 15 anos.

A chegada da Bula Manifestis Probatum à corte portuguesa deve ter sido um momento muito emocionante para o velho monarca.



            O príncipe foi receber os recém-chegados, enquanto Afonso, que já passara dos setenta, se limitou ao seu cadeirão, incapaz de se mover. Tentava manter a calma, enquanto o cónego D. Pedro Feijão ali ficou, como que a tomar conta dele, observando-o, preocupado. Nisto, surgiu a infanta Teresa, olhando-o igualmente cheia de cuidados, puxando uma cadeira a fim de se sentar ao lado dele, o que o fez exclamar:
            - Mas que é isto? Estão todos com medo que eu não aguente as novidades e me dê algum fanico?
            O arcebispo, acompanhado pelo infante e pelo seu capelão, fez uma entrada triunfal, saudou eufórico os presentes. Depois, foi direito ao monarca, pegou-lhe nas mãos e anunciou:
            - Boas notícias, D. Afonso! Trago boas notícias!
            Sentou-se no cadeirão que lhe estava destinado e o capelão passou-lhe um invólucro cilíndrico de couro para as mãos, que D. Godinho segurou como se de uma das sete maravilhas do mundo se tratasse. Tirou lá de dentro um pergaminho enrolado e anunciou:
            - Isto, meus senhores, é a bula Manifestis probatum est, de 23 de Maio deste ano, e que eu recebi directamente das mãos do Santo Padre!
            Fez um sinal ao capelão para que este depusesse o documento nas mãos do monarca. O prelado assim fez e, perante a expectativa de todos os presentes, Afonso desenrolou o pergaminho, de mãos trementes. Mas estava incapaz de ler fosse o que fosse. Não era só a agitação que o atacava. Além de ter esquecido tudo o que sabia de latim, há anos que a sua visão vinha piorando. Tinha a impressão de que um véu se lhe formava em frente dos olhos, no início, muito fino, mas ia ficando cada vez mais espesso. Acabou por entregar o documento à infanta a seu lado, pedindo:
            - Lê, filha, lê!
            Teresa fez uma primeira leitura em silêncio e anunciou emocionada:
            - O Papa reconhece-vos o título de rei, meu pai!
            - Finalmente - disse Afonso, de lágrimas nos olhos.
            O arcebispo sorriu ao infante e ao chanceler-mor, muito satisfeito. Depois, pôs-se a limpar o suor da testa e do cachaço e ordenou ao capelão:
            - Tenho sede, arranjai-me qualquer coisa para beber! - E, virando-se para os lados: - É que está um calor de rachar, não é verdade? E, apesar de esta etapa de hoje ter sido curta, a gente ainda veio a cavalgar algumas horas.
            O infante Sancho, a quem a ansiedade fizera esquecer aquele pormenor, logo chamou um lacaio, que fosse buscar um refresco de vinho. Teresa ia lendo o conteúdo da bula ao pai:
            - Alexandre III confirma o documento de Lúcio II, tomando-vos e aos vossos herdeiros sob a proteção da Santa Sé. Considera Portugal um reino pertencente a São Pedro e promete o auxílio papal sempre que seja necessário defender a dignidade régia do soberano português. Também os territórios que os portugueses vierem a conquistar aos sarracenos gozarão da mesma proteção.
            Chegou o refresco, que pajens se encarregaram de distribuir pelos presentes. O arcebispo apressou-se a esvaziar a sua taça, Sancho e D. Pedro Feijão deram alguns goles. O rei e a sua filha ignoraram a bebida. E D. Godinho, sentindo-se retemperado, lançou enérgico:
            - O Santo Padre reconheceu, finalmente, os méritos de um soberano que tão grandes vitórias conseguiu sobre os inimigos da fé. Chama-lhe “intrépido destruidor dos inimigos dos cristãos”, “diligente propagador da fé cristã”, “bom filho e príncipe católico”, que deixa um “exemplo digno de ser imitado pelos vindouros”, enfim, não poupa elogios a D. Afonso. Não é assim, D. Teresa? - E, dirigindo-se aos outros: - Que eu já li a bula um monte de vezes, já a sei de cor e salteado!
            Teresa tornou a passar o documento para as mãos do pai. Afonso engoliu em seco, a fim de espantar as lágrimas e, depois de observar a bula durante alguns instantes, disse:
            - Agradeço a Deus, que ouviu as minhas preces. Agora, sei porque é que Ele me deixou tanto tempo vivo.
            - Ámen - concluiu D. Godinho, esvaziando a segunda taça.

Bula Manifestus Probatum, fonte: Direcção-Geral de Arquivos
Como referido, D. Afonso Henriques só viria a falecer seis anos mais tarde, a 6 de dezembro de 1185. Foi sepultado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, no mesmo local em que a sua esposa, D. Mafalda, já repousava há quase trinta anos.

Com este post, encerro a série dedicada a D. Afonso Henriques, que percorreu as etapas mais importantes da sua vida. Quem quiser lê-las, pode clicar na etiqueta Citando Afonso I. Quem tiver um e-reader, iPad, iPod ou equivalente, fique atento: no início de Dezembro, haverá uma surpresa!


9 de junho de 2012

O Desastre de Badajoz - III

A fim de permitir a fuga de D. Afonso Henriques por uma porta mais pequena e menos vigiada, inventei uma manobra de diversão, a fim de iludir o inimigo: um ataque à alcáçova, onde ainda se encontravam os mouros refugiados.


Afonso esperou algum tempo perto da alcáçova, observando o ataque, a fim de convencer o inimigo de que dirigia as operações. Quando lhe foi dito que a porta do rio se tinha aberto, sem que ninguém desse conta, fez-se ao caminho, cavalgando cerro abaixo, dobrando curvas e esquinas, em ruelas tão estreitas, que o cavalo mal lá cabia. Seguiam-no os seus dois filhos, D. Gualdim Pais, Soeiro Viegas e mais quatro cavaleiros. O alferes-mor Pêro Pais oferecera-se para ficar nas imediações da alcáçova, a fim de que os mouros e os leoneses não dessem cedo demais pelo truque.
Se os que seguiam Afonso tinham duvidado, no serão anterior, de que ele ainda possuísse destreza e força, depressa mudaram de opinião. O rei cavalgava tão rápido, que eles não conseguiam acompanhá-lo de perto. Dir-se-ia que uma força diabólica o guiava. O seu peso de consciência?
No momento fulcral, pareceu turvar-lhe a coerência. Ao chegar à última curva antes da porta, Afonso, de tão ansioso de a atravessar, não freou convenientemente a montada. O animal fez a curva, mas empinou-se em frente à pequena porta, encimada pelo habitual arco em forma de ferradura. O rei dominou-o, forçando-o a passar pela abertura. Mas o cavalo tinha-se desequilibrado um pouco e fez com que a perna direita do rei raspasse na parede, ao lado da porta. E o joelho de Afonso acabou por chocar com enorme violência contra o ferrolho de ferro.
Afonso passou para o lado de fora das muralhas a dar um berro, provocado pela dor lancinante, e puxando involuntariamente as rédeas da montada. O animal tornou a empinar-se e, desta vez, sem acção na perna direita, o soberano não se conseguiu segurar e caiu ao chão. Também o cavalo perdeu o equilíbrio, sobre as rochas íngremes. E caiu sobre Afonso.
O facto de os outros cavalgarem algumas jardas mais atrás, acabou por se tornar vantajoso, pois conseguiram parar, antes de serem envolvidos no acidente. Desmontaram e foram direitos ao monarca, que se mantinha estatelado no chão, enquanto o cavalo logo se levantara. Soeiro Viegas, Fernando e Pedro ajoelharam-se ao pé do rei, tiraram-lhe o elmo e puxaram-lhe o almofre e a coifa para trás. Afonso jazia sem sentidos. A sua cabeleira branca colava-se, junto com o suor e o pó, à face pálida.
- Meu Deus - lançou Pedro. - Estará morto?

Daqui

D. Afonso Henriques não estava morto, mas ficou incapacitado de andar e montar para o resto da sua vida. Além disso, viu-se sujeito aos favores do genro, que foi magnânimo e não se apoderou do reino português, contentando-se com o recuperar de territórios galegos em posse do monarca luso e da promessa deste de respeitar a fronteira do Guadiana.

Tudo isto terá sido uma humilhação difícil de digerir para D. Afonso Henriques. Porém, não posso deixar de o admirar, pelo menos, no que diz respeito à sua incapacidade física. Um homem com a sua energia e a sua força de vontade, que se viu impedido de se deslocar pelos seus próprios meios, reagiu e manteve a dignidade, até à morte, cerca de quinze anos mais tarde. Ninguém contestou o seu poder, todos continuaram a obedecer-lhe e a venerá-lo. E, segundo as pesquisas históricas mais recentes, D. Afonso Henriques terá ainda conseguido evitar uma guerra civil, quando o seu filho ilegítimo, mais velho que o infante D. Sancho, aspirou ao trono português.

7 de junho de 2012

O Desastre de Badajoz - II

 
O escudeiro do rei preparava-se para lhe enfiar o elmo por cima do almofre, mas Afonso empurrou-o para o lado, bradando ao amigo:
- Não vedes que Badajoz se nos transforma numa armadilha gigantesca? Ficaremos entalados entre os leoneses e os mouros. Através da porta que liga a alcáçova ao exterior, os infiéis poderão munir-se de mantimentos.
Depois de uma hesitação, Soeiro Viegas replicou:
- Foram cometidos vários erros. Mas o maior de todos foi subestimar el-rei de Leão!
Afonso encarou-o furioso. Veio-lhe à ideia a última conversa com a filha Teresa. Agora, Soeiro Viegas dava razão à infanta! Como se atreviam eles a acusá-lo? Estaria a ficar velho, incapaz?
Num misto de fúria, desespero e arrependimento, agarrou as vestes do fidalgo e bradou-lhe:
- Dizei-o, de uma vez, com mil diabos! Nunca deveria ter acedido ao pedido de ajuda de Geraldo Sem Pavor! Não vos quis dar ouvidos e cai na ratoeira! Vamos, tendes coragem de o dizer?
Afastou-o de si, com um safanão. Soeiro Viegas permaneceu impassível. E Afonso acabou por murmurar:
- Entrarmos em conflito uns com os outros seria o próximo erro. É tempo de acabar com eles.

Muralhas de Badajoz

Os portugueses viram-se tão aflitos em Badajoz, sitiados por leoneses e mouros, que se acabou por se decidir a fuga de D. Afonso Henriques por uma porta pequena e menos vigiada. Confesso que tenho problemas com esta decisão: D. Afonso Henriques a escapulir-se, deixando os seus guerreiros à mercê do inimigo? Não combina com o seu caráter. Mas haveria uma razão de peso: seria a única hipótese de manter a independência de Portugal, já que o nosso primeiro rei estava nas mãos do rei de Leão.
É impossível saber o que se passou entre D. Afonso Henriques e os seus barões, nessa noite de todas as decisões. Eu tentei imaginar:

 
Nesse serão, Afonso reuniu-se com os seus barões e logo avisou:
- Não admito mais discussões sobre o que deveria ter sido feito, ou evitado. Em vez disso, concentremos as nossas forças, à procura de uma solução, que nos tire deste buraco em que nos enfiamos.
Depois de um momento de silêncio, seu filho Pedro Afonso sugeriu:
- Rendamo-nos!
O irmão dirigiu-se-lhe furioso:
- Não deves estar bom da cabeça! El-rei de Portugal não se pode render ao de Leão. Seria o fim do nosso reino.
O mais novo insistiu, dirigido ao pai:
- Ele é vosso genro. Porque não tentais negociar com ele?
- Estou numa posição deveras desvantajosa para negociar com D. Fernando - replicou o rei. - Ele bem poderia aproveitar esta oportunidade para se apossar do nosso reino. E eu prefiro morrer, a cair-lhe nas mãos!
(...)
Afonso começou a conformar-se com a ideia (da fuga). O reino era a obra da sua vida, uma obra que ele construía há mais de quarenta anos, desde aquele dia de São João Baptista, em que montara o seu cavalo, a fim de o guiar para a sua primeira batalha, no campo de São Mamede. E esta obra, que tanto trabalho, sacrifício e persistência lhe custara, corria o perigo de se esfumar. Porque Afonso estava convencido de que el-rei de Leão se apossaria de Portugal, caso ele se lhe rendesse. E ele não queria continuar a viver, se isso significasse assistir ao desmoronar da sua obra.
Afonso pôs-se pálido, o que lhe realçava os olhos raiados de sangue. O cabelo, usado agora mais curto, estava quase todo branco e começava a rarear-lhe no alto da cabeça. Ao vê-lo assim, afundado na sua cadeira, os outros olhavam-no como se, pela primeira vez, se apercebessem de que o seu soberano, o grande Afonso Henriques, aquela lenda viva, a quem tantos atribuíam forças sobrenaturais, estava a ficar velho.

Daqui