Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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5 de julho de 2011

Conquista de Santarém II - a Preparação

          Juntamente com Lourenço Viegas Espadeiro, Gonçalo Mendes Sousão e Fernão Peres Cativo, Afonso comandava o pequeno exército de quinhentos homens, formado pelos cavaleiros de Coimbra, os cavaleiros vilãos dos concelhos e os Templários de Soure. No segundo dia de marcha, terça-feira, penetraram na serra de Aire, no meio da qual se encontrava o castelo de Ourém, ou Abdegas, como os mouros lhe chamavam. Dominava no cimo de um monte sobre uma vasta região, vigiando o acesso a Santarém. Acabou por se render ao rei português. A maioria da sua guarnição, assim como a das populações da serra de Aire, era moçárabe.
No dia seguinte, ao atravessar o alto da serra de Minde, Afonso fez o voto de dar aos cistercienses todo aquele território que ia, para norte, até Leiria, e para oeste, até ao mar, a fim de que a ordem fundasse aí um mosteiro.

Este havia de ser o mosteiro de Alcobaça.

Há indícios de que Afonso Henriques teria alguns problemas de consciência, devido ao carácter traiçoeiro da operação, que haveria de conduzir à conquista de Santarém. Antes de deixar Coimbra, terá ido ter com o seu confessor, D. Teotónio, prior do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que foi o primeiro português a ser canonizado. O monarca, além de lhe encomendar a própria alma, terá pedido confirmação da justeza das suas intenções.

Em Miniatura


Porque o problema com a estratégia usada em Santarém não se prendia apenas com o facto de se estar a planear entrar na cidade à socapa, pela calada da noite. Há um pormenor de tréguas combinadas e quebradas que não está muito claro. Depois de ter consultado várias fontes, dei a seguinte versão no meu romance: o início de Março seria ainda tempo de tréguas, pois havia uma espécie de pacto (não escrito) entre cristãos e mouros de como os ataques de parte a parte só se davam a partir da Primavera. Na sexta-feira, 13 de Março, em que os portugueses já se encontravam às portas de Santarém, Afonso Henriques manda um emissário ao alcaide, a anunciar-lhe que rompia as tréguas por dois dias, ou seja, anunciava-lhe que atacaria a cidade naquele dia, ou no sábado. Mas não o fez, Santarém só foi atacada na noite de sábado para domingo.

E qual seria o objectivo de tal comportamento? Um dos espiões que o rei enviou a Santarém, no sábado, a fim de auscultarem a situação, explicou o que se passava na cidade:


- Contando com um ataque, o alcaide de Santarém encheu o adarve de sentinelas e ordenou aos seus homens que se mantivessem em alerta máximo. Mas agora, que se aproxima o pôr-do-sol do segundo dia, pondo fim ao prazo do rompimento das tréguas, os mouros começam a especular sobre as razões que teriam levado Ibn Errik a desistir da ofensiva. Espalhou-se o rumor que el-rei contava com reforços que não surgiram, o que nos leva a pensar que espiões mouros tivessem avistado o nosso exército e o achassem pequeno. De qualquer maneira, foi cancelado o alerta máximo. E os correligionários de Mem Ramires, moçárabes dos arrabaldes, não darão alarme, quando se aperceberem do nosso ataque.

Ou seja: Afonso Henriques, além de atacar a cidade durante a noite (que ia contra o codex da cavalaria) fê-lo numa noite em que a vigilância estaria aliviada, pois terminara o prazo do rompimento das tréguas.



Antes do ataque, o discurso do rei:


À luz ténue do crepúsculo, Afonso falou aos seus guerreiros, pedindo-lhes coragem e empenho. Lembrou-lhes que os mouros, partindo de Santarém, constantemente assolavam os arredores de Coimbra, chacinavam as guarnições de Leiria e de Tomar e faziam inúmeros cativos. Disse-lhes ainda que bem podia ter convocado o resto do exército para esta operação, mas que não o fizera, porque eram eles, os guerreiros das milícias vilãs, que tinham direito a esta vingança. Mais do que ninguém, tinham já sofrido na pele as razias dos almorávidas, perdido familiares e amigos. Chamou-lhes “companheiros de luta” e “de armas”, mostrando que os considerava tanto como à nobreza do norte, o que encheu aqueles cavaleiros sem pergaminhos de orgulho. E Afonso ainda jurou, perante eles e Deus:
- Se tiver que morrer este ano, sem conseguir conquistar Santarém, escolho então morrer esta noite!

Dá-se como provado que Afonso Henriques disse esta última frase. O que, além de entusiasmar os guerreiros, denota o seu forte poder de resolução e a sua coragem para o risco, um aspecto do seu carácter que tornará a transparecer em Lisboa.

3 de julho de 2011

Conquista de Santarém I - Os Preliminares

Foi com a conquista de Santarém, a 15 de Março de 1147, que D. Afonso Henriques iniciou verdadeiramente o alargamento do território para sul. Já havia mandado construir o castelo de Leiria e colocado um contingente em Tomar, locais que, no entanto, se situavam na chamada "terra de ninguém". E, apesar de a vitória na Batalha de Ourique ter sido importantíssima para a sua fama de guerreiro, não proporcionou a conquista de um palmo de terra que fosse.

A conquista de Santarém foi levada a cabo usando métodos menos honrosos, que não estavam de acordo com o codex da cavalaria da época (com o termo "cavalaria" refiro-me ao mundo do cavaleiro nobre medieval). Também é verdade, porém, que os combates inseridos na Reconquista hispânica adquiriram contornos muito próprios. Os monarcas, e o próprio imperador Afonso VII, serviam-se de subterfúgios usados pelos cavaleiros vilãos, nas suas razias em terras de mouros.

Cavaleiros vilãos eram aqueles que, apesar de serem proprietários de terras, o que lhes proporcionava riqueza suficiente para lutarem a cavalo, não possuíam origem nobre. Depois da Batalha de São Mamede, Afonso Henriques mudou-se para Coimbra e nota-se um certo esforço da sua parte para se distanciar da poderosa nobreza de Entre Douro e Minho, exceptuando certas famílias que lhe eram mais chegadas. Talvez por recear que alguns desses nobres se lhe tornassem perigosos. O facto é que há uma aproximação aos cavaleiros vilãos dos concelhos a sul do Douro, cuja lealdade era mais fácil de obter.



Esta opção de Afonso Henriques por métodos menos aconselháveis de conquista poderá ter tido a ver com a pressão sentida. Ele já saberia que os cruzados, que o haveriam de ajudar a tomar Lisboa, chegariam nesse Verão. Mas Lisboa seria muito mais fácil de conquistar, se Santarém já estivesse em mãos portuguesas. Por um lado, os mouros de Lisboa não poderiam contar com reforços vindos daquele lado; por outro, seriam os portugueses que controlariam o tráfego no rio Tejo.

A conquista de Santarém teria, por isso, de ser rápida, não havia tempo para cercos demorados. E os cavaleiros vilãos eram especialistas em penetrar em castelos e povoações à socapa, pela calada da noite. Faltava saber se esse método permitiria conquistar uma cidade com a envergadura de Santarém.

Não se sabe bem como a operação foi preparada, mas está provado que Afonso Henriques fez muito segredo dela. D. Lourenço Viegas Espadeiro (filho de D. Egas Moniz), D. Gonçalo Mendes Sousão e D. Fernão Peres Cativo, todos grandes amigos do rei, foram os únicos barões a quem ele confiou os seus planos.


            Aos três amigos, o monarca anunciou:
            - Chegou a altura de vos expor o plano de ataque a Santarém.
- Já há um plano? - admirou-se Lourenço.
- A expedição terá lugar daqui a um par de semanas - explicou o rei. - Combinei tudo com os cavaleiros de Coimbra, os cavaleiros vilãos dos concelhos e os Templários de Soure.
            Os três entreolharam-se estupefactos. Gonçalo ironizou:
            - Mas que honra que nos conferis, a mim e a D. Lourenço! Entre a nobreza do norte, somos os primeiros a ser informados.
            - Sois os primeiros e sereis os únicos - ripostou Afonso, que já contara com uma reacção daquele tipo.
Como representante de uma das famílias mais poderosas de Entre Douro e Minho, era natural que o Sousão se sentisse, por um lado, ofendido por não ter colaborado na execução do plano, por outro, desconfiado por não ver ali os outros barões. Na verdade, Afonso tinha hesitado em convocá-lo. Mas Gonçalo Mendes iniciara-o na arte de combater, contribuindo, como poucos, para fazer dele um guerreiro. Além disso, tinha sido genro de Egas Moniz, ao ter casado com a entretanto falecida Dórdia Viegas, e a filha de ambos, Teresa Gonçalves, fazia parte do círculo restrito da rainha.
            - Trata-se de um ataque surpresa - esclareceu o rei. - Quanto menos gente ficar a saber, melhor. A penetração na cidade acontecerá durante a noite, bem à maneira das milícias vilãs, que usam este truque nos seus fossados. Os barões do norte dificilmente aceitariam em participar num empreendimento deste tipo.
            - Tendes de concordar - atalhou Lourenço - que não é uma maneira muito nobre de fazer guerra.
- Mas necessária, neste caso. A conquista de Santarém é imprescindível para que tenhamos sucesso no ataque a Lisboa, pois permite-nos controlar o Tejo e cortar o abastecimento. E tudo terá de ser resolvido, antes da chegada dos cruzados.

...
- As povoações de fronteira usam subterfúgios destes, nos seus ataques aos mouros. Truques, aliás, que aprenderam com os próprios infiéis. No fundo, aprenderam uns com os outros, pois constantemente se fazem razias de parte a parte. E esqueceis que o meu próprio primo, o imperador de toda a Hispânia, se serviu de um ataque surpresa em Calatrava, há coisa de um mês, em pleno Inverno, altura normalmente reservada às tréguas? Foi bem sucedido e a Cristandade aplaude. Também a conquista de Santarém representará uma vitória de cruzada, que o próprio Papa reconhecerá.
Depois de um curto silêncio, Lourenço perguntou:
- Falastes dos Templários de Soure. Eles já deram o seu acordo?
- Claro. Estão desejosos de vingar o ataque de há três anos. Conseguiram salvar o castelo, mas os mouros devastaram a região.

...
Afonso deu-lhes mais algum tempo de reflexão e inquiriu, depois:
- Achais que ides manchar a vossa honra, lutando ao lado das milícias vilãs, mesmo quando o vosso próprio rei não hesita em fazê-lo?
- Certamente que não - replicou Fernão Peres Cativo. - Sabeis que podeis contar comigo, para o que der e vier.
- Comigo também - anunciou Lourenço, filho de Egas Moniz. - Sois como um irmão para mim e ser-vos-ei fiel até ao meu último suspiro.
Afonso olhou-o emocionado. E também o Sousão acabou por lhe confirmar a sua fidelidade.

12 de maio de 2011

Claves regni celorum



Já vimos que Afonso Henriques, antes de assinar o Tratado de Zamora, prestara homenagem ao cardeal Guido de Vico, pelo que não lhe terá custado, mais uma vez, declarar-se vassalo do primo, sabendo que, em breve, tal vassalagem se tornaria obsoleta.

A 13 de Dezembro de 1143, cerca de dois meses depois do Tratado de Zamora, Afonso Henriques encontrou-se em Braga com o arcebispo D. João Peculiar e com os bispos do Porto e de Coimbra, a fim de se escrever a missiva a enviar ao Papa:


            Afonso acenou em consentimento e o arcebispo dirigiu-se em latim a mestre Alberto, que já se encontrava pronto, de pena na mão e com uma nova folha de pergaminho à sua frente:
            - Afonso, por graça de Deus rei de Portugal, fez homenagem à Sé Apostólica nas mãos do Cardeal dos Santos Cosme e Damião, Guido de Vico, como miles Sancti Petri. Solicita para si e para a sua terra a defesa e o auxílio da Sé Apostólica, não reconhecendo a autoridade de nenhum outro poder eclesiástico e secular, a não ser o da Santa Sé e dos seus legados, para o que pagará o censo anual de quatro onças de ouro...
            A missiva Claves regni celorum, escrita a 13 de Dezembro de 1143, foi subscrita por D. Afonso Henriques e confirmada pelo arcebispo de Braga D. João Peculiar, pelo bispo D. Bernardo de Coimbra e pelo seu congénere D. Pedro Rabaldes do Porto. Ficou combinado que D. João iria a Roma no início do ano seguinte, aproveitando para travar conhecimento com o novo Papa, Celestino II. A notícia da morte de Inocêncio II, em Setembro, tinha chegado à Hispânia apenas em meados de Outubro, já Guido de Vico deixara Zamora, a caminho da Catalunha.

D. João Peculiar


O pedido de vassalagem de D. Afonso Henriques chegou a Roma numa altura conturbada, em que se realizaram dois conclaves no espaço de seis meses. Quando finalmente o nosso primeiro rei segurou nas mãos a resposta de Lúcio II, a bula Devotionem tuam, datada de 1 de Maio de 1144, deve ter ficado desiludido.

Em primeiro lugar, o Papa não o intitulava rei e, sim ilustre duque portucalense. A razão deverá assentar no facto de que não houvera uma coroação sagrada pela Igreja. Lúcio II não dizia claramente que Afonso Henriques estaria livre da suserania do primo, optando por uma linguagem difusa: promete-lhe, tanto a ele, como aos seus sucessores, a protecção de São Pedro para as suas almas, que se pode interpretar como sendo os assuntos espirituais, e para os seus corpos, que serão os assuntos temporais.

Afonso Henriques viu-se, assim, numa situação bastante ambígua. Intitulava-se rei, desde a Batalha de Ourique, título que foi reconhecido pelo imperador, em Zamora, mas na condição de ele lhe prestar vassalagem. Por outro lado, Roma aceitava-o vassalo, ao garantir-lhe a protecção de São Pedro, libertando-o de qualquer suserania temporal, mas intitulava-o, apenas, de duque.

Daqui


Afonso Henriques lutou, durante toda a sua vida, pelo reconhecimento do seu título real. Isto só aconteceria em 1179, com a Bula Manifestis Probatum e só apanhou o nosso primeiro rei em vida (com cerca de 70 anos), porque ele viveu mais tempo do que era costume, naquela época.

É por isso, difícil, estabelecer uma data para a fundação de Portugal:

24 de Junho de 1128, Batalha de São Mamede -  Afonso Henriques alcança o poder sobre o Condado Portucalense (há quem chame a este dia "a primeira tarde portuguesa");

25 de Julho de 1139, Batalha de Ourique - Afonso Henriques é aclamado rei de Portugal pelas suas tropas e não mais deixa de utilizar este título;

5 de Outubro de 1143, Tratado de Zamora - O imperador Afonso VII reconhece oficialmente o título real a Afonso Henriques, mas este declara-se seu vassalo (o que compromete a independência de Portugal);

1 de Maio de 1144, Bula Devotionem tuam de Lúcio II - O Papa aceita a vassalagem de Afonso Henriques (o que o liberta da suserania do imperador hispânico), mas intitula-o de duque;

23 de Maio de 1179, Bula Manifestis Probatum de Alexandre III - Afonso Henriques é reconhecido como rei e Portugal como reino independente.

Selo de D. Afonso Henriques

10 de maio de 2011

Tratado de Zamora

Zamora, nas margens do rio Douro


Há quem indique o dia 5 de Outubro de 1143 como a data da formação do reino de Portugal independente, mas tal não é correcto. É verdade que, no Tratado de Zamora, o imperador de toda a Hispânia, D. Afonso VII, reconheceu o título real a seu primo, fazendo de Portugal um reino. Porém, à semelhança do que acontecera em Tui, Afonso Henriques declarou-se, mais uma vez, vassalo do imperador! O que quer dizer que o Tratado de Zamora, no fundo, mais não foi do que a confirmação do Tratado de Tui, que Afonso Henriques desrespeitara, ao invadir, mais uma vez, a Galiza. Com isso, forçou D. Afonso VII a reconhecer-lhe o título real, mas não conseguiu a tão almejada independência. Aliás, o imperador seu primo nunca lha reconheceu oficialmente.


            Afonso VII reconheceu o título real a seu primo, mas, à semelhança do que fora estabelecido em Tuy, concedeu-lhe o senhorio da cidade leonesa de Astorga. E o suserano dava o governo de uma cidade ou de uma região dos seus domínios ao seu vassalo, precisamente como prova da dependência deste. Afonso Henriques aceitou o senhorio, mas, como sempre, não prestou a homenagem formal, nas mãos do primo, como o fizera nas do cardeal. A situação entre os dois netos de Afonso VI permanecia ambígua: subentendia-se uma relação entre suserano e vassalo, sem, no entanto, se proceder à cerimónia oficial.
Ficou ainda estabelecida uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos. O rei português era autorizado a expandir o seu reino para sul, mas deveria confinar-se ao oeste de al-Andalus, denominado al-Gharb, pois o imperador reclamava para si os territórios a leste do rio Guadiana. O que obrigava Afonso a prescindir de Badajoz, apesar de esta cidade ter sido, no passado, a capital de um reino taifa que incluía Lisboa.

Assinatura do Tratado de Zamora


A independência do reino português só seria atingida, depois de Afonso Henriques ser aceite como vassalo do Papa. Para isso, ainda antes de partir para Zamora, o nosso primeiro rei terá prestado homenagem ao cardeal Guido de Vico, em Coimbra.


E assim prestou D. Afonso Henriques a sua homenagem à Sé Apostólica, na pessoa de Guido de Vico. Como era costume, ajoelhou-se perante o cardeal, que tomou as suas mãos nas dele. Afonso declarou-se miles Sancti Petri (cavaleiro de São Pedro) e afirmou não reconhecer a autoridade de nenhum outro poder eclesiástico ou secular, a não ser a do Papa.
Ficou ainda combinado que confirmaria este seu juramento por escrito.



Temos aqui uma situação muito curiosa e que costuma ser ignorada na formação do nosso país: o cardeal Guido de Vico aceitou a homenagem de Afonso Henriques, libertando-o do jugo de Afonso VII e, logo em seguida, serviu de mediador num tratado em que o rei português se declarava vassalo do imperador hispânico! Trata-se, no fundo, de uma verdadeira traição à pessoa do imperador! Como é que um legado papal concordou com tal manobra?

A explicação estará em negociações secretas levadas a cabo entre D. João Peculiar, arcebispo de Braga, e o cardeal Guido de Vico, que terão incluído o casamento de D. Afonso e D. Mafalda de Sabóia. O próprio Prof. Mattoso indicia esta possibilidade, na sua biografia de Afonso Henriques, ao considerar o arcebispo de Braga uma figura chave em todo este processo. O conhecido historiador chega a afirmar que D. João Peculiar terá contribuído tanto para a independência de Portugal, como o próprio Afonso Henriques. Já vai sendo altura de darmos a este importante prelado o destaque que ele merece!

Estátua de D. João Peculiar, em Braga

Continuarei com este tema no próximo post.

16 de abril de 2011

A importância de D. Châmoa Gomes na vida de D. Afonso Henriques (III)



Com a liberdade que me dá a qualidade de romancista, Afonso Henriques viu, na vinda do cardeal Guido de Vico à Hispânia, uma oportunidade de conseguir autorização para casar com a sua amada Châmoa Gomes, como ele próprio lhe revela:


            Depois de se sentar e a encarar, achou-a mais apetecível do que nunca. A camisa de noite desenhava-lhe o contorno das pernas, ligeiramente afastadas. Os braços, agora pousados sobre o regaço, já não cobriam o peito e Afonso adivinhava-lhe os seios bonitos por entre as pregas do tecido. Precisou de um pouco de tempo para se concentrar e encontrar uma maneira de iniciar o seu relato:
            - Já deves ter ouvido dizer que receberemos, neste Verão, a visita de um legado do Papa Inocêncio II.
- Sim, as aias comentaram qualquer coisa. Porquê?
- O arcebispo, a quem tu chamas nomes tão feios, até acha que pode levar o cardeal a libertar-me do jugo de meu primo e...
            - Vens-me outra vez com o imperador e a homenagem? - interrompeu-o ela, levantando-se. - Arrancas-me da cama, a meio de noite, por causa dessa história?
            - Acalma-te, não tornes a acordar os pequenos! Senta-te e ouve-me até ao fim.
            Obedeceu-lhe, contrariada. Afonso olhou-a em silêncio durante algum tempo, antes de perguntar:
            - E se eu expuser a nossa situação ao cardeal?
            Châmoa escancarou as esmeraldas:
            - A nossa situação? Que queres dizer com isso?
            - Refiro-me a uma conversa a sós com o cardeal, em que lhe explico que a mãe dos meus dois filhos descende da família condal mais poderosa da Galiza. Guido de Vico compreenderá a urgência em legitimar as crianças. E se o conseguir pôr do meu lado, o arcebispo perderá qualquer poder de interferência!
            Châmoa fixava-o como se ele fosse um animal exótico. De repente, levantou-se de um salto e exalou, de respiração cortada:
            - Afonso, meu amor, mas isso é uma ideia brilhante!
            Estava tão encantadora, com as esmeraldas a luzirem de entusiasmo, os cabelos sedosos espalhados pelos ombros, o peito a arfar de excitação. Afonso manteve-se sentado, como se nada daquilo o impressionasse, e acrescentou:
            - A ideia só tem a desvantagem de ainda demorar a pôr em prática. Mas, dadas as circunstâncias, arranjarás mais um pouco de paciência, não é verdade?
            - Naturalmente.
            - Ainda há outra coisa que tens que levar em conta: só falarei com o cardeal, depois de o arcebispo ter resolvido a questão da minha vassalagem. Não pretendo arriscar de maneira nenhuma o sucesso do seu plano.
            - Como queiras... Conquanto me prometas que falarás com esse cardeal sobre nós, enquanto ele cá estiver.
            Afonso levantou-se, aproximou-se dela e puxou-a para si. Desta vez, ela não ofereceu resistência. Como era bom tornar a senti-la assim abandonada nos seus braços, cheirar-lhe os cabelos sedosos e o pescoço macio.

Mas o arcebispo de Braga, seu grande amigo, D. João Peculiar, antecipou-se-lhe, negociando, com o cardeal, o casamento com D. Mafalda (ou Matilde) de Sabóia:




            Guido de Vico bocejou:
            - Com isto, despachámos os assuntos do dia, não é verdade?
            - Bem… - João Peculiar tossicou. – Desejava a vossa colaboração para mais uma questão, eminência.
            Guido de Vico passou a mão pela testa, num gesto de impaciência. Mas, em seguida, cruzou as mãos sobre a barriga e anunciou:
            - Sou todo ouvidos.
            - Trata-se do matrimónio de D. Afonso Henriques.
            O cardeal permitiu-se uma expressão de espanto, ao erguer as sobrancelhas.
            - Do matrimónio?
            - Já ouvistes certamente dizer que ele tenciona casar com a sua barregã.
            - Sim. Mas também me chegou aos ouvidos que essa... senhora, que já lhe deu dois varões, tem origem nobre.
            - É verdade - admitiu o arcebispo a contragosto. - É filha do antigo conde de Toroño, que, humilhado pelo imperador, acabou por professar no mosteiro beneditino de Pombeiro. E, pelo lado da mãe, é sobrinha do conde de Trava, o nobre mais poderoso da Galiza.
            - Ora, caro arcebispo, sei que sois muito cioso dos vossos deveres. Mas nós prelados também não nos devemos afastar demasiado do mundo terreno. Bem sabeis que uniões desse tipo são toleradas pela Igreja e D. Afonso estaria longe de ser o primeiro monarca a fazer um casamento desses. Até vos digo: os dois pequenos deviam ser legitimados o mais depressa possível, a fim de assegurar a descendência do pai.
D. João Peculiar sentiu um calafrio, mas manteve a pose:
            - Nada poderia ser mais desvantajoso para el-rei de Portugal do que uma união matrimonial com uma parenta dos Trava. Eu diria até que seria uma verdadeira tragédia!
            O arcebispo explicou toda a situação, sem se esquecer de mencionar as razões que sustentariam uma anulação do matrimónio.
            Guido de Vico reflectiu, tornou a passar a mão pela testa, enfastiado, e acabou por dizer:
            - Não estou em condições de julgar o caso, assim de repente. Terei que confiar no vosso juízo. Se dizeis que a união é inconveniente... pois será. No entanto, continuo a não perceber em que vos possa ser útil.
            - Sou de opinião que D. Afonso devia casar com uma donzela, cuja família estivesse livre de quaisquer influências do poder imperial hispânico, a fim de melhor marcar a distância que obterá ao confiar-se à Santa Sé. Vós, eminência, conheceis as famílias mais nobres da Cristandade. Não poderíeis dar uma sugestão que fosse?
            - Eu? Bem... talvez. Mas porque haveria D. Afonso, que já não é nenhum jovem imberbe, de casar com uma dama proposta por mim?
            - A libertação da suserania do imperador depende de vós, não é verdade? Digamos que, a fim de a merecer, ele teria que fazer certas concessões... Por exemplo, que Roma se reserve o direito de decidir sobre quem deverá ser a futura rainha de Portugal. - Depois de uma pausa: - Peço-vos que considereis este assunto, eminência! Nem imaginais o peso que me tiraríeis dos ombros.

O cardeal acaba por propor a união com a filha do conde Amadeu III de Sabóia.

Em breve, D. Châmoa Gomes se haveria de afastar da vida de D. Afonso Henriques, deixando-lhe, no entanto, dois filhos, que teriam sido criados na corte coimbrã. O mais velho, Fernando Afonso, terá até lutado pelo seu direito de suceder ao pai. Na sua biografia de D. Afonso Henriques, o Prof. Mattoso fala-nos na existência de tensões e conflitos, talvez mesmo conflitos graves, entre o herdeiro D. Sancho e o meio-irmão Fernando Afonso, pois a derrota e a diminuição física de Afonso Henriques no desastre de Badajoz criaram no reino um ambiente de apreensão.

Mas isso só aconteceria quase trinta anos depois do Tratado de Zamora, o próximo assunto de que aqui falarei.

14 de abril de 2011

A importância de D. Châmoa Gomes na vida de D. Afonso Henriques (II)

Para o meu romance, eu não podia deixar de pegar na ideia de que D. Afonso Henriques terá tentado casar com D. Châmoa Gomes. Estava apaixonado, ela pertencia à alta nobreza galega e, além disso, tinham, pelo menos, um filho: Fernando Afonso. Terão tido um outro, Pedro Afonso, mas há fontes que identificam este nome com um meio-irmão do nosso primeiro rei.




Aos barões portucalenses não agradava tal casamento. As razões são referidas numa conversa entre D. Egas Moniz e D. João Peculiar, arcebispo de Braga:


            - Estamos, porém, todos de acordo, em que D. Afonso não deve casar com D. Châmoa Gomes, não é verdade?
            - Aqui para nós, eminência, não seria melhor?
- Pelo amor de Deus, D. Egas!
- Rendamo-nos à evidência! Afinal, D. Châmoa é filha e sobrinha de condes. Deu a D. Afonso um menino forte e saudável e o segundo filho vem a caminho... É capaz até de já ter nascido, enquanto aqui conversamos.
- O herdeiro de D. Afonso Henriques não pode ser um sobrinho do conde de Trava! Morresse o soberano nos próximos tempos (Deus nos livre de tal destino), os Trava logo tratariam de manter o pequeno Fernando sob a sua influência. Um casamento destes tem que ser evitado a todo o custo!
            - Mas como conseguiremos mudar os intentos do próprio D. Afonso?
            O arcebispo reduziu os olhos perspicazes a duas linhas e retorquiu:
            - Talvez nem seja tão difícil quanto isso.
            - Não? D. Châmoa pode levá-lo a fazer um casamento clandestino. E o que Deus uniu...
            - Pode tornar-se a separar!
            - Que dizeis, eminência?
            - A Igreja tem o poder de anular uniões matrimoniais. Neste caso, haveria até duas razões de peso. Em primeiro lugar, podia-se invocar o incesto...
            - Santo Deus!
            - O incesto vai até ao sexto grau de parentesco, D. Egas! D. Châmoa é sobrinha de D. Fernão Peres, que viveu numa união de facto com D. Teresa. O que faz dele o padrasto de D. Afonso Henriques. E faz primos dos dois amantes!
            O arcebispo fez uma pausa, a fim de beber mais um pouco de água, e prosseguiu:
            - Vejamos agora a segunda razão de peso: à morte de D. Paio Soares da Maia, D. Châmoa ingressou no convento beneditino de Vairão, à semelhança de muitas viúvas nobres…
            - Oh sim, com as consequências que se conhecem. Viúvas novas e, acima de tudo, bonitas não se deviam precipitar.
            - O mais importante é que, por pouco tempo que fosse, D. Châmoa se fez monja. Qualquer casamento lhe está proibido! E não esqueçamos que deixou o mosteiro para se amancebar ao senhor de Tougues. Este motivo, por si só, não seria impeditivo de uma nova união matrimonial. Mas, entre nós, D. Egas, quereremos nós ver uma dama de passado tão pouco recomendável ocupar o trono de Portugal? Porque é de um trono real que se trata! Embora não reconhecido oficialmente, D. Afonso vem-se intitulando rei há mais de um ano.
            Egas remeteu-se ao silêncio e, depois da curta pausa, o clérigo acrescentou:
            - D. Châmoa que construa as suas armadilhas! Não é ela que me tira o sono. O verdadeiro problema assenta no facto de D. Afonso nem se preocupar em procurar uma noiva apropriada... e o tempo vai passando.
            - O nosso rei meteu-se numa bela alhada. Com uma parenta dos Trava! Muitas vezes, penso ser esta uma maldição que a própria mãe lhe lançou.

Fiz, por isso, de D. João Peculiar, arcebispo de Braga e grande amigo e colaborador de D. Afonso Henriques, o opositor mais acirrado do rei nesta questão. E liguei o assunto a mais dois, de elevada importância: o Tratado de Zamora e o casamento do monarca com D. Mafalda de Sabóia. D. João Peculiar terá pensado encontrar a solução do problema na vinda do Cardeal Guido de Vico à Hispânia, em 1143. A intenção do legado papal é participar em dois concílios, um em Valhadolid e outro em Girona, mas também servirá de mediador num tratado a assinar entre Afonso Henriques e o imperador, em que este reconhecerá o título real ao primo. Falo do Tratado de Zamora, assinado a 5 de Outubro de 1143.




Mas o que tem tudo isto a ver com D. Châmoa Gomes e o casamento do rei com D. Mafalda? A ideia foi-me "dada" pelo Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, que, na sua História de Portugal (Editorial Verbo), nos diz que poderá ter sido o cardeal Guido de Vico quem advogou, junto de Afonso Henriques, o casamento com a filha do conde Amadeu III de Sabóia. E como se lembraria o cardeal de fazer uma coisa dessas? Talvez o arcebispo de Braga lhe tivesse pedido para o fazer, a fim de acabar, de vez, com o problema chamado D. Châmoa Gomes.

Para apimentar mais o meu romance, Afonso Henriques, que não fazia ideia dos planos do seu amigo arcebispo, terá, ele próprio, visto na vinda do cardeal uma oportunidade de conseguir autorização para o casamento com a sua amada.

Mais no próximo post.

26 de março de 2011

Batalha de Ourique V - A Vitória

Com os almorávidas desgastados e assustados com o poder de Ibn Errik (assim denominavam Afonso Henriques), o comandante Ibn 'Umar só viu uma possibilidade de dar a volta à situação: acabar com o próprio rei português.


Mas Ibn’Umar reagiu! Começou a juntar cavaleiros à sua volta, com um único intuito: acabar com o próprio Ibn Errik. O comandante almorávida, que não acreditava em “golpes de magia”, cedo notou que o soberano era a fonte da força dos seus homens. Aniquilando Ibn Errik, o exército português soçobraria!
Com a cota de malha cheia de sangue dos adversários, Afonso manejava a sua espada como se o cansaço lhe fosse um fenómeno desconhecido. Nesta febre de matança, não se apercebeu das movimentações de Ibn’Umar. E o almorávida aproximou-se perigosamente dele.
Ao ouvir berros, Afonso viu três cavaleiros, entre eles Mendo Moniz, passarem a seu lado a grande velocidade, de espada no ar e gritando como possessos, precipitando-se sobre o grupo dos sarracenos. Logo atrás vinham Lourenço, o Sousão e o Braganção com mais quatro. Mas, para os três primeiros, esta ajuda chegou tarde demais, Afonso viu Mendo Moniz agonizando em cima da sua montada, com uma flecha espetada na barriga. Não tardou a cair por terra.
No rosto do irmão Egas Moniz desenhava-se o desgosto e o horror e o recém-aclamado rei reagiu impulsivo. Depois de murmurar: “Não me abandoneis, meu pai”, avançou, de espada em punho, ao encontro de Ibn’Umar. Porém, o Espadeiro atravessou-se-lhe no caminho, berrando:
- Quereis que os portugueses percam o seu rei, no próprio dia em que o aclamaram? Mantende-vos ao lado de meu pai, que não está mais em condições de combater! Eu tudo farei para vos proteger aos dois.
Com a ajuda do meio-irmão Soeiro e do Sousão, o Espadeiro organizou uma nova guarda de cavaleiros à volta de Afonso e Egas Moniz e conseguiu afastá-los do perigo. Faltava Fernando Mendes, o Braganção, que Afonso já não via em lado nenhum. Em vez disso, viu a fúria nos olhos de Ibn’Umar, antes de este abandonar o campo de batalha, ao notar que não tinha hipóteses de aniquilar Ibn Errik com as próprias mãos.


Batalha de Ourique


 O exército português tinha sofrido muitas baixas e o cerco montado à volta dos almorávidas apresentava muitas brechas. Mas a batalha estava ganha. Os mouros sobreviventes batiam em retirada, tentando salvar a pele. Logo se iniciaram as perseguições e o saque do acampamento inimigo. Ibn’Umar, porém, logrou escapar à ferocidade dos guerreiros portugueses.

Fizeram-se ao caminho de regresso, atravessaram o Tejo, passaram em Leiria. E, em todo o lado, contavam como tinham ganho a batalha de Ourique, a 25 de Julho daquele ano de 1139, contra um exército três vezes maior do que o deles, comandado por cinco reis mouros.
Afonso fez uma entrada triunfal em Coimbra, não havia memória de tantas riquezas e tantos mouros cativos juntos. Davam-se vivas a el-rei de Portugal e dizia-se que Jesus Cristo lhe aparecera na noite anterior à batalha, a fim de lhe prometer a vitória e dotar os portugueses de força divina.
           O reencontro com a sua amada Châmoa Gomes não foi a única alegria que Afonso sentiu ao chegar à alcáçova. Deparou com D. João Peculiar, acabado de regressar de Roma, onde assistira ao Concílio de Latrão, presidido por Inocêncio II. O novo arcebispo de Braga, além de ter aprofundado as suas relações com o cardeal Guido de Vico e o cisterciense Bernardo de Claraval, recebera, das mãos do Papa, o pálio: a insígnia da sua dignidade arquiepiscopal.


Cinco escudetes dispostos em forma de cruz


 Depois da aclamação em Ourique, Afonso Henriques não mais deixou de usar o título de rei. Estava aberto o caminho para o reconhecimento oficial do reino, para o qual, aliás, D. João Peculiar, o arcebispo de Braga, muito contribuiu. O Prof. José Mattoso diz-nos mesmo que Afonso Henriques não teria conseguido alcançar os seus objectivos sem a preciosa ajuda desse prelado. Se Afonso Henriques representava a demonstração de poder e força, D. João Peculiar era a astúcia em pessoa e um excelente diplomata.
 

24 de março de 2011

Batalha de Ourique IV - O Combate

José Filipe Photo

Na manhã de 25 de Julho de 1139, Afonso Henriques tinha, pela frente, um exército muçulmano muito maior do que o seu. Por outro lado, sabia que o seu futuro como rei de Portugal dependia da vitória. Segundo Miguel Sanches de Baêna (Grandes Enigmas da História de Portugal - Vol. I, Ésquilo 2008) a sua estratégia baseou-se em mandar à frente os cavaleiros vilãos dos concelhos portugueses, a fim de irem desgastando os lançadores de dardos e flechas muçulmanos. Embora não tão bem armados como a cavalaria pesada dos barões nortenhos, os cavaleiros vilãos eram mais leves e destros.


Afonso adiou o mais possível o início das hostilidades, esperando que aquela guerra de nervos desgastasse também o inimigo. Quando finalmente mandou os cavaleiros vilãos avançar, estes precipitaram-se em direcção à infantaria almorávida, que começou a lançar os seus dardos, acompanhados de nuvens de flechas e virotes. Mas também os cavaleiros vilãos disparavam os seus arcos, a galope, ganhando assim as suas flechas mais velocidade. E, ao chegarem à linha de alcance dos projécteis mouros, fizeram meia-volta, com grande rapidez, e recuaram.
Antes de chegarem ao local onde se encontrava o príncipe com os seus cavaleiros, tornaram a mudar de direcção e a repetir o ataque anterior. Afonso notava como esta ofensiva na base do ataca/recua desgastava a infantaria almorávida, provocando grandes baixas e surpreendendo Ibn’Umar e os seus comandantes.

Claro que também a cavalaria pesada dos barões do norte entrou em acção, porém, numa altura em que as tropas muçulmanas já estariam desgastadas e sofrido grandes baixas. O comandante almorávida Ibn 'Umar tentou dar a volta à situação, mas Afonso Henriques possuía outros trunfos. Aqui, permiti-me uma liberdade, a fim de destacar os Templários, Ordem de Cavalaria sempre muito ligada ao nosso primeiro rei. Fizeram a sua aparição, quando os muçulmanos já não contavam com mais ninguém. Estes lembravam ainda a estranha cerimónia, de que se tinham apercebido, antes do início da batalha, ou seja, a aclamação de Afonso Henriques como rei de Portugal:

            Afonso fez então uso do ardil que reservara para o fim. Os Templários, até aí despercebidos pelos mouros, avançaram a toda a força, cercando o exército inimigo, antes que este tivesse tempo de recuar. As hostes sarracenas, vendo-se rodeadas pelos cavaleiros da cruz, que pareciam surgir do nada, começaram a desesperar. A verdade é que muitos dos almorávidas tinham avançado para a batalha já assustados. A estranha cerimónia que tinham notado no cimo do outeiro do acampamento cristão, aos primeiros raios de sol, tinha-os posto nervosos. Logo correra pelo seu acampamento o rumor de que Ibn Errik, que muitos consideravam ser o próprio diabo, invocava forças e espíritos obscuros.


Combate


            E aqueles cavaleiros da cruz, surgidos de repente, eram a prova do “golpe de magia” daquele demónio. Assim encurralados, em pânico, os almorávidas, embora em maior número, tornaram-se presa fácil para os cristãos. Faltava-lhes a força para aguentarem os embates das armas contra os seus escudos redondos e os portugueses, que pareciam realmente dotados de forças sobrenaturais, serviam-se dos seus machados e das suas maças, decepavam braços e mãos, esmagavam crânios e ombros. Cercados por todos os lados, os almorávidas e as suas montadas agonizavam, manchando de sangue a terra dos campos de Ourique. Afonso e os seus homens não conheciam perdão, só parariam à morte do último mouro.

22 de março de 2011

Batalha de Ourique III - O Combate

Que a Batalha de Ourique se deu a 25 de Julho de 1139 e que as tropas portuguesas, lideradas por Afonso Henriques, aclamado rei nesse dia, embora em menor número, venceram a peleja, parece não oferecer margem para dúvidas. Porém, e para variar, pouco se sabe da estratégia usada e de como decorreu o combate, pois não nos chegou nenhuma descrição pormenorizada.

Eu segui a versão de Miguel Sanches de Baêna, explanada nos Grandes Enigmas da História de Portugal - Vol. I, Ésquilo 2008.





Embora baseadas nessa versão, as citações que se seguem são do meu romance:


O cavaleiro cristão, com o seu armamento pesado e o forte cavalo normando, introduzido na Hispânia pelos francos, montava à brida, com loros compridos, as pernas esticadas para a frente e a lança firme, ou sobre mão, a fim de aguentar impactos e, ao mesmo tempo, apoiar-se na carga de grande violência.
Mas o exército de Ibn’Umar era quase três vezes maior do que o dele, não seria fácil destruir a sua formação, por mais demolidora que a carga fosse. Além disso, os mouros do Andalus tinham desenvolvido estratégias capazes de quebrar a violência de tais impactos. Os seus exímios lançadores de dardos e os não menos habilidosos archeiros posicionavam-se na primeira linha. Nuvens de flechas flagelavam a cavalaria cristã, mantendo-a à distância, e, assim que esta mostrava sinais de desgaste, a infantaria muçulmana criava intervalos na sua formação, a fim de deixar passar a sua cavalaria, que caía então sobre os cristãos desorganizados.
A leveza dos cavaleiros almorávidas revelava-se vantajosa neste tipo de táctica. Montavam à gineta, com loros curtos e ferro de boca em bridão, tirando partido da flexibilidade e da destreza dos seus cavalos árabes. Embora também usassem cotas de malha, os chamados lorigões, os seus escudos redondos eram mais pequenos e mais leves do que os oblongos dos cristãos, apelidados de cometa. Atacavam, fugiam, voltavam a atacar, em manobras que o cavaleiro pesado não conseguia acompanhar. Além disso, esgrimiam os dardos curtos, as espadas e os sabres com grande destreza.

Terras de Santiago


Temos, assim, de um lado, cavaleiros pesados, com mais força de impacto, e, do outro, cavaleiros leves, com mais poder de manobra. Os cavaleiros pesados cristãos europeus correspondiam à nobreza, mas, em Portugal, existia outro tipo: os cavaleiros vilãos. Tratava-se de proprietários de terras com algumas posses, que lhes permitiam sustentar cavalo e comprar armamento. Estavam organizados em concelhos, territórios que não pertenciam a nenhum senhor nobre, e que tinham o seu centro na vila (daí, o nome de "vilãos"). Não raro, eram vistos com desprezo pelos nobres, por andarem mal armados. Porém, por isso mesmo, eram mais leves e destros. Além disso, estavam habituados a fossados em terras de mouros e a combates de fronteira, ou seja, conheciam as formas de luta dos muçulmanos.

Segundo Miguel Sanches de Baêna, em Ourique, Afonso Henriques terá apostado na destreza e na experiência dos seus cavaleiros vilãos, embora tal provocasse o desagrado dos seus barões:


            Afonso acrescentou:
            - Os cavaleiros vilãos de Coimbra e dos outros concelhos formam uma cavalaria bem mais ligeira do que nós.
            Olhavam-no siderado. Fernando Mendes, o Braganção, não se conteve:
- Pudera! Faltam-lhes os recursos, andam mal armados e mal amanhados. Muitos deles nem sequer têm lorigão!
O príncipe conhecia o desprezo com que a nobreza nortenha tratava os cavaleiros sem pergaminhos. Mas ele, que lhes admirava a coragem e a astúcia, ripostou:
- Aprenderam as técnicas de construção dos arcos e das bestas dos infiéis e treinaram o seu uso a cavalo. Também as suas montadas dispõem de grande poder de manobra, são o resultado de cruzamentos com as raças árabes. É desses archeiros velozes a cavalo que nós precisamos, para dar cabo da infantaria de Ibn’Umar!

19 de março de 2011

Batalha de Ourique II - A Aclamação

etc...


O futuro do nosso primeiro rei jogou-se na Batalha de Ourique, atrevo-me mesmo a dizer que o "verdadeiro" Afonso Henriques, como hoje o conhecemos, nasceu naquele dia. Foi a partir de Ourique que começaram a cursar os rumores sobre a sua "força sobrenatural", entre os muçulmanos hispânicos. O que me leva a concluir que a sua aclamação de rei não se deu por acaso, terá sido uma manobra astuta, o que aliás confirma que muito do seu sucesso se baseou nas suas inteligência e astúcia, não só na força bruta.

Diz-nos a lenda que o exército inimigo era comandado por cinco reis mouros. Mais uma vez, deparamo-nos com dificuldades de interpretação. O império almorávida, que regia sobre o al-andalus, encontrava-se em decadência, ameaçado pelos almóadas. Muitos governadores de cidades consideravam-se independentes do poder central, formavam os chamados reinos taifas e intitulavam-se de reis, embora estivessem longe de possuir o poder de um verdadeiro monarca.

De qualquer maneira, parece não haver dúvidas de que o exército mouro era muito maior do que o de Afonso Henriques, mais do dobro, talvez o triplo. Eu aproveitei a lenda:


Ao cair da noite, o príncipe estava reunido com os seus comandantes, quando os espiões moçárabes regressaram. Os homens apresentaram-se tão hesitantes, que ele perguntou:
            - Não conseguistes misturar-vos com os soldados mouros?
            - Conseguimos D. Afonso... Mas aquilo que ouvimos, enche-nos de medo. Ibn’Umar, rei de Granada e de Córdova, veio em pessoa reunir as hostes que restavam em Badajoz, Évora, Beja e Silves. Já para não falar dos reforços de além-mar. Entretanto, até se lhe juntou Abu Zakariya, o rei de Santarém. O que faz deles cinco reis juntos!
            Os senhores entreolharam-se siderados. Afonso retorquiu impassível:
            - De que tamanho é o exército de Ibn’Umar?
            - Mais de cinco mil homens.
Os barões desataram num burburinho inquieto. Afonso calou-os com um gesto e fez sinal ao espião para que continuasse:
- Cortam-nos o caminho até ao Guadiana. Ibn’Umar tomou providências para que a zona entre Beja e o rio fosse igualmente vigiada. Diz-se que ele pretende acabar com Ibn Errik o mais depressa possível, pois anseia partir para Aurélia com os reforços, a fim de fazer frente ao imperador.


A lenda diz igualmente que Jesus Cristo terá surgido a Afonso Henriques, na noite anterior à batalha, e lhe prometeu a vitória. Talvez este aspecto sirva para explicar como é que homens assustados e em muito menor número do que o inimigo conseguiram vencer a peleja. No meu livro, Cristo não aparece ao nosso primeiro rei, mas este não deixa de receber "inspiração divina". Não revelo aqui, porém, qual, há-de haver razão para que queiram ler o romance ;-)


Terras de Santiago


O que parece não oferecer qualquer dúvida é o facto de Afonso Henriques ter sido aclamado rei pelas suas hostes, naquela manhã. O que terá funcionado a nível psicológico. Apercebendo-se de que os seus homens receavam o numeroso exército inimigo, Afonso Henriques, consciente de que naquela batalha se jogava o tudo e o nada, terá apostado na força psicológica, através de um ritual, pondo em prática aquilo que já muitos desejavam: a transformação do condado em reino e a sua aclamação como rei de Portugal.

  
Os primeiros raios de sol iluminavam o cimo do outeiro, onde se tinham juntado todos os guerreiros, a fim de assistirem à cerimónia, naquela manhã de 25 de Julho de 1139, dia de Santiago Mata-Mouros. Afonso Henriques, já armado para a batalha, ostentava o seu pavês, o escudo que usava em cerimónias solenes, adornado com as suas armas: escudetes azuis em forma de cruz. Deu-o para as mãos de Egas Moniz, que o pousou no chão. Afonso pôs-se então em cima do pavês e desembainhou a sua espada. Assim foi erguido, por vários dos seus cavaleiros.
O hábito de aclamação de um rei em cima do seu escudo era um antigo costume visigótico, uma aclamação guerreira que dispensava a coroação litúrgica. E quando os soldados o viram a ser erguido sobre o pavês, de espada em punho, jubilaram:
- Viva el-rei D. Afonso de Portugal!
Afonso pediu silêncio e falou-lhes:
            - Nada temei, bravos guerreiros! Somos menos do que o inimigo, mas a vitória está-nos garantida. - A sua voz, já de si poderosa, troava cada vez mais forte: - Porque para esta nossa primeira batalha contra os infiéis, sem ajudas, seja de quem for, a protecção divina foi-me pessoalmente garantida!
            Já nenhum dos soldados duvidava que a força daquela voz vinha directamente dos céus. Afonso bradava, sem que se notasse que fizesse pausas para respirar:
            - O povo de Portucale, ou Portugal, foi, é e será sempre capaz de lutar sozinho pelos seus interesses. Aqui vos prometo, bravos guerreiros de Portugal: tudo aquilo que viermos a conquistar à mourama, há-de pertencer só a nós! Nada entregaremos de bandeja ao imperador Afonso VII!
            Os homens responderam em uníssono, como se um maestro os dirigisse:
- Viva el-rei D. Afonso de Portugal!

15 de março de 2011

Batalha de Ourique - Os Preliminares

À semelhança de vários aspectos da vida de Afonso Henriques, a Batalha de Ourique levanta problemas aos historiadores, a começar pelo próprio local em que se terá dado. O nome parece não deixar margem para dúvidas. Porém, à altura, a fronteira sul do Condado Portucalense ainda não chegava ao Tejo. Apesar de já ter mandado construir o castelo de Leiria e colocado um posto de vigia em Tomar, Afonso Henriques ainda não tinha feito nada daquilo pelo que haveria de se tornar famoso: a conquista de territórios aos mouros. Como é que se explica, assim, uma batalha em pleno Baixo Alentejo?




Baseado no Dr. José Saraiva, o Prof. Freitas do Amaral considera a hipótese do "«Campo de Ourique», junto à nascente do rio Lis, na freguesia das Cortes, concelho de Leiria - que fica situada a cerca de oito quilómetros a sul da cidade de Leiria" (Biografia de D. Afonso Henriques, 5ª Edição, Bertrand Editora 2000, página 81).

No entanto, o Prof. Mattoso, na biografia já aqui citada, considera verosímil a localização no Baixo Alentejo, baseado nas razias e nos fossados que as populações de fronteira levavam a cabo, em terras de mouros. Muitas vezes, os monarcas hispânicos embarcavam nessa prática, organizando expedições de grande envergadura, sem o intuito de conquista, mas tão-só de intimidação e saque. Também os muçulmanos usavam esse tipo de estratégia, numa demonstração de força, de parte a parte.




Afonso Henriques regia, há mais de dez anos, sobre o Condado Portucalense, mas ainda mal se tinha dado a conhecer aos muçulmanos, já que passara aquele tempo tentando intimidar o primo, D. Afonso VII. Depois de perder os territórios galegos conquistados (ver Tratado de Tui), o nosso primeiro rei terá sentido necessidade de mudar de estratégia, virando-se para sul.

O ano de 1139 era favorável. Os almorávidas, a casta bebere que dominava o al-andalus (assim se chamava a Hispânia islâmica) tinham problemas com os seus rivais, os almóadas. Tashufin, o filho do emir almorávida, teve de ir em ajuda do pai, ao Norte de África, deixando Ibn 'Umar, governador de Córdova e Granada, a substituí-lo. D. Afonso VII aproveitou esse momento vulnerável para cercar a cidade de Aurélia e Afonso Henriques para organizar uma grande expedição de saque, a sul do Tejo.


Em Miniatura



Com tantos homens armados, Afonso reconquistou Leiria. Atravessaram o Tejo a leste de Santarém, penetrando cada vez mais em zonas a eles estranhas, mesmo às milícias vilãs, que estavam habituadas a fossados e algaras em terras de mouros. Mantendo-se afastados, tanto de Évora como de Badajoz, atacaram e pilharam povoações, devastaram os campos e destruíram as colheitas. Ousaram mesmo atravessar o Guadiana, a sul de Badajoz, continuando os seus ataques sem se distanciarem muito do rio, pois era de evitar a zona de influência de Sevilha.
Julho ia a meio e o cerco do imperador Afonso VII a Aurélia já durava há dois meses. A fim de ir em socorro da cidade assediada, Ibn’Umar, governador de Córdova e Granada, representante de Tashufin, ocupava-se a reunir reforços e a comandar razias em territórios leoneses, numa tentativa de desviar o imperador daquela cidade. As hostes de Afonso viram-se assim livres para se apoderarem de muitos despojos e fazerem cativos, que venderiam ou manteriam como escravos.

No regresso, terão atravessado o Guadiana perto de Mértola, dirigindo-se para oeste, a fim de contornarem Beja. Aventuraram-se, talvez, longe demais e foram interceptados pelos mouros:

 
A preocupação de Afonso crescia, à medida que o mês de Julho se aproximava do fim, sem que tivessem sequer começado a deslocar-se em direcção ao norte. Aquela região inóspita, a que se chamava os campos de Ourique, deixava-o nervoso. Não havia florestas, onde se pudessem esconder em caso de necessidade, só uma imensa charneca, cujos arbustos o sol transformava em palha. E, quando os batedores, que eram mandados apalpar o terreno, esgotados e suados, se punham a observar a planície, o sol fazia-os ver movimentos e sombras onde estes não existiam.
No meio da sua preocupação, Afonso deu-se consigo a admirar ainda mais a arte dos mouros. Com os seus sistemas de irrigação, como noras e canais, alguns subterrâneos, os infiéis faziam surgir plantações viçosas no meio de zonas desérticas. Mas tais pomares e searas concentravam-se à volta das cidades, precisamente as zonas que o príncipe e os seus homens evitavam.
Afonso estava tão convencido de que a sua expedição já havia chegado aos ouvidos de Ibn’Umar, que, a 24 de Julho, quando o corso se virava finalmente para norte, ali nos campos de Ourique, não se surpreendeu ao ouvir os batedores informá-lo que um exército inimigo lhes cortava o caminho. Os homens relatavam, à beira do pânico, que, além dos estandartes do Andalus, com os versículos do Corão escritos a verde sobre fundo branco, tinham avistado outros com inscrições a negro sobre fundo vermelho, o que provava a existência de reforços de além-mar.