Juntamente com Lourenço Viegas Espadeiro, Gonçalo Mendes Sousão e Fernão Peres Cativo, Afonso comandava o pequeno exército de quinhentos homens, formado pelos cavaleiros de Coimbra, os cavaleiros vilãos dos concelhos e os Templários de Soure. No segundo dia de marcha, terça-feira, penetraram na serra de Aire, no meio da qual se encontrava o castelo de Ourém, ou Abdegas, como os mouros lhe chamavam. Dominava no cimo de um monte sobre uma vasta região, vigiando o acesso a Santarém. Acabou por se render ao rei português. A maioria da sua guarnição, assim como a das populações da serra de Aire, era moçárabe.
No dia seguinte, ao atravessar o alto da serra de Minde, Afonso fez o voto de dar aos cistercienses todo aquele território que ia, para norte, até Leiria, e para oeste, até ao mar, a fim de que a ordem fundasse aí um mosteiro.
Este havia de ser o mosteiro de Alcobaça.
Há indícios de que Afonso Henriques teria alguns problemas de consciência, devido ao carácter traiçoeiro da operação, que haveria de conduzir à conquista de Santarém. Antes de deixar Coimbra, terá ido ter com o seu confessor, D. Teotónio, prior do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que foi o primeiro português a ser canonizado. O monarca, além de lhe encomendar a própria alma, terá pedido confirmação da justeza das suas intenções.
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Porque o problema com a estratégia usada em Santarém não se prendia apenas com o facto de se estar a planear entrar na cidade à socapa, pela calada da noite. Há um pormenor de tréguas combinadas e quebradas que não está muito claro. Depois de ter consultado várias fontes, dei a seguinte versão no meu romance: o início de Março seria ainda tempo de tréguas, pois havia uma espécie de pacto (não escrito) entre cristãos e mouros de como os ataques de parte a parte só se davam a partir da Primavera. Na sexta-feira, 13 de Março, em que os portugueses já se encontravam às portas de Santarém, Afonso Henriques manda um emissário ao alcaide, a anunciar-lhe que rompia as tréguas por dois dias, ou seja, anunciava-lhe que atacaria a cidade naquele dia, ou no sábado. Mas não o fez, Santarém só foi atacada na noite de sábado para domingo.
E qual seria o objectivo de tal comportamento? Um dos espiões que o rei enviou a Santarém, no sábado, a fim de auscultarem a situação, explicou o que se passava na cidade:
- Contando com um ataque, o alcaide de Santarém encheu o adarve de sentinelas e ordenou aos seus homens que se mantivessem em alerta máximo. Mas agora, que se aproxima o pôr-do-sol do segundo dia, pondo fim ao prazo do rompimento das tréguas, os mouros começam a especular sobre as razões que teriam levado Ibn Errik a desistir da ofensiva. Espalhou-se o rumor que el-rei contava com reforços que não surgiram, o que nos leva a pensar que espiões mouros tivessem avistado o nosso exército e o achassem pequeno. De qualquer maneira, foi cancelado o alerta máximo. E os correligionários de Mem Ramires, moçárabes dos arrabaldes, não darão alarme, quando se aperceberem do nosso ataque.
Ou seja: Afonso Henriques, além de atacar a cidade durante a noite (que ia contra o codex da cavalaria) fê-lo numa noite em que a vigilância estaria aliviada, pois terminara o prazo do rompimento das tréguas.
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Antes do ataque, o discurso do rei:
À luz ténue do crepúsculo, Afonso falou aos seus guerreiros, pedindo-lhes coragem e empenho. Lembrou-lhes que os mouros, partindo de Santarém, constantemente assolavam os arredores de Coimbra, chacinavam as guarnições de Leiria e de Tomar e faziam inúmeros cativos. Disse-lhes ainda que bem podia ter convocado o resto do exército para esta operação, mas que não o fizera, porque eram eles, os guerreiros das milícias vilãs, que tinham direito a esta vingança. Mais do que ninguém, tinham já sofrido na pele as razias dos almorávidas, perdido familiares e amigos. Chamou-lhes “companheiros de luta” e “de armas”, mostrando que os considerava tanto como à nobreza do norte, o que encheu aqueles cavaleiros sem pergaminhos de orgulho. E Afonso ainda jurou, perante eles e Deus:
- Se tiver que morrer este ano, sem conseguir conquistar Santarém, escolho então morrer esta noite!
Dá-se como provado que Afonso Henriques disse esta última frase. O que, além de entusiasmar os guerreiros, denota o seu forte poder de resolução e a sua coragem para o risco, um aspecto do seu carácter que tornará a transparecer em Lisboa.





















