Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
Mostrar mensagens com a etiqueta Citando Afonso I. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Citando Afonso I. Mostrar todas as mensagens

5 de junho de 2012

O Desastre de Badajoz - I

Sandra Serra

Em Maio de 1169, com cerca de 60 anos, D. Afonso Henriques terá cometido o maior erro da sua vida: foi em auxílio de Geraldo Sem Pavor, que conseguira entrar na cidade de Badajoz, mas que falhara a ocupação da alcáçova, onde se refugiara o rei mouro com os seus guerreiros. Seria grande a vontade do nosso primeiro rei em conquistar esta cidade, pois para lá se dirigiu, embora tivesse acordado com D. Fernando II de Leão, em Celanova, que a margem esquerda do Guadiana pertencia à zona de influência leonesa.


           Havia três dias que Afonso e o exército português tinham ocupado Badajoz, mas o rei mouro persistia, barricado na alcáçova. Dificilmente morreria à sede, pois as fortalezas mouras eram conhecidas pelas suas fontes. Os víveres, porém, já deveriam ser escassos.
As muralhas de Badajoz, com os seus merlões de remate piramidal, assentavam em rochas, sobre um cerro sobranceiro ao Guadiana, e estavam reforçadas pelos habituais torreões quadrados. Além disso, gozavam, tanto a norte, como a oeste, da protecção do rio. Afonso admirava, por isso, a habilidade de Geraldo Sem Pavor e do seu bando, em terem conseguido penetrar na cidade. O guerreiro vilão havia expulsado os habitantes mouros e judeus e os seus homens ocuparam as melhores casas, algumas delas, já vazias, à altura da invasão, pois os habitantes mais ricos e influentes tinham-se refugiado na alcáçova. Os moçárabes haviam sido autorizados a ficar e viviam agora lado a lado com os soldados portugueses.
Senhor de Badajoz, o exército de Afonso não montara acampamento. E, como o calor de fins de Maio quase não se aguentava, os guerreiros adoptaram o ritmo do bando do Sem Pavor: orgias pela noite fora, em que bebiam e se divertiam com as rameiras, que ninguém se lembrava de expulsar, independentemente da sua religião. Dormiam, assim, toda a manhã.

Badajoz
A indisciplina e a desorganização no exército português são uma das razões apontadas pelos historiadores para explicar o fracasso de Badajoz. Eu reforcei este aspeto com uma rivalidade entre D. Fernando Afonso, filho ilegítimo do rei português, e D. Pêro Pais da Maia, alferes-mor do reino, o que acabava por dividir o exército em duas fações. Na verdade, os dois eram meio-irmãos, ambos filhos de D. Châmoa Gomes, o que penso que poderia ter originado um rancor entre eles. D. Fernando Afonso almejaria ser alferes-mor (como acabou por ser) e D. Pêro Pais da Maia nunca teria digerido bem o facto de D. Afonso Henriques não ter casado com sua mãe. São invenções minhas, a fim de enriquecer o enredo, mas é curioso verificar que, depois da aventura de Badajoz, D. Pêro Pais da Maia se incompatibilizou com o nosso primeiro rei, refugiando-se na corte leonesa.


Na sua quarta noite em Badajoz, Afonso foi arrancado da cama, pois as rixas tinham tomado dimensões incontroláveis. Acompanhado da sua guarda, o rei cavalgou pelas ruas da cidade, vendo com os seus próprios olhos como centenas dos seus soldados, incendiados pela euforia do álcool e misturados com saltimbancos e outras figuras mais sinistras, se batiam uns com os outros. Algumas bulhas acabavam em sangue, pois havia sempre quem fosse lesto a puxar da sua adaga, ou do seu punhal.

D. Fernando II de Leão, que assinara um pacto de defesa mútua com o califa de Sevilha, e apesar de ser genro de D. Afonso Henriques, acabou por surgir com o seu exército, em auxílio do rei mouro de Badajoz. As tropas leonesas sitiaram a cidade, encurralando os portugueses e libertando os mouros, comunicando diretamente com a alcáçova.


É difícil encontrar uma resposta para o erro estratégico cometido por D. Afonso Henriques. Talvez não acreditasse que o genro viesse ajudar os mouros. Ou talvez pensasse que os mouros, encurralados na alcáçova, se rendessem rapidamente. Na verdade, os portugueses já tomavam conta de Badajoz há três ou quatro dias, quando os leoneses surgiram. Teria D. Fernando II, de facto, hesitado em agir contra o sogro?

11 de abril de 2012

Geraldo Sem Pavor


Daniel Nobre
          Geraldo Sem Pavor, um cavaleiro vilão originário de Santarém, era o homem do momento. Como guerreiro de fronteira, habituara-se a fossados anuais em terras de mouros. Depois de participar, na expedição comandada pelo filho do alcaide de Coimbra, em que Beja tinha sido ocupada e, depois, abandonada, Geraldo formara o seu próprio bando. Atacavam as fortalezas de noite, penetrando nelas por meio de escadas encostadas às muralhas. Estas ofensivas não se limitavam à Primavera e ao Verão, Geraldo não hesitava em dirigi-las nas estações frias, altura, normalmente, reservada a tréguas. E ia espalhando o terror pelas localidades mouras, somando êxitos nunca vistos, o que, por seu lado, lhe dava o estatuto de herói, junto das comunidades cristãs, que lhe deram a alcunha de Sem Pavor.
            Juntavam-se-lhe cada vez mais homens e Geraldo, não se contentando com as fortalezas mais pequenas, começou a atacar cidades. Em Outubro de 1165, espantou o reino ao conquistar Évora. Muitos dos barões do norte começaram mesmo a agourar que o prestígio daquele homem ensombraria o do próprio rei. Mas Geraldo Sem Pavor provou ser fiel ao monarca, ao entregar-lhe a sua conquista. Afonso viajou àquela cidade, satisfeito com as dimensões que o reino tomava. Recompensou Geraldo generosamente e outorgou foral a Évora, criando uma diocese, para a qual nomeou o respectivo bispo.
            Encorajado pelo apoio d’el-rei, tanto moral como materialmente, Geraldo começou a apossar-se de cidades que, segundo o tratado de Celanova, se considerava pertencerem à zona de influência de Leão. Embora a delimitação dos territórios a norte do Guadiana não fosse muito clara, muita da nobreza portuguesa receava a reacção do monarca leonês, perante a conquista de Trujillo, Cáceres e Montanchéz.

Não se conhece a verdadeira origem de Geraldo Sem Pavor e eu segui a hipótese dada pelo Prof. Mattoso, na sua biografia de D. Afonso Henriques (Temas e Debates 2007, porquanto o historiador sublinha tratar-se de uma mera hipótese: Pode-se imaginar, por exemplo, que Geraldo fosse um dos cavaleiros vilãos de Santarém - pág. 298).

As façanhas de Geraldo não eram vistas com bons olhos pelos barões do reino, que achavam que D. Afonso Henriques lhe devia travar as ambições. Aqui, mais um excerto do meu romance, em que D. Lourenço Viegas (filho do falecido D. Egas Moniz) e o alferes-mor D. Pêro Pais conversam com a jovem infanta D. Teresa:

Pêro Pais da Maia pertencia ao grupo dos descontentes e, já que o Espadeiro iniciara o assunto, o alferes-mor não se segurou e acabou por resmungar:
            - É uma insensatez, el-rei não pôr fim aos ímpetos de um bando de foras-de-lei!
            - Bem - atreveu-se Teresa a considerar, - Geraldo e o seu bando acabam por favorecer a coroa portuguesa. Só a conquista de Évora...
            - Não justifica tudo - interrompeu-a o alferes-mor. E, depois de uma hesitação, acrescentou: - Geraldo conquistou agora Juromenha e serve-se desse castelo como base para atacar Badajoz.
            - Badajoz? - admirou-se a infanta. - Uma cidade maior do que Coimbra?
            - E que fica a leste do Guadiana - lembrou Pêro Pais. - O assunto foi tratado com especial destaque em Celanova e D. Afonso prontificou-se a prescindir da cidade. Além disso, el-rei de Leão conquistou Alcântara, que fica lá bem perto. É certo que não reagiu às outras conquistas da zona, nem tão-pouco tenta recuperar os condados galegos de Toroño e Límia, que D. Afonso mantém em seu poder. Mas estou convencido de que a coisa mudará de figura, caso o leonês vir Badajoz em perigo.
            - É verdade - concordou Lourenço Viegas. - Há quem receie que D. Fernando assine um acordo com os próprios almóadas, a fim de melhor assegurar que Badajoz não caia nas mãos d’el-rei de Portugal.
            - Iria ele tão longe? - espantou-se a infanta.
            - Acordos entre reis cristãos e mouros não são nenhuma novidade - replicou Pêro Pais, irritado. - Havendo confluência de interesses, nada impede que se estabeleçam.
            - Se D. Fernando e os almóadas realmente se aliarem nesta causa - atalhou o Espadeiro, - sou da opinião dos meus pares do norte: ou D. Afonso põe fim às façanhas de Geraldo Sem Pavor a leste do Guadiana, ou, pelo menos, desliga-se dele.

D. Fernando II de Leão, genro de D. Afonso Henriques, estabeleceu, de facto, um pacto de defesa mútua com o califa de Sevilha, pelo que o rei mouro de Badajoz gozava da sua protecção. Quando o nosso primeiro monarca decidiu ir apoiar Geraldo Sem Pavor em Badajoz, na esperança de conquistar essa cidade, cometeu talvez o maior erro da sua vida, como veremos nos posts referentes ao Desastre de Badajoz.

9 de abril de 2012

Tratado de Celanova

D. Afonso Henriques, por Carlos Alberto Santos
Depois do falecimento de D. Afonso VII, imperador de toda a Hispânia, primo e rival de D. Afonso Henriques, a sua herança foi dividida pelos dois filhos: o mais velho tornou-se no rei D. Sancho III de Castela e o outro em D. Fernando II de Leão. Os dois irmãos tentaram apoderar-se de Portugal (ver Tratado de Sahagún), mas a morte precoce de D. Sancho III acabou por debelar este perigo.

Entregue a uma criança de três anos, o reino de Castela afogou-se em convulsões internas e D. Fernando II de Leão optou por se aproximar do monarca português. Os dois encontraram-se em Celanova, na Galiza, no Outono de 1160, a fim de assinarem um Tratado, que resolveria, igualmente, questões antigas, como a fronteira entre Portugal e Leão nos territórios ainda por conquistar, a sul do Tejo. 

- Exijo que anuleis o tratado de Sahagún! 
- Esse tratado morreu junto com o meu irmão - replicou D. Fernando II, com o seu ar indolente. 
- Definamos, então, os territórios mouros que cabem a cada um dos nossos reinos. 
O monarca leonês revirou a ponta do bigode: 
- Para isso, tereis que me restituir a cidade de Tui. 
Afonso respirou fundo: 
- De acordo. 
Os dois soberanos estavam reunidos na cidade galega de Celanova, naquele fim de ano de 1160. O português comprometia-se a respeitar as fronteiras a norte, o leonês a oeste. E estabeleceriam, enfim, a divisão das terras a conquistar aos infiéis, reconhecendo os direitos de Portugal nesta matéria.

Como já acordado em Zamora, estabeleceu-se usar o rio Guadiana como fronteira, embora alguns historiadores calculem que D. Afonso Henriques terá tentado garantir a cidade de Badajoz para si. 

Depois de uma curta reflexão, Afonso ousou propor: 
- Gostaria de abrir uma excepção com Badajoz. 
O outro monarca olhou-o espantado: 
- A que propósito?
- Como capital de um grande reino taifa, que incluía Lisboa, Alcácer do Sal e Évora, Badajoz, apesar de situada na margem esquerda do Guadiana, sempre fez parte do al-Gharb. Lisboa e Alcácer do Sal já me pertencem, Évora encontra-se na minha zona de influência. Sinto-me, por isso, no direito de considerar também Badajoz uma possível conquista minha.

D. Fernando II de Leão foi, porém, inflexível e, nove anos mais tarde, D. Afonso Henriques tentou conquistar Badajoz, o que lhe saiu bem caro, como veremos.

D. Fernando II de Leão
Um outro ponto estabelecido em Celanova foi o casamento de D. Fernando II de Leão com a filha mais velha do monarca português, a infanta D. Urraca. Esta união era polémica por dois motivos: primeiro, o parentesco entre os noivos era muito próximo; segundo, o sucessor de D. Fernando II, poderia, como neto de D. Afonso Henriques, reclamar, para si, o trono português. 

Os pormenores foram acertados, os escribas passaram-nos para o pergaminho e, quando Fernando II já dava a reunião por terminada, Afonso afirmou: 
- Gostaria de selar este acordo com um contrato de casamento. 
- Um contrato de casamento? - ecoou o rei leonês, olhando abismado para os seus conselheiros, que se revelavam não menos surpresos. 
- Não preciso de vos dizer que, com vinte e cinco anos, deveríeis cuidar de que vos nascesse o herdeiro. 
- Não me parece que seja assunto que vos diga respeito. 
- Depende. Se eu vos oferecer a mão da minha filha, já me diz respeito. 
D. Fernando mirou-o espantado, adoptando depois o seu ar sobranceiro: 
- Já alguma das vossas filhas atingiu idade casadoira? 
- Urraca, a mais velha, acabou de completar os doze anos, estará apta a contrair matrimónio daqui a dois.
O monarca leonês pôs-se pensativo, revirando a ponta do bigode e tornando a adoptar o olhar divertido e negligente. Os cabelos longos e lisos caíam-lhe impecáveis ao longo do rosto, espalhando-se por sobre os ombros. A certa altura, considerou: 
- Tendes razão: preciso de um herdeiro. Quando penso como o meu irmão Sancho morreu tão de repente... 
Não quis dar uma resposta definitiva sem antes falar a sós com os seus conselheiros, mas acabou por aceitar. Falou-se ainda no facto de ele e a infanta portuguesa serem primos em segundo grau, mas, sendo Portugal um reino sob a protecção da Santa Sé, não seria difícil obter uma dispensa papal.

Não se sabe de quem foi a iniciativa de propor este casamento e eu optei por dá-la a D. Afonso Henriques. Na minha opinião, ele não via grande perigo no facto de o futuro monarca leonês ser seu neto, pois, à data de assinatura deste Tratado, ele tinha quatro filhos varões: dois legítimos (os infantes D. Sancho e D. João, que faleceria ainda criança) e dois ilegítimos, filhos de D. Châmoa Gomes, que eram já valorosos guerreiros. D. Afonso Henriques não poria, assim, a hipótese de haver uma crise de sucessão em Portugal.

16 de novembro de 2011

Tratado de Sahagún

Óleo de Carlos Alberto Santos
A segunda metade da vida de D. Afonso Henriques é muito menos conhecida do que a primeira. Toda a gente já ouviu falar da Batalha de São Mamede, da Batalha de Ourique, do Tratado de Zamora e das conquistas de Santarém e de Lisboa. Tem-se, no entanto, muitas vezes, a impressão de que a vida do nosso primeiro rei acaba aqui (excepção feita à conquista de Alcácer do Sal).

Na verdade, depois da conquista de Lisboa, em 1147, a vida de D. Afonso Henriques conta algumas infelicidades, como o desastre de Badajoz, que podia ter acabado com a independência de Portugal. Há, no entanto, um outro acontecimento anterior, bem menos conhecido, que fez perigar o reino: o Tratado de Sahagún, assinado, a 23 de Maio de 1158, pelos reis de Leão e Castela.

O primo de D. Afonso Henriques e seu grande rival, o imperador D. Afonso VII, faleceu em Agosto de 1157 (o nosso primeiro rei viveria ainda cerca de trinta anos). A sua herança foi dividida pelos dois filhos: o mais velho tornou-se no rei D. Sancho III de Castela e o outro em D. Fernando II de Leão. D. Afonso Henriques ter-se-á perguntado como lidar com a nova situação. O primo tinha acabado por se conformar com a independência de Portugal. Mas iriam os seus filhos seguir-lhe o exemplo?


D. Fernando II de Leão

Não! Convenhamos que seria de esperar. Dois jovens, que se vêm senhores de quase toda a Península Ibérica, haveriam de mandar a política do papá às urtigas e perguntar-se se não lhes seria possível apoderar-se de Portugal. Aqui, a cena em que D. Afonso Henriques comenta o conteúdo do Tratado de Sahagún:


- É verdade. A birra entre os maninhos foi sol de pouca dura. Prometem-se ajuda e combinaram que os respectivos reinos fossem transmitidos aos herdeiros do irmão, caso algum deles morra sem filhos. Até aqui, tudo bem. O pior, meus senhores, é que se permitiram deliberar sobre Portugal, sem nos terem tido nem achado! Em primeiro lugar, afirmam que eu, Afonso Henriques, à frente deste reino há quase trinta anos, eu, que tomei Santarém e Lisboa aos infiéis, não tenho o direito de continuar a conquistar territórios muçulmanos!

- Mas que despautério - lançou Gonçalo Mendes.

- Como se eu não existisse - prosseguiu Afonso, - trataram de dividir os territórios da mourama entre eles, definindo as áreas que cabe a cada um conquistar, incluindo as cidades do Gharb: Alcácer do Sal, Évora, Beja e Silves!

            - Mas quem eles pensam que são? - atirou Fernando furioso.

            - O pior ainda aí vem - disse o rei. - Decidiram, se puderem, repartir o próprio reino de Portugal entre si!

            Os três olhavam o soberano perplexos. Gonçalo Mendes acabou por falar:

            - Teremos que contar com uma invasão do reino.

            Todos reflectiam nesta preocupante conjectura, quando o alferes-mor opinou:
            - Mal poderemos resistir a um ataque conjunto das forças leonesas e castelhanas.

A situação era gravíssima:

            Em Coimbra, vivia-se em permanente estado de alerta, naquele Verão de 1158. Afonso reunia-se frequentemente com os seus chefes militares, a fim de discutir as informações que as patrulhas enviavam. Também D. Gualdim Pais veio à corte, mantendo-se em contacto com os Templários de Longroiva, Penarroias e Mogadouro, que, além das regiões de fronteira, vigiavam os movimentos dos senhores de Bragança. Afinal, Mendo de Bragança era o alferes-mor d’el-rei D. Fernando II de Leão.

            O mês de Agosto chegou, contudo, ao fim sem vestígios de perigo, apesar de os Templários se darem realmente conta de movimentos da parte dos leoneses nas imediações da tenência de Bragança. Tratava-se, porém, de assuntos internos: o monarca leonês andava ocupadíssimo com revoltas urbanas no concelho de Zamora. E não havia o mínimo sinal do irmão, D. Sancho III de Castela.

            Mas estas notícias, em vez de acalmarem Afonso, punham-no ansioso. Estava convencido de que os irmãos acabariam por atacar de surpresa, quando já ninguém contasse com a sua ofensiva. Além disso, se Fernando de Leão andava com os seus soldados pelo concelho de Zamora, bem poderia aproveitar a oportunidade para penetrar em solo português, ainda para mais, com Mendo de Bragança a seu lado. Afonso começou a achar que era necessário intimidar o jovem soberano com uma ofensiva militar, enquanto o irmão não desse sinal de vida. Considerava enviar hostes portuguesas que apoiassem as revoltas de Zamora. Com sorte, ainda se apoderava ele daquela cidade!


O que, até àquela altura, ninguém sabia, era que D. Sancho III de Castela, de apenas 25 anos, adoeceu gravemente, naquele Verão, vindo a falecer em Agosto. Assim se acabou por dissolver, de maneira inesperada, este perigo sério. D. Sancho III deixou um herdeiro de 3 anos, o que originou o início de tempos conturbados, em Castela. D. Fernando II de Leão, sem o apoio do irmão, acabaria por se aproximar do monarca português.

Embora ameaçador no seu conteúdo, o Tratado de Sahagún tornou-se, assim, obsoleto, em pouco tempo. E digam lá que Portugal não é, de vez em quando, bafejado pela sorte!



11 de novembro de 2011

D. Sancho I (que, na verdade, se chamava Martinho) nasceu há 857 anos

À altura do seu nascimento, D. Sancho I não estava destinado a ser o segundo rei de Portugal. A prová-lo, está o facto de ter sido baptizado com o nome de Martinho, por ter nascido a 11 de Novembro. Martinho era, no entanto, um nome sem tradição entre os reis hispânicos. E, passado algum tempo (de seis meses a um ano), mudaram-lhe o nome para Sancho.

Porquê uma história tão atribulada, tendo como protagonista o sucessor de D. Afonso Henriques?

Afonso Henriques - óleo de Carlos Alberto Santos

Na verdade, no dia de São Martinho de 1154, nasceu, não o primogénito, mas o segundo filho (legítimo) do primeiro monarca português. Destinado a ser o segundo rei de Portugal estava o seu irmão Henrique, que, na altura, tinha já sete anos. Era este o primogénito, a quem D. Afonso Henriques, note-se, deu o nome de seu pai. E o facto de ter dado o nome de Martinho ao menino nascido naquele dia indica que talvez o destinasse à carreira eclesiástica. Se Martinho não era nome para rei, seria adequado para um clérigo.

- Graças a Deus - repetiu o prelado. - E nascer assim, no dia de São Martinho... Tenho para mim que é um sinal dos Céus. 
- Pela minha saúde, senhor prior - replicou a aia, benzendo-se, - tirais-me as palavras da boca. Jesus! Até me parece que Deus nos quer dizer algo! 
- Será que Deus destinou este príncipe para uma carreira eclesiástica? 
Afonso opinou: 
- Ao futuro rei convinha ter um irmão clérigo, que quiçá venha a ser arcebispo… 
- E o nome, D. Afonso?
 O soberano não respondeu logo e Elvira atreveu-se: 
- Nascido neste dia, bem se podia chamar Martinho. 
D. Teotónio olhou-a intrigado, quiçá estranhando aquela impulsividade numa dama normalmente tão introvertida. Mas os olhos de Josefa iluminaram-se e a mulher dirigiu-se ao prelado, as mãos juntas como numa oração: 
- Quem sabe, seja isso que Deus nos tenta dizer, senhor prior: o principezinho deverá seguir uma vida na Igreja e levar o nome do santo! 
- É uma inspiração curiosa - admitiu Teotónio. - Não olvidemos, porém, que Martinho é um nome sem tradição nas casas reais hispânicas. E, enfim... Nunca se sabe se ele, numa qualquer eventualidade, ainda tenha de subir ao trono... 
- Para a vida eclesiástica - interrompeu-o Afonso, enervado com o comentário, - o nome seria adequado. E, fazendo a vontade a Deus, melhor contribuiremos para a recuperação da rainha. 
Josefa tornou a benzer-se e o rei anunciou: 
- Pois que se chame Martinho!

No ano seguinte, porém, talvez no Verão, dá-se uma reviravolta nos acontecimentos: o infante D. Henrique morre, com apenas oito anos de idade. Apesar de a mortalidade infantil ser alta, naquela altura, sou de opinião de que Afonso Henriques terá sofrido um grande golpe.

- Tendes de ser forte, meu rei, muito forte! 
Afonso engoliu em seco. 
- Morreu alguém, não é verdade? Mas quem, D. Teotónio, quem? 
O prelado soluçou, por entre um rio de lágrimas: 
- Nada se conseguiu fazer pelo infante... Nada... Adoeceu tão de repente... 
- O infante?
 Crianças morriam facilmente e Afonso pensou no mais novo, nascido há apenas seis meses:
- Martinho… Valha-me Deus! Martinho morreu? 
O prior levou um lenço aos olhos. Soluçava tanto, que quase não conseguia falar: 
- O infante Martinho... Não. O irmão... O irmão é que morreu... Coitadinho... 
Afonso abriu muito os olhos. De repente, tudo lhe parecia irreal. Devia ser um pesadelo! A respirar pesadamente, olhou à sua volta, como que a procurar a saída do inferno.

 



Devemos considerar que, além de perder um filho, Afonso Henriques viu destruído o seu sonho de o seu sucessor ter o nome do pai. Além disso, ele próprio já não era novo. Ia a caminho dos cinquenta, a esperança de vida não era longa (ninguém podia adivinhar que ele passaria os setenta) e, de repente, o seu sucessor não passava de uma criança de colo.

E havia a questão do nome. Porquê Sancho? No romance, eu dou a minha versão:


Nesta fase de tristeza e desolação, em que Mafalda, no seu quarto escuro, se mantinha longe dele, perguntava-se inúmeras vezes:valera a pena desposá-la?
Não entendia porque Deus o martirizava tanto. Procurava frequentemente o prior, que não perdia uma ocasião de lhe recordar que o infante devia ter um nome mais apropriado. Mas Afonso, depois de se ver obrigado a desistir do sonho de que o seu sucessor levasse o nome de seu pai, não encontrava cabeça para o assunto.
Um dia, deu consigo a pensar no avô, a quem o herdeiro, já homem feito, morrera em combate. Como se teria sentido o imperador, que, na altura, era bem mais velho do que ele? Afonso VI falecera um ano depois do filho, na incerteza do que sucederia aos vários reinos que ele unira, à custa de tantas lutas e de tanto sangue.
Afonso sentiu que devia dar o nome do herdeiro do avô ao filho: Sancho! Era, acima de tudo, um nome cheio de tradição nas casas reais hispânicas. A partir daquele dia, deixou de existir o infante Martinho. O príncipe herdeiro de Portugal chamava-se Sancho!

7 de outubro de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa XI

Em Miniatura
        

           A 25 de Outubro, Afonso tomou posse de Lisboa, já a população moura havia entregue os seus haveres e as suas casas aos cristãos. No cimo da torre de menagem, o rei mandou içar o estandarte com os escudetes azuis em forma de cruz e ainda erigir uma grande cruz de madeira. Descido aos jardins da alcáçova, dirigiu-se à porta onde Martim Moniz tinha morrido entalado e ordenou que se gravasse, naquele lanço de muro, o nome e o retrato do herói.
            Junto à mesquita aljama, anunciou a conversão desta em Sé catedral. A 1 de Novembro, dia de Todos os Santos, D. João Peculiar presidiria à sua solene purificação. E, para bispo da nova diocese, Afonso nomeou o prelado inglês Gilbert de Hastings, que agradeceu, emocionado.
            Aos cruzados ali reunidos, o rei comunicou ainda os seus planos de extensão das duas capelas construídas junto aos cemitérios. No oriental, onde estavam enterrados os alemães e flamengos, mandaria construir um mosteiro, que se chamaria de São Vicente e para onde seriam trasladados os restos mortais do santo. A capela junto ao outro cemitério, a ocidente da cidade, onde repousavam os corpos dos ingleses e franceses, seria transformada numa igreja, que se chamaria dos Mártires.



3 de outubro de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa IX

Ilustração de Jorge Miguel

D. Afonso Henriques negociou a rendição com o alcaide mouro de Lisboa. Não haveria saque, os habitantes muçulmanos e judeus deveriam sair da cidade, aquartelando-se fora de muros, e não se verteria mais sangue. O alcaide e o seu genro eram autorizados a manter as suas posses. O rei português adivinhava problemas, pois sabia que os cruzados não prescindiriam do saque.


            Apesar do sucesso desta conversa, Afonso regressou ao acampamento preocupado. Receava a reacção dos cruzados, assim que soubessem que ele não satisfaria algumas das suas exigências. Os ânimos tinham estado exaltados nas últimas horas e começava-se novamente a falar no tesouro, que estaria enterrado na cidade.
            A reacção não se fez esperar. Alemães e flamengos insistiam em que os portugueses pouco tinham contribuído para a vitória, o que, no seu entender, não dava ao rei o direito de negociar sozinho com os mouros, roubando-lhes aquilo que lhes prometera. Muitos deles entraram nessa noite em Lisboa e espalharam o horror, saqueando, matando e violando.
            Afonso fervia na sua fúria. Ainda mais, quando soube que, aqueles que não davam largas aos seus instintos mais ferozes intra-muros, tinham o desplante de pretender atacar o acampamento português! Mandou chamar Arnulf de Aarschot e Christian de Gistell, que surgiram acompanhados de um prelado flamengo. 




Vendo-se numa situação crítica, D. Afonso Henriques optou por uma solução radical, lançando um ultimato aos cruzados, dando o tudo por tudo.


           Estabeleceu-se um silêncio perplexo. Afonso respirou fundo, controlando a sua fúria. Urgia pôr fim àquela situação, que ameaçava a vitória. Um ataque dos cruzados ao acampamento português seria o início de uma catástrofe. As hostes cristãs envolver-se-iam em lutas sangrentas, das quais só sairia um vencedor: a mourama!
O rei só viu um caminho para sair desta crise, um caminho deveras arriscado:
            - Se não fordes capazes de acabar com os motins, partirei, ainda antes do nascer do sol, com todo o meu exército, abandonando-vos à vossa sorte. Que eu prefiro prescindir de Lisboa, a quebrar os acordos firmados com o alcaide!
            Depois da tradução, Christian e Arnulf fixaram-no assombrados. O semblante de Afonso mantinha-se impassível, fazendo-os acreditar que ele realmente renunciaria a Lisboa, caso não pudesse manter a palavra dada. Na verdade, Afonso perguntava-se se teria ido longe demais.

Os cruzados aceitam, por fim, subjugar-se ao monarca português.


           Aos estrangeiros assomava-se arriscado ficarem entregues a si próprios perante os mouros, que lhes poderiam tornar a fechar as portas da cidade, forçando-os a partir para a Terra Santa de mãos a abanar. E os que haviam decidido ficar em Portugal sonhavam com os senhorios que o monarca lhes prometera.
Todos os cruzados juraram, no dia seguinte, 23 de Outubro, fidelidade a D. Afonso Henriques e aceitaram o acordo que ele havia estabelecido com o alcaide. Porém, a devastação, que muitos deles haviam provocado na noite anterior, já ninguém podia emendar. Inúmeros moçárabes, até o seu bispo, pereceram às espadas dos cruzados em fúria. Assim mataram eles os seus irmãos de fé, que tinham vivido em paz sob a regência dos muçulmanos.
            Um tesouro não foi encontrado.

15 de setembro de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa VIII


O ponto de viragem nos acontecimentos acabou por acontecer já em meados de Outubro, quando os cruzados alemães e flamengos alcançaram os fundamentos das muralhas do lado oriental, através de um túnel que os muçulmanos não lograram destruir. Um ataque foi preparado.


            Junto com Arnulf de Aarschot e Christian de Gistell, Afonso e os seus barões posicionaram-se no cimo da colina oriental, de maneira a poderem observar os acontecimentos, que decorreriam na zona do arrabalde, entre as portas al-maqbara e al-hamā.
Os ingleses e franceses já tinham começado o seu ataque no lado ocidental, fazendo com que os mouros concentrassem aí forças, e os cruzados flamengos e alemães esperavam que o fogo, por baixo dos fundamentos ocos da muralha, tivesse o efeito desejado.
            Todos observavam suspensos as muralhas que se erguiam no cimo do morro, por detrás do arrabalde... Até que estas, debaixo de um grande estrondo, ruíram, abrindo uma brecha de uns quinze passos de largura. Lançando os seus berros de guerreiros, os cruzados precipitaram-se colina acima. Só quando a nuvem de pó e terra, provocada pelo ruir dos muros, se começou a dissipar, é que o rei e os seus acompanhantes puderam seguir as lutas sangrentas que se travavam.
            A esperança depressa se desvaneceu. O estrondo da queda das muralhas tinha feito ruir muitas das casas de taipa do arrabalde vazio e, por entre as vielas estreitas, os destroços dificultavam o escalar do cerro. Os mouros, apesar de terem que defender a brecha, encontravam-se na posição mais alta e lograram, mais uma vez, pôr os cruzados em fuga.
- Outro combate perdido - murmurou Afonso entre dentes. Mas, sentindo a frustração à sua volta, disse alto: - Este ataque serviu para enfraquecer ainda mais o inimigo. Que há-de vergar os joelhos! Todos sabemos que receia a vinda do Inverno.
            - Mais do que nós? - retorquiu Arnulf de Aarschot irónico.
Depois de ter obtido a tradução destas palavras, o rei replicou, antes de lhe virar as costas:
            - Em vez de me lançardes olhares descontentes e palavras pessimistas, devíeis rezar para que eu tenha razão.




           Seria por falta de preces que os acontecimentos continuavam a correr em desfavor do monarca português? Apesar de várias ofensivas por parte dos cruzados na zona do arrabalde oriental, os mouros conseguiram tapar a brecha nas muralhas com uma paliçada de madeira.
A 19 de Outubro, a tão esperada torre de assédio ficou finalmente pronta. Coberta pelas peles húmidas, foi deslocada à volta da torre albarrã, na ponta sudoeste de Lisboa. O seu objectivo era novamente o cimo das muralhas por sobre o pequeno postigo que dava acesso à praia.
Os atiradores de arco ingleses, no alto do engenho, apoiados pelos seus companheiros das naus, conseguiram uma primeira vitória: os mouros posicionados na torre albarrã precipitaram-se por sobre o passadiço muralhado, refugiando-se na cidade.
Não obstante, a torre dos ingleses deslocava-se a passo de caracol, por sobre a areia. Talvez por isso os mouros tenham arriscado um ataque através do postigo. Saíram para a praia e caíram em cima dos cruzados, dando início a uma das lutas mais ferozes do cerco. Sabres penetravam nos corpos, machados abriam crânios e, misturada com o sangue, a areia transformava-se numa massa vermelha e pegajosa, envolvendo os cadáveres, sobre os quais os combatentes tropeçavam.
Passado o primeiro momento de surpresa, os cruzados ganharam vantagem e forçaram os mouros a recuar. Destes, os que conseguiram alcançar o interior das muralhas, logo trancaram o postigo, deixando os seus companheiros à mercê dos cristãos, que, atacados pela febre da chacina, só descansaram quando já não havia um único mouro vivo.
            Porém, e apesar de imune às setas incendiárias, só dois dias mais tarde, a 21 de Outubro, a torre móvel alcançou as muralhas.
- Os soldados preparam-se para lançar a ponte que ligará o cimo da torre ao adarve - informou um mensageiro. - A invasão da cidade pode acontecer a qualquer momento.
            Mas logo surgiram perante o rei e os seus barões guerreiros ingleses aos berros. Falavam todos ao mesmo tempo, gesticulando como doidos. Afonso exigiu a presença de Hervey de Glanville, que, com a ajuda de um tradutor, informou que os mouros tinham baixado as suas armas, assim que a ponte de ligação tocara o cimo dos muros e antes que um só único cruzado pudesse saltar para o adarve. Os infiéis solicitavam tréguas. Mas só negociariam com Ibn Errik!


Descontentes com o facto de os mouros só negociarem com D. Afonso Henriques, os cruzados iniciaram uma série de motins, que quase deitaram tudo a perder, quando Lisboa estava já praticamente nas mãos do rei português.

26 de agosto de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa III



As negociações entre D. Afonso Henriques e os cruzados foram difíceis, pois estes exigiam riquezas que o monarca sabia não lhes poder dar.


Numa primeira reunião com os comandantes estrangeiros, o rei logo deixou claro não saber quão ricos eram os habitantes de Lisboa. Além disso, e em caso de conquista, pretendia evitar um saque, a fim de proteger a população moçárabe, que era tão cristã quanto eles. Em compensação, e como todos podiam ver, a região era fértil, de bom clima e, àqueles que escolhessem ficar em Portugal, ele daria terras e senhorios. De resto, o seu era um reino ainda pobre, situação que se agravava com a guerra contra os infiéis.

As exigências dos cruzados foram transmitidas por D. Pedro de Pitões, bispo do Porto, as negociações decorriam em latim entre os prelados portugueses e os estrangeiros:


- Em primeiro lugar, exigem todas as posses dos mouros vencidos.
- Querem deixar a minha gente de fora? - admirou-se Afonso.
- Em segundo lugar - prosseguiu o bispo, - insistem no saque, ao qual qualquer vencedor tem direito, e do qual também excluem os portugueses. Em terceiro, todos aqueles que ponderam a hipótese de ficar em Portugal, exigem manter os hábitos, direitos e costumes das suas terras, assim como isenção de portagens para os seus navios e produtos em todos os nossos portos e cidades. Sem falar, naturalmente, das terras e dos senhorios que vós lhes prometestes.

Apesar de não estar de acordo com todas as exigências, D. Afonso Henriques acabou por assinar um pacto. E distribuiu as tropas pelo terreno:


Os portugueses montaram o seu acampamento num morro a noroeste de Lisboa, cujo sopé estava rodeado por dois ribeiros, local que lhes permitia vigiar a alcáçova, a couraça, com a respectiva torre de vigia, e parte da muralha ocidental.
Ingleses e franceses posicionaram as suas tendas no cimo da colina a oeste da cidade, à frente da qual se estendia a extensa planície. Os dois ribeiros que rodeavam o morro dos portugueses juntavam-se nessa planura, formando o esteiro, cujas águas se vinham a confundir com as do Tejo. Estes cruzados vigiavam, assim, todo o pano de muralha ocidental, o que incluía a porta principal e a torre albarrã, na ponta sudoeste. Além disso, as suas naus controlavam a ribeira ocidental, uma praia de pescadores.
Os flamengos e os alemães estabeleceram-se a oriente de Lisboa, também sobre um cerro. Fechavam o círculo e as suas embarcações vigiavam a ribeira oriental, que era o porto por excelência. O pano de muralha perante eles incluía duas portas: al-maqbara, junto à alcáçova, assim chamada por dar acesso ao cemitério islâmico, e al-hamā, protegida por uma torre albarrã. Al-hamā eram os banhos públicos, que davam o nome, não só à porta, como a um bairro de mercadores nas suas imediações. À semelhança do lado ocidental, havia um arrabalde incrustado nas rochas que suportavam as muralhas.

Esta imagem não está bem enquadrada e, apesar de aumentada, as legendas são difíceis de ler. Mas mostra muito bem como se procedeu ao cerco. Foi retirada do livro Conquista de Lisboa, de Pedro Gomes Barbosa (Tribuna da História, 2004, Colecção Batalhas de Portugal).
A cidade de Lisboa, naquela altura, quase se resumia à zona do castelo de São Jorge, Alfama, Santa Justa e a Costa do Castelo. Onde hoje se situa a Praça do Comércio, havia um esteiro, que se alargava ao desaguar no Tejo (lembram-se da História do Cerco de Lisboa, de Saramago?). Nessa zona, havia uma praia de pescadores e, aqui, vêmo-la ocupada com os barcos dos cruzados. Fora de muralhas, havia dois arrabaldes: o ocidental (maior) e o oriental.
À esquerda, sobre o Monte Fragoso, vê-se o acampamento dos ingleses; a noroeste, no Monte de Sant'Ana, circundado por dois ribeiros, temos o acampamento português; a vermelho, o cemitério islâmico (almocavar), junto do qual se deu uma primeira escaramuça; à direita, sobre o Monte de São Vicente (mais ou menos onde hoje se situa a igreja e o Panteão Nacional), o acampamento dos flamengos e alemães. 

22 de agosto de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa I

Muralhas de Santarém

A notícia da chegada dos cruzados ao Porto terá apanhado D. Afonso Henriques ainda na região de Santarém, onde se quedava a solidificar o seu poder. O acontecimento causou grande euforia no reino, o que terá contribuído para que certos barões do norte, ofendidos por não terem participado na operação de Santarém, esquecessem as suas divergências com o monarca, pois todos eles participaram no cerco de Lisboa.


A notícia da conquista de Santarém espalhou-se rapidamente e, como Lourenço e Gonçalo tinham previsto, chegavam-lhes rumores do descontentamento dos barões do norte. Principalmente o alferes-mor Mendo de Bragança e o seu pai Fernando Mendes, o cunhado colérico de Afonso, estavam indignados.
Mas eis que, a 16 de Junho, se deu um acontecimento que provocou uma reviravolta e uma euforia nunca vista em todo o reino: uma armada de cruzados, duzentas galés, com cerca de quinze mil homens, atracou no Porto. E inúmeros portugueses prontificavam-se a participar no cerco a Lisboa.
Afonso mandou o Sousão às terras do norte, reunir os homens e convencer um ou outro barão mais renitente. Em direcção à cidade do Porto, com uma missiva dirigida ao bispo D. Pedro de Pitões, partiu Soeiro Viegas, o meio-irmão de Lourenço, filho do segundo casamento do falecido Egas Moniz.



D. Afonso Henriques não esteve no Porto, foi o bispo daquela cidade que ficou encarregado de convencer os estrangeiros a, pelo menos, fazerem uma paragem na foz do Tejo. Em A Cruz de Esmeraldas, apresento o discurso do bispo sob a perspectiva dos cruzados, pois um alemão de nome Konrad, originário da cidade de Colónia, é uma das personagens principais. Junto com o irmão Johann, de dezasseis anos, que possui bons conhecimentos de latim, por ter vivido num mosteiro, e mais dois amigos, ele assiste à pregação do bispo:


             Na manhã seguinte, o bispo do Porto fez a sua pregação no largo da Sé, o ponto mais alto da cidade. Tratava-se de uma ocasião solene, o prelado tinha a seu lado o arcebispo de Braga, representante máximo da Igreja Portuguesa, os bispos de Viseu e Lamego e um fidalgo cavaleiro em representação d’el-rei D. Afonso Henriques.
            Como o largo da Sé não era suficientemente grande para todos os quinze mil cruzados e D. Pedro Pitões pregava em latim, língua que apenas uma minoria entendia, a maioria resolveu esperar nos barcos pelos seus prelados, que lhe transmitiriam a mensagem do bispo. Konrad e os seus amigos pertenciam, no entanto, aos poucos mais de mil homens que assistiam à pregação, pois Johann não tinha dificuldades em traduzi-la.
            - O bispo chama a atenção para as obrigações dos bons cristãos - declarou o rapaz. - Diz que devemos colocar o serviço de Deus e da Cristandade à frente dos nossos desejos materiais. Portugal não é um reino rico, gasta muito na guerra contra os infiéis.
            - Isto não começa nada bem - comentou Hadwig. - Estarão eles à espera que os ajudemos por nada?
            - Ele pede-nos que não estejamos ansiosos por prosseguir viagem - continuou Johann. - Diz que o combate aos hereges aqui nesta terra é tão importante e tem tanto efeito sobre os nossos pecados quanto os combates na Terra Santa.
            Os outros olharam-se desconfiados e Konrad acabou por sussurrar:
            - Em Speyer, Bernardo de Claraval só garantiu absolvição para os combatentes na Terra Santa.
            - Mas estes mouros daqui não são infiéis como os outros? - indagou Gunther.
            Os outros encolheram os ombros e já Johann fazia sinal para que se calassem, enquanto ouvia atentamente o latim de D. Pedro Pitões.
            - Lembra-nos que as lutas contra os infiéis fazem parte de uma “guerra justa” - disse por fim. - Cruzados dignos desse nome não podem recusar a luta contra os infiéis, neste caso, os mouros cruéis. Mais diz que as lutas entre cristãos, não só enfraquecem a Cristandade, como são condenadas por Deus e pela Igreja. Combater só é pecado quando não tem o consentimento de quem dispõe da legítima autoridade: a Igreja.
            Neste ponto, alguns dos cruzados resolveram intervir. Exigiam saber com que recompensas podiam afinal contar, caso libertassem Lušbūna das mãos dos infiéis. O bispo do Porto retorquiu que se tratava de uma cidade rica, mas que ele não estava autorizado a negociar a recompensa. Por isso, pedia-lhes em nome d’el-rei que velejassem até à foz do Tejo, onde D. Afonso Henriques se encontraria com eles.
            Como já era de esperar, o inglês Hervey de Glanville e o seu prelado Gilbert de Hastings puseram-se ao lado dos portugueses. E no fim todos concordaram em navegar até Lušbūna, pois qual era o mal em ouvir o que D. Afonso Henriques tinha para lhes oferecer?


E assim se iniciou o grande movimento:


No Porto e em Gaia, a febre da conquista aumentava de dia para dia. Principalmente, as gentes mais pobres, incluindo mulheres e crianças, que nada tinham a perder, estavam dispostas a partir para as terras longínquas e desconhecidas, junto à foz do Tejo, na esperança de uma vida melhor. Muitos deles viajaram nos barcos dos cruzados, assim como o bispo do Porto e os restantes prelados, pois os estrangeiros acabaram por concordar em velejar até ao estuário do Tejo, a fim de negociarem pessoalmente com D. Afonso Henriques.

Nota: a azul, extractos de Afonso Henriques - o Homem, a castanho de A Cruz de Esmeraldas.

8 de julho de 2011

Conquista de Santarém III - o Ataque

Conquista de Santarém


O que a imagem não explicita é que o ataque a Santarém se deu pela calada da noite.

 
Escolhendo um momento propício, em que o vigia se encontrava mais longe, o moçárabe esgueirou-se com três companheiros até à muralha, enquanto o resto dos homens se mantinha escondido. Os quatro iam munidos de uma escada de pau, tosca e leve. Ao atingirem o sopé do muro, de cerca de quarenta pés de altura, quedaram-se silenciosos, pois já ouviam os passos do vigia fazer o caminho de volta. Esperaram até que ele estivesse mesmo por cima deles, o local onde o mouro, depois de um curto compasso de espera, tornava a dar meia-volta.
Assim que o sentiram distanciar-se, encostaram, com muito cuidado, a escada às muralhas. Com a sua adaga segura entre os dentes, Mem Ramires começou a trepar, silencioso e ágil, sem deixar de prestar atenção ao som dos passos do mouro. Quando ia a meio da escada, sentiu a sentinela parar. Logo se imobilizou. Bem sabia que o outro ainda não tinha dado os seus trinta passos, devia ter sentido alguma coisa. Assim ficou o moçárabe paralisado, de coração aos saltos, à semelhança do companheiro que subia atrás dele, alguns degraus mais abaixo. Os dois nem se atreviam a respirar, durante aquilo que se lhes assomava como uma eternidade. Finalmente, o vigia encetou a sua caminhada, sem mudar de direcção, pois os passos continuaram a distanciar-se.
A uns dez palmos de distância da ameia, Mem Ramires tornou a parar. O mouro já vinha de regresso, o que, aliás, fazia parte dos seus cálculos. Mas este era um momento decisivo. Os atacantes quedaram-se, mais uma vez, imobilizados e de respiração presa, rezando para que o vigia não desse por eles.
O mouro chegou ao local de partida, onde fazia o seu compasso de espera. Mem Ramires tinha a impressão de que ele, desta vez, se demorava mais tempo. Estavam bem perto um do outro: o mouro sobre o adarve, na ameia, a mesma que se encontrava à distância de dez palmos da cabeça do moçárabe, que o ouvia respirar, enquanto ele próprio não se atrevia a fazer uso dos seus pulmões. Além disso, sentia a escada de pau leve e elástico a bambolear, com o peso de dois homens sobre ela. Era o máximo que a construção aguentava. Mem Ramires sabia, por isso, que os restantes dois companheiros ainda se encontravam no chão. Se a escada quebrasse, ou o mouro desse por eles, estava a empresa perdida e D. Afonso não conquistaria tão cedo a cidade de Santarém. Mais do que a própria morte, Mem Ramires receava desiludir el-rei de Portugal.
O mouro reatou finalmente a sua marcha e o moçárabe, apesar de aliviado, não se esqueceu de expirar o ar devagar, antes de espreitar pela ameia. À sua direita, na direcção da porta de Atamarma, viu as costas do vigia, que se afastava. À sua esquerda, não descortinou vivalma. Enfiou-se pela ameia, aproximou-se silencioso da sentinela, agarrou-lhe no queixo por detrás e, num gesto preciso e rápido, cortou-lhe a goela com a adaga. O grito do mouro abafou-se num gorgolejar e Mem Ramires sentiu o sangue quente esguichar-se-lhe para as mãos.

Todos os quatro homens conseguem saltar para o adarve, neutralizar as sentinelas e abrir a Porta de Atamarma a el-rei e aos seus cavaleiros, antes de a cidade acordar por completo.


O chão começou a tremer debaixo de centenas de cavaleiros a galope. Aos ouvidos de Mem Ramires, este estrondo assomava-se mais doce do que as cantigas dos jograis. A patrulha mandada pelo alcaide, que já estava prestes a alcançá-los, tentou recuar, mas acabou esmagada debaixo das ferraduras dos cavaleiros vilãos.
Afonso e os seus homens foram-se infiltrando pelas ruelas da cidade, chacinando as sentinelas que se atreviam a fazer-lhes frente e avançando sem grande resistência até à alcáçova, onde o alcaide, vendo-se sem outra hipótese, se tinha barricado, juntamente com o grosso da sua guarnição. Os portugueses puseram cerco à muralha interior, que os mouros por sobre o adarve defendiam, disparando as suas bestas, cujos virotes trespassavam as cotas de malha. Mas também os cavaleiros vilãos usavam os seus arcos, permitindo que companheiros seus se aproximassem das portas, a fim de as desfazerem com os machados.
Finalmente, uma porta cedeu. O primeiro português penetrou na fortaleza montado sobre o seu cavalo, manejando o machado como um possesso para ambos os lados, atacando os mouros que encontrava pela frente e abrindo caminho aos seus companheiros. Alguns muçulmanos lograram espetar os seus sabres na barriga dos animais, obrigando os seus ocupantes a desmontar e a lutar corpo a corpo.
Os cavalos atacados esvaíam-se em sangue, dando gritos lancinantes. Também guerreiros feridos davam expressão à sua agonia. Mas os portugueses conseguiam levar a melhor naquela chacina. Aos poucos, iam penetrando na alcáçova, até abrir caminho ao próprio rei, ao Espadeiro e ao Cativo. Alguns avançaram até ao portão que dava acesso ao exterior, que abriram, permitindo a entrada do Sousão e dos seus homens.
Os mouros não resistiram por muito mais tempo. Os guerreiros de Afonso tomaram conta de todos os edifícios e compartimentos da fortaleza, matando os homens e violando as mulheres por sobre o sangue que manchava os tapetes e as almofadas das luxuosas alcovas.
Quando o Domingo, dia 15 de Março de 1147, amanheceu, já os gritos de sofrimento e agonia tinham cessado. E era o estandarte do rei português, com os seus escudetes azuis em forma de cruz, que a brisa sacudia no cimo da torre de menagem da alcáçova de Santarém.



Estava aberto o caminho para a conquista de Lisboa.