Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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11 de agosto de 2016

Amores de Dom Dinis


Fonte da imagem

Dom Dinis ficou para a História como um rei mulherengo e, de facto, teve bastantes filhos fora do casamento.
A este propósito, um excerto do meu romance em que o Rei Lavrador se encanta com uma protegida de Dona Isabel, o que lhe trará dissabores:

Dinis apercebeu-se que Isabel vinha ao seu encontro. E, ao lado da rainha, uma aparição encantadora paralisou o monarca! Cabelos louros e ondulados, coroados por um diadema de prata, enquadravam uma face alva, onde luziam olhos da cor do mar num dia estival. Um vestido rosa pálido envolvia um corpo bem proporcionado, de peito cheio e cintura fina.
O rosto delicado corou intensamente, quando Isabel lhe anunciou:
- É esta a donzela de quem vos falei!
- De quem… me falastes… - gaguejou Dinis atarantado.
- Mas será possível que constantemente olvideis Dona Branca Lourenço de Valadares?
- Dona…?
Dinis nem queria acreditar! Era aquela a filha do falecido Lourenço Soares de Valadares, que com ele colaborara na corte? A filha de quem o fidalgo chegara a relatar brincadeiras nos verdejantes vales minhotos? A donzela a quem ele haveria de arranjar um esposo…
- Não vos sentis bem? Pareceis um pouco pálido.
As palavras de Isabel trouxeram-no de volta à realidade, dando-se conta de que não podia fazer daquela moça sua barregã! Branca Lourenço de Valadares era uma donzela de apenas dezasseis anos, sob a proteção da rainha! Ele ia a caminho dos trinta e nove…
- Perdoai, foi um dia fatigante. - Concentrou-se em Isabel, a fim de recuperar a sua lucidez: - Principalmente a reunião com Afonso consumiu-me, como podeis calcular.
A rainha olhou na direção do infante:
- Parece-me bem-disposto.
- Com ele, nunca se sabe…
- É verdade. Mas mudemos de assunto, que estamos a confundir Dona Branca. - Virando-se para ela: - Podeis cumprimentar el-rei Dom Dinis!
O monarca pegou na mão frágil que se lhe estendia e, ao segurá-la, sentiu o encanto da juventude, experimentou sensações esquecidas. Depois de uma vénia, a donzela pousou nele os seus olhos azuis mar, espelhando o fascínio que a figura do monarca lhe causava.


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O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook na LeYa Online, na Wook e na Kobo.

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8 de agosto de 2016

Sentença Arbitral de Torrellas

Faz hoje 712 anos que se proferiu a Sentença Arbitral de Torrellas, na fronteira castelhano-aragonesa, estabelecendo a paz definitiva entre Aragão e Castela, o resultado de um longo processo, no qual Dom Dinis foi o medianeiro principal, apoiado pelo papa e pelo rei francês Filipe IV. É por isso estranho que o acontecimento seja praticamente desconhecido entre nós, não sendo referido, quando se enumeram as principais ocorrências durante o reinado do rei Lavrador.

Dinis e Isabel - Leiria.jpgEstátuas de Dom Dinis e Dona Isabel em Leiria

As disputas entre Aragão e Castela tinham a ver com a sucessão do trono castelhano, assunto por resolver desde a morte do avô de Dom Dinis, Dom Afonso X o Sábio, vinte anos antes. Em Junho de 1304, saiu de Portugal uma solene e enorme comitiva, que incluía quase toda a corte portuguesa. A presença da rainha Dona Isabel era imprescindível, já que o monarca aragonês Jaime II era seu irmão.

Isabel e Jaime cumprimentaram-se emocionados. Haviam-se separado há mais de vinte anos, nas idades de onze e catorze respetivamente. Dinis achou-os parecidos, também o cunhado possuía olhos e cabelos negros, estes cortados à altura do pescoço, com a sua franja curta. Jaime, no entanto, não ostentava a palidez da irmã, era robusto, nas suas vestes escarlates, bordadas a fio de ouro.
O herdeiro do trono português foi apresentado ao tio, que lhe elogiou a postura, arrancando-lhe um sorriso e espantando Dinis, que raramente assistia a tal reação por parte do rebento. O monarca aragonês fez ainda questão de mencionar a parecença do moço com o avô Pedro III, embevecendo Isabel. Dinis, por seu lado, ouvia-o contrafeito, apreciaria mais que o príncipe fosse parecido com ele… Como Afonso Sanches!

Dom Dinis tinha todo o interesse em que a paz fosse estabelecida na Hispânia, pois, embora Portugal não estivesse diretamente implicado, esta crise passava pela legitimação dos filhos do falecido rei de Castela, Dom Sancho IV. O seu sucessor, Fernando IV, ainda menor, era o noivo da infanta Dona Constança, filha de Dom Dinis e de Dona Isabel.

A comitiva portuguesa iniciou a viagem de regresso a 16 de Agosto, passou cinco dias em Valhadolid e só entrou em Portugal a 7 de Setembro.

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7 de agosto de 2016

O Rei Lavrador

A justificação mais comum para o cognome de Dom Dinis é o facto de ele ter mandado plantar o pinhal de Leiria. É uma justificação um pouco redutora, por duas razões:
- em primeiro lugar, Dom Dinis fomentou a agricultura em todas as suas vertentes;
- em segundo lugar, talvez tenha mandado plantar mais pinhais. O pinheiro bravo cresce depressa e Dom Dinis terá apostado nesta espécie, a fim de dar resposta ao consumo exorbitante de madeira que se verificava na Idade Média.

Dinis e Isabel - Leiria.jpg




Estátuas de Dom Dinis e Dona Isabel em Leiria






A este pretexto, um excerto do meu romance:

Urgia criar novos espaços agrícolas. Excetuando os vales férteis do norte do reino, os solos de argila arenosa não eram muito produtivos e a maior parte deles encontrava-se esgotada, ao mesmo tempo que a população crescia. Havia que aproveitar terrenos até ali insalubres, não só para produção de pão, vinho e azeite, mas também para o cultivo de leguminosas e fruta e o ganho de linho, burel e estopa.
Dinis aprendera com o pai a fomentar a agricultura e celebrava contratos minuciosos com os agricultores dos reguengos, chegando ao ponto de, no caso da vinha, neles mencionar a conveniente adubação, ou a renovação das cepas mortas por meio da mergulhia ou do plantio de novas vides, passando pela escava, cava, sacha, poda e empa.
Frei Martinho de Alcobaça explicava ao seu soberano como se fariam as abertas e quais as culturas que melhor se dariam no Paul de Ulmar. Assim que a drenagem estivesse concluída, Dinis distribuiria as terras, formando grupos de casais ou aldeamentos, em que os moradores seriam foreiros, ou seja, pagariam o foro à Coroa, que normalmente consistia num quarto daquilo que a terra produzisse.
Próximo da praia, apontando para as vastas dunas, o cisterciense declarou:
- As ventanias vindas do mar arrastam a areia para o interior, acabando por cobrir as terras aráveis. - Apontou para uma zona de floresta de pinheiro manso e acrescentou: - As árvores protegem os campos, mas são cada vez menos.
Dinis estava a par do problema da desertificação das florestas, a fim de satisfazer o consumo exorbitante de madeira, necessária à construção de travejamentos, tetos e soalhos, para não falar dos móveis e utensílios domésticos. Além disso, consistia praticamente no único material com que eram construídos estábulos, adegas, espigueiros e moinhos e servia ainda para aprestos agrícolas, desde forquilhas, ao carro e ao arado. A madeira era ainda o principal combustível. Sem lenha, não havia pão, alimentos cozinhados, nem um mínimo de conforto no Inverno. Dela se faziam igualmente estacaria para amparar culturas ou levantar vedações e fertilizantes do solo, quer através de folhagens apodrecidas, quer de cinzas, que serviam ainda para produzir sabão.
Como conciliar tão grande consumo com o travar da desertificação das florestas?
Dinis sabia que o pinheiro pertencia ao género de árvores que mais lestas cresciam e Frei Martinho acrescentou:
- O pinheiro bravo ainda se desenvolve mais rápido do que o manso, além de dar muito pez e resina. E com as agulhas, que se conservam muito tempo sem apodrecer, também se faz bom lume.
- Tomarei providências para que seja aumentada esta área florestal, substituindo o pinheiro manso pelo bravo, a fim de não só abastecer as populações de madeira, mas também evitar que a areia cubra as terras aráveis… Um procedimento que poderá aliás ser usado noutras zonas costeiras.

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28 de julho de 2016

Conflitos entre Dom Dinis e Dona Isabel

Os desentendimentos entre Dom Dinis e o seu herdeiro refletiram-se na sua relação com a rainha Dona Isabel, acusada, pelo marido, de se pôr ao lado do filho.

Dinis levantou-se irado, deixando o local sem proferir palavra. A caminho dos seus aposentos, porém, notou que Isabel o alcançava e lançou-lhe por cima do ombro:
- Nada tenho para falar convosco!
- Pois eu tenho algo para vos dizer!
Mais furioso do que nunca, resmungou, apressando os seus passos:
- Não estou interessado.
- Porque nunca vos interessais pelo que diz respeito ao vosso próprio herdeiro?
Dinis estacou. Na verdade, sentia a fúria dar lugar a um vago sentimento de culpa. Teria Isabel razão? Seria ele o responsável pela sede de protagonismo do filho? Sentia-se Afonso preterido em relação ao meio-irmão?
Virou-se para Isabel e confessou:
- Afonso não é o herdeiro com que eu sonhei.
- Afonso é o herdeiro que Deus vos deu! Não devíeis provocar a sua ira!
O rei tornou a exaltar-se:
- Eu ajo como bem entendo, com quem bem entendo!
Isabel declarou, como se proferisse uma sentença:
- Quem a ira semeia, a ira colherá!


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20 de julho de 2016

O Terceiro Manifesto

Excerto do meu romance, respeitante ao terceiro manifesto apresentado por Dom Dinis contra o seu filho e herdeiro, futuro Dom Afonso IV:

Dinis não descortinava maneira de prever o futuro. Nada mais lhe restava do que dar o contributo que achava adequado para o findar das calamidades: apresentou, a 17 de Dezembro, apenas uma semana depois do sismo, o seu terceiro manifesto, mais violento. Dirigia-o ao concelho de Lisboa, de quem pretendia, entre outros, apoio militar.
Mais uma vez, relatava os desmandos e violências perpetrados pelos apoiantes do príncipe, muitos deles degredados e malfeitores. E ia mais longe: escarnecia da intromissão da rainha e do apoio que o infante havia solicitado a Aragão, pois os que acompanhavam o filho nada tinham que devessem à rainha e o próprio príncipe nada tinha que viesse de Aragão, mas sim apenas do rei, seu pai. Concluía, desnaturando o filho: o Infante, pelas obras em que andou e anda e pelos seus cometimentos feitos até aqui, e que agora faz atacando o Rei, desnaturou-se do Rei e da sua terra e dos seus naturais.

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18 de julho de 2016

Dom Dinis e o seu herdeiro (2)



Mais uma cena de desentendimento entre Dom Dinis e o filho Dom Afonso:

A sentença do tribunal régio no processo dos herdeiros do 1º conde de Barcelos foi proferida a 3 de Janeiro de 1312. E, se já se previam vantagens para Afonso Sanches, a proporção do favorecimento acabou por surpreender! Martim Gil de Riba de Vizela, apesar de ainda não ser velho, foi-se muito abaixo, por andar enfermo. Resolveu abandonar o reino, exilando-se em Castela, nem os pedidos do infante herdeiro e do fidalgo aragonês Raimundo de Cardona o conseguiram demover da sua decisão.
- Como pudestes consentir tal? - O olhar do príncipe, normalmente enigmático, mostrava ao pai a tristeza e a indignação: - Levar um homem enfermo a exilar-se, um varão que tão bem serviu o reino!
- Exilou-se de sua própria vontade - retorquiu Dinis impassível.
Afonso fechou a mão num punho, apertando-a com toda a força:
- E tudo apenas para favorecerdes ainda mais o vosso bastardo!
Naquele punho tremente, Dinis constatou que a aproximação entre ele e o filho, operada com algum custo, nos últimos dois anos, estabelecera apenas uma ligação ténue, que ameaçava soçobrar sob o peso do exílio voluntário do 2º conde de Barcelos.


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15 de julho de 2016

Dom Dinis e o seu Herdeiro




Os desentendimentos entre Dom Dinis e o seu herdeiro, futuro Dom Afonso IV, haveriam de culminar numa guerra civil. No meu romance, os dois nunca verdadeiramente se entendem. Aqui, uma cena, em que o príncipe contava dezassete anos de idade:

Não havia como ignorar a existência de ciúmes e invejas, quiçá a formação de duas fações: uma, à volta do rei e de Afonso Sanches; outra, em torno do príncipe herdeiro e Martim Gil, causando grande preocupação em Isabel. Com razão! No dia seguinte, em pleno ambiente de festa na véspera das bodas, o sucessor de Dinis espantava-o ao anunciar a apresentação de um protesto!
Reuniu-se a família real, que incluía os bastardos. O príncipe estava como habitualmente acompanhado de Raimundo de Cardona e, além da rainha, encontravam-se presentes o bispo de Coimbra e chanceler-mor do reino Dom Estêvão Anes Bochardo, o alferes-mor Martim Gil de Riba de Vizela e o meirinho-mor João Simão de Urrô.
Dinis quis saber que documento o infante segurava na mão, ao que Afonso respondeu altivo:
- Trata-se do protesto que minha mãe proferiu, a 6 de Fevereiro de 1297, nesta mesma alcáçova, contra a legitimação dos filhos de meu tio Afonso. Hoje, na presença de todas estas testemunhas, eu, o príncipe herdeiro de Portugal, reitero este protesto!
Dinis quedou-se atónito por alguns momentos. Depois, lançou:
- Mas que despropósito!
- Muito me surpreende, meu pai, que não vejais o perigo de…
- Como vos atreveis a agredir vosso tio Afonso de tal guisa?
Gerou-se um momento de grande tensão, em que os presentes mal se atreviam a respirar. O monarca, como instância máxima, tinha o direito de interromper quem quisesse, mas evitava-o, principalmente com altos dignitários do clero e da nobreza. Agora, fazia-o com o infante herdeiro! Dinis desprestigiava o seu sucessor, à frente da família e das restantes personalidades.
O rei notava-lhe a fúria nos olhos negros, mas o jovem manteve a pose, um semblante que, aos dezassete anos, já revelava um carácter austero e disciplinado, não se permitindo um desvio, um excesso. Dinis não encontrava nada de seu, naquele filho. Como se Isabel o tivesse produzido sozinha!


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