Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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15 de janeiro de 2016

Transferência do Estudo Geral das Ciências

Foi em Janeiro de 1307 (não se sabe o dia exato) que se fez o pedido de transferência, de Lisboa para Coimbra, do Estudo Geral das Ciências, percursor da Universidade.

O Estudo Geral tinha sido fundado em Agosto de 1290, em Lisboa, através da bula De Statu Regno Portugaliae, emitida pelo papa Nicolau II. Poucos anos depois, iniciaram-se conflitos com a Casa da Moeda em relação ao terreno que Dom Dinis doara para a construção do edifício, no Campo da Pedreira à Lapa, perto do Mosteiro de São Vicente de Fora. Também haveria conflitos entre os estudantes e a população de Lisboa, embora os motivos, tanto para uns, como para outros, não sejam hoje claros. No meu romance, esforcei-me por dar uma explicação plausível:



O Estudo Geral continuava a ser um problema bicudo. A contestação dos escolares aumentava, pois a Casa da Moeda instalara-se definitivamente naquele que havia sido o seu edifício e o rei ainda não conseguira disponibilizar os terrenos para a construção de um novo. As querelas descambavam, muitas vezes, em autênticas zaragatas, que se alargavam à população residente à volta do bairro dos estudantes. Estes, por seu turno, reclamavam do monarca a proteção especial que Nicolau IV lhes havia destinado. E Dinis ponderava a transferência do Estudo Geral. Custava-lhe afastá-lo de Lisboa, mas a situação tornava-se insustentável.
Considerava a hipótese de Coimbra. O Estudo Geral teria de se situar obrigatoriamente numa cidade, já que era o bispo quem concedia o grau de licenciado aos estudantes. Santarém e Leiria, por exemplo, não sendo assento episcopal, possuíam apenas o estatuto de vila. Em Portugal, havia apenas nove cidades, tantas, quantos os bispos: a Braga arquiepiscopal à cabeça, seguindo-se Lisboa, Coimbra, Porto, Lamego, Viseu, Guarda, Évora e Silves.


A transferência para Coimbra foi autorizada pelo papa Clemente V em 26 de Fevereiro de 1308. No entanto, a Universidade mudaria de local, entre Lisboa e Coimbra, várias vezes, e só ficou definitivamente instalada junto ao Mondego muito depois da morte de Dom Dinis.

À altura da Fundação do Estudo Geral das Ciências de Lisboa, já existiam as Universidades de Paris, Oxford, Cambridge, Nápoles, Pádua, Montpellier e Salamanca, todas fundadas na primeira metade do século XIII. Bolonha, a mais antiga, foi fundada ainda no século XII.


Estátua D. Dinis em Coimbra

6 de fevereiro de 2011

Data e Local de Nascimento de D. Afonso Henriques

D. Henrique e D. Teresa, pais de D. Afonso Henriques


Muito se tem escrito e discutido sobre a data de nascimento de D. Afonso Henriques, pois estamos na altura do seu 900º aniversário, já que ele terá vindo ao mundo entre 1106 e 1111. Em 2009, reavivou-se a polémica iniciada nos anos 90, quando Viseu comemorou o aniversário, reclamando-se "berço do nosso primeiro rei". O historiador A. de Almeida Fernandes defendeu que o fundador da nacionalidade terá nascido naquela cidade, em Agosto de 1109.


De facto, na sua biografia de D. Afonso Henriques (Temas e Debates 2007), o Prof. José Mattoso, um dos maiores especialistas de História Medieval Portuguesa, considerou, na página 27, que "a demonstração feita por Almeida Fernandes alcança verosimilhança suficiente para se admitir como possível, ou mesmo a mais provável, até que outras provas sejam apresentadas em contrário."




Os vimaranenses não se conformaram. Barroso da Fonte, licenciado em Filosofia, jornalista e autor de vários livros em poesia e prosa e que, entre muitas outras funções que já exerceu na sua vida, foi Director do jornal O Comércio de Guimarães, assim como do Paço dos Duques de Bragança e do Castelo de Guimarães,  publicou Afonso Henriques: um Rei polémico (reimpressão 2010, Âncora Editora), onde, além de defender a tradição, relata a polémica à volta deste tema.




Com iniciativas destas, os defensores da tradição de Guimarães foram acusados de serem movidos apenas por interesses bairristas. Afinal, os especialistas defendiam a hipótese de Viseu e, por mais que custasse aos vimaranenses, teria que se reescrever a História!

A verdade, porém, é que o próprio Prof. Mattoso tem vindo, há cerca de um ano, a distanciar-se da tese de Almeida Fernandes. Começou por afirmar, num colóquio internacional, realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de 14 a 16 de Dezembro de 2009, que "o valor da hipótese do nascimento em Viseu depende do grau de certeza relativo ao ano. Ora, havendo contradição entre as fontes, não se pode considerar seguro o ano do nascimento sem discutir o seu valor. Consequentemente também o lugar é incerto." Reiterou esta opinião no seu contributo para a História dos Reis de Portugal (Quidnovi 2010).





Num estudo publicado na Medievalista online Nº 8, o Dr. Abel Estefânio chega à conclusão de que os anos mais prováveis para o nascimento de D. Afonso Henriques são os de 1106 e 1110. As divergências "resultam dos problemas de transmissão textual, da complexidade e da confusão entre os diferentes métodos de cálculo de datas utilizados, num tempo em que não havia calendários".

Exponho, agora, o que, quanto a mim, invalida a tese "Agosto de 1109, em Viseu", à semelhança do que fiz na Nota Final do meu romance Afonso Henriques o Homem. Na citada biografia, em que o Prof. Mattoso nos diz que a hipótese de Viseu é a mais provável, lê-se, algumas páginas mais à frente (página 31) que D. Afonso VI, por ocasião das Cortes de Toledo no Verão de 1108, rompeu o vínculo de fidelidade com o genro, o conde D. Henrique, pai do nosso primeiro rei. Este teria, então, encetado uma viagem à sua Borgonha natal, regressando cerca de um ano mais tarde, no Verão de 1109. Ora, se D. Teresa não o acompanhou, ficando o casal afastado um do outro durante um ano, como poderia D. Afonso Henriques nascer à altura do regresso do pai? Para nascer em Agosto de 1109, o fundador da nacionalidade teria que ser gerado em Dezembro de 1108. Mas, nessa altura, pelos vistos, seu pai estava na Borgonha, enquanto sua mãe se quedava por terras portucalenses!!!

Talvez os historiadores devessem, de vez em quando, considerar os aspectos prosaicos da vida





Não há um outro lugar no nosso país, onde se sinta tanto a presença de D. Afonso Henriques, como na chamada Colina Sagrada, coroada pelo Castelo de Guimarães.



E, sendo as fontes tão contraditórias, minando as hipóteses de que este problema algum dia possa ser resolvido, fiquemo-nos pela tradição: D. Afonso Henriques nasceu entre 1106 e 1111, em Guimarães!


3 de janeiro de 2011

D. Dinis, o seu Aniversário e a Universidade Portuguesa

D. Dinis nasceu a 9 de Outubro de 1261, ou seja, em 2011 completam-se 750 anos sobre a data. Não sei se a efeméride passará despercebida, ou se se procederá a algum tipo de comemoração. A cidade de Coimbra teria boas razões para assinalar o acontecimento, mas, acima de tudo, Lisboa.

É curioso constatar que os dois reis mais significativos da nossa Idade Média estão, pela tradição, ligados às cidades "erradas". D. Afonso Henriques é identificado com Guimarães. Foi lá que ele assentou arraiais na sua juventude, talvez até lá tenha nascido (também aqui hei-de abordar a polémica do seu nascimento). A verdade, porém, é que foi em Coimbra que o primeiro rei estabeleceu a sua corte, fundando o mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz, no início dos anos 1130, data a partir da qual poucas vezes esteve em Guimarães, até à sua morte, em 1185 (são mais de cinquenta anos).

Claustro da Igreja de Santa Cruz de Coimbra


Por sua vez, a "cidade querida" de D. Dinis era Lisboa. Seu pai, D. Afonso III, foi o primeiro monarca a estabelecer a corte definitivamente na cidade junto à foz do Tejo.

Vista sobre o Tejo a partir do Castelo de S. Jorge


A segunda cidade preferida de D. Dinis parece ter sido Santarém (que, à altura, era vila, por não ser assento episcopal) e só em terceiro lugar viria Coimbra (não esquecendo que Leiria contava igualmente entre as preferências do par real). Para a identificação da cidade junto ao Mondego com o Rei Lavrador contribuiu, acima de tudo, a sua esposa D. Isabel, que lá viveu recolhida, depois de enviuvar, no mosteiro de Santa Clara. E foi lá, nos Paços que a Rainha Santa habitou, que se deu a tragédia de Inês de Castro.

D. Dinis ficou conhecido, acima de tudo, por ter fundado a primeira Universidade Portuguesa, primeiramente apelidada de Estudo Geral e cujo verdadeiro berço foi a cidade de Lisboa. A esse propósito, cito, mais uma vez, o meu romance:

 
De facto, eram várias as matérias a considerar, por exemplo, a escolha de um local para o Estudo Geral. Dinis resolveu construir um edifício de raiz, onde funcionassem as aulas e onde se acomodassem os estudantes de poucas posses. O rei acabou por decidir instalar a instituição no Campo da Pedreira, abaixo do Mosteiro de São Vicente, junto à Lapa. O terreno pertencia ao capítulo da Sé de Lisboa, pelo que o monarca tencionava permutá-lo com as rendas de casas ou tendas que valessem por ano trinta e cinco libras. O Estudo Geral ficaria assim situado no extremo sudeste de Lisboa, nos limites das freguesias de Santo Estêvão de Alfama e de São Vicente de Fora.

S. Vicente de Fora visto do Castelo de S. Jorge


Decorria o ano de 1289. E só dezoito anos mais tarde o Estudo Geral seria transferido para Coimbra. Sobre as razões, pouco se sabe, fala-se em desentendimentos entre os estudantes e a população lisboeta, havendo, pelo meio, uma confusão com a Casa da Moeda, que D. Dinis instalou no edifício, em princípio, destinado ao Estudo Geral.

A polémica não ficou por aqui. No reinado do filho, D. Afonso IV, a Universidade tornou a ser transferida para Lisboa, regressando a Coimbra apenas em 1354, já reinava o neto D. Pedro I, quase trinta anos depois da morte de D. Dinis.

(Para ler mais excertos do romance clicar na etiqueta Citando o Lavrador).