Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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16 de abril de 2019

A Igreja Católica em crise



Sou assinante de um jornal católico alemão semanal, o KirchenZeitung, ou KiZ, na sua abreviatura oficial, pertencente ao bispado de Hildesheim. Nos últimos tempos, traz um ou mais artigos sobre o abuso sexual de menores dentro da Igreja Católica em quase todas as suas edições. Há quem ache que é demais e apele a que se deixe o assunto em paz. Já se admitiu que o problema existe. Não chega? Até porque, felizmente, os clérigos abusadores não são a maioria.   

Surdo a tais apelos, o KiZ insiste no assunto. E eu aplaudo. Porque é disso mesmo que os prevaricadores estão à espera: que, depois de se fazer uma balbúrdia à volta do assunto, o caso adormeça e eles possam voltar a maltratar as suas vítimas na paz do Senhor. Como sempre foi, durante séculos e séculos. Uma teia impenetrável de prevaricadores e coniventes, que abafam os crimes, que nunca castigam os criminosos, levando a Igreja de Cristo a esta situação incomportável: protecção dos criminosos, em vez de protecção das vítimas! Dizia, há tempos, uma colaboradora desse jornal: é inadmissível que um padre que o deixe de ser, a fim de se casar, seja tratado de forma mais dura pela sua Igreja, do que aqueles que abusam sexualmente de crianças!

 
Tenho lido relatos incríveis de antigas vítimas. Também há mulheres, mas a maioria parece ser homens. Em todo o caso, trata-se de pessoas que, só aparentemente, levam uma vida normal, pois não se livram de depressões, insónias, ataques de pânico e tentativas de suicídio durante toda a sua vida. Pessoas com asco de si próprias. Pessoas que tornam a recordar coisas que julgavam esquecidas, por exemplo, quando têm filhos, levando-as a cair novamente num poço escuro e frio, chegando a ficar com medo de tocar nas crianças (as suas crianças) de forma imprópria.

É duro ouvir um homem de sessenta anos dizer que se martirizou com pensamentos de pecado, ao lembrar-se de como regozijou ao saber que o padre, que abusara dele durante dois anos, ia ser transferido para outra paróquia. Na festa de despedida, toda a gente estava triste, por aquele padre tão simpático se ir embora. E ele, um miúdo de 11 ou 12 anos, estava feliz. E censurou-se por isso! É duro ler como bispos regiam autênticas redes de troca de menores. É duro ler como um padre, ganhando a confiança de uma família, a ponto de fazerem férias juntos, abusasse do miúdo, que dormia com ele, enquanto os pais dormiam no quarto ao lado, pensando que o filho não poderia estar entregue em melhores mãos.

Este último caso ilustra como a Igreja tem responsabilidades acrescidas. O Papa Francisco desiludiu no seu discurso de encerramento do encontro extraordinário de bispos em Roma, a fim de debater o assunto, há cerca de dois meses, ao relembrar que abusos sexuais a menores acontecem em todos os lugares onde adultos estão em contacto com crianças e jovens, como clubes desportivos, colónias de férias, lares, etc. Esta relativização caiu mal a muita gente, pois não se pode comparar o prestígio de um clérigo, representante de Deus na Terra, com o de um treinador de ginástica. Além disso, aconteça onde acontecer este crime, não pode ser nunca menorizado ou relativizado. Muitos se perguntam o que levou um Papa, normalmente tão acutilante e corajoso, ficar-se por discurso tão modesto. Por isso, escolhi a fotografia acima para ilustrar este post (igualmente copiada do KiZ): o Papa mostra-se abatido e encolhido, como se o peso que carrega nos ombros se tenha tornado demais para ele.

Numa altura de falta de padres e de igrejas quase vazias, escândalos deste tipo minam a confiança na instituição milenar. Não há dúvida de que a Igreja vive uma grande crise e só resolverá o problema com uma grande reforma. Alguns bispos alemães dão os primeiros passos, apesar de sofrerem a contestação de muitos dos seus pares. O novo bispo de Hildesheim, por exemplo, afirmou, numa entrevista, que a ganância do poder está inscrita no DNA da Igreja. Foi naturalmente muito contestado. Mas também apoiado. Porque ele pôs o dedo na ferida. Os abusos impunes de menores só se tornaram possíveis, porque a Igreja se transformou num clube de homens que se protegem uns aos outros, a fim de manterem o seu poder.

O bispo Heiner Wilmer não se deixa intimidar e constituiu uma comissão que deverá investigar os casos de abuso sexual no seu bispado entre os anos 1957 e 1982, o tempo de regência de um bispo muito querido e conceituado, mas que se desconfia que fazia parte de uma rede de troca de rapazinhos, algo que caiu como uma bomba entre os católicos alemães que se lembram dele, até agora, com muita saudade. Os elementos da comissão investigadora não são clérigos, nem estão particularmente relacionados com a Igreja, a fim de garantir a sua independência. E o bispo Heiner Wilmer prometeu pôr todos os arquivos à disposição dos investigadores. Este é um dos problemas, quando se trata de investigar: a retenção de informação por parte da Igreja.

Quatro pessoas fazem parte da comissão: dois psicólogos, que se encarregarão de entrevistar possíveis vítimas e outras testemunhas; um procurador-geral reformado que, durante quinze anos, presidiu a uma comissão que investigou crimes nazis em Ludwisburg, e a antiga Ministra da Justiça da Baixa Saxónia (um Land alemão) que presidirá à comissão (informações tiradas do Kiz nº 14, de 07 de Abril passado).

O facto de estar uma mulher à frente desta comissão não é por acaso. O bispo Heiner Wilmer é de opinião de que a Igreja Católica só tem a ganhar envolvendo mulheres nos seus assuntos. Mais: ele considera ser essencial a participação de mulheres na reforma que se exige, não excluindo a sua ordenação.

Foi com agrado que, apesar das críticas que lhe são feitas, constatei haver colegas seus a seguir-lhe o exemplo. No último KiZ (nº 15, de 14 de Abril), li que o bispo de Osnabrück, Franz-Joseph Bode, considera a discussão do papel da mulher na Igreja como urgente, central e inevitável. Na sua opinião, a Igreja Católica está a desmoronar e só pode recuperar a confiança, quando mulheres e homens trabalharem em conjunto. Li igualmente com muito agrado que o bispo de Limburg, Georg Bätzing, pretende igualmente constituir uma comissão, a fim de investigar os abusos sexuais no seu bispado nos últimos setenta anos. A comissão será constituída por duas pessoas não ligadas à Igreja e terão de ser um homem e uma mulher.

Não se trata, aqui, de quotas ou de calar críticas. Trata-se, acima de tudo, de enquadrar mulheres nos meandros da Igreja, quebrando o monopólio dos homens que se apoiam e protegem mutuamente. Desejo muito que isso aconteça. Não porque as mulheres sejam, em geral, melhores do que os homens, mas porque a sua presença quebrará a irmandade masculina. Além disso, a sua opinião deve ser ouvida. Os homens são apenas metade da Humanidade. Nos dias de hoje, não há razão para que sejam apenas eles a decidirem sobre assuntos que digam respeito a toda a Humanidade. Na verdade, impressiona-me que tal procedimento tenha funcionado durante milénios!

Sigo tudo isto com grande interesse, não para atacar a Igreja Católica, mas numa grande esperança de que ela se consiga renovar. A Igreja enfrenta um dos maiores desafios da sua História e urge redefinir o seu papel. Para que serve, hoje em dia? Apenas para baptizados, comunhões, casamentos e funerais? Não podemos esquecer as suas tão necessárias missões caritativas espalhadas pelo mundo. E a Igreja Católica alemã tem-se concentrado noutras causas: o apoio aos refugiados (nos últimos anos, entraram cerca de dois milhões, neste país) e a ecologia. Sim, a preservação do ambiente, aliada à causa animal, tem-se tornado, cada vez mais, uma causa da Igreja. A razão? Proteger a Criação Divina.

Seria bom que a Igreja portuguesa lhe seguisse o exemplo, fomentando o debate sobre temas polémicos e se deixasse de dogmas ultrapassados, a fim de se dedicar a causas realmente importantes.

Nota: texto publicado originalmente aqui


24 de março de 2018

Escravos

© Foto: Pixabay/SammisReachers


Quem pensa que a escravidão é coisa do passado, engana-se. Hoje em dia, há cerca de 40 milhões de escravos no mundo! Ficamos escandalizados, não é? Pois a verdade é que todos nós beneficiamos do trabalho escravo!

Mais irónico ainda é que um escravo nunca foi tão barato como hoje! Convertendo os preços para valores atuais, pode dizer-se que um escravo, no século XIX, custava algumas dezenas de milhar de euros. Ora, segundo a Walk Free Foundation, o preço mais barato de um escravo dos nossos dias é de apenas 20 euros!

Considera-se trabalho escravo quando as pessoas não recebem salário, são mal alimentadas, exercem o trabalho sob ameaça ou castigos, não se podem movimentar livremente, assim como não se candidataram livremente para o trabalho que exercem, nem aceitaram as condições a priori. A maior parte dos escravos trabalha na agricultura, na pesca, na construção civil, ou como empregados em casas particulares (na sua maioria, aquilo a que chamamos “criadas de servir”). As mulheres são mais suscetíveis de cair na escravidão do que os homens, pois são elas as maiores vítimas da exploração sexual, a que se juntam os casamentos forçados, nos quais a maior parte delas vive em condições escravizantes.

Por mais que nos esforcemos, é quase impossível para nós, consumidores, evitar comprar produtos que, em algum momento, dependeram de trabalho escravo. Só para dar alguns exemplos: muitos dos camarões que compramos são alimentados com farinha de peixe originária da Tailândia, confecionada através de trabalho escravo; a carne de porco que consumimos pode ter origem em animais portugueses, mas estes foram talvez alimentados com soja brasileira, proveniente de quintas que sobrevivem à custa de trabalho indigno; os smartphones (telemóveis) existem, graças a minerais raros provenientes do Congo, extraídos por escravos, não só adultos, como também crianças; muitos carros contêm aço brasileiro, obtido igualmente através de trabalho escravo.

Há situações ainda mais difíceis de detetar, já que é longa a cadeia de produção e opaca a estrutura laboral ligada a certos serviços. Quando pensamos, por exemplo, no vestuário produzido em condições duvidosas, estamos a considerar as trabalhadoras das fábricas têxteis asiáticas. Mas o problema é muito mais profundo. No caso do algodão, por exemplo, começa na sua colheita e passa pela preparação e fiação. Por isso, de pouco adianta as lojas fazerem contratos com fábricas, nas quais as trabalhadoras são respeitadas. O mesmo acontece em relação ao chá plantado e colhido à mão na Índia.

A solução não está à vista. Os responsáveis estão bem escondidos na densidade das estruturas comerciais do nosso mundo globalizado. Seriam precisas mudanças estruturais a nível económico, social, cultural e jurídico. A escravidão assenta na pobreza, no desemprego, nas crises económicas, nos conflitos armados e nas catástrofes naturais.

Também não adianta exigir leis mais rigorosas. A escravatura é proibida em todos os países do mundo, com a exceção da Coreia do Norte.

Mas, afinal, o que podemos fazer? Apoiar políticos, instituições e organizações que combatam o trabalho escravo, estar atento às suas recomendações e iniciativas, é um bom começo.


Nota: informações obtidas no jornal católico alemão KirchenZeitung, edição nº 4, de 28-01-2018.


10 de dezembro de 2017

Tigres de Papel




«Mas parece-me que se passa qualquer coisa na nossa sociedade: muitos americanos parecem ter deixado de entender o que um líder deve ser, confundindo voz grossa e beligerância com firmeza. Porquê? Será a cultura das celebridades? Será desespero da classe trabalhadora, canalizado para o desejo de slogans fáceis? Não sei».

São palavras de Paul Krugman, economista norte-americano, Nobel de Economia em 2008, originalmente publicadas no The New York Times, traduzidas e publicadas na revista Visão (6 de Abril de 2017).

Paul Krugman diz que não sabe. Pois eu arrisco dizer que este não é um problema exclusivo dos Estados Unidos, nem sequer atual. Os humanos, em geral, sempre confundiram «voz grossa e beligerância com firmeza». Vivemos de aparências, daquilo que impressiona à primeira vista. Somos muito manipuláveis e, de vez em quando, aparece alguém capaz de usar na perfeição os artifícios necessários. Dá a ilusão de segurança e de que sabe o que quer.

Adoramos tigres de papel. Mas o problema não é novo e não aprendemos nada com a História.