Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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6 de dezembro de 2013

O que tem D. Afonso Henriques a ver com o Pai Natal?






No dia de São Martinho, o infante D. Sancho festejou o seu trigésimo primeiro aniversário. Foi a última vez que o velho rei deixou os seus aposentos.
O seu fim aproximava-se e, apesar de todos se desdobrarem em cuidados com ele, Afonso pensava muito em Teresa. Sabia-a feliz e segura na Flandres. Mas, de todas as mulheres que amara, era sem dúvida daquela filha que ele sentia mais saudades e seria ela quem mais gostaria de ter a seu lado.
O seu estado piorava de dia para dia e, apesar de a morte representar o alívio do seu sofrimento, ele receava-a. Em momentos de mais desespero, pedia que lhe trouxessem o neto. Ao tocá-lo, Afonso sentia-se imortal. Aquela criança de meses dava-lhe a certeza de que a sua obra persistiria. Seria o terceiro rei de Portugal, o segundo com o seu nome. E D. Afonso II teria igualmente os seus filhos e netos…

Afonso Henriques morreu a 6 de dezembro de 1185. Foi sepultado no túmulo do mosteiro de Santa Cruz, onde a rainha D. Mafalda jazia há quase trinta anos.

 In Afonso Henriques, o Homem


Passam hoje, portanto, 828 anos pela morte de D. Afonso Henriques. E este é igualmente o dia do falecimento de São Nicolau, bispo de Mira, no século IV. A Alemanha é um dos países em que se celebra a festa de São Nicolau. Dita a tradição que o santo distribui presentes pelas crianças. Os presentes passaram a doces, pelo que os mais pequenos costumam receber, neste dia, guloseimas dos pais e parentes. Nalguns mercados de Natal alemães, surge mesmo a figura do bispo São Nicolau, a distribuir a almejada doçaria.


Acontece que foi a figura de São Nicolau que deu origem à do Pai Natal, criada nos EUA. Em Portugal, o santo inspira as festas de estudantes de... Guimarães, intituladas de Festas Nicolinas.
Ele há coincidências...


5 de outubro de 2013

870º Aniversário da Conferência de Zamora

Conferência de Zamora

Parece ser mais correto falar da «Conferência de Zamora», do que do «Tratado de Zamora», já que não há certeza de que tenha havido algum tratado. Mas é certo que houve uma conferência com a presença do legado papal Guido de Vico. Afonso VII terá reconhecido o título real a Afonso Henriques. Mas tê-lo-á libertado da sua suserania?

Um acontecimento polémico, que continua a suscitar muitas dúvidas. A fim de obter mais informações, leia o que escrevi aqui e aqui.


16 de fevereiro de 2013

Afonso Henriques em 3D

Depois de terem sido achados os restos mortais de Ricardo III, em Inglaterra, eu exprimi o desejo de ver uma representação em 3D de D. Afonso Henriques, ou de D. Dinis. Na caixa de comentários, desenvolveu-se uma conversa interessante sobre se realmente compensa fazer esse tipo de retratos, ou se cada um deve guardar para si a imagem que tem dessas personalidades, que não foram fotografadas, nem, sequer, pintadas.

manuelmorgado.com

A conversa acabou por puxar o assunto da abertura do túmulo de D. Afonso Henriques, algo que, aliás, já aconteceu por três vezes. A primeira foi no reinado de D. Manuel. Ao visitar as sepulturas originais de D. Afonso Henriques e de seu filho D. Sancho I, D. Manuel não as achou dignas e mandou fazer novas. Estando estas concluídas, o monarca quis assistir à trasladação dos restos mortais. E há um relato da época que diz o seguinte:

No Anno seguinte d'esta eleição, 1520 em os 16 dias do mês de Julho, estando o sereníssimo Rey Dom Manuel nesta cidade de Coimbra, veio a este seu real mosteiro à tarde e mandou abrir as sepulturas antigas dos primeiros dois Reys deste Reyno seus predecessores: Achou o corpo do devoto Rey Dom Affonso Henriques inteiro, incorrupto, a carne seca, e a cor pálida, e macilenta, mas de aspecto severo que parecia estar vivo, do qual sentia cheiro suavíssimo (...) Era el-rei de gigantesca estatura, de des palmos (2,20m) em comprido e de quatro de largo pellos peitos, e a perna que quebrou nas portas de Badajos era mais curta que a outra três dedos.
... Esta memoria deixou escrita João Homem, cavaleiro fidalgo da casa del Rey Dom Manuel que com elle se achou presente, e vio tudo com seus olhos.

Depois desta trasladação, abriu-se a sepultura mais duas vezes: em Setembro de 1732 e em 23 de Outubro de 1832. A primeira terá a ver com a tentativa de canonizar D. Afonso Henriques, tentando verificar a incorruptibilidade do corpo. Desta abertura, porém, pouco ou nada se sabe.
A 23 de Outubro de 1832, o túmulo terá sido aberto na presença de D. Miguel que, passando por Coimbra, quis ver os restos venerados do nosso primeiro rei. O ato foi noticiado na «Gazeta de Lisboa» nº 268 e passo a transcrever um extrato:

A sua caveira estava inteira, e mostrava ainda todos os dentes no seu logar menos um; as dimensões do craneo, e mais partes da cabeça eram grandes, e proporcionados os ossos dos braços e pernas, os quaes comparando-se com os da figura superior do tumulo se achou perfeitamente coincidirem com as dimensões respectivas, tendo 10 palmos (2,20m) de comprimento, como refere a História haver tido de altura o herói.

Enfim, é difícil de dizer se devemos acreditar nestas descrições. Não estou a acusar os seus autores de má fé, mas é verdade que, antigamente, havia muita relutância em quebrar com tradições e mitos, pelo que não se hesitava em "modelar" a realidade, como nos diz o Prof. Mattoso: «Não me admira que, depois da morte, o considerassem um grande homem, no sentido moral, e que essa qualificação tivesse passado para uma ideia física. O fundador da nacionalidade tinha de ser um homem grande. Devia ser um homem de grande vitalidade, pelas crónicas. Dirigia os combates em pessoa».

O historiador chama-nos, ainda, a atenção para que, da primeira vez, se falava de um corpo inteiro, incorrupto (...) do qual sentia cheiro suavíssimo, tratando-se de um testemunho que considera mais resultante da veneração tributada ao rei do que de uma observação objectiva. Ao tempo de D. Miguel, já não se fala do corpo, mas apenas de ossadas, que, aliás, «continuam a ser as de um gigante». 2,20m de altura parece-me, porém, demais, penso que um homem dessa estatura, apesar de forte, teria muita dificuldade em ser ágil, no campo de batalha.

Túmulo de D. Afonso Henriques, na Igreja de Santa Cruz, em Coimbra
Em Julho de 2006, esteve marcada mais uma abertura do túmulo, a fim de se analisarem os restos mortais com os métodos modernos. O próprio Prof. Mattoso afirmou: «Vai ser interessante comparar essa ideia com os resultados dos exames antropológicos sobre toda a compleição física». O ato estava a cargo de Eugénia Cunha, investigadora da Universidade de Coimbra, mas foi cancelado, à última da hora, pelo IPPAR.

Foi pena, na minha opinião. Claro que devemos respeitar os mortos e talvez seja melhor ficarmos com a nossa imagem de D. Afonso Henriques. Mas eu sou curiosa e gostaria de saber que "segredos" uma investigação desse tipo nos poderia revelar.

Nota: as descrições dos restos mortais aqui transcritas encontram-se no 1º Volume de Grandes Enigmas da História de Portugal (págs. 164 a 168), Ésquilo 2008


6 de dezembro de 2012

A Vida do Conquistador - "download" grátis


E é assim que eu assinalo este aniversário sobre a morte de D. Afonso Henriques. Reuni os posts aqui publicados num texto formato PDF, que pode ser descarregado gratuitamente aqui, ou lido em iPAD e iPOD (ou noutros dispositivos, mas eu não conheço todos) e que, por isso, atrevo-me a denominar de ebook.

Desde a Batalha de São Mamede, à Conquista de Lisboa, desde a Conferência de Zamora, à Bula Manifestis Probatum, dando ainda lugar às duas mulheres mais importantes na vida de D. Afonso Henriques, são referidas as etapas mais importantes do seu percurso, acompanhadas de excertos de Afonso Henriques o Homem e A Cruz de Esmeraldas (este, para o cerco de Lisboa). Além de ser historicamente informativo, pode servir de teste para quem esteja interessado nos romances.

Nota: se o link não funcionar, contacte-me para andancas@t-online.de e eu enviarei o ficheiro PDF na resposta ao email.

Nota 2: A fotografia que serve de fundo à capa, tirada no Castelo de São Jorge, é da autoria de Horst Neumann (a minha cara-metade).


20 de novembro de 2012

Bula "Manifestis Probatum"

aqui e aqui falei na dificuldade de atribuir uma data para a independência de Portugal. Acrescente-se que uma situação dessas não é anormal, tendo em conta que estamos a lidar com a Idade Média, uma época em que ainda não se entendiam as nacionalidades como hoje em dia. Não existiam fronteiras definidas e o poder estava na mão de potentados regionais, que, em determinadas circunstâncias, conseguiam alargá-lo, ousando ignorar a autoridade de reis e imperadores. Afonso Henriques não foi caso único na Europa, ou na Cristandade, como se dizia. A haver uma entidade superior, seria a Santa Sé, mas mesmo essa se revelou dúbia, durante décadas, quanto ao caso português.

Só no Verão de 1179, D. Afonso Henriques terá segurado nas mãos o reconhecimento oficial da independência de Portugal. O papa Alexandre III emitiu a Bula Manifestis Probatum a 23 de Maio de 1179 e, tendo em conta as viagens morosas daquela época, essa prova documental terá chegado à corte coimbrã, na melhor das hipóteses, cerca de dois meses mais tarde, ou seja, na segunda quinzena de Julho.

Imagem daqui
D. Afonso Henriques estava, em 1179, velho e muito debilitado. Tinha cerca de 70 anos e já há dez que se encontrava incapacitado, na sequência do desastre de Badajoz. Parece certo que não se conseguia mover pelos próprios meios, o que lhe deixaria os músculos muito fracos e ele próprio estaria mais sujeito a doenças e infeções. Ainda assim, só morreria a 6 de Dezembro de 1185, constituindo um caso raro de longevidade, na época, sobretudo, considerando as circunstâncias em que viveu os seus últimos 15 anos.

A chegada da Bula Manifestis Probatum à corte portuguesa deve ter sido um momento muito emocionante para o velho monarca.



            O príncipe foi receber os recém-chegados, enquanto Afonso, que já passara dos setenta, se limitou ao seu cadeirão, incapaz de se mover. Tentava manter a calma, enquanto o cónego D. Pedro Feijão ali ficou, como que a tomar conta dele, observando-o, preocupado. Nisto, surgiu a infanta Teresa, olhando-o igualmente cheia de cuidados, puxando uma cadeira a fim de se sentar ao lado dele, o que o fez exclamar:
            - Mas que é isto? Estão todos com medo que eu não aguente as novidades e me dê algum fanico?
            O arcebispo, acompanhado pelo infante e pelo seu capelão, fez uma entrada triunfal, saudou eufórico os presentes. Depois, foi direito ao monarca, pegou-lhe nas mãos e anunciou:
            - Boas notícias, D. Afonso! Trago boas notícias!
            Sentou-se no cadeirão que lhe estava destinado e o capelão passou-lhe um invólucro cilíndrico de couro para as mãos, que D. Godinho segurou como se de uma das sete maravilhas do mundo se tratasse. Tirou lá de dentro um pergaminho enrolado e anunciou:
            - Isto, meus senhores, é a bula Manifestis probatum est, de 23 de Maio deste ano, e que eu recebi directamente das mãos do Santo Padre!
            Fez um sinal ao capelão para que este depusesse o documento nas mãos do monarca. O prelado assim fez e, perante a expectativa de todos os presentes, Afonso desenrolou o pergaminho, de mãos trementes. Mas estava incapaz de ler fosse o que fosse. Não era só a agitação que o atacava. Além de ter esquecido tudo o que sabia de latim, há anos que a sua visão vinha piorando. Tinha a impressão de que um véu se lhe formava em frente dos olhos, no início, muito fino, mas ia ficando cada vez mais espesso. Acabou por entregar o documento à infanta a seu lado, pedindo:
            - Lê, filha, lê!
            Teresa fez uma primeira leitura em silêncio e anunciou emocionada:
            - O Papa reconhece-vos o título de rei, meu pai!
            - Finalmente - disse Afonso, de lágrimas nos olhos.
            O arcebispo sorriu ao infante e ao chanceler-mor, muito satisfeito. Depois, pôs-se a limpar o suor da testa e do cachaço e ordenou ao capelão:
            - Tenho sede, arranjai-me qualquer coisa para beber! - E, virando-se para os lados: - É que está um calor de rachar, não é verdade? E, apesar de esta etapa de hoje ter sido curta, a gente ainda veio a cavalgar algumas horas.
            O infante Sancho, a quem a ansiedade fizera esquecer aquele pormenor, logo chamou um lacaio, que fosse buscar um refresco de vinho. Teresa ia lendo o conteúdo da bula ao pai:
            - Alexandre III confirma o documento de Lúcio II, tomando-vos e aos vossos herdeiros sob a proteção da Santa Sé. Considera Portugal um reino pertencente a São Pedro e promete o auxílio papal sempre que seja necessário defender a dignidade régia do soberano português. Também os territórios que os portugueses vierem a conquistar aos sarracenos gozarão da mesma proteção.
            Chegou o refresco, que pajens se encarregaram de distribuir pelos presentes. O arcebispo apressou-se a esvaziar a sua taça, Sancho e D. Pedro Feijão deram alguns goles. O rei e a sua filha ignoraram a bebida. E D. Godinho, sentindo-se retemperado, lançou enérgico:
            - O Santo Padre reconheceu, finalmente, os méritos de um soberano que tão grandes vitórias conseguiu sobre os inimigos da fé. Chama-lhe “intrépido destruidor dos inimigos dos cristãos”, “diligente propagador da fé cristã”, “bom filho e príncipe católico”, que deixa um “exemplo digno de ser imitado pelos vindouros”, enfim, não poupa elogios a D. Afonso. Não é assim, D. Teresa? - E, dirigindo-se aos outros: - Que eu já li a bula um monte de vezes, já a sei de cor e salteado!
            Teresa tornou a passar o documento para as mãos do pai. Afonso engoliu em seco, a fim de espantar as lágrimas e, depois de observar a bula durante alguns instantes, disse:
            - Agradeço a Deus, que ouviu as minhas preces. Agora, sei porque é que Ele me deixou tanto tempo vivo.
            - Ámen - concluiu D. Godinho, esvaziando a segunda taça.

Bula Manifestus Probatum, fonte: Direcção-Geral de Arquivos
Como referido, D. Afonso Henriques só viria a falecer seis anos mais tarde, a 6 de dezembro de 1185. Foi sepultado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, no mesmo local em que a sua esposa, D. Mafalda, já repousava há quase trinta anos.

Com este post, encerro a série dedicada a D. Afonso Henriques, que percorreu as etapas mais importantes da sua vida. Quem quiser lê-las, pode clicar na etiqueta Citando Afonso I. Quem tiver um e-reader, iPad, iPod ou equivalente, fique atento: no início de Dezembro, haverá uma surpresa!


11 de outubro de 2012

O Tratado que não houve (ou que houve, mas não com o conteúdo que lhe costumamos atribuir)

Assinalei, a 5 de Outubro, mais um aniversário sobre o Tratado de Zamora. Nesse dia, porém, João José Cardoso, através de uma nota na barra lateral do Aventar, chamava a atenção para um texto seu, que defendia que o Tratado de Zamora muito simplesmente não existe e nem é provável que tenha existido.

Bem, eu estava consciente de que não será correto atribuir a esse tratado a fundação da nação portuguesa independente, como, aliás, aqui e aqui referi. Mas a hipótese de ele nem sequer ter existido fez-me pegar, novamente, na biografia de D. Afonso Henriques, da autoria de José Mattoso (Temas e Debates 2007). E, já agora, chamo a atenção para duas coisas:

Primeiro, eu não escrevo livros históricos e, sim, ficção baseada na História, pelo que, nos meus livros, há muita imaginação e subjetividade. Quem lê um romance, porém, deve ter em conta que se trata disso mesmo.

Segundo: li a citada biografia há quatro anos, tirei as minhas notas e nunca mais lhe havia pegado, pelo que não estava já bem certa do que o Prof. Mattoso dizia acerca deste assunto.

Resolvi, assim, citar as passagens que me parecem mais relevantes, lembrando que o Prof. Mattoso não é dono da verdade (algo que ele, aliás, admite; atentemos à primeira frase deste livro: Não é preciso ser historiador profissional para perceber que não se pode traçar a biografia de uma personagem medieval sem uma grande dose de imaginação). Mas ele é, sem dúvida, um dos melhores historiadores portugueses de todos os tempos. Acima de tudo, é honesto e empenhado em esclarecer as mentiras e efabulações criadas durante o Estado Novo, que, infelizmente, ainda pairam no nosso imaginário coletivo.


Extratos tirados das páginas 207 a 214: 

No Verão de 1143, chegou ao reino de Leão o cardeal legado da Sé Apostólica Guido de Vico (…) O legado vinha, pois, à Hispânia procurar o apoio político e económico de que o papa necessitava. (…) Guido parece ter-se dirigido primeiro a Portugal. Há informações acerca da sua estadia no Porto e em Coimbra.
(…)
De Coimbra, o legado dirigiu-se a Valhadolid, onde, em 19 e 20 de Setembro, celebrou um concílio.
(…)
Depois de ter encerrado o concílio, o legado papal dirigiu-se a Zamora, onde estava a 4 e 5 de Outubro, e onde se reuniu com os reis de Portugal e de Leão. A este encontro chamam os historiadores modernos a «conferência de Zamora». Tem sido considerada como a reunião que selou o acordo entre Afonso Henriques e Afonso VII, que marcou o reconhecimento pelo segundo da dignidade régia do primeiro, e que permitiu a celebração de um tratado, que talvez incluísse uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos, mas do qual, infelizmente, não existe nenhum texto.
(…)
A 13 de Dezembro de 1143, Afonso Henriques dirigiu uma carta ao papa [Claves regni celorum] declarando que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos do cardeal Guido, como cavaleiro de São Pedro (miles Sancti Petri) (…) Também se torna quase certo que esta decisão obtivera o acordo do cardeal, uma vez que a carta declara que o rei tinha prestado homenagem nas suas mãos. (…) Estes factos significam, por sua vez, a realização de conversações anteriores, talvez por ocasião da passagem de Guido por Coimbra [ou seja, antes da conferência de Zamora].
(…)
Se Afonso VII teve então conhecimento da homenagem que Afonso Henriques diz ter prestado nas mãos do legado (…) causa alguma surpresa verificar a pouca resistência que Afonso VII parece ter oferecido a este acto que punha em causa a sua autoridade de suserano de toda a Hispânia (…) e que contrariava o pacto de Tui de 1137.

Conclusões:
1 - Será mais correto falar da «Conferência de Zamora» do que do «Tratado de Zamora».
2 - A ter havido um tratado, debruçou-se, essencialmente, sobre a repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos.
3 – Não se nega, porém, que o encontro terá marcado o reconhecimento pelo segundo [Afonso VII] da dignidade régia do primeiro [Afonso Henriques], embora o imperador não tenha prescindido da condição de vassalo do primo, como havia feito, seis anos antes, em Tui.
4 – Como aqui disse, não é um erro considerar Portugal uma nação independente desde 1143 (embora não propriamente a partir de 5 de Outubro), já que Afonso Henriques, antes do encontro de Zamora, terá prestado homenagem nas mãos do cardeal, como se depreende da carta claves regni.

Trata-se, em suma, de um processo complexo e demorado (como o eram, muitas vezes, os assuntos medievais), cheio de ambiguidades entre os dois primos, netos do imperador Afonso VI. O reconhecimento oficial da independência de Portugal só se deu a 23 de Maio de 1179, data da Bula Manifestis Probatum, de Alexandre III. E aqui está ela, copiada da página da Direcção-Geral de Arquivos (para a visualizar com mais pormenor, aceda ao site):
 


5 de outubro de 2012

869º Aniversário do Tratado de Zamora

Assinatura do Tratado de Zamora
Hoje, que passa mais um ano sobre este Tratado, resolvi voltar ao assunto, controverso, como o prova a troca de comentários com o Juvenal, em Fevereiro passado.

Costuma assinalar-se a data de 5 de Outubro de 1143 como o da independência de Portugal, inclusive, nos livros escolares. É um facto que, no Tratado de Zamora, Afonso VII, o imperador da Hispânia, reconheceu o título de rei a seu primo e Portugal como reino (esta é de facto a data em que deixa de existir o Condado Portucalense). Contudo, Afonso VII não prescindiu da vassalagem de Afonso Henriques. É verdade que entre o nosso primeiro rei e o imperador da Hispânia nunca houve uma cerimónia de vassalagem, ou seja, Afonso Henriques nunca lha prestou oficialmente. Mas assinou dois tratados (Tui e Zamora), onde estava escrito que ele lhe devia vassalagem

Repare-se: isto nunca impediu Afonso Henriques de se considerar um rei independente. Agiu como tal desde a Batalha de Ourique, em 1139, onde foi aclamado rei pelos seus guerreiros. Mas o verdadeiro reconhecimento do seu título real só ficou estabelecido na Bula Manifestis Probatum, de 23 de Maio de 1179, assinada pelo papa Alexandre III.

José Filipe Photo
No entanto, ao refletir sobre a troca de comentários com o Juvenal, considerei que, realmente, não é errado considerar Portugal um reino independente desde 1143, já que, por alturas do Tratado de Zamora, Afonso Henriques terá prestado homenagem ao cardeal Guido de Vico, legado papal, que lhe prometeu a proteção da Santa Sé, ou seja, a independência em relação a qualquer poder temporal, o que incluía o do imperador da Hispânia.

Este ato, no entanto, não ficou registado por escrito. Seguindo as instruções do cardeal Guido de Vico, Afonso Henriques enviou a Roma a carta claves regni, mas, na sua resposta, em 1144, o papa Lúcio II não foi conclusivo, intitulando o nosso primeiro rei de dux (duque) em vez de rex (rei).

Mas, enfim: Portugal pode ser considerado um reino independente desde 1143, já que o cardeal Guido de Vico aceitou a homenagem de Afonso Henriques, libertando-o do jugo de Afonso VII. Não será é muito correto apontar o Tratado de Zamora como prova documental deste facto, já que, nesse documento, tanto Afonso Henriques, como o cardeal (!) dão o dito por não dito. E isto, nas costas do imperador!

Resumindo:

25 de Julho de 1139, Batalha de Ourique - Afonso Henriques é aclamado rei de Portugal pelas suas tropas e não mais deixa de utilizar este título;

5 de Outubro de 1143, Tratado de Zamora - O imperador Afonso VII reconhece oficialmente o título real a Afonso Henriques, não prescindindo, porém, da sua vassalagem. Por outro lado, antes da assinatura do Tratado, numa cerimónia discreta (poder-se-á dizer "secreta"; de qualquer maneira, às escondidas do imperador), o cardeal Guido de Vico aceitara a homenagem de Afonso Henriques, libertando-o do jugo de Afonso VII.

1 de Maio de 1144, Bula Devotionem tuam de Lúcio II - O Papa aceita a vassalagem de Afonso Henriques (o que o liberta da suserania do imperador hispânico), mas intitula-o dux portucalensis;

23 de Maio de 1179, Bula Manifestis Probatum de Alexandre III - Afonso Henriques é reconhecido como rei e Portugal como reino independente.

Zamora, nas margens do rio Douro (Duero)