Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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1 de janeiro de 2017

Começar o ano com uma boa notícia!

Embora seja uma notícia antiga, relativa a um artigo publicado no Outono de 2012, só agora dele tomei conhecimento, através do Dr. Barroso da Fonte.

A percepção do milagre de Ourique no Romance Histórico Português é o título de um artigo publicado nos Cadernos do CEIL - Revista interdisciplinar de Estudos sobre o Imaginário, assinado por Maria Ève Letízia, da Universidade Stendhal Grenoble e CRI.

A autora disserta sobre o milagre de Ourique, analisando como o acontecimento foi tratado em três romances históricos portugueses: Afonso O Conquistador, de Maria Helena Ventura, Afonso Henriques, o Homem, de minha autoria e O Segredo de D. Afonso Henriques, de Jorge Laiginhas.




E aqui vai mais uma vez o link para quem estiver interessado em ler o artigo e/ou fazer o download:
https://ielt.fcsh.unl.pt/…/fic…/n2/14_CCEIL2_2012_MELmar.pdf
 

Já agora, as referências ao meu romance (ou seja, a minha versão do milagre de Ourique), começam no fim da página 11 e vão até à página 14.


Nota: os Cadernos do CEIL - Revista Multidisciplinar de Estudos sobre o Imaginário são uma publicação anual electrónica do Grupo de Estudos Interdisciplinares sobre o Imaginário (IELT | RG-657-4837) do Instituto de Estudos de Literatura e Tradição sediado na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

20 de dezembro de 2015

Cidades Medievais Portuguesas (7)

Braga não é medieval, Braga é milenária!
Na Idade Média, como cidade arqui-episcopal, era a sede da Igreja portuguesa. A independência de Portugal também foi conseguida por o arcebispo Dom João Peculiar, grande colaborador de Dom Afonso Henriques, ter assegurado a sua independência em relação a Toledo, cujo arcebispo era considerado o arcebispo-primaz da Hispânia.





















Fotografias

© Horst Neumann


24 de maio de 2015

Licor Chamoa


Tendo familiares em Santa Maria da Feira, adquiri uma ligação afetiva a essa cidade, na infância e na juventude, em férias que lá passei e em inúmeras visitas aos meus tios e primos. Depois, as vidas tomaram outros rumos e, no meu caso, a ida para a Alemanha, em 1992, afastou-me de pessoas e lugares.

Felizmente há acasos que despertam coisas adormecidas dentro de nós. Há uns anos, escrevi o meu romance sobre D. Afonso Henriques decidida a explorar facetas desconhecidas do monarca. E descobrir que ele terá tido uma grande paixão, com quem terá pretendido debalde casar, foi quase como abrir uma caixinha de joias, de cuja existência ninguém desconfiava.

O nome da protagonista era Châmoa Gomes, uma relação que, aliás, parece ter acabado com o casamento do monarca. As razões perderam-se no tempo. Eu é que não podia perder a oportunidade! E, quando precisei de localizar uma cena decisiva, veio-me ao pensamento a imagem do castelo de Santa Maria da Feira, que tantas vezes visualizei, da varanda dos meus tios.


A decisão acarretou consequências agradáveis. Como já aqui tinha referido, Miguel Bernardes, um empresário feirense ligado à restauração, liderou o processo de criação e produção do licor de Chamoa, baseado nessa paixão de D. Afonso Henriques e tornado na bebida oficial da Viagem Medieval, que se realiza todos os anos em terras de Santa Maria.

 
 Ontem, estive precisamente em Santa Maria da Feira e o Daniel Santos, promotor do 2711, guiou-me aos locais onde se vende o licor e se pode ler um pequeno excerto do meu livro. Fiquei com o tal brilho nos olhos, referido pelo Daniel. E travei conhecimento com o próprio Miguel Bernardes, proprietário do Praceta Restaurante, onde adorámos almoçar. Entre outras delícias, o meu marido ficou maravilhado com o bife Praceta, servido com um molho que inclui chocolate e que prova o poder de criação do Miguel Bernardes. De entre as ideias que ele ainda apresentará, talvez arranje inspiração em mais algum dos meus romances…

Com o Daniel e o Miguel Bernardes, a tentar controlar as diabruras da Lucy
 Aproveito para agradecer mais uma vez ao Daniel o tempo que nos dispensou, proporcionando-nos um dia excecional, pois tivemos ainda oportunidade de apreciar o Teatro de Rua de Santa Maria da Feira, já que a nossa visita coincidiu com a edição deste ano.


 

30 de outubro de 2014

D. Afonso Henriques genocida?


All About History (com página no Facebook) é uma revista que, nas suas palavras, oferece «action-packed history (...) bursting with information on times past». Eu também concordo que a História não deve ser sempre divulgada por «stuffy academic essays or squabbling professors». Mas tem de haver um mínimo de rigor!

Em outubro, foi posto à venda o primeiro número da versão portuguesa, tendo como tema líderes históricos e, no caso português, debruça-se sobre D. Afonso Henriques. O meu amigo facebookiano André Luís é que me chamou a atenção para este artigo, do qual se desconhece o autor, e teve a gentileza de me enviar esta fotografia.

Neste excerto, encontram-se grandes imprecisões, informações falsas e juízos de valor descabidos. Em primeiro lugar, diz-se que D. Afonso Henriques participou numa última campanha, em 1184, para ajudar o filho a combater um exército mourisco que cercava Santarém. Isto é falso! D. Afonso Henriques, nessa altura, tinha cerca de 75 anos e havia 15 que se encontrava muito incapacitado, em sequência do desastre sofrido em Badajoz, essa sim, a sua última campanha militar. Não se sabe bem qual a dimensão dos ferimentos sofridos e alguns hstoriadores, no passado, consideravam que ele não mais montara nem combatera, não por estar incapacitado, mas porque o tinha prometido ao genro, D. Fernando II de Leão, de quem foi prisioneiro. Na sua biografia de D. Afonso Henriques, o Professor José Mattoso é de opinião de que não se trataria de mera promessa. O rei teria ficado muito limitado fisicamente, talvez até nem tenha mais conseguido andar pelo próprio pé. Ora, a ser assim, nunca teria participado numa campanha militar, a pouco mais de um ano da sua morte (D. Afonso Henriques morreu a 6 de dezembro de 1185).

O artigo fala ainda na «sua sede de sangue», «intolerância religiosa» e diz que «enveredou por uma série de campanhas de genocídio contra o povo islâmico». Quem assim escreve, não faz ideia, por um lado, do que era a Idade Média e, por outro, do que era a Reconquista Hispânica!

A série de combates que se prolongaram por vários séculos e a que se chama Reconquista tinha, de facto, um fundo religioso, mas este estava longe de ser o motivo principal. Talvez o fosse, no seu início. Porém, monarcas como D. Afonso Henriques, o seu avô D. Afonso VI, ou os outros que se lhes seguiram, estavam bem mais interessados na conquista de territórios do que na aniquilação dos mouros ou na propagação da fé. Estabeleceram inúmeras alianças com líderes muçulmanos, muitas vezes, a fim de melhor lutarem entre si (cristãos contra cristãos). O desastre de Badajoz deu-se porque D. Fernando II de Leão veio em socorro do rei mouro daquela cidade, com quem estabelecera um pacto! Também D. Afonso Henriques estabeleceu uma duradoura aliança de amizade com Ibn Qasi, um líder religioso islâmico do Gharb.

A Reconquista baseou-se mais em razias e saques de parte a parte do que numa guerra global, ou numa política sistemática de aniquilação de povos. Muitos cristãos das terras de fronteira enriqueciam com as algaras em terras de mouros, que se levavam a cabo regularmente, passaram mesmo a ser um modo de vida. É por isso descabido falar em genocídio. Os mouros desapareceram destas paragens, sim, mas só séculos depois de D. Afonso Henriques ter morrido!

Depois das conquistas de Santarém e Lisboa, o nosso primeiro rei pôs a população moura sob a sua proteção pessoal, os chamados mouros-forros. É verdade que se tiveram de aquartelar fora de muros e lhes estavam vedados alguns direitos que hoje consideramos essenciais, mas lembremos que na época não havia a noção de direitos universais do ser humano. Mesmo entre cristãos, o povo (muitas vezes apelidado de arraia-miúda e que representava 90% da população) não tinha os mesmos direitos da elite nobre e eclesiástica.

A «sua sede de sangue» também é falsa. Basta conhecer a História Medieval Europeia para constatar que D. Afonso Henriques não foi dos monarcas que mais se destacaram pelo temperamento sanguinário. Assim como não há provas de que ele tenha expulsado sua mãe do Condado Portucalense, ou que a tenha posto a ferros, como conta a lenda. Mesmo a expulsão de D. Fernão Peres de Trava foi temporária. Na referida biografia, o Professor Mattoso documenta a presença do conde galego na corte coimbrã, escassos três ou quatro anos depois da Batalha de São Mamede.

O artigo da All About History peca por misturar lenda com veracidade histórica, se bem que acabe por referir que o comportamento do nosso primeiro rei estava de acordo com a época em que viveu. Porém, se o autor tem consciência disso, mais se estranham as expressões e afirmações anteriores.


11 de setembro de 2014

Licor de Chamoa

Como já aqui referi, Afonso Henriques, quando ia pelos vinte e oito anos,  ter-se-á perdido de amores por D. Châmoa (ou Flâmula) Gomes, pertencente à alta nobreza galega. Os dois tiveram, pelo menos, um filho e o nosso primeiro rei talvez tenha tencionado casar com ela. Mas deparou com três grandes obstáculos:
1º Passado pouco recomendável para esposa de um monarca.
2º Sobrinha de Fernão Peres de Trava, o que queria dizer que o sucessor do nosso primeiro rei pertenceria, neste caso, à família galega que tantas dores de cabeça dera aos barões portucalenses.
3º Fizera-se monja em Vairão, depois de enviuvar, pelo que o casamento lhe estava proibido.

Se quiserem ler mais sobre este caso, por mim explorado no romance Afonso Henriques - o Homem, podem fazê-lo aqui, aqui e aqui.

Situei uma das cenas desta relação amorosa no castelo de Santa Maria da Feira. Soube agora que um empresário feirense ligado à restauração, Miguel Bernardes, liderou o processo de criação e produção do licor de Chamoa, lançado em agosto de 2013 e tornado na bebida oficial da Viagem Medieval, que se realiza todos os anos em terras de Santa Maria. É aromatizado com frutos silvestres, servido em pequenas porções (copinhos) e obedece a rituais muito próprios, associados ao histórico amor de Afonso Henriques e Châmoa Gomes.


 


O BizFeira, projeto de promoção e internacionalização de empresas e negócios de Santa Maria da Feira, tem vindo a promover o licor por todo o país e até no estrangeiro

Quem diria que o meu romance teria tanto impacto e serviria de tanta inspiração ;-)


13 de dezembro de 2013

A infanta D. Teresa (2)

A infanta D. Teresa partiu para a Flandres em 1184 e o rei seu pai morreria no ano seguinte. Já se previa que o seu fim estava próximo. Afonso Henriques andava à volta dos 75 anos e havia 15 que se encontrava impossibilitado de se descolcar pelos próprios meios (ver Desastre de Badajoz), o que muito o deveria ter debilitado. Aquela filha, de trinta e três anos, que nunca se havia separado dele, não o confortaria, nos seus últimos momentos, nem assistiria à sua morte. A separação deve ter sido muito difícil, para os dois.


            Quando os cavaleiros chegaram a Coimbra, a fim de escoltar a noiva com o seu dote, restavam a Teresa quatro dias para tratar dos últimos preparativos. Na véspera da partida, a infanta veio atirar-se em pranto aos pés do pai:
           - Não posso deixar-vos... Não sou capaz!
           - Não digas isso! Desejaste tanto este casamento!
           - Mas, então, porque me custa tanto partir? Talvez pudéssemos aguardar só mais um ano...
           - Acaba com isso, Teresa! O conde da Flandres enviou uma frota para te vir buscar. Quão incorteses seríamos, se a mandássemos de volta, sem ti!
           - Não quero saber de diplomacias e razões de estado! Só sei que não sou capaz de vos deixar.
           Afonso replicou, de voz muito calma e segura:
           - Deus confiou-nos missões e tarefas importantes, filha. Eu posso ser um velho fraco e enfermo, mas sou ainda el-rei de Portugal. Tu és a infanta, noiva do conde da Flandres. E cumprirás o teu dever, quando ele de ti é exigido!
           Teresa levantou-se e limpou as lágrimas. Mais do que nunca, admirou o pai, aquele velhinho mirrado, preso àquela cadeira, de cuja cabeleira imponente de outros tempos restava apenas uma coroa de cabelos brancos. Mas era ele que, naquela hora tão difícil, ainda possuía força suficiente para a chamar à razão. Ouviu-o dizer:
           - Já te roubei tempo demais, minha filha. Mereces ter, finalmente, a tua própria vida.

           Família real, nobres e criadagem (desde a mais fina aia, íntima das princesas, ao mais grosseiro moço de estrebaria): a corte juntou-se em peso, no recinto da alcáçova, a fim de se despedir da infanta, num processo mais triste do que um enterro, tantas lágrimas se vertiam, tanto fungar se ouvia.

          Quando Teresa desapareceu no interior da sua carruagem e o corso se foi lentamente pondo em movimento, as netas de Afonso afagaram-lhe as mãos trementes. Ninguém duvidava de que o velho rei vivia um dos momentos mais difíceis da sua vida.





10 de dezembro de 2013

A infanta D. Teresa (1)

No meu post evocativo da morte de D. Afonso Henriques, fazia referência a uma filha do nosso primeiro rei:

Afonso pensava muito em Teresa. Sabia-a feliz e segura na Flandres. Mas, de todas as mulheres que amara, era sem dúvida daquela filha que ele sentia mais saudades e seria ela quem mais gostaria de ter a seu lado.

De facto, Afonso Henriques parece ter tido uma relação muito especial com uma de suas filhas, que, por ironia do destino, ostentava o nome da avó: Teresa. Esta infanta permaneceu ao lado do pai até aos trinta e três anos, o que não era comum na época. As princesas costumavam casar muito cedo, algumas, ainda crianças.

Embora o Professor Mattoso, na sua biografia de D. Afonso Henriques (Temas e Debates 2007), não refira o assunto, o Professor Freitas do Amaral, o primeiro a escrever um livro deste género (Bertrand 2000), pergunta-se que razões teria havido para que a infanta fosse mantida durante tanto tempo na corte paterna.

No romance, esforcei-me por dar uma versão verosímil. Mas há uma outra história curiosa à volta de Teresa: acabou por casar com Filipe da Alsácia, conde da Flandres, que conhecera na cidade do Porto. Acontece que neste seu primeiro encontro, Filipe da Alsácia era ainda casado. Mas, assim que ficou viúvo, sete anos depois da sua passagem pelo Porto, pediu a infanta em casamento, pelo que enviou uma frota a Portugal apenas para a ir buscar.

Também se podem especular sobre as razões que levaram a este casamento, pois não existem fontes que o expliquem. Alguns historiadores admitem que o conde da Flandres tenha ficado bem impressionado com a figura e o porte da infanta, que se sabia ser culta, já que o próprio Afonso Henriques a apontou como sua sucessora, caso o infante D. Sancho falecesse sem filhos.

Eu gosto de acreditar na ideia de um amor à primeira vista, uma paixão a que Teresa teve de renunciar, sem imaginar que Filipe da Alsácia enviuvaria sete anos depois.

Certo de que completara a sua missão neste mundo, Afonso redigiu o seu testamento naquele mesmo ano, deixando grandes quantidades de dinheiro a obras pias. Estava convencido de que não aguentaria mais um Inverno. Sem se poder mover, os músculos iam-se-lhe mirrando e ele ia perdendo o apetite.
Mas não sobreviveu apenas àquele Inverno e a estação fria tornou-se uma tortura para o velho monarca, que ficava, então, mais sujeito a febres e, muitas vezes, não se conseguia aquecer, embora lhe pusessem na cama tijolos quentes embrulhados em mantas. Nesses tempos difíceis, Teresa era o seu maior consolo. Sentia-se tão dependente do carinho e dos cuidados da filha, que se lhe assomava impossível viver sem ela.
Ao mesmo tempo, a infanta fazia-lhe pena. O seu olhar perdera a energia de outros tempos e fixava-se muitas vezes numa distância imaginária, alheio ao que se passava à sua volta. Afonso sabia então que ela recordava a semana do Porto, esforçando-se por manter vivos os instantes que partilhara com Filipe da Alsácia, desde o primeiro ao último dia. Por mais que o velho rei desejasse ter aquela filha a seu lado, chegava a achar conveniente arranjar-lhe um esposo, que a fizesse olvidar de vez o conde da Flandres. Mas, quando lhe propunha tal, a infanta já nem se dava ao trabalho de recusar. Suspirava, simplesmente, e afagava as mãos do pai.