Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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6 de fevereiro de 2016

O irmão de Dom Dinis

Codex Manesse

Faz hoje 753 anos que nasceu o infante Dom Afonso, irmão de Dom Dinis, mais novo cerca de ano e meio. Dom Afonso parece nunca ter superado a sua condição de filho segundo, pois causou problemas ao rei durante toda a vida. Por três vezes se insubordinou, obrigando Dom Dinis a usar da força, pondo cerco aos lugares onde se refugiava: Vide, Arronches e Portalegre. Por outro lado, é notável que o Rei Poeta sempre lhe tenha perdoado e o tenha protegido, mesmo em circunstâncias absurdas.

O infante Dom Afonso casou com Dona Violante Manuel, filha do infante Dom Manuel de Castela, recebendo senhorios no reino de Múrcia. O matrimónio, porém, não foi reconhecido pela Igreja, devido ao parentesco: Dom Manuel de Castela, sendo irmão do rei Afonso X, era tio-avô do infante português.

Dom Dinis, sempre protetor, legitimou-lhe os filhos, na sua qualidade de rei, sem consultar a Igreja, provocando um protesto formal de Dona Isabel, por sinal, no dia do 34º aniversário do cunhado (ver abaixo).

Dom Afonso teve um fim de vida muito amargo. O seu filho e herdeiro morreu com apenas dezassete anos, em 1302, e, apesar de ter ainda três filhas, o infante não conseguiu superar a morte daquele que era o orgulho da sua vida. Terá começado a comportar-se de maneira estranha, chegando mesmo a assassinar a esposa, caso que foi abafado por Dom Dinis, apesar de o rei de Aragão, cunhado do monarca português e igualmente parente da falecida, o instar a esclarecer a questão.

Dom Dinis protegeu o irmão até ao fim. Dom Afonso morreu a 2 de Novembro de 1312, com apenas quarenta e nove anos, sendo sepultado na igreja de São Domingos de Lisboa, no túmulo que o próprio mandara fazer.


Foi igualmente a 6 de Fevereiro (em 1297) que Dona Isabel apresentou, na alcáçova de Coimbra, protesto formal contra a legitimação dos sobrinhos, filhos do seu cunhado Dom Afonso. Apresentou como motivos o facto de o irmão do rei se ter insubordinado algumas vezes e o provável perigo que os filhos deste pudessem significar para o reinado do filho Dom Afonso IV. De qualquer maneira, é curiosa uma atitude deste tipo por parte de uma rainha caridosa, que sempre procurou consensos.

Rainha Santa Isabel

Apesar de ter aceite o protesto, Dom Dinis não se escusou a redigir a carta que legitimou os filhos de seu irmão, dois dias mais tarde.

O filho de Dom Dinis e de Dona Isabel, o príncipe herdeiro Afonso, apresentou igualmente um protesto a esta legitimação, passados onze anos, o que teria desagradado ao pai. Aliás, Dom Dinis nunca verdadeiramente se entendeu com o seu herdeiro, futuro Dom Afonso IV.


12 de janeiro de 2016

O neto chamado Dinis

Dom Dinis teve um neto com o seu nome, nascido a 12 de Janeiro de 1317.

«Estabeleceu-se uma acalmia no início do novo ano, ao dar-se um feliz acontecimento: Beatriz deu à luz mais um menino, a 12 de Janeiro, e o príncipe deu o nome de Dinis àquele filho. O rei disse a Isabel aquela ser a prova de que nada de grave sucederia. Afonso parecia cair em si, abstendo-se de continuar a hostilizar o pai, cumprindo enfim a tradição de dar ao seu herdeiro o nome do avô. Isabel, porém, pediu-lhe que não exagerasse na sua alegria e que não ignorasse os problemas existentes».

As desavenças entre o rei e o seu herdeiro Afonso, que desembocariam numa guerra civil, eram já graves, nesta altura. Dom Dinis parece ter tido muita esperança neste neto, que foi jurado como herdeiro do trono pelos concelhos do reino cerca de cinco meses depois de nascer (a 14 de Junho). Estaria Dom Dinis a pensar transmitir o trono diretamente ao neto, seu homónimo?

«A 14 de Junho, Dinis deu mais uma vez azo à euforia que lhe provocara o nascimento do neto, ao exigir que os concelhos do reino jurassem o pequeno como herdeiro do trono. Uma atitude que, porém, caiu mal ao filho Afonso. A criança, de apenas cinco meses, não carecia de legitimidade, nem tão-pouco faltava ao reino um príncipe herdeiro adulto. Porque dava o soberano um sinal claro em relação ao neto, em vez de o fazer com o filho? Pretenderia ele passar por cima de Afonso?»

Porém, o pequeno infante Dinis morreu com cerca de um ano de idade. Era o segundo neto que lhe morria, depois de um outro chamado Afonso, nascido em 1315.

«Em Estremoz, Dinis recebeu a notícia da morte do neto que tinha o seu nome, nas vésperas do primeiro aniversário! Na sua desolação, a família real convencia-se de que Deus, por algum motivo, a castigava. Seria pelos diferendos entre os seus membros? O certo é que nem Isabel encontrava resposta para tanta calamidade e, em Fevereiro, Dinis resolveu ir em peregrinação a Santiago de Compostela.
Embora acompanhado de grande comitiva, incluindo os seus cavalos, o monarca andava muito a pé. Os prelados aconselhavam-no a assim fazer, pelo menos, metade do caminho.
(…)
O rei rezou longamente junto ao túmulo do apóstolo, pois bem tinha de lhe suplicar, novamente atacado pelo fantasma do rei velho e enfermo, abandonado por tudo e todos… E recordava que sua mãe o avisara de poder estar sujeito a destino semelhante. Desprezara o conselho, mas pedia agora ao santo que o livrasse de tal sina, permitindo-lhe ser rei até exalar o seu último suspiro, à semelhança de seu pai.
Suplicou paz para o reino… E um herdeiro para o filho! Porque já lhe levara Deus dois netos legítimos, não consentindo inclusive que o sucessor de Afonso tivesse o seu nome? Tanto se convencera de que aquele principezinho haveria de reinar um dia…
Ao pedir um herdeiro para o filho, suplicava igualmente que aquele possuísse mais bom senso do que Afonso, que se lhe assomava melancólico e rancoroso, rodeado de maus conselheiros. Que estava destinado ao reino de Portugal sob a regência de Dom Afonso IV? Por alguma razão, Dinis temia pela sua amada terra e, através do apóstolo, suplicava a Deus que lhe permitisse viver o suficiente, não só para assistir ao nascimento de um outro neto varão, como para ter oportunidade de se aperceber do carácter do pequeno. Desejava um príncipe mais alegre, mais aberto, mais dado aos prazeres e às belezas da vida».

Dos sete filhos do futuro Dom Afonso IV, apenas três atingiram a idade adulta: duas filhas, Maria e Leonor, e um filho que seria rei, Dom Pedro I, nascido a 8 de Abril de 1319, dois anos depois do pequeno Dinis.

 
Dom Pedro I, neto de Dom Dinis





3 de janeiro de 2016

Infanta Dona Constança de Portugal, Rainha de Leão e Castela



Ver nota no final

A 3 de Janeiro de 1290 nasceu a infanta Dona Constança de Portugal, a primeira filha de Dom Dinis e de Dona Isabel. O casal teve apenas mais um filho, o futuro rei Dom Afonso IV, que nasceu cerca de um ano mais tarde.

Apesar de nascida em berço de oiro e se ter tornado rainha, a infanta Dona Constança não terá sido muito feliz na sua curta vida, como acontecia a muitas donzelas da época medieval. Foi obrigada a separar-se dos pais com apenas sete anos, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297, pois estava prometida em casamento ao rei Fernando IV de Leão e Castela. Em casos destes, era habitual que a noiva fosse criada pelos sogros.

Fernando IV tinha apenas doze anos, à altura do Tratado de Alcañices, mas era rei por morte de seu pai Sancho IV. Sua mãe, Maria de Molina, exerceu a regência durante a sua menoridade.

Fernando IV e sua mãe Maria de Molina*
O casamento foi celebrado em Janeiro de 1302, tinha a noiva doze anos e o noivo dezassete. Fernando IV, porém, morreria subitamente dez anos mais tarde. Constança escreveu aos pais a pedir proteção para o filho Afonso, o novo rei, de apenas um ano.

A cena política de Castela tornou a agitar-se, despertando lutas pela sucessão do trono. Levantava-se o problema da tutoria do pequeno rei e da regência do reino e a situação tornou-se insuportável para a frágil rainha, incapaz de lidar com as intrigas. Passou uma fase muito confusa, cortando inclusivamente relações com a sogra que a criara.

Sobre isto, dois excertos do meu romance:



No início do Outono, chegou à corte um apelo desesperado de Constança. O pequeno rei, de apenas dois anos, encontrava-se em Toro, com a avó, que, ofendida com a nora, a proibia de ver o filho! No seu desespero, Constança suplicava o apoio do pai para levar o tio Juan a exigir a custódia completa do filho, contra Maria de Molina!

Dinis censurou Isabel por ter arrastado a filha para o tio aragonês e a rainha, mortificada, escreveu a Constança, pedindo-lhe que viesse ter com eles. A filha, porém, respondeu que tentaria fazer as pazes com a sogra, esperando que esta a autorizasse a entrar em Toro.




- Que se passa? 
Isabel respondeu num sussurro:
- Tive um sonho…
- Um pesadelo?
- Não sei… Uma mensagem… Ou uma premonição…
Mais uma? Dinis fez esforço por vencer o enfado, pois haveria uma razão forte que a trouxera ali, numa noite tão fria. Acabou por dizer:
- Sentai-vos e contai-me o que vos atormenta!
Depois de pousar a vela sobre a mesinha ao lado da cama, Isabel iniciou o seu relato:
- Há cerca de uma semana, andando para os lados da Azambuja, deparei com um eremita à beira da estrada. Parecia muito perturbado e eu desmontei da minha mula e perguntei-lhe se havia mister do meu auxílio. Ele não respondeu, limitou-se a fixar-me numa tristeza infinita. Já tratei de muitos enfermos e assisti a muitas aflições, mas nunca vira olhos tão tristes. Insisti na minha pergunta. Depois de me fixar durante mais alguns momentos, ele abanou a cabeça e afastou-se de mim sem uma palavra.
Isabel baixou a cabeça e prosseguiu:
- Não mais olvidei aquele olhar. Passado uns dias, tornei ao local, a fim de o procurar. Mas não o encontrei. Perguntei por ele nas aldeias da região, descrevendo-o o melhor que podia. Ninguém parecia conhecê-lo. Indicaram-me alguns eremitas que por ali viviam e fui ter com eles. Mas nenhum era o que eu havia visto. O homem parecia ter-se esfumado, ou sido engolido pela terra… Tentei olvidá-lo. Mas hoje…
Começou a tremer mais violentamente:
- Sonhei com ele…
- Ora, ficastes impressionada com a sua figura…
- No sonho, ele falou comigo. E disse-me… - Olhou-o, muito trágica: - Que Constança havia morrido!


Constança faleceu a 18 de Novembro, com apenas 23 anos, vítima de uma febre que a levou em três dias. Sem ter feito as pazes com a sogra, sem ver os pais uma última vez, nem sequer o filho de dois anos.



Também a 3 de Janeiro, mas no ano de 1312, dá-se um acontecimento, à primeira vista, corriqueiro, mas que se revelaria de importância, pois avolumou as discórdias entre Dom Dinis e o seu herdeiro: a sentença do tribunal régio no processo dos herdeiros do 1º conde de Barcelos Dom João Afonso Telo.

A sentença favoreceu Afonso Sanches, um dos genros do falecido e filho ilegítimo de Dom Dinis, que é nomeado mordomo-mor do pai. O outro genro, Dom Martim Gil de Riba de Vizela, apesar de ter sucedido ao sogro no título, tornando-se no 2º conde de Barcelos, foi muito prejudicado nas partilhas. A sentença chocou-o tanto, que se exilou em Castela, morrendo antes do fim do ano. O seu testamento referia que nenhum dos seus bens fosse parar às mãos do cunhado Afonso Sanches, o que, por decisão régia, acabaria por acontecer!

O escandaloso favorecimento do filho bastardo Afonso Sanches, por parte de Dom Dinis, terá sido uma das razões para a revolta do príncipe herdeiro Afonso, revolta que desembocou numa guerra civil, amargurando os últimos anos de vida do rei Poeta e Lavrador.

Afonso IV, filho de D. Dinis



Nota: não encontrei nenhuma representação de Dona Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem d'As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança que descrevo no meu romance D. Dinis, a quem chamaram o Lavrador.

* Pintura de Antonio Gisbert Pérez, 1863