Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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15 de julho de 2016

Dom Dinis e o seu Herdeiro




Os desentendimentos entre Dom Dinis e o seu herdeiro, futuro Dom Afonso IV, haveriam de culminar numa guerra civil. No meu romance, os dois nunca verdadeiramente se entendem. Aqui, uma cena, em que o príncipe contava dezassete anos de idade:

Não havia como ignorar a existência de ciúmes e invejas, quiçá a formação de duas fações: uma, à volta do rei e de Afonso Sanches; outra, em torno do príncipe herdeiro e Martim Gil, causando grande preocupação em Isabel. Com razão! No dia seguinte, em pleno ambiente de festa na véspera das bodas, o sucessor de Dinis espantava-o ao anunciar a apresentação de um protesto!
Reuniu-se a família real, que incluía os bastardos. O príncipe estava como habitualmente acompanhado de Raimundo de Cardona e, além da rainha, encontravam-se presentes o bispo de Coimbra e chanceler-mor do reino Dom Estêvão Anes Bochardo, o alferes-mor Martim Gil de Riba de Vizela e o meirinho-mor João Simão de Urrô.
Dinis quis saber que documento o infante segurava na mão, ao que Afonso respondeu altivo:
- Trata-se do protesto que minha mãe proferiu, a 6 de Fevereiro de 1297, nesta mesma alcáçova, contra a legitimação dos filhos de meu tio Afonso. Hoje, na presença de todas estas testemunhas, eu, o príncipe herdeiro de Portugal, reitero este protesto!
Dinis quedou-se atónito por alguns momentos. Depois, lançou:
- Mas que despropósito!
- Muito me surpreende, meu pai, que não vejais o perigo de…
- Como vos atreveis a agredir vosso tio Afonso de tal guisa?
Gerou-se um momento de grande tensão, em que os presentes mal se atreviam a respirar. O monarca, como instância máxima, tinha o direito de interromper quem quisesse, mas evitava-o, principalmente com altos dignitários do clero e da nobreza. Agora, fazia-o com o infante herdeiro! Dinis desprestigiava o seu sucessor, à frente da família e das restantes personalidades.
O rei notava-lhe a fúria nos olhos negros, mas o jovem manteve a pose, um semblante que, aos dezassete anos, já revelava um carácter austero e disciplinado, não se permitindo um desvio, um excesso. Dinis não encontrava nada de seu, naquele filho. Como se Isabel o tivesse produzido sozinha!


O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook na LeYa Online, na Wook e na Kobo.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.


10 de julho de 2016

O Segundo Manifesto

Excerto do meu romance, respeitante ao segundo manifesto que Dom Dinis apresentou contra o seu filho e herdeiro, futuro Dom Afonso IV:

           Perante tal ousadia, Dinis preparou um segundo manifesto, que mandou ler a 15 de Maio, nos Paços de Lisboa. Começava por referir certos aspetos do primeiro, acrescentando a prova dada por João XXII de que nunca tentara legitimar o filho Afonso Sanches. Referia, em seguida, o encontro entre o infante e Maria de Molina, a propósito da questão da justiça do reino, e relembrava os diversos casos de assassinatos perpetrados pelos apoiantes do infante, quer no Entre Douro e Minho, quer no Alentejo, dando relevo ao assassinato do bispo de Évora. Realçava que todos estes criminosos se recolhiam à proteção do príncipe, impedindo a atuação da justiça régia.
            À cabeça da lista das vinte testemunhas deste manifesto, surgiam os dois bastardos reais Afonso Sanches e João Afonso, seguindo-se o genro João Afonso de la Cerda e o Mestre de Avis. Também o alcaide de Lisboa Fernão Rodrigues Bugalho e o meirinho-mor Lourenço Anes Redondo lá constavam. Numa carta que escreveu a Jaime II, a 8 de Junho, queixando-se das atitudes do filho, Dinis mandou cópias deste manifesto.

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8 de julho de 2016

Guerra Civil 1320/25 (2)

Aqui, uma cena do meu romance, respeitante a um episódio da guerra que opôs Dom Dinis ao seu herdeiro, o futuro Dom Afonso IV:

O monarca deu mais algumas vezes ordem de disparo, a fim de matar o maior número possível de adversários, antes de investir contra eles.
Nisto, o alcaide Fernão Rodrigues Bugalho agitou-se a seu lado:
- Pelas cinco chagas… Mas que vem a ser aquilo?
Dinis esforçou os olhos no ar límpido da manhã. A primeira coisa que viu foi a cruz, segurada por um cavaleiro. Que não vinha sozinho! Duas figuras a cavalo deslocavam-se pelo campo, debaixo do voo das setas!
- Com mil diabos - exclamou o alferes-mor João Afonso. - Estarão as criaturas cansadas de viver?
O rei esforçou mais os olhos. A figura da frente vinha toda vestida de branco, uma capa esvoaçava na brisa da manhã, iluminada pelo sol de Dezembro. Parecia um anjo…
Isabel!
- Cessai os disparos - berrou Dinis com quanta força tinha. - É a rainha! Cessai os disparos!


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4 de julho de 2016

O Primeiro Manifesto



Excerto do meu romance, respeitante ao primeiro manifesto que Dom Dinis apresentou contra o filho:

A 1 de Julho daquele ano de 1320, Dinis mandou ler o manifesto nos paços reais da alcáçova de Santarém, na presença dos seus nobres conselheiros e dos Mestres das Ordens militares.
O rei começava por referir a ingratidão do filho, não obstante as mercês com que o cumulara e à sua esposa. Invocava os conflitos que haviam existido entre Afonso Sanches e o 2º conde de Barcelos Martim Gil de Riba de Vizela, referindo que havia tentado a concórdia entre os dois, por amor do infante meu filho, com quem ele (Martim Gil) andava, não evitando, porém, que o conde se tivesse feito vassalo do rei de Castela. Em vez de condenar tal atitude, tendo em conta a desonra que representava para o próprio monarca seu pai, o príncipe manifestara amizade e solidariedade ao desertor, uma afronta que ele, o rei, não podia calar, apesar de já se haverem passado oito anos.
Dinis referia-se ainda às discórdias que o haviam oposto a Frei Estêvão Miguéis e a seu sobrinho Dom Fernando Ramires, que haviam intrigado junto do príncipe, incitando-o a desobedecer ao pai. Acusava o bispo de Lisboa de haver usado o dinheiro que lhe dera para custear as negociações na Santa Sé, a fim de comprar a sua nomeação e a do sobrinho para os bispados de Lisboa e do Porto.
O monarca apresentou ainda a prova documental do comendador de Magazela, onde se negava liminarmente os atos de acusação sobre o envenenamento, e confessava haver suportado e encoberto, até àquele ponto, todas as ofensas que recebera do filho, na esperança de que ele se corrigisse. A sua paciência e a sua tolerância haviam-se, porém, esgotado porque vejo que seu mal é já tanto e cada dia vai pior.
Dinis finalizava dizendo que jamais provocara ou quisera provocar qualquer dano ao herdeiro do trono, solicitando, por exemplo, a legitimação de Afonso Sanches. E já pedira a João XXII a prova documental. Na sua opinião, o único motivo que movia o príncipe era a inveja que ele tinha daquele seu irmão, por Afonso Sanches sempre ter sido obediente ao pai, estando ao seu serviço e fazendo a sua vontade.


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1 de julho de 2016

Guerra Civil de 1320/25

Imagem daqui

A 1 de Julho de 1320, Dom Dinis apresentou o seu primeiro manifesto contra a revolta do filho, o futuro Dom Afonso IV. Durante a guerra civil, que se verificou entre o Rei Lavrador e o seu herdeiro, Dom Dinis apresentou três manifestos.

Este primeiro manifesto foi lido nos paços reais da alcáçova de Santarém e incluía várias queixas que o rei tinha contra o filho, acusando-o de ingratidão. Porém, o mais importante foi a apresentação de provas documentais, desmantelando duas acusações graves que o infante fizera: de que seu meio-irmão Afonso Sanches o tinha mandado envenenar e de que o pai preparava o seu afastamento do trono, para o que já tinha pedido ao papa a legitimação de seu filho ilegítimo, o mesmo Afonso Sanches.

Alguns momentos marcantes da guerra civil de 1320/25:

- Em Março de 1321, partidários do príncipe assassinaram Dom Geraldo bispo de Évora, junto da Igreja de Santa Maria de Estremoz. Dom Geraldo estava, desde 1317, autorizado a excomungar os adversários do rei.

- Em Abri de 1321, o príncipe Dom Afonso assumiu o controlo de Leiria e a 15 de Maio, Dom Dinis apresentou, em Lisboa, o segundo manifesto contra o filho e seus partidários.

- No Verão de 1321 (altura do desterro de Dona Isabel em Alenquer, por Dom Dinis a acusar de pactuar com o filho) o príncipe Dom Afonso tentou conquistar Santarém e Tomar, sem o conseguir (a alcáçova de Santarém é recuperada por Dom Dinis e o Mestre da Ordem de Cristo fechou a fortaleza de Tomar ao infante).

- Em Setembro de 1321, Jaime II de Aragão, cunhado de Dom Dinis, envia Frei Sancho a Portugal, a fim de reconciliar o pai com o filho, mas o prelado nada pôde fazer.

- A 9 de Dezembro de 1321, houve um grande terramoto em Lisboa, interpretado como castigo de Deus pelos desentendimentos entre pai e filho.

- A 17 de Dezembro de 1321, Dom Dinis apresentou o terceiro manifesto, em que desnaturava o filho e considerava traidores quantos o seguissem.

- A 31 de Dezembro de 1321, o príncipe Dom Afonso apoderou-se de Coimbra, cidade que Dom Dinis cercou a 7 de Março de 1322.

- Em Janeiro de 1322, Dom Dinis recuperou Leiria e castigou duramente os traidores, que tinham fugido para o mosteiro de Alcobaça. Nesta altura, o infante Dom Afonso ocupou os castelos de Montemor-o-Velho, Feira e Vila Nova de Gaia e a cidade do Porto, onde se lhe juntou o conde Pedro de Barcelos (seu meio-irmão).

- Em Maio de 1322, há um acordo de paz em Leiria. Dom Dinis foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa e fez segundo testamento. O seu estado melhorou no início de 1323, mas a paz foi quebrada depois das Cortes de Lisboa em Outubro deste ano, com Dom Afonso decidido a apoderar-se à força do trono, conquistando Lisboa. Por intervenção de Dona Isabel, não chegou a travar-se a batalha no campo de Alvalade (ou, segundo José Mattoso, no lugar chamado Albogas, perto de Loures).

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Dona Isabel na Batalha de Alvalade

De nada adiantava mandar emissários, depois da humilhação nas Cortes de Lisboa, Afonso tudo faria para se apossar do trono! A batalha era inevitável.
Dinis sabia que fora longe demais. Mas que força o impedia de se entender com o seu próprio herdeiro? Teria inconscientemente guiado os acontecimentos de maneira a que Afonso Sanches lhe pudesse suceder? A verdade é que ele próprio se via incapaz de responder a esta pergunta. Lembrou-se do neto Pedro, que tanto o encantara em Frielas, mas também Afonso Sanches tinha um filho que já fizera nove anos e que igualmente o cativava…
Naquela noite, véspera da batalha, Dinis mortificava-se. Estava a ir contra a vontade de Deus, chefiando um combate contra o seu único filho legítimo? O rei não conseguia adormecer, novamente atacado por tonturas, dores de cabeça e suores. Tornaria a adoecer? Finar-se-ia ainda antes de se dar o combate?
Deus que decidisse! Nada mais lhe restava que não fosse confiar na força divina. Desejou um milagre. Sabia que Isabel rezava, recolhida no seu paço, depois de semanas de penitências rigorosas. Conseguiria ela provocar um milagre?


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20 de junho de 2016

Doença de Dom Dinis


A 20 de Junho de 1322 Dom Dinis foi acometido de doença grave, dois anos e meio antes da sua morte. «Um ligeiro ataque vascular-cerebral ou um pequeno ataque cardíaco?», pergunta-se o autor da biografia de Dom Dinis (Temas e Debates, 2008), José Augusto Pizarro.

O rei Lavrador tinha, nesta altura, sessenta e um anos e nunca tinha estado verdadeiramente doente. Encontrava-se, porém, numa fase muito desgastante da sua vida, que inclusive lhe terá acelerado a morte: a guerra civil contra o seu próprio filho e herdeiro. Esta doença verificou-se aliás depois do cerco a Coimbra, que implicou duros combates. Através da mediação da rainha Dona Isabel e do conde de Barcelos Pedro Afonso (filho ilegítimo de Dom Dinis), o rei assinou as pazes com o infante, mas, no seu regresso a Lisboa, sentiu-se mal.

O estado e Dom Dinis melhorou no início do ano seguinte, mas as pazes com o filho foram de pouca dura. O acordo seria quebrado em Outubro de 1323, depois das Cortes de Lisboa. A guerra entraria na sua última fase, com a Batalha de Alvalade, mas dedicar-me-ei ao assunto na altura própria. Para já, um excerto do meu romance, quando já não havia entendimento possível entre pai e filho:

De nada adiantava mandar emissários, depois da humilhação nas Cortes de Lisboa, Afonso tudo faria para se apossar do trono! A batalha era inevitável.
Dinis sabia que fora longe demais. Mas que força o impedia de se entender com o seu próprio herdeiro? Teria inconscientemente guiado os acontecimentos de maneira a que Afonso Sanches lhe pudesse suceder? A verdade é que ele próprio se via incapaz de responder a esta pergunta. Lembrou-se do neto Pedro, que tanto o encantara em Frielas, mas também Afonso Sanches tinha um filho que já fizera nove anos e que igualmente o cativava…
Naquela noite, véspera da batalha, Dinis mortificava-se. Estava a ir contra a vontade de Deus, chefiando um combate contra o seu único filho legítimo? O rei não conseguia adormecer, novamente atacado por tonturas, dores de cabeça e suores. Tornaria a adoecer? Finar-se-ia ainda antes de se dar o combate?
Deus que decidisse! Nada mais lhe restava que não fosse confiar na força divina. Desejou um milagre. Sabia que Isabel rezava, recolhida no seu paço, depois de semanas de penitências rigorosas. Conseguiria ela provocar um milagre?

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1 de maio de 2016

Casamento de Dom Afonso IV


Foi em Maio de 1309 (não se sabe o dia), que o futuro rei Dom Afonso IV, filho de Dom Dinis, casou com a infanta Dona Beatriz de Castela. Dom Afonso e Dona Beatriz foram os pais de Dom Pedro I, que ficaria conhecido pelo seu amor trágico por Inês de Castro (tendo ficado seu pai com a “fama” de ter mandado assassinar a amante do filho, embora não exista certeza histórica).

À altura do seu casamento, Dom Afonso tinha dezoito anos e a sua noiva dezasseis ou dezassete. Os dois conheciam-se desde crianças, Dona Beatriz foi criada pelos sogros Dom Dinis e Dona Isabel. A infanta castelhana tinha vindo para a corte portuguesa na sequência do Tratado de Alcanices, celebrado a 12 de Setembro de 1297, no qual se definiram definitivamente as fronteiras entre Portugal e Castela e se estabeleceu um duplo consórcio: além do de Dom Afonso e de Dona Beatriz, ficou estipulado que o rei Fernando IV de Castela, que à altura tinha apenas onze ou doze anos, casaria com a infanta Dona Constança de Portugal.

Era costume que noivas ainda crianças fossem criadas pelos sogros e o casal Dom Dinis/Dona Isabel trocou a filha com a rainha viúva castelhana Dona Maria de Molina. Dona Beatriz veio para Portugal com apenas cinco anos, enquanto Dona Constança, de sete, foi viver para a corte castelhana.

Para que este duplo consórcio se concretizasse, foi necessário solicitar dispendiosas bulas de dispensa de parentesco ao papa, já que os nubentes eram parentes próximos. Dom Fernando IV e Dona Beatriz eram filhos do falecido rei de Castela, Dom Sancho IV, tio de Dom Dinis.

O facto de Dom Afonso IV e Dona Beatriz terem crescido juntos parece ter dado bom resultado, pois este monarca, não obstante a tradição lhe ter conferido um temperamento irascível, é um caso raro na historiografia portuguesa: não se lhe conhecem barregãs nem filhos ilegítimos. O casal teve sete filhos, mas apenas três chegaram à idade adulta, porquanto a mais nova, Leonor, que casou com Dom Pedro IV de Aragão, morreu com apenas vinte anos.





Ebook à venda na LeYa Online e na Wook.


7 de março de 2016

Cerco a Coimbra

A 7 de Março de 1322, Dom Dinis cercou a cidade de Coimbra, que havia caído nas mãos de seu filho a 31 de Dezembro de 1321. O reino português encontrava-se em plena guerra civil, entre Dom Dinis e o seu herdeiro, futuro Dom Afonso IV, uma guerra que tanto desgastou o rei, que bem pode ter acelerado a sua morte.

O infante Dom Afonso encontrava-se em Guimarães, mas, ao saber que o pai cercara Coimbra, apressou-se a ir ao seu encontro. Também Dona Isabel para lá foi, deixando o seu desterro em Alenquer, ordenado pelo próprio Dom Dinis, que a acusava de pactuar com o filho.

Como se vê, havia um grande drama familiar por trás da guerra civil que dilacerou o reino português no início do século XIV, o que não deixa de ser estranho, tendo em conta os protagonistas: um rei culto, justo e amigo do povo; uma rainha exemplar, que foi canonizada; o filho dos dois!

Pormenor da estátua de D. Dinis em Coimbra

Vendo a derrota à frente, Dinis considerou ser Isabel a sua última esperança. Pediu para conferenciar com ela e pediu-lhe desesperado:
- Suplico-vos que guiseis estabelecer a paz sem que haja vencedor nem derrotado!
Isabel olhou-o amargurada:
- Pedis-me o impossível!
Dinis aproximou-se dela e, pegando-lhe nas mãos, insistiu:
- Intercedei junto de Deus! Diz-se que já fizestes milagres… Não o podereis tornar a fazer?
A rainha engoliu em seco e replicou:
- A graça de fazer milagres só é concedida quando Deus assim o entende, não depende da minha vontade. Sou um mero instrumento nas Suas mãos.
- Quereis dizer que nada podeis fazer por mim?
O seu desespero mortificava-a. O rei raramente lhe vira o rosto tão dilacerado pelo sofrimento e, num impulso, beijou-lhe as mãos. Ela fechou os olhos por um momento e quando os abriu, disse:
- Darei o meu melhor! Mas haverei mister de auxílio, de um mediador, a quem Afonso dê realmente ouvidos. E não me ocorre mais ninguém tão adequado como o conde de Barcelos!
Dinis estremeceu perante a menção daquele seu bastardo que ele destituíra do cargo de alferes-mor e da maior parte das suas rendas, obrigando-o ao exílio. Até àquele momento, considerara-o um traidor. Agora, deu consigo a perguntar:
- Pensais que ele consentirá em falar comigo?
- Com certeza. Pedro Afonso é uma alma gentil, que não guarda rancor… E que vos ama e respeita como ninguém!

Imagem daqui



Graças às intervenções de Dona Isabel e do conde Pedro de Barcelos, o rei retirou para Leiria e o infante para Pombal. Em Maio, encontraram-se em Leiria e assinaram um acordo de paz. Dom Dinis, porém, que já passara dos sessenta, foi acometido de doença grave à sua chegada a Lisboa.

Ao chegar a Lisboa, confiante que, podendo enfim repousar, o seu estado melhorasse, Dinis constatou o contrário: acordou uma madrugada muito prostrado, confuso da cabeça e sem conseguir articular palavras! Chamaram-se os físicos, que o sangraram, e também a rainha preparou as suas poções, desfazendo-se em mil cuidados e desdobrando-se em rezas.
Passado uns dias, Dinis melhorou um pouco. Embora a fraqueza ainda o impedisse de deixar o leito, viu-se capaz de falar e aproveitou para suplicar à rainha que não o deixasse, sentindo-se muito dependente dela. E, a 20 de Junho daquele ano de 1322, decidiu fazer o seu testamento.
(…)
Nos piores momentos da sua enfermidade, os cuidados e a dedicação de Isabel provaram ser imprescindíveis. O rosto dela iluminava o dia mais triste, a sua voz confortava, a sua serenidade dava confiança e coragem e o toque das suas mãos era bálsamo para almas aflitas. Isabel era a esperança transformada gente, como se Deus houvesse decidido dar uma forma humana a esse sentimento. E, apesar de haver amado outras mulheres e de, muitas vezes, haver odiado a rainha, Dinis não desejaria ter qualquer outra perto de si naquelas horas difíceis.

Dom Dinis melhorou. Mas a paz que assinou com o filho foi quebrada cerca de ano e meio mais tarde, depois das Cortes de Lisboa, em Outubro de 1323. A guerra civil entraria na sua última fase.

Dom Afonso IV





8 de fevereiro de 2016

725º Aniversário de Dom Afonso IV


Fonte


Faz hoje 725 anos que nasceu um dos reis mais enigmáticos da nossa História: Dom Afonso IV

Ficou sobretudo conhecido por ter mandado assassinar Inês de Castro, embora os verdadeiros contornos dessa conspiração permaneçam nebulosos.

Dom Afonso IV era filho de Dom Dinis e de Dona Isabel. Diz-se que era mau e irascível desde a infância, o que não deixa de ser curioso, sendo os seus pais um rei exemplar e uma rainha que foi canonizada. Muitas vezes me pergunto: porque não conseguiram Dom Dinis e Dona Isabel transmitir bom carácter ao filho? E porque nunca Dom Dinis se deu bem com o seu próprio herdeiro? Coisas que ficarão para sempre envolvidas na bruma dos séculos…

Dom Afonso IV casou com a infanta Dona Beatriz de Castela, dois anos mais nova, filha de seu tio-avô, o rei Sancho IV, e de Dona Maria de Molina. O casamento parece ter sido feliz, o que não deixa de ser estranho num homem que se julga não ter conhecido escrúpulos. Afonso IV é mesmo um caso raro entre os monarcas portugueses, pois não se lhe conhecem barregãs nem filhos ilegítimos. 

Terá sido dono de grande moralidade, transmitida pela mãe Dona Isabel? Isto poderia explicar a sua falta de tolerância a desvios de comportamento do seu próprio filho e herdeiro, Dom Pedro I. E também explicaria que, sendo mais ligado à mãe, se tivesse afastado do pai, que parecia preferir a companhia do seu bastardo Afonso Sanches.

A infanta Dona Beatriz de Castela, tornada rainha de Portugal por matrimónio com Afonso IV, viveu na corte portuguesa desde os quatro anos de idade. Foi criada pela sogra Dona Isabel, assim que ficou estabelecido o seu consórcio com o príncipe herdeiro, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297, onde ficaram definitivamente estabelecidas as fronteiras do reino português. 

 Todas as informações conhecidas sobre Dom Afonso IV estão reunidas na biografia de autoria de Bernardo Vasconcelos e Sousa (Temas e Debates, 2009).