Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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22 de setembro de 2016

Dom Dinis e Dona Isabel (4)


Estátuas de Dom Dinis e de Dona Isabel em Leiria

Na última década de vida de Dom Dinis, os seus desentendimentos com Dona Isabel eram sobretudo baseados nos conflitos entre o rei e o seu herdeiro que desembocaram numa guerra civil. Parece ponto assente que Dona Isabel defendia o filho, pelo menos, disso foi acusada pelo marido.

Recostado na sua cadeira, o rei inquiriu:
- Vindes repetir aquilo que já me dissestes dezenas de vezes?
- Não propriamente. Um novo receio me atinge.
- Deveras?
- Muitos dos descontentes que se vão queixar a nosso filho podem meter-lhe ideias na cabeça…
Isabel interrompeu-se e o rei inclinou-se sobre a mesa, onde pousou os braços cruzados:
- Que tipo de ideias?
Contra o que lhe era habitual, a rainha hesitou, mas acabou por responder:
- Afonso completou vinte anos, é casado há quase dois… É bem possível que haja por aí gente que lhe lamba as botas na esperança de que ele substitua o pai o mais lesto possível, a fim de que ele satisfaça as suas reivindicações.
Dinis não sabia se havia de desatar às gargalhadas, ou de dar um murro na mesa. A seriedade com que Isabel o encarava acabou por o decidir: mostrar-lhe-ia que tal afirmação só lhe provocava escárnio. Riu-se. E, quanto mais se ria, mais vontade sentia de o fazer. Acabou por dar gargalhadas sinceras, mas a rainha não se deixou impressionar:
- Quereis fazer-me crer que considerais tais suposições absurdas? Que não considerais o perigo?
- Perigo de quê? - replicou ele, ainda entre risos. - Que o meu filho participe numa conspiração, com o fito de me mandar desta para melhor? Sim, porque se essa gente está à espera que eu morra em breve, bem desiludida ficará! - Endireitou-se, de peito feito: - Sinto-me mais saudável do que nunca!
- Eu sei.
- Sim, claro - replicou ele irónico. - Como pude eu pensar que tal pormenor vos escapasse?
- Não considerais a hipótese da deposição?
- Que dizeis?!
Dinis estava agora furioso, Isabel acrescentou:
- Quando existe consenso suficiente à volta do príncipe herdeiro…
- Credes mesmo que Afonso teria poder suficiente para me pôr em tais dificuldades?
No silêncio que se seguiu, Dinis ouvia o eco das próprias palavras, ditas num tom alterado, mais agudo do que o costume. Na verdade, o rei fora novamente atingido pelo receio repentino que lhe causava a lembrança do avô, isolado em Sevilha, deposto pelos nobres do seu reino, que se haviam juntado à volta do filho Sancho. À altura, Alfonso X não era muito mais velho do que ele, que acabara de completar os cinquenta anos.


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O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook, por exemplo, na LeYa Online, na Wook, na Kobo e na Amazon (pagamento em euros); Amazon (pagamento em dólares).

No Brasil, está disponível na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

19 de setembro de 2016

16 de setembro de 2016

Dom Dinis protege os Templários

O papa Clemente V enviou a Dom Dinis a bula Callidi serpentis vigil, recomendando-lhe a prisão definitiva dos Templários. Alguns eclesiásticos portugueses, como os Cónegos Regrantes de Santa Cruz e o bispo da Guarda, insistiram em que se cumprisse a bula papal. No fundo, pretendiam apoderar-se dos bens que haviam pertencido aos Templários.

A esse propósito, um excerto do meu romance, em que o bispo da Guarda Dom Vasco Martins de Alvelos expressa a sua indignação a Dom Dinis:

- Ignorais uma bula papal? E olvidais que Jacques de Molay confessou os pecados mais terríveis? Heresia, usura, sodomia! Se os franceses se davam a essas práticas repugnantes, os hispânicos não serão muito diferentes…
- Credes realmente que os freires do Templo fomentavam tais costumes? - contrapôs Dinis. - Sob tortura, qualquer um é levado a confessar principalmente o que não fez. Além disso, o Mestre francês desmentiu a sua confissão dois meses mais tarde.
- O que prova a sua falta de carácter!
- Ou constatar o não cumprimento de certas promessas?
O bispo olhou o seu monarca desconfiado:
- Que quereis dizer?
- Frei Vasco Fernandes é de opinião que Jacques de Molay terá confessado os crimes, acima de tudo, perante a promessa de que os restantes irmãos seriam poupados aos suplícios. Mais tarde, ao verificar que tal não passava de uma mentira, desmentiu a sua confissão.
- Ora, Alteza, é claro que eles se protegem uns aos outros. A opinião de Frei Vasco Fernandes, neste caso, é mais que suspeita.
Dinis olhou o prelado de soslaio, convencido de que ele cobiçava o património dos freires. Retorquiu:
- Tenho Frei Vasco Fernandes em grande estima e confio no seu juízo. Como aliás em todos os membros portugueses da Ordem. Bem sabeis como eles sempre lutaram com bravura contra a ameaça sarracena e como a sua presença é preciosa em muitos pontos da fronteira, garantindo a defesa e o povoamento.
Depois de um momento de vacilação, o bispo insistiu:
- As bulas papais são para se cumprirem!
- Pois eu estou certo que na Hispânia não se ateará uma fogueira que seja contra os Templários. Nem tão-pouco se procederá à alienação dos seus bens.


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14 de setembro de 2016

O Fim dos Templários

Fonte da Imagem

A 14 de Setembro de 1307, partiram da chancelaria do rei francês Filipe IV cartas lacradas, de conteúdo secreto, para vários pontos do reino, com a ordem de serem abertas apenas a 13 de Outubro. Tratava-se da ordem de prisão de todos os Templários franceses que assim os apanhou de surpresa, não lhes dando tempo de se precaverem.

Entre os dias 24 e 25 de Outubro, o Mestre da Ordem Jacques de Molay confessou, sob tortura, os crimes de que era acusado, confissão que aliás desmentiu a 24 de Dezembro, mas que não o livrou de ser queimado em Paris, a 18 de Março de 1314. Na hora da morte, o Mestre francês lançou uma profecia: o papa e o rei haveriam de se lhe juntar ainda antes do término daquele ano. De facto, Clemente V morreu a 20 de Abril (pouco depois de autorizar a fundação do mosteiro de Santa Clara de Coimbra) e Filipe IV o Belo a 29 de Novembro.

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Fonte da Imagem

 
Através da bula Pastoralis praeeminentiae, o papa Clemente V recomendou a todos os príncipes da Cristandade a prisão dos Templários e a confiscação dos seus bens, à semelhança do que se passava em França, e, por toda a Europa, os freires são presos, torturados e queimados. A Ordem do Templo só viria a ser definitivamente extinta a 22 de Março de 1312, através da bula Vox in excelso.

A Península Ibérica constituiu uma exceção. Dom Dinis suprimiu a Ordem, mas manteve os seus membros na clandestinidade. Sabedor da situação, o papa Clemente V enviou-lhe, a 30 de Dezembro de 1308, a bula Callidi serpentis vigil, recomendando-lhe a prisão definitiva dos Templários. Alguns eclesiásticos portugueses, como os Cónegos Regrantes de Santa Cruz e o bispo da Guarda, insistiram em que se cumprisse a bula papal. No fundo, pretendiam apoderar-se dos bens que haviam pertencido aos Templários e Dom Dinis iniciou um processo para que esses bens fossem incorporados na Coroa.

A 12 de Maio de 1310, depois de o Concílio de Salamanca declarar a inocência dos Templários hispânicos, Dom Dinis e Fernando IV de Castela estabeleceram um pacto de defesa e conservação dos bens dos freires contra qualquer decisão em contrário, mesmo vinda do papa. Jaime II de Aragão associou-se em 1311 a este acordo.

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Fonte da Imagem

À semelhança do cunhado aragonês, Dom Dinis acabou por criar uma nova Ordem, a Ordem de Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, autorizada pelo papa João XXII através da bula Ad ea ex quibus, de 14 de Março de 1319, em que instava os freires a manterem a cruzada religiosa contra os sarracenos. Todos os bens que haviam pertencido aos Templários portugueses foram transferidos para a Ordem de Cristo a 24 Junho de 1319. Os primeiros estatutos da Ordem foram aprovados a 11 de Junho de 1321.



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12 de setembro de 2016

Tratado de Alcanices

Selo comemorativo (circulou de 12-09-1997 a 30-09-2001)

12 de Setembro é uma data muito importante na História de Portugal. Foi neste dia, no ano de 1297, que se definiram novas fronteiras entre Portugal e Castela, no Tratado de Alcanices, fronteiras que sofreram alterações mínimas nos últimos 719 anos, o que faz de Portugal um caso único na Europa. Foi através do Tratado de Alcanices que Moura, Serpa, Noudar e Mourão foram incluídas no território português, além de alguns lugares de Ribacoa, como Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal.



O Tratado de Alcanices, celebrado entre Dom Dinis e Dom Fernando IV, sob a tutela da mãe deste, Dona Maria de Molina, pois o rei castelhano tinha apenas onze anos, serviu ainda para estabelecer um duplo consórcio:

- o infante Dom Afonso de Portugal, futuro rei Afonso IV, desposaria Dona Beatriz de Castela, irmã de Fernando IV. O infante português tinha, à altura, apenas seis anos, a infanta castelhana era um pouco mais nova. Casariam em Maio de 1309.
- a infanta Dona Constança de Portugal, de sete anos, ficou prometida ao próprio rei Fernando IV de Castela.

Em casos destes era costume as noivas mudarem-se para o seu novo lar, a fim de serem criadas pelos sogros, pelo que Dom Dinis e Dona Isabel trocaram a filha Constança pela infanta castelhana. Dona Maria de Molina e Dona Isabel prometeram-se cuidar da filha alheia como se da própria se tratasse.

Solicitaram-se dispendiosas bulas de dispensa de parentesco ao papa, pois os infantes castelhanos eram primos de Dom Dinis, tendo sido o pai deles, o falecido Sancho IV de Castela, tio do rei português.

Também se solicitaram bulas de legitimação do jovem rei Fernando IV e de seus irmãos, já que o casamento dos pais nunca havia sido legitimado, igualmente por parentesco. Fernando IV foi, durante muito tempo, contestado na sua condição de soberano por tios e primos e manteve-se no trono não só devido ao pulso firme de sua mãe Maria de Molina, mas também com a ajuda de Dom Dinis.

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Tratado de Alcanices (versão portuguesa arquivada na Torre do Tombo)


Da parte castelhana, o dinheiro para as bulas só foi disponibilizado quatro anos mais tarde, em Junho de 1301, depois das Cortes de Burgos/Zamora. Os bispos de Lisboa e do Porto acompanharam o arcebispo de Toledo a Roma e, em Setembro de 1301, Bonifácio VIII outorgou as bulas que foram solenemente publicadas na catedral de Burgos a 7 Dezembro de 1301.

O casamento do rei Fernando IV com Dona Constança de Portugal realizou-se em Janeiro de 1302, fazendo da infanta portuguesa rainha de Castela. Durou apenas dez anos, terminando com a morte súbita de Fernando IV, a três meses do seu 27º aniversário, já tendo nascido o seu herdeiro, o futuro Afonso XI de Castela, neto de Dom Dinis e de Dona Isabel. Dona Constança morreu pouco tempo depois com apenas 23 anos, vítima de uma febre.


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9 de setembro de 2016

Dom Dinis e Dona Isabel (3)

Continuando a tese de que Dom Dinis teria tido uma relação difícil com Dona Isabel, um excerto do meu romance em que o rei se revela muito amargurado:

Naquele momento, Dinis odiou-a por ela o submeter ao que ele considerava tirania. Isabel era uma tirana que o sujeitava às suas vontades e aos seus caprichos. E a Dinis pouco importava que tais vontades e caprichos adviessem da sua devoção e da sua espiritualidade. Recusando-se a cumprir os seus deveres primordiais, a chamada rainha santa, a quem ninguém se atrevia a pôr defeitos e cujas virtudes se exaltavam, cometia afinal uma falta imperdoável!
Porque lhe destinara Deus tal consorte? Por mais pecados que ele cometesse e por mais defeitos que possuísse, achava o castigo descomunal. Ele, que se impunha perante o reino, falhava com a própria consorte!
Isabel nunca lhe obedecera, nem nunca se lhe submetera, mesmo quando lhe dera a impressão de o fazer. Aquela rainha não acatava ordens de ninguém que pertencesse a este mundo.


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6 de setembro de 2016

Deposição de Dom Sancho II

Em Portugal viviam-se, à altura, tempos agitados, com Sancho II a não conseguir evitar o caos provocado por contestações da nobreza e do clero. A situação atingira tal ponto, que altos dignitários do clero português se haviam apresentado em França ao pai de Dinis, vendo-o como única solução para restabelecer a ordem. Lograram obter o apoio do papa Inocêncio IV, que, numa bula, declarou Sancho II rex inutilis. Estava traçado o caminho que haveria de levar Afonso III ao trono, depois de uma guerra civil que culminou com a morte do irmão no exílio, em Toledo.

A 6 de Setembro de 1245, uma delegação portuguesa jurou, em Paris, obediência ao conde de Bolonha, futuro rei Dom Afonso III, pai de Dom Dinis.

Na verdade, o pai de Dom Dinis não estava destinado a ser rei, pois era mais novo do que o irmão Sancho. Porém, durante o reinado de Dom Sancho II, instalou-se a confusão no reino e a delegação que se dirigiu a Paris exigia justiça e a imposição da ordem, apelando ao irmão do monarca. A 24 de Julho, o papa Inocêncio IV emitiu a bula de deposição de Sancho II, Grandi non immerito, em que o soberano foi considerado rex inutilis.

O futuro Dom Afonso III jurou respeitar as liberdades da igreja, mas, na verdade, envolveu-se numa série de conflitos com o clero, foi inclusive acusado de adultério e incesto ao casar-se com Dona Beatriz de Castela. A situação culminou com o interdito em Portugal, lançado por Alexandre IV em Maio de 1255.

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1 de setembro de 2016

Dom Dinis e Dona Isabel (2)


Imagem Codex Manesse

Sou de opinião que a relação entre Dom Dinis e Dona Isabel não teria sido fácil, situação aliás latente na narração do milagre das rosas. Embora essa lenda não seja exclusiva do par real português (o milagre das rosas atribuído a Santa Elisabete da Turíngia é semelhante), é evidente a não-aceitação por parte de Dom Dinis de tanto fervor caritativo da sua rainha. No meu romance, eu alargo essa rejeição ao fervor espiritual de Dona Isabel.

É também curioso constatar que, em quarenta e quatro anos de casamento, o par real teve apenas dois filhos, nascidos entre 1290 e 1291. Dom Dinis só morreria em 1325, trinta e quatro anos depois de nascer o seu último filho com Dona Isabel.


Em meados do mês, quando os calores abafados deram lugar a trovoadas monumentais, chegaram finalmente notícias. De Aragão! Com apenas vinte e seis anos, Afonso III morrera de repente, nas vésperas do seu casamento com a filha de Eduardo I de Inglaterra! À falta de um herdeiro, o trono fora ocupado por seu irmão Jaime.
Isabel isolou-se totalmente, ficando inalcançável. Acordando no meio das noites de trovejar violento, sozinho e triste, o rei deu consigo a desejar ter Aldonça a seu lado. E continuava a perguntar-se que tipo de sentimentos o ligava à consorte. Durante aqueles quase três anos de felicidade em comum, pensara, muitas vezes, que Isabel era a mulher da sua vida. Parecia não se encher dela, como normalmente acontecia com as barregãs. Por outro lado, toda aquela espiritualidade, assim como as qualidades de curandeira e vidente, assustavam-no. Não deixava de ser uma ironia na vida dele: a mulher que ele mais desejava, afigurava-se-lhe inalcançável. Parecia-lhe estar longe, apesar de viver a seu lado.
Algumas semanas mais tarde, Isabel procurou-o. Parecia flutuar, em vez de andar. A palidez e a magreza davam um tom transparente à pele, realçando o negrume dos olhos. Na sua amargura, Dinis não conseguiu evitar uma tirada áspera:
- Se assim continuais, cedo fareis companhia a vosso irmão!
Logo se arrependeu daquela rudeza, mas Isabel manteve o semblante sereno, imune, como sempre ficava depois de meditação e jejum intensivos. E retorquiu muito calma:
- Não vos preocupeis! Ainda me estão reservados vários anos de vida.
Dinis absteve-se de perguntar quem lhe assegurara tal.





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29 de agosto de 2016

Dom Dinis e Dona Isabel

Fonte da Imagem

Dom Dinis compôs Cantigas de Amor e de Amigo apenas para as suas amantes, ou também o fez para a sua rainha Dona Isabel? No meu romance, sim, embora a relação entre os dois tenha sido difícil:

Anunciou entoar uma cantiga que compusera para ela. Isabel encarou-o resplandecente.
Dinis não possuía grande voz, mas, devido ao seu bom ouvido musical, não desafinava. Ao som dos alaúdes, cantou sobre a senhor que lhe pedira que nunca lhe dissesse o quanto ele a amava, nem quanto por isso sofria (numa alusão à espera que o angustiava e desesperava). E questionava-a: mas, se não vos disser a vós, senhor, a quem poderei eu contar tal? Se não vos disser o que por vós sofro, por quem ireis sabê-lo?

                        Vós mi defendestes, senhor,
                        que nunca vos dissesse rem
                        de quanto mal mi por vós vem;
                        mais fazede-me sabedor,
                        por Deus, senhor, a quem direi
                        quam muito mal levei
                        por vós, se nom a vós, senhor?

                        Ou a quem direi o meu mal,
                        se o eu a vós nom disser,
                        pois calar-me nom m’é mester
                        e dizer-vo-lo nom m’ er val?
                        E pois tanto mal sofr’ assi
                        se convosco nom falar i
                        por quem saberedes meu mal?

Quando a música cessou, em vez de aplaudir ou elogiar, Isabel ficou fixa nele. Os olhos negros brilhavam intensamente. Gerou-se silêncio, só se ouvia o crepitar do lume… Até que lobos uivaram na serra.

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Nota: Todas as Cantigas de Amor, de Amigo e de Escárnio transcritas no meu romance são originais de Dom Dinis, embora seja fictício o contexto em que são inseridas.

25 de agosto de 2016

Cantigas de Escárnio de Dom Dinis

Foto © Horst Neumann

Dom Dinis é conhecido pelas suas Cantigas de Amigo e de Amor, mas o Rei Poeta também criou Cantigas de Escárnio.
A esse propósito, um excerto do meu romance:

                                   Joam Bolo jouv’ em ũa pousada
                                   bem dês ogano que da era passou
                                   com medo do meirinho que lh’ achou
                                   ũa mua que tragia negada;
                                   pero diz el que, se lhi for mester,
                                   que provará ante qual juiz quer
                                   que a trouxe sempre dês que foi nada.

            Os nobres encetavam novos protestos contra os resultados das inquirições e Dinis, usando a personagem João Bolo, escarnecia dos fidalgos de província que desobedeciam aos meirinhos régios, usando de todos os subterfúgios para se furtarem às suas obrigações. Dizia o rei na sua cantiga que João Bolo vivia há um ano escondido, com medo de um meirinho que lhe descobrira uma mula roubada. O fidalgote contrapunha que, arranjando bom advogado, provaria perante qualquer juiz que a mula lhe pertencia, pois tinha testemunhas em como a criara desde que nascera, em casa de sua mãe. A melhor testemunha, dizia ele, era mestre Reinel, que tratara de um inchaço que a mula tivera no toutiço:

                                   Nom na perderá, se houver bom vogado,
                                   pois el pode per enquisas põer
                                   como lha virom criar e trager
                                   en cas sa madr’, u foi el criado;
                                   e provará per maestre Reinel
                                   que lha gardou bem dez meses daquel
                                   cerro, ou bem doze, que trag’ inchado.

            Dinis não tinha mais paciência para os infindáveis protestos, apesar de Isabel insistir em que não os subestimasse.

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Nota: Todas as Cantigas de Amor, de Amigo e de Escárnio transcritas no meu romance são originais de Dom Dinis, embora seja fictício o contexto em que são inseridas. 


20 de agosto de 2016

Foral de Porches


A 20 de Agosto de 1286, el-rei Dom Dinis concedeu foral a Porches, pelo que hoje se celebra o seu 730º aniversário.

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18 de agosto de 2016

Amores de Dom Dinis (2)



Fonte da imagem

Mais uma passagem do meu romance sobre Dom Dinis, referente à sua paixão por uma donzela protegida de Dona Isabel e em que o Rei Lavrador revela a sua veia poética:

Dinis nunca se vira em tal situação, sempre seguira os seus impulsos, não hesitando em seduzir uma dama que o encantasse. A verdade é que se interessava, pela primeira vez, por uma protegida da rainha. Sempre achara tais moças novas e tímidas demais, um juízo que se acentuara com o passar do tempo. Aquela jovem, porém, ultrapassava todas as suas expectativas, no que respeitava a beleza e graça. Para mal dos seus pecados, também cativava Isabel, era visível a ternura que a rainha nutria por ela, expressada num grande empenho em lhe proporcionar um futuro digno. Branca Lourenço de Valadares não era apenas mais uma protegida de Isabel, era a sua protegida especial!
Assim que recolheu aos seus aposentos, e apesar de extenuado, Dinis sentou-se à sua escrivaninha, expressando o desespero em que viveria, enquanto não declarasse o seu amor:

(Tivesse eu tempo e Deus me desse o poder de vos contar o mal que me faz sofrer essa vossa beleza, da qual Deus não fez par; pudesse eu falar-vos e perderia muito do sofrimento que hoje me mata; Deus fez-me amar-vos tanto, que não consigo imaginar como possa continuar a viver, se não acabardes com este meu sofrimento sem igual):

                        Senhor, hoj’ houvesse eu vagar
                        e Deus me desse end’ o poder,
                        que vos eu podesse contar
                        o gram mal que mi faz sofrer
                        esse vosso bom parecer,
                        senhor, a que El nom fez par.

                        Ca se vos pudess’ i falar,
                        cuidaria muit’ a perder
                        da gram coita e do pesar
                        com que m’ hoj’ eu vejo morrer,
                        ca me nom pod’ escaecer
                        esta coita que nom há par.

                        Ca me vós fez Deus tant’ amar,
                        er fez-vos tam muito valer,
                        que nom poss’ hoj’ em mi osmar,
                        senhor, como possa viver,
                        pois que me nom queredes tolher
                        esta coita que nom há par.


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Nota: Todas as Cantigas de Amor, de Amigo e de Escárnio transcritas no meu romance são originais de Dom Dinis, embora seja fictício o contexto em que são inseridas. 



16 de agosto de 2016

Sentença Arbitral de Torrellas (2)

Verificando-se, este mês, o 712º aniversário da Sentença Arbitral de Torrellas, na sequência de um longo processo, no qual Dom Dinis foi o principal medianeiro, aproveito para transcrever um excerto do meu romance, alusivo a esta efeméride:

As sentenças foram proferidas em Torrellas, a 8 de Agosto. Como combinado, o rei de Portugal, o infante Don Juan e o bispo de Zaragoza Don Ximeno de Luna proferiram a sentença quanto à divisão do reino de Múrcia, estabelecendo o rio Segura como linha divisória, solução que estava longe de agradar a muitos nobres castelhanos, apesar de o mais prejudicado ser um português: o irmão de Dinis! Os senhorios de Elda e Novelda, pertencentes à sua consorte, situavam-se na parte destinada ao monarca aragonês, que os exigia para si próprio, pelo que Afonso e Violante lhos teriam de entregar.
Dinis tentou acalmar o irmão:
- Nada pude fazer para o evitar. Mas o meu genro comprometeu-se a doar-te senhorios de rendimento idêntico em Castela. E sabes que em Portugal, onde igualmente possuis propriedades valiosas, serás sempre bem-vindo!
O irmão limitou-se a encará-lo com o seu olhar amargurado.
Os reis de Portugal e de Aragão e o infante Don Juan de Castela proferiram ainda a sentença quanto às pretensões de Alfonso de la Cerda, que teria de desistir de certos castelos, deixar de usar o tratamento de rei e selo e armas correspondentes. Em compensação, o monarca castelhano comprometia-se a entregar-lhe senhorios que atingissem a renda anual de quatrocentos mil maravedis.
No dia seguinte, Fernando IV e Jaime II aprovaram e aceitaram os termos da sentença, seguindo-se um juramento em que participaram os membros das famílias reais, os representantes das Ordens militares e dos concelhos e os ricos-homens castelhanos e aragoneses. Os monarcas de Portugal, Castela e Aragão declararam-se ainda «amigos dos amigos e inimigos dos inimigos», jurando ainda Dinis e Jaime II amizade para com o rei mouro de Granada, que se fizera vassalo de Fernando IV.


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