Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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21 de novembro de 2014

Casamentos com Divórcio à Vista

Imagem daqui

Numa época em que os divórcios se sucedem (alguns, quiçá, de ânimo leve), a expressão que serve de título a este post usa-se com ironia. Serve, porém, na perfeição ao novo porgrama do canal alemão SAT 1, com o título Casamento à Primeira Vista (Hochzeit auf den ersten Blick, no original).

Oito adultos, (quatro pares) candidatam-se a um casamento com alguém que não conhecem. São aconselhados por vários experts, entre os quais uma psicoterapeuta e um pastor evangélico, que analisam as suas personalidades e decidem quem casa com quem. Os nubentes veem-se pela primeira vez em pleno Registo Civil, depois de já se terem comprometido a dizer sim. São depois acompanhados durante dois meses pelas câmaras, ao fim dos quais têm liberdade para decidir: continuarem casados ou divorciarem-se.

Enfim, parece que na guerra e no amor tudo é permitido, principalmente quando está em causa a guerra das audiências televisivas...


26 de outubro de 2014

Trabalho Infantil Legalizado




No início de julho, o Congresso da Bolívia decidiu legalizar o trabalho infantil a partir dos catorze anos, sob condições especiais já a partir dos dez. Em agosto, a lei entrou em vigor.
Um regresso inadmissível ao passado?

Na verdade, a promulgação desta lei representa uma vitória do Unat's Bo, um Sindicato de crianças e jovens. Sem o seu trabalho, muitas famílias do país mais pobre da América Latina não conseguem sobreviver. Nas palavras do Presidente Evo Morales: «Não nos é possível acabar com o trabalho infantil, mas podemos, pelo menos, melhorar as condições de trabalho das crianças». A lei estabelece que as crianças têm de frequentar a escola, que as suas famílias têm de autorizar o seu ganha-pão e proíbe o trabalho em minas, construção civil, na colheita da cana-do-açúcar ou na separação de lixo.

Como se esperava, é uma lei polémica. Além da rejeição que provoca a mera ideia de trabalho infantil, para muitos, esta é a prova da capitulação do sistema social da Bolívia. Mas não se pode fugir aos factos: 90% das crianças bolivianas vivem de um dólar ou menos por dia, muitas moram na rua, e alegra-as o facto de poderem ganhar algum dinheiro a limpar pára-brisas num cruzamento, ou a vender souvenirs aos turistas. «Defendemos o nosso direito ao trabalho», afirmam os membros do Unat's Bo.


21 de outubro de 2014

Dinheiro não traz felicidade!


Este chavão serve perfeitamente para contar a história de Marlene Grabherr, a primeira candidata a ganhar um milhão de marcos (antes dela, já um homem conseguira a proeza) na versão alemã do Quem Quer Ser Milionário. O concurso, transmitido pela RTL, tornou-se um clássico na TV alemã. É transmitido há quinze anos, sem interrupções, com o mesmo apresentador, Günther Jauch, que constantemente nos surpreende com originalidade e autenticidade. Fazendo jus ao nome, o valor máximo do concurso são mesmo um milhão de euros (antes do euro, eram um milhão de marcos).

Mas voltemos a Marlene Grabherr! A 20 de maio de 2001, ganhou o prémio em marcos (cerca de 500.000 euros), tornando-se querida do público, pois estava desempregada. Podia pensar-se que tinha a sua vida resolvida, mas, como já tinha eu escrito no extinto 2711, passados dez anos nada restava do chorudo prémio. Carros caros (chegou a comprar cinco de uma vez), viagens ao desbarato pela Europa e parentes e amigos constantemente a pedincharem empréstimos deram-lhe cabo da fortuna. Cortou mesmo relações com o irmão, a irmã e a sogra, precisamente por questões monetárias. Ficou apenas com a casa que comprou, mas, como escrevi a 8 de dezembro de 2011, estava com dificuldades para conseguir tratar dos dentes.

Soube agora que a senhora faleceu já no ano passado, com apenas 60 anos, solitária e sem um único cêntimo no banco.

Pois é! Até para lidar com dinheiro é preciso cabecinha!


25 de janeiro de 2014

Viver sem perigo

Um homem de trinta e oito anos, parece que dentista, telefona pelas sete da manhã para a polícia. Diz que matou os dois filhos.
Os agentes encaminham-se para a casa da família e dão com um rapaz de seis anos e uma menina de quatro de goela cortada.
O pai confirma a autoria dos crimes.
A sua mulher, de trinta anos, mãe das crianças, também está em casa. É-lhe facultado apoio psicológico.

Aconteceu ontem (sexta-feira), perto de Lübeck, norte da Alemanha, no interior de uma vivenda grande e cuidada, num sossegado bairro habitacional da classe média/alta.


E se o perigo não é uma "fera canina", mas o próprio pai?

6 de dezembro de 2013

De luto

Por Nelson Mandela, uma das maiores figuras da nossa era, um homem verdadeiramente grande.


Gostei das palavras de Domingos Amaral:

Mandela foi um exemplo de perdão e capacidade de mudança.
Mal saiu da prisão, perdoou décadas de humilhações e provou que não seriam os ressentimentos a marcar o seu futuro.

Não acredito na Humanidade, mas em certos humanos. Mandela era, sem dúvida, um deles.


25 de agosto de 2013

Micro-conto

Dois irmãos, tão próximos na infância, tão distantes na idade adulta...
Ele, um pouco mais novo, habituou-se a ver na irmã alguém que tomava conta dele e lhe ensinava coisas, mas também alguém que lhe satisfazia caprichos e que não se zangava, quando ele lhe pregava partidas (algumas, cruéis). O contrário não se verificava. Foi assim que os pais quiseram. E ela, obediente, sujeitava-se.
Em adulto, ele parece não precisar de quem tome conta dele e lhe ensine coisas. Continua a pregar partidas, mas a outros, assim como procura outros que lhe satisfaçam os caprichos.
Deixou de precisar da irmã. E descartou-a.

Nota: este texto foi-me inspirado por esta pergunta da Alice Alfazema.


23 de agosto de 2013

Bebé, adultos e animais reais


Daqui

A qualidade da fotografia deixa muito a desejar. É natural, pois não foi tirada por um profissional, mas por Michael Middleton, o sogro do príncipe William. O jovem casal quis assim, nada de artificialismos e retoques, tudo muito natural, como costuma acontecer numa reunião de família. E não tiveram problemas com a proximidade do bebé com os seus cães. Parece que Lupo, o coker spaniel, pertence ao jovem casal e Tilly, o golden retriever, todo pachorrento lá atrás, é o cão da família Middleton.

É conhecida a paixão de Isabel II pelos seus welsh corgis, que começou na infância. Os cães passeiam-se pelos palácios que habita, inclusive, Buckingham. E estão presentes nalgumas audiências e receções. Eu vi, na televisão alemã, uma equipa de futebol inglesa, na altura, com um guarda-redes alemão (Lehmann) a ser recebida pela rainha. Lá vinham os corgis (penso que oito) no encalço da soberana, espalhando-se pela sala e examinando, com a maior descontração, o calçado dos jogadores. Estes olhavam-nos entre o divertido e o incomodado.

Escusado será dizer que Isabel II agiu com a maior naturalidade, como se fosse habitual ver cães em situações daquelas. Os corgis e restantes cães são considerados membros da família e o príncipe William foi criado nesse ambiente. É natural que siga a tradição com o próprio filho. Há quem fique chocado, perante tal, quem proteste. Não sabem nem sonham que só assim se criam verdadeiros cães familiares, só desse modo as coisas funcionam com harmonia e se evitam tragédias.

Não se trata de pôr os animais ao nível das pessoas. Trata-se de zelar pela vida e pelo conforto das pessoas. Porque é mesmo assim: acarinhando os animais, fazem-se pessoas mais felizes!


14 de agosto de 2013

«O tempo que passámos com ele foi um presente»


Um ator morre, de repente, com apenas 22 anos. Notícias destas atingem-nos, de vez em quando. E os motivos são conhecidos: excessos, drogas, uma vida vivida depressa demais, incapacidade para lidar com a fama.

O caso do alemão Jonathan Dümcke parece, porém, diferente. Jonathan sofria de problemas cardíacos, teve de ser operado, logo a seguir ao nascimento. Quando ingressou na escola, com seis anos, tinha já feito quatro operações, a fim de assegurar o fornecimento de oxigénio ao seu organismo, que, mesmo assim, se ficou pelos 85%.

Jonathan tinha, por isso, problemas de resistência e a sua vida de ator era cansativa. Começou a atuar em séries televisivas com nove anos e chegou a participar num filme, em 2006. Em casos destes, perguntamo-nos se são os pais, mais do que os filhos, que procuram a fama, tentando realizar os seus sonhos através dos rebentos, roubando-lhes o direito a uma personalidade própria.

Segundo o pai, ser ator era o grande sonho de Jonathan, era-lhe mais importante do que a própria saúde. E a família apoiou-o, apesar de saberem que a vida dele estava constantemente em perigo, pois, o mais importante, seria saberem-no feliz. Neste caso, estaríamos perante pais corajosos, capazes de uma grande prova de amor, que os pais que se sentem donos dos filhos não estão em condições de dar.

Jonathan passava férias em Itália, com a família. No seu último serão, depois do jantar, no hotel, deram-se as boas-noites e o jovem foi para o seu quarto. O próprio pai o encontrou, no dia seguinte, morto, à entrada da casa-de-banho. E, apesar do desgosto, sente-se grato pelo tempo que lhe foi dado passar com o filho, ao classificá-lo como presente. Na minha opinião, uma bonita homenagem.


19 de junho de 2013

Desabafos



Tenho andado arredada da blogosfera, por força das circunstâncias. Mas, agora que estou em casa, penso que as coisas normalizarão.

Estranho dizer que estou «em casa», agora que cheguei à Alemanha. É o problema de viver há tanto tempo no estrangeiro. Aqui, sou sempre uma estrangeira e, na verdade, já não me sinto completamente «em casa» quando estou em Portugal, um país que visito de fugida, onde não me banho diariamente, um banho que é essencial para falarmos, sentirmos, respirarmos e suarmos Portugal.

Desta vez, a minha visita foi ainda mais estranha do que o costume. A minha mãe foi operada a um cancro, em meados de Maio, um processo que me vi obrigada a acompanhar através de telefonemas, emails, SMS's e fotografias. É nestas alturas que sentimos as distâncias, que notamos que já não pertencemos...

Felizmente, correu tudo bem. Pouco tempo depois, estivemos juntas, pudemos conversar. Mas havia sempre uma barreira, uma distância, a consciência, de parte a parte, de que se tratava de uma situação especial, que, em breve, eu já não estaria ao lado dela.

À quimioterapia, seguir-se-á a radioterapia, o suficiente para ocupar os meus pais mais de meio ano, com viagens desgastantes entre Macedo de Cavaleiros e o Porto. É óbvio que já não são novos, já ultrapassaram os setenta. E eu fico preocupada com eles. E pergunto-me onde eu deveria estar, pergunto-me onde ela gostaria de me ter. Perguntas que não fiz e que ela não abordou. Com medo das respostas...


22 de maio de 2013

When the music's over

Cerca de 42 anos depois da morte prematura de Jim Morrison, faleceu o segundo fundador dos The Doors, o teclista Ray Manzarek. Não há dúvida de que este grupo, que durou apenas seis anos, vivia do carisma do vocalista. Mas foi Ray Manzarek que lhe deu o som característico: o keybord inconfundível de Light my Fire.

Daqui
Ray e Jim frequentaram juntos o curso de cinema da Universidade de Los Angeles, mas cedo abandonaram os estudos para se dedicarem à banda. Completavam-se bem. Ray era um músico exímio e soube transformar os poemas e as melodias de Jim (que não percebia nada de música, mas era dono de uma boa voz) em composições que marcaram uma época e se tornaram únicas. Não há, nem nunca houve, outra banda com o som dos The Doors.

Hulton Archive, Getty Images
Mas eram uma banda de excessos e Jim Morrison não soube viver com o sucesso. No fundo, era um menino perdido, à procura de algo que nunca encontrou em casa, governada por um oficial da marinha severo. Cortou com a família, perdeu-se nas drogas e encontrou o fim aos 27 anos.

Music is your only friend
Until the end

Ray Manzarek viveu até aos 74. Um cancro venceu-o, levando-o para esse sítio à margem do tempo e do espaço, onde Jim vagueia há mais de quatro décadas.

This is the end
Beautyful friend

Uma das rimas características de Morrison era friend com end.
No mundo dos vivos, restam o guitarrista Robby Krieger e o baterista John Densmore.




18 de fevereiro de 2013

Escravatura moderna

Periodicamente se constata que a escravatura existe nos nossos dias. E não só nos países do chamado Terceiro Mundo, nem em civilizações mais exóticas (sob o nosso ponto de vista) como as orientais. Em plena União Europeia, num dos seus países mais ricos e envolvendo uma empresa norte-americana, encontram-se indícios de exploração de trabalhadores.


Uma reportagem do canal alemão ARD, da autoria de Diana Löbl e Peter Onneken, sobre as condições de trabalho nos centros de logística alemães da Amazon, tem causado furor e já moveu a Ministra do Trabalho a iniciar uma investigação.

Os problemas são mais graves em alturas de mais movimento, como é a época natalícia. São contratados trabalhadores a prazo e a crise europeia leva a que muita gente se deixe levar por promessas que não são cumpridas. Vêm da Polónia, Hungria, Roménia e Espanha e, só quando chegam à Alemanha, constatam que o seu empregador não será a Amazon (apesar de trabalharem para essa empresa), mas uma firma de contratos de trabalho temporário, a Trenkwalde, por salários abaixo dos nove euros por hora (nos seus países de origem, tinha-lhes sido prometido mais dinheiro).

A reportagem segue o percurso de Silvina, uma espanhola desempregada, mãe de três filhos. Os trabalhadores são aquartelados em moteis ou centros de férias alugados para o efeito, completamente superlotados, ou seja, são obrigados a viver em espaços exíguos com pessoas que lhes são estranhas. Os autocarros que os transportam para o emprego e de regresso a casa estão longe de serem suficientes, pelo que originam longas esperas e circulam igualmente superlotados. Além disso, os ordenados são, muitas vezes, pagos com atraso e, não raro, é-lhes exigido que trabalhem duas semanas seguidas, sem direito a fim-de-semana.

Um outro problema são as regras de comportamento impostas aos trabalhadores, vigiados por uma empresa de segurança, a H.E.S.S. (Hensel European Security Services), que se desconfia ter ligações à cena neonazi. Estes seguranças são omnipresentes, revistam as malas, as bolsas e as casas dos trabalhadores. Os próprios jornalistas tiveram problemas com eles, ao ponto de, certa vez, só conseguirem deixar o recinto de logística que investigavam sob proteção policial.

Coincidência, ou não, Silvina, a espanhola sobre quem se fez a reportagem, foi enviada para casa três dias antes de concluído o seu contrato. No fim de um dia de trabalho, foi-lhe simplesmente comunicado que já não era necessária e que deveria fazer as malas.

Instada pelos jornalistas, a Amazon escusou-se a prestar esclarecimentos.




23 de julho de 2012

Lidar com a fama

O Pedro Correia, falava, a propósito da morte de Amy Winehouse, há um ano, da absoluta incapacidade de certas pessoas para lidarem com a fama. O mundo está cheio desses casos. Estando de fora, parece-nos absurdo, mas muitos de nós talvez também sucumbissem à fama planetária.

Era notória a dificuldade que Amy Winehouse tinha de atuar em público. A primeira vez que a vi (e ouvi falar dela), salvo erro, num dos MTV Awards, olhei espantada para aquela figura magra e hesitante. A impressão que me deu foi a de que estava ali perfeitamente deslocada, o que me levou a pensar que estivesse a fingir. Achei-a ridícula.

Depois, porém, ouvia-a na rádio e não era apenas a voz que me encantava, era o sentimento com que ela cantava. Há certas passagens, nas suas canções, uma certa inflexão de voz, que me põem com um nó na garganta. E, à medida que a conhecia, convencia-me de que não fingia. Amy devia ter um grande medo do palco, pânico mesmo, de não estar à altura, de fazer figura de parva (como acabava por fazer), o que indica uma grande falta de autoestima.

Sei que é polémica a assunção de que os pais são os culpados por coisas destas. Os próprios psicólogos não nos sabem dizer quanto do que somos é hereditário e quanto mal/bem nos fizeram os pais, ou as pessoas que nos criaram. E porque é que alguns de nós superam os seus traumas e outros não? É um tema deveras complicado, pois é certo que, ao nascer, já trazemos genes que definem, pelo menos, parte do nosso caráter. Mas também somos aquilo que fazem de nós. Há toda uma mistura de vivências e hereditariedade que torna difícil comparar casos, pelo que afirmações do estilo: “eu também sofri, mas dei a volta”, não levam a lado nenhum e estão longe de ajudar quem se encontra no fundo do poço. Algumas misturas (genes/educação/vivências) serão tão explosivas, que, praticamente, não darão hipóteses de superar aquilo que correu mal.

Não conheço a infância de Amy Winehouse. Mas, quando ela começou a adquirir fama planetária, a família dela pediu aos fãs que lhe não comprassem os discos, pois o dinheiro estragava-a. Este apelo caiu-me muito mal. Posso compreender que estivessem desesperados, mas escolheram o pior caminho. Foi o mesmo que dizer: “ela é boa, mas não lhe liguem, coitada, que lhe faz mal”, o que dá cabo da autoestima de qualquer um (ponham-se no lugar dela). Claro que o dinheiro facilita o acesso às drogas, mas, num caso destes, é um erro reduzir o problema ao facto de se ganhar muito. É só ver a ponta do icebergue. De resto, quem se quiser drogar e embebedar, fá-lo, tendo, ou não, dinheiro.

Quando ela morreu, o pai declarou que ela já não se drogava há mais de um ano e que não bebia há, pelo menos, três semanas. Passado uns dias, foi à casa dela, defronte da qual se encontravam muitos fãs, e começou a distribuir t-shirts. O que mais me impressionou foi que me parecia agradar-lhe ser o centro das atenções. Por essa altura, a mãe veio desmentir as afirmações do marido, dizendo que a Amy não parara de se drogar e de beber, que o corpo dela estava uma ruína e que os médicos teriam dito que, se não modificasse o estilo de vida, seria, em breve, tarde demais. Como veio a ser.

O pai de Amy Winehouse não seria o primeiro a aproveitar-se de um/a filho/a para brilhar. É algo que nos choca e, por isso, fazemos de conta que coisas dessas não existem. E, no entanto, os pais que usam as suas crianças para obterem a atenção que sempre lhes faltou é mais frequente do que queremos admitir.

A caricatura de Amy Winehouse é da autoria de Fernandes

15 de dezembro de 2011

Centenário

O post A Conquista do Pólo Sul atingiu a lista dos cinco mais lidos na barra lateral. Presumo que tenha acontecido à custa das buscas do Google, pois fez ontem exactamente 100 anos que o norueguês Amundsen se tornou no primeiro ser humano a atingir esse pedaço de Terra (ou de gelo). Mas a sua conquista foi ensombrada pela tragédia do inglês Robert Scott. Vi, na terça-feira, um documentário actual (data de 2011), na ZDF, sobre o tema. E tornei a verter lágrimas. É uma tragédia humana e animal incrível. Mas o programa era muito objectivo e dei-me conta dos erros sucessivos de Scott.


Enfim, não deixa de ser o meu herói. Porque tenho um fraco pelos britânicos. E porque, como se disse no documentário, ter escrito um tão belo diário. O de Admunsen nem se compara!

13 de agosto de 2011

Abuso sexual em lares da Igreja Católica

Já aqui falei do Jornal Católico do bispado de Hildesheim, que assino desde Fevereiro passado. Acima de tudo, interessa-me saber se a Igreja Católica ainda tem algo para oferecer à sociedade.

Fui agradavelmente surpreendida. Ao contrário do que acontece em Portugal, a Igreja Católica alemã faz um grande esforço por mostrar a sua utilidade. E vai conseguindo. Desde problemas de racismo, à pobreza, exclusão social e novas maneiras de celebrar as missas, tem sido muito interventiva, até quando se trata de defender os direitos dos animais, ou o ambiente, coisa de que nunca me apercebi, no nosso país. Além disso, o jornal aborda temas normalmente incómodos, como o abuso sexual em lares católicos.

Impressionou-me muito o testemunho de Rudolf Kastelik e gostaria de o partilhar aqui, mostrar como essas vivências perseguem as suas vítimas uma vida inteira. Rudolf Kastelik viveu, entre os 5 e os 19 anos, em oito lares diferentes. Porque mudou tantas vezes de sítio e porque é que, às vezes, o seu irmão gémeo vivia com ele e, outras, não, não sabe. Mas, em todos os lares, uns piores, outros melhores, ele foi vítima de abusos sexuais. Além disso, viu-se sujeito a regras absurdas de educação, baseadas na violência e na humilhação.

Rudolf Kastelik recalcou estas vivências durante 50 anos, não falou disso a ninguém, nem sequer à sua mulher, com medo de que não acreditassem nele, de que não o levassem a sério. Muitas pessoas reagem com frases do tipo: "deixa lá, já passou, esquece", menorizando os problemas. Ainda para mais, quando a maior parte dos responsáveis pelos abusos já faleceram. Kastelik contrapõe: "Hitler também está morto. Deveremos, por isso, ignorar as atrocidades que cometeu?"

Rudolf Kastelik tem sofrido, a vida inteira, de pesadelos, fobias e ataques de pânico. Quando, recentemente, começaram a surgir as notícias sobre o abuso sexual nos lares, ele viu-se confrontado com o seu passado. Começou a fazer psicoterapia e a escrever um livro autobiográfico, em que relata a sua história. Nessas alturas, vem tudo ao de cima, sente-se como se estivesse a viver tudo, mais uma vez. Por isso, não consegue escrever mais do que uma hora por dia e nunca o faz à noite, pois os fantasmas perseguem-no no seu sono.

Rudolf Kastelik ainda espera algo da Igreja, hoje em dia? Sim, nas suas próprias palavras, o mais importante é que o levem a sério e acreditem nele. Tem procurado o contacto com as instituições onde esteve e fala com os actuais responsáveis sobre o assunto. Parece ser esta a solução que ele encontrou para lidar com o problema, consciente de que a cura para o seu mal é impossível, a única esperança consiste no alívio dos sintomas.

2 de agosto de 2011

"The Last Place on Earth"

Incrível, esta blogosfera!!!



Há coisas que nos marcam, que nunca esquecemos. Perante este post, lembrei-me da série que tinha visto, há uns bons anos. Já não me lembrava do nome, apenas das imagens da luta pela sobrevivência de Robert Scott e seus companheiros. Depois de uma pesquisa rápida, encontrei a fotografia tirada à chegada ao Pólo Sul e escrevi um texto sobre isso.

Há dias, o comentador António Guerreiro deixou lá uns links. Fiquei céptica, pensei que ele apontasse para algum documentário mais recente. Mas não! Trata-se realmente da "minha" série, intitulada "The Last Place on Earth", produzida em 1985 (Wikipedia). Entretanto, encontrei o DVD, que se pode adquirir na Amazon.


Revi imagens que pensei que nunca mais veria e vieram-me outros aspectos à memória. Por exemplo, que eu era a única, lá em casa, a ver essas séries inglesas. Às vezes, perguntavam-me o que é que eu estava a ver, mas, quando eu explicava, encolhiam os ombros, desinteressados. Chegavam a olhar-me com aquela expressão perplexa de quem diz: e perdes tempo com isso? Felizmente, não calhou mais ninguém querer assistir a outro programa à mesma hora, eu não tinha a mínima hipótese contra o meu pai ou o meu irmão. Só havia um aparelho de TV lá em casa e ainda não tínhamos vídeo-gravador. Outros tempos...

Já agora, deixo também o link, onde se pode ver o videoclip de entrada e excertos da série. Vale a pena ver o genérico, com apenas um minuto e dez segundos de duração. Embora um dos comentadores critique a música, (sinal do tempo em que a série foi produzida, penso eu) gosto do jogo de imagens.

Muito obrigada, António Guerreiro!

Dedico este post também à Teresa, apreciadora das "boas séries inglesas".

P:S. uma chamada de atenção para o blogue Montalvo e as Ciências do Nosso Tempo, um excelente divulgador de cultura, que há muito faz parte da barra lateral aqui do Andanças. Já tentei felicitar o seu autor, JDACT, mas o blogue não permite comentários e não há nenhum contacto de email. Enfim, pode ser que ele leia este meu texto. Parabéns, caro JDACT!

20 de julho de 2011

A Conquista do Pólo Sul

A sua «corrida contra-relógio» com o inglês Robert Scott, que Amundsen acabou por vencer ao chegar em primeiro lugar à meta, às três da tarde do dia 14 de Dezembro de 1911, é uma das aventuras mais admiráveis do século XX. Amundsen e Scott protagonizaram um duelo inesquecível. No entanto, a bandeira que ficou no extremo mais austral da Terra foi a norueguesa». In Gayban Grafie.

Sim, foi o norueguês quem ganhou. Mas, para mim, o herói foi o vencido: Robert Scott. A sua amargura é visível na fotografia que, ainda assim, a equipa inglesa tirou, para a posteridade, quando atingiu o Pólo Sul, em Janeiro de 1912, e constatou que tinha perdido a corrida.

Scott é o do meio, atrás

Robert Scott embarcou na aventura, deu o tudo por tudo, mas não conseguiu chegar em primeiro lugar. Nada mais lhe restava do que regressar, depois de tirar a fotografia. Essa viagem de regresso prova que se pode viver o inferno num dos lugares mais frios do mundo. Vi uma série televisiva, já há muitos anos, em que se dava conta da luta daqueles homens, pelo meio de tempestades de neve e temperaturas gélidas, usando um equipamento longe de ser eficaz. Tinham milhares de quilómetros a percorrer e teriam de o fazer antes de começar o Inverno antárctico, em Março.

As forças foram faltando, o frio e as tempestades de neve surgiram mais cedo do que o esperado, membros da equipa morreram pelo caminho. Um desgaste incrível, não só físico, como psicológico. Quando já só restavam Robert Scott e dois companheiros e se encontravam a apenas 11 milhas de uma estação de reabastecimento, os três estavam esgotados, já só se mexiam por instinto, como se fossem tele-comandados. Montaram a tenda no meio de uma tempestade, deitaram-se aconchegados uns nos outros... E nunca mais se levantaram.

Impressionante são as últimas linhas que Scott escreveu no seu diário, a muito custo, quando se apercebeu de que os seus dois companheiros, encostados a ele, um de cada lado, já haviam partido deste mundo. Essas últimas linhas incluíam uma carta a sua mulher, Kathleen Scott. O casal tinha um filho de apenas três anos.





"Dear it is not easy to write because of the cold — 70 degrees below zero and nothing but the shelter of our tent — you know I have loved you, you know my thoughts must have constantly dwelt on you and oh dear me you must know that quite the worst aspect of this situation is the thought that I shall not see you again."


A tenda só foi encontrada vários meses mais tarde, depois do Inverno austral, que acaba em Setembro. E só o foi por sorte, pois estava quase completamente soterrada pela neve. Os três cadáveres estavam congelados lá dentro. As mãos de Robert Scott ainda seguravam a caneta e o diário.

A descrição minuciosa da aventura, as fotografias, todo o drama foram assim recuperados para a Humanidade.

18 de julho de 2011

Crianças-Lobo

As crianças-lobo viviam em florestas, andavam cerca de 20 quilómetros por dia, principalmente, no Inverno, para vencer o frio. Comiam ratazanas, cadáveres e cascas de batatas, encontradas em lixeiras, muitas morreram de fome, algumas, infestadas de piolhos e outros parasitas.

Ao contrário do que parece, não se trata do resumo de mais um livro de ficção, ou de um filme de Hollywood. As crianças-lobo existiram. Não na Idade Média, como se podia pensar, ou noutras eras mais distantes, mas no século XX. E não estamos a falar de regiões inóspitas, mas da "nossa" Europa!

As crianças-lobo eram originárias da Prússia Oriental, um território alemão que, depois da Primeira Guerra Mundial, ficou geograficamente separado do resto da Alemanha pelo chamado corredor polaco. Depois da Segunda Guerra, a Alemanha perdeu o território por completo, que foi dividido entre a Polónia e a Rússia. A partir de 1944, as tropas soviéticas começaram a invadir a Prússia Oriental, espalhando o terror e a destruição. Alguma da população conseguiu fugir para a Alemanha, mas algumas crianças, vendo-se órfãs ou em situações de perigo, fugiram em direcção às florestas da Lituânia.

São histórias incríveis e praticamente desconhecidas do mundo. Li a de Ursula Dorn, hoje com 76 anos, no Jornal Católico do bispado de Hildesheim. Com apenas dez anos e cansada de assistir à violação de mulheres, à fuga de pessoas em chamas de casas incendiadas e ao juntar de cadáveres pela rua, Ursula Dorn, apesar de ter a mãe ainda viva, fugiu àquele horror num comboio de mercadorias, em direcção à Lituânia. Por ali errou, durante dois anos. Dormia em celeiros, ou em campos, e escondia-se na floresta. Sobreviveu, nas suas palavras, graças à bondade de camponeses, que, apesar de muito pobres, sempre lhe iam dando uma caneca de leite e um pedaço de pão. Às vezes, até a recolhiam temporariamente.

Muitas dessas crianças foram adoptadas pelos camponeses lituanos. Proibidas de falar alemão, para que o exército soviético não as notasse, receberam nomes lituanos e foram naturalizadas. Muitas conseguiram regressar à Alemanha, depois da guerra, outras por lá ficaram, recalcando a sua verdadeira origem. Hoje, ainda lá vivem algumas dezenas. São pessoas muito pobres, analfabetas e esperam, agora, serem naturalizadas alemãs, a fim de terem direito a uma reforma de jeito. Mas tem sido difícil. Como diz Ursula Dorn, "fomos esquecidos, ninguém se preocupou connosco".

São histórias arrepiantes. Na Alemanha, há alguns livros publicados sobre este assunto e foram feitos alguns documentários para a televisão. Quem quiser mais informação, na Wikipedia, em inglês e em alemão.