Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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16 de julho de 2013

Divagações Abrilinas (16)



Mas, afinal, o que foi o Verão Quente?

O Verão Quente foi a ideia de que a revolução estava longe de terminada, mesmo depois de iniciados os trabalhos da Assembleia Constituinte, resultante das primeiras eleições livres, a fim de criarem as estruturas para a democracia em Portugal.
O Verão Quente foi quando o PCP tentou instituir uma ditadura de modelo soviético, com a curiosa ambição de fazer do nosso país a «Cuba da Europa Ocidental», orgulhosamente sós (faltava-nos os mares das Caraíbas; os piratas já nós tínhamos).
O Verão Quente foi quando a extrema-esquerda repudiou o imperialismo soviético do Barreirinhas Cunhal, tentando entregar o poder aos trabalhadores, acreditando na utopia da sociedade sem classes.
O Verão Quente foi quando a extrema-esquerda almejou expulsar, prender, ou até fuzilar burgueses, capitalistas e fascistas.
O Verão Quente foram governos provisórios a sucederem-se uns aos outros e manifestações a todas as horas, do dia e da noite, a favor e contra esses governos.
O Verão Quente foram cocktails molotov, assaltos e incêndios a sedes de partidos, pedradas, petardos, tiros e carros Cherman desgovernados pelas ruas.
O Verão Quente foram ocupações selvagens de casas, de estações de rádio e televisão, de anarquia nos quartéis, de sequestro da Assembleia Constituinte.
O Verão Quente foi quando o país se tornou num «manicómio em autogestão» e um governo se autossuspendeu, declarando-se em greve.
O Verão Quente foi a iminência da guerra civil.

Centro de Documentação 25 de Abril

As crianças do 25 de Abril estavam habituadas a ver militares em ação, a incidentes que os envolvessem, a manifestações que descambavam para a violência e a assaltos e incêndios de sedes de partidos. Para as crianças do 25 de Abril, o processo revolucionário não constituía uma situação de exceção. Era a normalidade.




Nota: Esta série termina hoje, com a 16ª divagação abrilina, a 16 de Julho, dia do meu aniversário. Em 1975, completei a minha primeira década de vida, em pleno Verão Quente. E fui, pela primeira vez, ao Algarve e a Lisboa.

 

11 de julho de 2013

Divagações Abrilinas (15)





Força, força, companheiro Vasco
            Nós seremos a muralha de aço

Era o verdadeiro culto de uma personalidade, Vasco Gonçalves estava na iminência de se tornar um «querido líder». Álvaro Cunhal, pelos vistos, não tinha ciúmes, talvez não visse qual era o mal de, em vez de nos tornarmos na «Cuba da Europa», nos tornássemos na «Coreia do Norte da Europa». É, no entanto, curioso verificar que a figura de Vasco Gonçalves inquietava um revolucionário como Gabriel García Márquez:

            [Vasco Gonçalves] «É o único puritano em quem se pode confiar», disse-me um velho amigo seu, quando lhe manifestei a minha inquietação pelo facto de o primeiro-ministro só beber água mineral, mesmo nas festas mais íntimas.

Resta saber o que tinha o génio da literatura contra a água mineral.


4 de julho de 2013

Divagações Abrilinas (14)



Os comunistas, que se diziam defensores da liberdade, menorizavam a importância das eleições, a expressão da vontade do povo. É verdade que se tratava de uma situação especial. Mas, se Álvaro Cunhal estava bem ciente daquilo que dizia, a maior parte dos jovens esquerdistas não o estava. Acreditavam em utopias e pretendiam um corte radical com a sociedade antiga, recusando tudo o que fosse ordem estabelecida.

                        Anda, a gente vai começar
A gente já começou
A gente vai acabar
Aquilo que começou
A gente vai começar

            Era uma dinâmica sedutora. O Portugal de 1975 tornou-se num paraíso para revolucionários estrangeiros, jovens europeus, que vinham à procura de bebedeiras e borgas sexuais. Que os portugueses se tinham libertado de uma ditadura, era o que menos lhes interessava. Eles não faziam ideia do que era uma ditadura.

Centro de Documentação 25 de Abril


27 de junho de 2013

Divagações Abrilinas (13)



A Assembleia Constituinte dispunha de uma esmagadora «maioria burguesa»! Gabriel García Márquez descreveu o desalento e o receio dos revolucionários:

Em Portugal, muitos acreditam que o primeiro grande erro que a revolução cometeu foram as eleições de 25 de Abril [de 1975]. Foram realizadas contra a vontade do partido comunista (PCP), que só obteve 12% dos votos (…) As análises mais sérias concordam, sem dúvida, que estes resultados não correspondem à realidade, porque numa situação como a actual em Portugal não é possível aferir a realidade política pela quantidade de votos. «O PS obteve mais votos, mas o PCP tem uma maior força política devido à sua real implantação nas bases», disse-me um professor universitário. «Além disso, a direita destronada, mais hábil e inteligente, orientou os seus votos para o socialismo, ou seja, escondeu-se dentro da legalidade eleitoral para pôr um travão na revolução».
«Caímos numa armadilha tola», disse-me um membro do Conselho da Revolução. «As eleições foram prometidas na euforia do primeiro momento, sem um conhecimento real das condições do país, e não as realizar poderia ter comprometido a credibilidade do MFA». Respondi-lhe que a revolução cubana, apesar das pressões vindas de todos os lados, não se deixou cair nessa armadilha.

Centro de Documentação 25 de Abril

20 de junho de 2013

Divagações Abrilinas (12)



No Portugal dos cravos, insultava-se de maneira diferente. «Fascista» e «reacionário» passaram a ser os piores insultos, substituindo os «cabrões» e os «filhos da puta».
O conceito de «burguês», como sinónimo de capitalista explorador, também se tornou numa palavra maldita. Tudo o que não fosse a favor do «processo revolucionário em curso», mas também tudo o que lembrasse a direita, o fascismo, o conservadorismo, a ordem antiga, era «burguês», numa deturpação da palavra de origem medieval usada para definir o habitante do «burgo», ou seja, da cidade protegida por muralhas. Que os «burgueses» tenham adquirido conforto na vida, teve a ver com a decadência da nobreza medieval e a expansão do comércio. Ainda hoje, na Alemanha, Bürger é o vocábulo usado para «cidadão». No Portugal do Verão Quente, representava um insulto.

Centro de Documentação 25 de Abril