Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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9 de maio de 2013

Divagações Abrilinas (6)



As imagens da guerra do Ultramar eram-lhes familiares. Assim como as mensagens de Natal, a que a mãe da Vera assistia, de lágrima no olho, exprimindo o medo por o filho pequeno, um dia, ter de ir também combater os terroristas. Os terroristas eram os pretos, claro. E havia a história de uma amiga da avó da Vera que tinha perdido o filho nessa guerra. Visitaram-na uma vez, tinha lá a fotografia do jovem, num passe-partout, em cima de uma cómoda. Um militar, como os que a miúda via na televisão. A mãe disse-lhe:
- Olha, que bonito que era! Já viste?
Como se o facto de ele ser bonito aumentasse a indignação por ele ter morrido lá longe, na flor da idade, como tantos outros, bonitos e feios, gordos e magros, altos e baixos.





2 de maio de 2013

Divagações Abrilinas (5)



A certa altura, a mãe foi ter com os filhos. Mostrou-se consternada. Disse-lhes que o Presidente da República e o Presidente do Conselho de Ministros se encontravam sequestrados por militares, que exigiam a sua rendição. Estava cheia de pena do almirante Américo Thomaz, «já tão velhote, coitado do senhor», e do Professor Marcello Caetano, «pobre senhor», que viviam horas de terror, com armas apontadas contra si, sob a ameaça: «ou te rendes, ou disparamos»!
A Vera tentava imaginar o Presidente do Conselho sentado à sua secretária, rodeado por militares de armas em punho. Perguntou à mãe porque é que isso acontecia, mas não obteve resposta. Na verdade, a mãe também não sabia! E não fazia ideia de que, dependesse do «pobre senhor» Marcello Caetano, a fragata Gago Coutinho, a Força Aérea e os carros de combate de Cavalaria 7 teriam rebentado com o Terreiro do Paço, impedindo o capitão Salgueiro Maia de ter chegado ao Largo do Carmo, dando início ao episódio mais simbólico da revolução.

O ambiente em casa dela estava longe de qualquer euforia revolucionária. Receio seria a palavra mais apropriada. E a consternação da mãe era visível, ao assistir ao transporte do Presidente do Conselho cessante numa viatura fechada, como um vulgar criminoso, no meio da populaça em fúria. 
Era o desmoronar de um mundo! 


25 de abril de 2013

Divagações Abrilinas (4)


- Qual é a primeira sensação, ou o primeiro sentimento, que te atinge, quando pensas no dia 25 de Abril de 1974?
A Vera fecha os olhos.
- Medo.
Depois de um curto silêncio, digo:
- Compreendo. Será assustador, para uma criança, ver militares armados e carros de combate pelas ruas…
A Vera abre os olhos:
- Não. A culpa não foi dos militares que nos trouxeram a liberdade. A culpa foi da estúpida da minha professora primária.



            A aula não tinha começado há muito tempo, quando a mestra foi chamada à Diretora. Ao regressar, lançou, muito aflita, a caminho da sua secretária e sem olhar para as alunas:
- Ide-vos embora, para casa, hoje não há escola!
Além de ansiosa, parecia muito irritada. Nas meninas, a perplexidade. Perguntavam-se se tinham aterrado no filme errado. Aquele dia havia começado igual aos outros e, de repente, dava-se uma viragem que não estava prevista no guião.
- Não me ouvistes? Guardai as vossas coisas e ide para casa!
A Vera não sabia se a professora fingia aquela aflição, ou se estava realmente borrada de medo. O certo é que as alunas, já muito inquietas, desejavam uma explicação daquela em quem confiavam. Mas ela, atrás da secretária, arrumava os seus pertences.
– Isto até pode dar em guerra… Não sei. Não sei o que se vai passar. Uma chatice, uma grande confusão. Ide para casa!
Desandou dali, abandonando-as à sua sorte.



24 de abril de 2013

Naquela Noite...


Era uma quarta-feira, tal e qual como hoje. O apito inicial soou à hora a que publico este post. O meu pai alimentava esperanças de que, passados dez anos, o seu clube repetisse a proeza: ganhar a Taça das Taças. Mas a primeira mão das meias-finais, em Alvalade, não correra bem: empate 1-1 com o Magdeburgo, da República Democrática Alemã, um dos regimes de proa da Europa de Leste.

O Sporting partiu desfalcado para o encontro, não contava com dois dos seus melhores jogadores, Dinis e Yazalde, ambos lesionados. Mal sabia a equipa que partia do Portugal da ditadura para regressar ao Portugal dos cravos. E não deixa de ser interessante que fosse derrotada, nessa noite de todas as noites, por um clube de um país comunista, uma ideologia que tanto agitaria o Portugal saído da revolução. Também o imperialismo soviético esteve perto de derrotar a nossa jovem e ainda frágil democracia.




Os minutos finais do encontro deram cabo dos nervos. Ao fim de 75 minutos, perdíamos por 2-0. Já nos conformávamos com a derrota, quando Marinho, a 12 minutos do fim, reduziu a desvantagem para 2-1. Renasciam as esperanças. Marcando mais um golo, o Sporting passaria à final!
Sofríamos em frente da televisão, quando Tomé, entrado perto do fim do encontro, falhou um golo que parecia certo. Ao apito final, instalou-se o desespero.



Eu tinha oito anos. E não sabia o que mais me oprimia: se a minha própria desilusão, se a do meu pai. Fomo-nos deitar com um imenso nó na garganta, sem sonhar que acordaríamos num outro país.
À equipa do Sporting, acompanhada pelo saudoso João Rocha, estava reservada uma autêntica odisseia. Deixaram a malfadada Magdeburgo de autocarro, logo aguentando os incómodos ligados à passagem da fronteira entre as duas Alemanhas. Controlos obsoletos, de quem insistia na cortina de ferro, esse muro invisível, concretizado fisicamente em Berlim. Mal sabia o plantel do clube que, no seu país, se tentavam destruir outro tipo de muros.

Chegados a Frankfurt, atingiu-os a perplexidade: o aeroporto de Lisboa estava cercado e fechado ao tráfego! Acabaram por arranjar um voo para Madrid, de onde partiram, de autocarro, em direção à fronteira do Caia. Mas esta revelou ser mais uma barreira intransponível, o MFA fechara todas as fronteiras. Tiveram de pernoitar em Badajoz, alguns, no autocarro, por não terem encontrado lugares nos hotéis.

Só a 26 de Abril a situação se desbloquearia.
E nós?
Em nós, renascera a esperança, no deslumbre da liberdade.




Nota: O bilhete representado está ou esteve à venda neste site. Embora não o consiga visualizar, foi para lá que o link da imagem me enviou.