As
crianças do 25 de Abril foram expostas à pornografia antes de saberem como se
faziam bebés.
Hoje
em dia, é difícil imaginar encontrar revistas pornográficas à vista por tudo o
que é quiosque, livraria e supermercado. Em todas as ruas, em todas as
esquinas, em todas as bancas de vendedores ambulantes, em todas as feiras, se
deparava com meninas ostentando mamas, rabiotes ou vaginas (estas, diga-se de
passagem, costumavam estar cobertas por uma boa camada de pelos púbicos). Lá se
escarrapachavam elas nas montras e nos escaparates, logo à entrada, até em
estabelecimentos onde os pais iam com os filhos comprar os manuais escolares,
ou com filhos ainda mais pequenos, comprar um inocente chupa-chupa, ou gelado.
Os
filmes pornográficos proliferavam em muitos cinemas, assinalados por conterem "cenas eventualmente chocantes". Naquela época, ver filmes pornográficos era
sinal de vanguardismo, de que se acompanhavam os novos tempos. Os adultos, à
semelhança de adolescentes em situação de enfarte de hormonas, vangloriavam-se
de já ter visto o Garganta Funda, o Emanuelle, ou outros, cujos títulos
foram esquecidos. Portugal vivia, enfim, a revolução sexual, arrastada pela dos
cravos.
Mas
não se sabia distinguir a pornografia barata de filmes que eram, apenas,
ousados, como O Último Tango em Paris.
Esta famosa película, realizada por Bernardo Bertolucci e com a participação de
Marlon Brando, tornou-se num dos símbolos da liberdade de Abril. Provocava
filas enormes à porta dos cinemas e a Vera perdeu a conta às vezes que ouviu
mencionar esse título, todos os dias, a todas as horas. Quando menos se
esperava, lá vinha O Último Tango em
Paris! Os adultos andavam completamente obcecados.


