Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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19 de março de 2017

Errar é humano...


Estando a ler esta magnífica obra de Saramago, encontrei dois erros históricos que muito me surpreenderam. Que o escritor se engane, pode acontecer. Mesmo sendo um talento fora do comum, ele é humano como qualquer um de nós. O que mais me admira é que ainda nenhum/a editor/a ou revisor/a tenha dado conta destes erros. Afinal, Saramago é publicado por quem sabe da poda (ou devia saber)!

Considero um dos erros particularmente grave, pois tem a ver com literatura ao mais alto nível, nomeadamente, com Shakespeare. Cito da página 266 (3ª edição LeYa BIS, novembro de 2013):

«Se ainda me restasse uma hora de vida, talvez a trocasse agora por um café bem quente, Daria mais do que aquele rei Henrique, que por um cavalo só trocava o reino, Para não perder o reino, mas deixe lá a história dos ingleses e diga-me como vai este mundo dos vivos».

Saramago reporta-se a uma peça de Shakespeare, na qual um determinado rei perde o seu cavalo em plena batalha e clama: "A horse, a horse, my kingdom for a horse"! O problema é que esse rei não se chamava Henrique, mas sim Ricardo! Toda agente se pode enganar num nome, sim. Mas o nome em questão serve de título à própria peça: Richard III, uma das mais famosas obras de Shakespeare! A primeira edição deste livro de Saramago data de 1984. E, desde aí, ainda nenhum editor português deu pelo erro? E as traduções (nomeadamente em inglês) ostentam também o erro? Valha-me Deus!

E já que falamos em Deus, passemos ao segundo lapso. Cito da página 268:

«... desde que os hebreus promoveram Deus ao generalato, chamando-lhe senhor dos exércitos, o mais têm sido meras variantes do tema, É verdade, os árabes invadiram a Europa aos gritos de Deus o quer».

Na verdade, esse era o grito dos cruzados, em latim: "Deus lo vult"! Segundo diz a lenda, o povo assim terá respondido, quando o papa Urbano II, no Concílio de Clermont-Ferrand, em 1095, convocou os cristãos a uma guerra contra os muçulmanos, a fim de reconquistar Jerusalém. Assim se iniciaram-se as cruzadas, a primeira em 1099, seguindo-se muitas outras.


Tratando-se de uma obra do único escritor português premiado com um Nobel, achei que tais erros não podiam passar, mais uma vez, despercebidos. Espero que se corrijam, em edições posteriores!


1 de março de 2017

Ainda a influência do Estado Novo


Neste interessante artigo, mais uma vez se confirma que os mitos históricos criados e/ou alimentados pelo Estado Novo continuam a dominar o nosso imaginário coletivo. Nas palavras da historiadora Ana Maria Rodrigues: «Ainda estamos muito influenciados pela história do Estado Novo, pois os reis e rainhas de que mais se gosta ainda são os mesmos que se elogiavam na instrução primária há 50 anos».

Pergunto-me se os programas escolares continuam a ser responsáveis por esta situação. As historiadoras Ana Maria Rodrigues, Manuela Santos Silva e Ana Leal de Faria, que também são professoras, culpam mais os autores de romances históricos, o que me entristece, pois um dos meus objetivos, ao escrever ficção histórica, é precisamente acabar com esses mitos, baseando-me nos mais recentes estudos.

Preocupadas com a verdade histórica, estas três historiadoras coordenam a série Casamentos da Família Real Portuguesa, publicada pelo Círculo de Leitores e que vai no seu segundo volume. O primeiro ocupa-se da época medieval até aos finais do século XVI; o segundo abrange os séculos XVII, XVIII e XIX.




É uma obra que me interessa, até porque as autoras «consideram que a história necessita de reinterpretações e é preciso acompanhar as novas correntes. Como a da recente que se preocupa com os afetos». Não posso, porém, deixar de me perguntar se estas novas correntes não são influenciadas pela ficção histórica. Se assim é, o romance histórico tem, pelo menos, as virtudes de contribuir para que o estudo da História se reinvente e se empenhe em acabar com certos mitos.


25 de janeiro de 2017

Construção de mentalidades, aqui e na China


Segundo uma notícia do The Guardian, o governo chinês decidiu reescrever a História, nos livros escolares, aumentando a guerra sino-japonesa em seis anos. Receia-se que a alteração possa irritar o Japão e piorar a relação entre os dois países.

É comummente aceite pelos historiadores que a segunda guerra sino-japonesa se iniciou em 1937, com o designado incidente da Ponte Marco Polo, em que tropas japonesas e chinesas se combateram ao longo de uma linha férrea, a sudoeste de Pequim. O governo chinês quer agora impor a invasão japonesa da Manchúria, iniciada no Outono de 1931, como o ponto de partida desta guerra. No entanto, só a partir de 1937, os comunistas chineses se juntaram aos nacionalistas, a fim de combaterem o Japão. Até aí, os dois partidos estiveram envolvidos numa guerra civil. 

Este assunto que, em princípio, não nos diz respeito, fez-me lembrar que o influenciar das mentalidades nos bancos de escola funcionou muito bem entre nós, durante a ditadura do Estado Novo. Funcionou tão bem, que, segundo o Professor Moisés de Lemos Martins, da Universidade do Minho, o imaginário salazarista permanece no imaginário contemporâneo, através das ideias de portugalidade e lusofonia. 

De facto, desde que comecei a pesquisar sobre a nossa História Medieval, baseando-me nas fontes mais atuais possíveis, constatei que o nosso imaginário ainda está cheio de lendas e outras narrativas, cultivadas pelo Estado Novo e que enchiam os livros escolares da altura, dando-nos uma ideia errada de certos acontecimentos.

Mas o imaginário salazarista não se faz sentir apenas na História. Na tese de doutoramento defendida por Moisés de Lemos Martins na Universidade de Ciências Humanas de Estrasburgo, em 1984, o agora Professor Catedrático chama a atenção para o Portugal criado por Salazar: um país que vivia modestamente, gerindo bem os seus recursos, mas que simultaneamente era um império que ia “do Minho a Timor, e se mais mundos houvera”.

Os discursos salazaristas serviam-se de duas figuras: a da “boa dona de casa”, que vive modestamente, mas que sabe gerir bem os pequenos recursos e as suas poupanças, e a do “navegador-guerreiro das caravelas”, que exalta o império.

A mentalidade criada por estas duas figuras continua tão atual, que a editora Afrontamento resolveu publicar a 2.ª edição do livro O Olho de Deus no Discurso Salazarista, que reproduz a tese de doutoramento referida.


28 de outubro de 2015

Cinco Anos!


O Andanças está de parabéns, completa hoje cinco anos. E eu espanto-me como se aguentou! Fico orgulhosa por o ter conseguido, mas é claro que também o devo a todos os visitantes, comentadores, ou não.

O Andanças está longe der ser um dos blogues mais visitados da blogosfera portuguesa. Mas igualmente me espanta o ter criado um pequeno grupo de leitores fiéis. Pelo menos, assim sou levada a pensar, já que o número de visualizações por semana mantém-se estável, entre as 600 e as 800. Agradeço do fundo do coração a essas pessoas.

Por vezes, há picos de audiência, passando das mil visitas, um fenómeno que costuma estar relacionado com a menção do Andanças num outro blogue, o que leva muita gente a clicar por curiosidade. Também a esses blogueiros os meus sinceros agradecimentos!


Vou continuar a escrever sobre as minhas leituras, história, psicologia, animais e outros temas que ache interessantes. E, no próximo ano, haverá, pelo menos, uma novidade: assinalarei efemérides históricas, à medida que se verifique o seu aniversário. Claro que essas efemérides estarão centradas à volta dos tempos de Dom Afonso Henriques e de Dom Dinis, mas haverá outras (aliás, todas medievais). Tive essa ideia, ao considerar a quantidade de notas, apontamentos e cronologias que já produzi, a partir das minhas pesquisas. Reunir tudo isso, porém, a fim de apresentá-las no dia certo, dá bastante trabalho. Por isso, começarei só a partir de Janeiro.


Mais uma vez, muito obrigada a quem se digna vir aqui ler aquilo que escrevo!


Nota: A primeira fotografia representa o Castelo de Guimarães, as outras foram tiradas em Warwick, Inglaterra. Todas fazem parte da minha coleção pessoal. 




6 de outubro de 2015

Estudem História!

Resultados Eleitorais 2015


E agora, atentemos ao início da obra Identificação de um País - Ensaio sobre as origens de Portugal, do Professor José Mattoso (5ª edição, 1995, editorial Estampa):

«A população portuguesa que olha com curiosidade os mapas publicados pelos jornais depois de cada acto eleitoral já se habituou a verificar, sem surpresa, a repartição dos votantes em dois grandes blocos, cujas fronteiras coincidem, "grosso modo", com a divisória estabelecida pelas montanhas que prolongam o Sistema Central. De tal modo se considerou esta repartição um dado adquirido que as perdas e ganhos dos partidos ganham relevo especial conforme se situam a norte ou a sul daquela fronteira.
Este facto vem projectar na vida quotidiana dos Portugueses uma das manifestações mais salientes da permanência de estruturas seculares, cuja longa duração a História permite descobrir nas suas inúmeras manifestações e modalidades. O estudo das suas formas no passado ajuda, sem dúvida, a compreender o funcionamento da complexa realidade em que estamos inseridos...».

Nota: a obra foi reeditada este ano, pela Temas e Debates. Aproveitem!




28 de julho de 2015

Guédelon – Construção de um castelo medieval



O Canal televisivo ARTE mostrou, no passado dia 20 de Junho, o documentário Renaissance d’un château medieval, sobre a construção de um castelo, na Borgonha. Este ambicioso projeto, iniciado há quase 20 anos, tem por objetivo pôr de pé uma fortaleza, usando apenas técnicas do século XIII.


A fotografia acima mostra o aspeto geral da obra, já se vendo a casa de residência dos senhores do castelo, uma das torres em estado bastante adiantado e o esboço das muralhas. Foi isto que se conseguiu desde 1997, ressalvando que as obras são interrompidas durante todo o Inverno, devido à lama que se cria, e não se usam guindastes, instrumentos, materiais ou técnicas posteriores ao século XIII (incluindo de desenho, medição, planeamento e transporte das pedras).


O documentário evidenciou bem as dificuldades encontradas pela equipa responsável por esta construção. Impressionaram-me particularmente os festejos e o alívio dos envolvidos ao conseguirem acabar a janela da capela (na foto), tão difícil foi a sua concretização, devido aos arcos. E perguntamo-nos como foi possível construir as catedrais góticas…



Admiro muito as pessoas que se dedicam a projetos destes, pela sua perseverança, mas também pelo respeito que votam ao passado, no meu entender, a única maneira de apreciar, em pleno, e entender melhor o presente.


O castelo de Guédelon está aberto a visitantes durante a época de férias. Para mais informações, consultem o site oficial, aqui em língua francesa, e em língua inglesa.


Podem ver aqui o vídeo do documentário (em francês). Todas as fotografias usadas neste post têm a mesma origem.


27 de março de 2015

O Erro de Shakespeare




Milhares de pessoas ladearam as ruas de Leicester, por onde passou o cortejo fúnebre de Ricardo III, a caminho da Catedral, onde ficou sepultado. Será esta uma confirmação da excentricidade britânica, fazendo o funeral e prestando homenagem a um rei morto há quinhentos e trinta anos? Ainda para mais, em se tratando de um rei que inspirou Shakespeare a criar uma das suas personagens mais fascinantes pela sua crueldade, tornando-se mesmo num símbolo de malignidade, na peça precisamente com o título Richard III.

«My kingdom for a horse» é a conhecida frase extraída dessa peça, a frase pronunciada por um rei que, em plena batalha, perde o cavalo e a coroa, acabando por perder também a vida. Shakespeare descreveu Ricardo III como «poisonous bunch-back’d toad», um monstro, corcunda e meio paralítico de um braço, que matou os dois sobrinhos ainda crianças, prisioneiros na Torre de Londres.

Deparei com uma versão bem diferente, quando li, nos anos 1990, o romance histórico The Sunne in Splendour, de Sharon Kay Penman. E descobri que, a partir da segunda metade do século XX, os historiadores têm vindo a pôr em causa a lenda criada pelo dramaturgo mais famoso do mundo. Enfim, Shakespeare era um génio da literatura, mas não era historiador. E adaptou a lenda criada pela corte dos Tudor, decidida a denegrir a imagem da dinastia anterior. Afinal, Ricardo III pereceu na Batalha de Bosworth Field, lutando contra Henrique Tudor, que haveria de se tornar no rei Henrique VII, pai do famoso Henrique VIII e avô da não menos famosa Isabel I.

Hoje em dia, os historiadores inclinam-se mais para a versão de que Ricardo III teria sido um rei mal-entendido e ultrapassado pelas intrigas e acontecimentos que se teciam na Inglaterra do século XV, dilacerada pela chamada Guerra das Rosas, entre as Casas de York e Lencastre. E os ricardians, como se apelidam a si próprios os seguidores deste monarca, mostram-se decididos a tudo fazer para modificar a imagem de monstro criada por Shakespeare.

A reabilitação adquiriu grande fôlego, há cerca de dois anos, quando as ossadas do último monarca inglês a perecer em batalha foram encontradas num parque de estacionamento de Leicester, na sequência de aturadas pesquisas, durante mais de vinte anos, por parte de uma historiadora da Universidade local, igualmente a lutar pela reputação do caluniado rei. Ricardo III foi enfim sepultado com todas as honras, depois de o seu corpo nu ter sido arrastado pelo campo de uma batalha perdida em 1485 e enterrado numa pequena igreja, sem qualquer tipo de cerimónia.

Reconstituição do rosto de Ricardo III

Enfim, uma coisa é certa: depois da leitura do romance The Sunne in Splendour, nunca mais vi Shakespeare com os mesmos olhos. Génios da literatura são humanos, com virtudes e fraquezas como todos os outros. Também Camões! Devemos apreciar uma obra pelo seu valor literário, porque, por vezes, é um grande erro levá-la à letra…

P.S. A história da escrita do romance de Sharon Kay Penman é também interessante, incluindo o roubo de um manuscrito de 400 páginas, que pôs a autora sem conseguir escrever durante cinco anos. Podem lê-la aqui.