Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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5 de novembro de 2017

Museu Municipal Martim Gonçalves de Macedo


© Horst Neumann


D. Martim Gonçalves de Macedo salvou a vida a D. João Mestre de Avis na Batalha de Aljubarrota, em 1385, e teve direito a sepultura no Mosteiro da Batalha. A sua memória foi-se, porém, apagando, ao longo dos séculos.

A terra de onde ele era oriundo, hoje cidade de Macedo de Cavaleiros, inaugurou, há dois anos, um museu com o seu nome. Instalado numa antiga escola primária, o museu é pequeno, mas muito bem organizado e cuidado até ao mais ínfimo pormenor.

© Horst Neumann

Adorei a visita que lá fiz, também pela simpatia e competência do seu responsável, Cláudio Pereira.
Se algum dia passarem por Macedo de Cavaleiros, não deixem de visitar este museu! A entrada é grátis e, se a porta estiver fechada, toquem à campainha!

© Horst Neumann


Para mais informações:

No Facebook:

Sobre D. Martim Gonçalves de Macedo, podem ler nesta publicação com descarregamento gratuito:

© Horst Neumann



15 de agosto de 2017

Quem lia a Bíblia no século XI?



«No século XVIII, Maria Antonieta supostamente aconselhou as massas famintas a que, se ficassem sem pão, comessem bolos. Hoje, os pobres seguem este conselho à letra. Enquanto os habitantes ricos de Beverly Hills comem salada de alface e tofu cozido a vapor com quinoa, nos bairros da lata e guetos os pobres engolem bolos industriais, pacotes de aperitivos salgados, hambúrgueres e pizzas (…) Já não existe fome natural no mundo, há apenas fome de origem política (…) na maioria dos países, hoje, comer demais tornou-se um problema muito pior do que a fome (…) Em 2010, a fome e a desnutrição combinadas mataram cerca de um milhão de pessoas, enquanto a obesidade matou três milhões».

São palavras do historiador israelita Yuval Noah Harari, autor do livro Homo Deus - História Breve do Amanhã (Elsinore 2017) numa entrevista ao DN. Na sinopse da Editora Elsinore, Homo Deus é um «ensaio que explora os projetos, sonhos e pesadelos que vão dar forma ao século XXI, da erradicação da fome ao fim da guerra, passando pela vida artificial».


A julgar pela entrevista, o livro vale a pena. Além de analisar o presente, e baseado na História da espécie humana, Yuval Noah Harari faz um retrato bem fundamentado de um futuro próximo, em que seremos condicionados pelo algoritmo e em que «existe o perigo de a humanidade se dividir em castas biológicas».

Na entrevista, Yuval Noah Harari foca o problema de, pela primeira vez na História, não sabermos o que ensinar aos jovens, já que tudo acontece muito depressa. Daqui a vinte ou trinta anos, os nossos filhos não poderão usar aquilo que lhes ensinamos hoje. «O nosso conhecimento está a aumentar a uma velocidade vertiginosa e, teoricamente, deveríamos entender o mundo cada vez melhor. Mas está a acontecer precisamente o contrário». De facto, antigamente, tudo era mais previsível: «Em 1017, os pais ensinaram aos seus filhos como plantar trigo, como tecer lã, ou como ler a Bíblia e era óbvio que essas capacidades ainda seriam necessárias em 1050. Pelo contrário, a maior parte do que as crianças aprendem hoje na escola será irrelevante em 2050».

Este pensamento é realmente interessante. Mas, e apesar de não contrariar a sua lógica, há uma informação falsa nestas afirmações, um erro, que um historiador não devia dar: «Em 1017, os pais ensinaram aos seus filhos (…) como ler a Bíblia».

Recuemos a 1017!

Há mil anos, não era possível ir a uma livraria comprar a Bíblia traduzida na nossa língua. Não havia livrarias. Só existiam livros nos mosteiros, escritos e/ou copiados à mão pelos monges, pois faltavam mais de quatro séculos para a imprensa ser inventada.

Em 1017, 99% das pessoas não sabia ler, nem sequer o que era um livro. As Bíblias que se guardavam nos mosteiros estavam escritas em hebraico, grego ou latim e, além dos clérigos instruídos (porque os havia ignorantes), ninguém sabia ler nelas, nem sequer os membros das casas reais. Na Idade Média, havia uma ordem considerada divina: a nobreza, que se dedicava à guerra; o clero, que se dedicava à religião e à cultura (as duas coisas andavam ligadas); o povo, que se dedicava ao trabalho agrícola. Ou seja: mesmo a nobreza deixava a leitura da Bíblia a cargo do clero e orientava-se pelas pregações deste. Os camponeses, que ensinavam os seus filhos a plantar trigo, viviam aterrorizados com o pecado e o inferno e conheceriam apenas algumas histórias da Bíblia, as que lhes eram contadas pelos padres.

Tanto quanto sei, a leitura da Bíblia em família só surgiu na época moderna, ou seja, a partir do século XVIII, e mais entre os Protestantes, resultado da Reforma Luterana que, aliás, coincidiu, no tempo, com a invenção da imprensa. As ideias de Lutero nunca teriam atingido tanta popularidade, se não fossem difundidas pela invenção de Gutenberg. A Bíblia de Lutero, traduzida em alemão (e a que se seguiriam outras traduções), deu início a uma verdadeira revolução, pois, pela primeira vez, qualquer pessoa (que soubesse ler e, no século XVI, já eram mais do que no XI) podia ter acesso às Escrituras Sagradas e interpretá-las à sua maneira.

Dizer que os pais ensinavam os filhos a ler na Bíblia, no século XI, é, por isso, uma expressão muito infeliz deste notável historiador.