Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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6 de abril de 2019

Bertolt Brecht



Foto Der Tagesspiegel


No passado dia 22 de março, o canal franco-alemão ARTE mostrou um docudrama sobre a vida do famoso dramaturgo, poeta e compositor Bertolt Brecht. O realizador, Heinrich Breloer, é especialista neste tipo de filme, onde a ficção é apoiada por imagens reais e entrevistas a pessoas que conheceram a personagem em questão. Com esta técnica, Heinrich Breloer realizara já dois docudramas que fizeram história na TV alemã: um sobre o movimento terrorista alemão RAF e outro sobre a família de Thomas Mann.

Heinrich Breloer pesquisou sobre a vida de Brecht e trabalhou no filme durante dez anos. A sua intenção era mostrar a pessoa por trás do artista, pois, como ele diz, estas personalidades, que gozam da espécie de proteção que se costuma dedicar a monumentos, foram pessoas como todos nós, com os seus defeitos e virtudes.

Bertolt Brecht intitulava-se a si próprio, desde muito jovem, de génio. Temos de admitir que tinha razão. O génio, porém, convivia lado a lado com um manipulador de mulheres. Apesar de casado (e apesar de não ter figura de galã, bem pelo contrário), Brecht teve relações íntimas com quase todas as atrizes das suas peças e outras colaboradoras da sua companhia de teatro, vendo-se obrigado a mentir compulsivamente, a fim de manter a complicada teia de casos amorosos. Também não se pode dizer que tenha sido um bom pai, pois pouco participava na vida dos filhos que teve dentro e fora do casamento. Tudo isto a sua mulher, a atriz Helene Weigel, aguentava. E mais! Ela era o verdadeiro pilar do “Berliner Ensemble”, a companhia de teatro do marido.

Bertolt Brecht foge do nazismo, primeiro, para Praga, depois, para Viena, Zurique, Paris e, em 1941, acaba por se exilar nos Estados Unidos. Vê-se, porém, obrigado a distanciar-se da perseguição aos comunistas, instituída por McCarthy, e regressa à Alemanha, estabelecendo-se em Berlim Leste.

A sua conivência com o regime ditatorial da RDA é outro ponto negativo da sua personalidade. Brecht mantinha uma conta na Suíça, possuía passaporte austríaco (o que lhe permitiria, ao contrário do que acontecia com os seus compatriotas, deixar o país se o desejasse) e silenciou sobre as torturas e a perseguição a cidadãos críticos do regime comunista, já que foi este que lhe realizou o sonho de possuir o seu próprio teatro.

A obra, porém, vale por si, independentemente do carácter do seu criador, algo que vamos aprendendo a aceitar. Ficam cada vez mais longe os tempos em que se consideravam os génios seres humanos exemplares, destituídos de qualquer mácula.


28 de fevereiro de 2019

Como eu escrevo


Li esta interessante entrevista a Fernando Naporano e pus-me a fazer considerações sobre a maneira como escrevo. Saiu este texto:

Escrevo prosa: romances e contos. Levanto-me muito cedo e gosto mais de escrever durante a manhã. De tarde, não tenho ocasião e, ao serão, não consigo ser criativa. O ato de criação é, para mim, muito cansativo e só me sinto apta a ele na frescura da manhã. Ao serão, aproveito para fazer revisões. Revejo inúmeras vezes aquilo que escrevo, no mínimo, dez vezes, algumas passagens ou cenas seguramente vinte ou trinta vezes.

Tento sempre escrever entre duas a três horas seguidas. Menos do que duas horas, não compensa, e mais do que três, não consigo, começo a ficar cansada e vazia.

Para escrever um romance histórico, é claro que tenho de fazer muita pesquisa. Já os contos são ideias que me surgem, não preciso de pesquisar nada. Tenho alguns contos por publicar e muitos mais na cabeça.

Nunca sinto medo de não corresponder às expectativas. Escrevo aquilo que sinto. Quem gosta, gosta; quem não gosta, não gosta.

Com projetos longos, romances de duzentas ou mais páginas, fico um pouco ansiosa. Antigamente, ficava mais, tinha medo de me esquecer de ideias que me surgiam logo no início para o meio ou o fim do texto. Com o tempo, fiquei mais calma, a experiência ensinou-me que essas ideias raramente se perdem. Pelo contrário: à medida que o enredo avança, surgem outras melhores. Às vezes, porém, é difícil parar de escrever, quando penso que ainda tenho mais de cem ou de duzentas à minha frente.

Escrevo seguramente de maneira diferente hoje do que há dez ou vinte anos, quando comecei. Sou mais sucinta e consigo “chamar” melhor os sentimentos. No início, estava bastante bloqueada. Sentia necessidade de escrever, mas, por vezes, não sabia bem o quê. Hoje, identifico mais facilmente.

O conselho que daria a mim mesma, se pudesse recuar, seria o conselho que daria a qualquer principiante: pratica, escreve, sempre, só com a prática se aprende!

Tenho dois grandes projetos que não sei se chegarei a realizar. O primeiro seria um romance sobre a vida de Cristo, com o foco na sua relação com a família. Há passagens da Bíblia que falam em irmãos de Jesus. Como se daria ele com esses irmãos? Há outra passagem em que ele diz que um profeta é reconhecido em todo o lado, menos na sua própria casa. A família desconfiaria da sua sanidade mental? Também é curioso que Jesus nunca se dirija a Maria com a palavra “mãe”, diz sempre “mulher”. Maria foi elevada, pelo Cristianismo, a modelo de mãe ideal e, no entanto, o seu próprio filho nunca a apelida de “mãe”. «Que queres tu, mulher?» pergunta Jesus, quando ela o aborda, nas bodas de Canaã. Tudo isso seriam aspetos da sua vida que gostaria de explorar. De uma maneira geral, interessam-me muito as relações familiares, porque pouco do que as famílias expõem corresponde à realidade. Desconfio, porém, que nunca chegue a realizar este projeto.

O segundo seria um romance que caracterizaria a vida numa aldeia transmontana, ao longo de várias gerações. Ando a pesquisar a minha família e a vida na aldeia-natal do meu pai com esse fito e já constatei que as relações entre as pessoas estão carregadas de violência. De novo, as relações familiares, aquilo que fica escondido, as tragédias que se dão e ninguém consegue explicar (e, no entanto, têm sempre uma explicação, nada do que fazemos é por acaso). Este projeto já me parece mais realizável.