Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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1 de julho de 2017

São os medíocres merecedores de dignidade?


A maior parte dos escritores laureados e outros pertencentes à elite literária julgam-se as pessoas mais tolerantes, apreciadoras do povo genuíno, pobre, humilde e ignorante. Pregam a igualdade, a fraternidade, etc. e tal.
Até que...
Até que alguém pobre, humilde e ignorante resolve lutar por riqueza?
Não!
Resolve tentar a sua vida como músico?
Não!
Resolve passar para o papel aquilo que lhe vai na cabeça, quem sabe, dê para um livro...
Sacrilégio!
Acabam-se a tolerância, a igualdade, a fraternidade. Passam a existir dois mundos: o dos eleitos e o dos medíocres. E cada qual no seu lugar, faz favor!

Lembram-se do filme Amadeus?




12 de maio de 2017

O Poder da Memória

Não conheço os livros de Filipa Martins, mas li, há dias, uma reportagem da escritores.online sobre esta escritora, inserida na série “Um dia com…”.

A propósito do seu quarto livro, que chegará em breve às livrarias, a autora afirma:

«É um livro que existe muito à volta do conceito de memória, mas aqui o postulado é inverso àquele que consideramos como válido, porque o que está no livro não é tanto lembrar, é mais esquecer. Ou seja, como é que devemos esquecer para conseguir viver. Isto é trabalhado do ponto de vista filosófico – porque é que devemos esquecer determinados momentos da nossa vida para seguir em frente, quase como se os pudéssemos aspirar ou deitar fora – e é trabalhado do ponto de vista científico— de que forma é que podemos interferir no cérebro humano para apagar determinadas memórias que são traumatizantes e paralisantes, que funcionam quase como uma doença, para que uma pessoa consiga ser funcional».

É difícil comentar sem ter lido o livro, mas uma coisa é certa: ninguém consegue «aspirar ou deitar fora» momentos da sua vida, isso é impossível. Boas ou más, traumatizantes ou motivadoras, as vivências estão registadas no nosso subconsciente e, mesmo que não nos lembremos delas (no caso de amnésia, por exemplo, temporária ou permanente), parece cientificamente seguro que elas continuam a influenciar-nos.

É humanamente impossível «apagar determinadas memórias que são traumatizantes e paralisantes, que funcionam quase como uma doença, para que uma pessoa consiga ser funcional». Esta hipótese não é de todo saudável. Muitas memórias funcionam realmente como uma doença (e não «quase»). A solução, porém, não está em apagá-las! As pessoas que o tentam fazer passam a vida numa fuga constante e angustiante, em busca de coisas que as distraiam, com pânico de parar para pensar. Este tipo de vida, desgastante, torna-se muito propício à depressão.

Por mais traumatizantes que sejam as memórias, só conseguimos ser funcionais se aprendermos a viver com elas; se as trouxermos à superfície e nos deixarmos envolver por elas, aceitando-as. Elas fazem parte do nosso ser, da nossa identidade. Nós não somos máquinas. Nós somos as nossas memórias! Apagá-las significa deixar de sermos quem somos, desistir da nossa identidade para passarmos a ser outra pessoa.

Resta acrescentar: felizes daqueles que sabem quais são as suas memórias traumatizantes. Anda tanta gente traumatizada por aí, sem fazer ideia... Na melhor das hipóteses, acham que têm mau feitio, ou que há algo de ruim dentro deles.

21 de janeiro de 2017

Bons escritores + bons livros = citações bombásticas?



Já tenho reproduzido aqui excertos de livros que leio e de que gosto particularmente. Porém, nessa minha procura de citações, tenho verificado algo interessante.

Muitas vezes, num livro que me agrada, não encontro citações fortes, que causem impacto e que falem por si. Penso que isso se deve ao facto de que tudo o que está escrito nesse livro vale pelo seu conjunto, ou seja, o livro é excelente, mas as passagens, retiradas do seu contexto, perdem a sua força.

Por outro lado, encontro passagens que me impressionam, no bom sentido, em livros que, no seu conjunto, não me cativam, ou que me parecem mal estruturados.

Também já verifiquei, no Facebook (a única rede social que frequento), que há escritores que publicam frases curtas e muito assertivas, enquanto outros se limitam a textos banais. O mais curioso é que isso nada diz acerca da qualidade dos seus livros. Entre os primeiros, há quem escreva livros que são um bocejo constante e entre os segundos encontram-se obras empolgantes, que não queremos largar.

O que quer isto dizer? Que os bons escritores não se notam à primeira vista? E qual é o melhor escritor? Aquele que escreve frases que nos ficam na memória, ou aquele que escreve histórias que nos ficam na memória? Ou só é bom escritor quem conjuga estes dois fatores?

Não posso deixar de recordar uma passagem da entrevista que António Mota deu à “escritores.online”:



5 de setembro de 2016

Não há livros infantis maus

Well-meaning adults can easily destroy a child’s love of reading: stop them reading what they enjoy, or give them worthy-but-dull books that you like, the twenty- first-century equivalents of Victorian “improving” literature. You’ll wind up with a generation convinced that reading is uncool and, worse, unpleasant».

Estou inteiramente de acordo com o escritor Neil Gaiman. Ele considera não haver livros maus para a infância, as crianças devem ler aquilo de que gostam, caso contrário, podem criar aversão pela leitura.

Além disso, diz algo no qual já penso há muito tempo: A hackneyed, worn-out idea isn’t hackneyed and worn out to someone encountering it for the first time. Realmente, nunca entendi bem porque é  que os escritores e os ilustradores estão sempre à procura de novas formas de escrever e de ilustrar. Sim, claro que novas ideias são precisas, mas acho que se exagera. Uma coisa corriqueira e vista mil vezes por um adulto pode ser uma grande novidade para uma criança. Quando deparo com ideias originais, mas um pouco estranhas, embora notáveis do ponto de vista artístico, pergunto-me sempre se uma criança de três ou quatro anos, que ainda não viu muito do mundo, precisa de tanto vanguardismo. Certos projetos apenas agradam a adultos e servem para satisfazer o ego dos próprios criadores.

Por isso, mais uma vez concordo com Neil Gaiman, quando diz: It’s tosh. It’s snobbery and it’s foolishness, quando se desdenha de um livro infantil pelos motivos apontados.


Nota: as citações foram tiradas do artigo Why We Read and What Books Do for the Human Experience. E, já agora, cliquem e leiam o texto completo!


3 de setembro de 2016

Todos os que escrevem?

Todos os que escrevem – julgo eu – gostam que os seus textos dêem origem a críticas, comentários e ideias interessantes.

Então porque se perguntam os editores tantas vezes porque há tanta gente a escrever? Escrevendo mal ou bem, com ou sem talento, todos, mesmo todos, o fazem com essa esperança. De notar que a autora do texto "linkado" não diz «todos os escritores», mas «todos os que escrevem». Não seria isso razão para encarar com menos arrogância quem não tem um talento de génio?

Pois é, da teoria à prática vai uma grande distância. E há frases que soam tão bonitas, tão modestas...



29 de janeiro de 2016

Os Melhores Romances



O Projecto Adamastor tinha levado a cabo um inquérito, no último trimestre de 2015, a fim de apurar quais «os melhores romances escritos em língua portuguesa». Os resultados foram publicados e, se não houve grandes surpresas, é sempre interessante verificar quais as preferências dos participantes.

Os grandes vencedores são Eça de Queirós e Saramago. Se Os Maias venceu na categoria de romance, o nosso único Nobel é o primeiro entre os autores. Nesta lista também constam escritores contemporâneos, alguns ainda jovens.




Em paralelo com o inquérito público, o Projecto Adamastor contactou igualmente diversos profissionais ligados à área da edição, por forma a avaliar quais as suas escolhas. Os resultados deste segundo inquérito serão publicados brevemente.

Lembro que no Projecto Adamastor se pode fazer o download gratuito de muitos clássicos da literatura em língua portuguesa.



9 de dezembro de 2015

Ser ou não ser génio

Stock Montage/Hulton Archive/Getty Images
Não pretendo propriamente contestar a condição de génio da literatura atribuída a Shakespeare, mas, para ser franca, sempre me pareceu que a sua fama se prendia mais com certos "temas-símbolo" do que com as suas qualidades de dramaturgo. Com "temas-símbolo" refiro-me a ideais, como o amor absoluto de Romeu e Julieta, ou conflitos humanos intemporais, como o complexo de Édipo de Hamlet.

Já aqui escrevi sobre o erro de Shakespeare, referindo-me à sua peça Richard III, em que o dramaturgo descreve este rei como «poisonous bunch-back’d toad», uma personagem que se tornou num símbolo universal de malignidade. Historiadores recentes têm, porém, chegado à conclusão de que Ricardo III estava longe de ser o vilão criado por Shakespeare e os seguidores deste monarca, que se apelidam a si próprios de ricardians, mostram-se decididos a tudo fazer para modificar a imagem de monstro criada pelo dramaturgo mais famoso da História.

Polémicas históricas à parte, deparei recentemente com um artigo em que grandes personalidades da literatura e da filosofia contestam (ou contestaram) a condição de génio de Shakespeare.

Comecemos com Leo Tolstói, que, num ensaio que se pode descarregar gratuitamente (em língua inglesa), descreve as peças de Shakespeare como  «trivial and positively bad», considerando a sua fama universal «pernicious», descrevendo o próprio dramaturgo como «insignificant, inartistic writer». 

Também Voltaire terá desdenhado de Shakespeare e George Bernard Shaw fez críticas muito duras a certas peças no jornal londrino Saturday Review, embora pareça que a sua opinião terá melhorado à medida que ele próprio se ia tornando famoso...

J. R. R. Tolkien usou igualmente palavras desfavoráveis para qualificar Shakespeare em certas situações, considerando, como professor de Inglês, que se perdia tempo demais com o autor de Romeu e Julieta, prejudicando o ensino de outros escritores igualmente valiosos.

Robert Greene, um dramaturgo igualmente popular na época isabelina, parecia incomodado com o facto de Shakespeare, que começou como ator, ousar escrever as suas próprias peças! Certo é que o "ator atrevido" se tornou mundialmente famoso e, pelos vistos, eterno, enquanto Robert Greene, apesar de igualmente ter escrito inúmeros poemas, peças, contos e ensaios, perdeu-se na poeira dos séculos.


4 de novembro de 2015

O choradinho do costume


Será difícil explicar o que é ser português, porque, desde sempre, fomos um povo com tendência para nos espalharmos pelo mundo, adaptando-nos a outras formas de vida?

É sem dúvida interessante a série que o canal franco-alemão ARTE tem vindo a transmitir: os países europeus explicados pelos seus próprios escritores. A minha satisfação foi grande, quando chegou a vez de Portugal, com a participação de quatro grandes vultos da literatura lusófona: Lídia Jorge, Mário de Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Mia Couto.

Confesso, no entanto, que fiquei desiludida. Não tanto com os escritores, mas com o tom do documentário que optou por um caminho já desgastado: um povo extraordinário, capaz de se adaptar a qualquer país do mundo e a qualquer situação, mas muito sofredor, com muito azar, ao ver-se constantemente subjugado. Primeiro, foi a ditadura salazarista; agora, é a Europa!

Mário de Carvalho expressou a convicção (ou o desejo?) de que uma revolta estaria para breve, uma revolta que, como sempre, surgiria de surpresa. E este escritor, assim como Gonçalo M. Tavares, ainda referiram que não deveríamos ser o único povo do mundo a sentir isto e aquilo, outros povos sentiriam de maneira semelhante, em situações semelhantes… Não me digam!

A participação mais interessante, na minha opinião, foi a de Mia Couto, que referiu que a problemática da colonização está longe de resolvida. Chegou ao ponto de dizer (penso que foi ele) que a famosa expressão de Fernando Pessoa, «a minha pátria é a língua portuguesa», pode soar colonialista, aos ouvidos dos naturais dos países lusófonos. Ora, cá está alguém que propõe ruturas, novos temas de debate, gostei! Por seu lado, Lídia Jorge embarcou perfeitamente no espírito do documentário, amaldiçoando a ditadura e a Europa, que abafa tão valoroso povo!

Senti-me desconfortável. Vivo no estrangeiro há 23 anos, regozijo-me por poder assistir a um programa sobre o meu país, com a participação da nata da nossa literatura, e afinal lá vem a ladainha dos desgraçadinhos, constantemente impedidos de mostrarem o que valem…

Enfim, é o que temos!

O programa, em francês, está aqui disponível até ao dia 20 de Dezembro: