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16 de novembro de 2019
Upskirting

Imagem daqui
Os telemóveis transformaram o ato de fotografar, outrora reservado para ocasiões especiais, num gesto banalíssimo. E também iniciaram modas, como a das “selfies”, que enervam muita gente. Comparado, porém, com outras práticas fotográficas, a do auto-retrato é inofensiva. Venho hoje falar do upskirting: fotografar por baixo da saia, ou do vestido, de uma mulher, a maior parte das vezes, sem que esta o note. A maioria das vítimas são jovens, algumas ainda menores.
Duas jovens alemãs, vítimas de upskirting (uma delas tinha apenas treze anos, quando assim foi fotografada pela primeira vez), iniciaram, há meses, uma campanha, acompanhada de petição, com o objectivo de criminalizar esta prática. Não sendo o upskirting considerado assédio sexual, já que não há qualquer contacto físico, não é crime e as suas vítimas nem sequer podem apresentar queixa à polícia. É assim visto com condescendência por muita gente, como outras práticas que, alegadamente, apenas servem para que os rapazes se divirtam. Um argumento muito usado pelos defensores do upskirting é: «não queres ser fotografada por baixo da saia? Veste calças!» Machismo? Que ideia! As duas ativistas é que são umas feministas radicais, que querem impor mais censuras aos coitados dos homens, que, qualquer dia, nem sequer podem olhar para uma mulher, blá, blá, blá…
Na verdade, além de representar uma violação não consentida da intimidade, o upskirting está longe de ser um mero divertimento. As fotografias são partilhadas em chats e, muitas vezes, comercializadas e/ou publicadas em sites pornográficos. Tudo isto sem o consentimento das visadas que, muitas vezes, ignoram a existência das imagens. Noutros casos, porém, as vítimas são identificáveis, o que em nada diminui a sua gravidade.
As duas jovens activistas estão de parabéns. Há dias, foi aprovado, na Alemanha, um projeto de lei para criminalizar a prática do upskirting (incluindo fotografias tiradas a decotes, sem o consentimento da visada) com penas que vão da multa a dois anos de prisão, à semelhança do que já tinham feito outros países como a Finlândia, a Austrália e a Grã-Bretanha.
Além do upskirting, o projeto de lei pretende criminalizar, com penas semelhantes, o péssimo hábito de fotografar vítimas, mortais ou não, de acidentes de viação.
Etiquetas:
Feminismo,
Fotografia,
Machismo
24 de janeiro de 2019
Seres exóticos
Na programação televisiva alemã da passada segunda-feira, dei com o seguinte programa (tradução minha):
«Quem come o quê ao pequeno-almoço? Como funciona a máquina da louça? Onde está o aspirador? Cinco mulheres observam como um pai se avia sozinho, durante dois dias, com os filhos».
Passando por cima da polémica que possa causar um programa que mostra o quotidiano de uma casa onde moram crianças, achei pertinente o comentário da redação da revista em causa:
«Curioso que, em 2019, homens a tratar das tarefas caseiras continuem a ser apresentados como algo de exótico».
«Quem come o quê ao pequeno-almoço? Como funciona a máquina da louça? Onde está o aspirador? Cinco mulheres observam como um pai se avia sozinho, durante dois dias, com os filhos».
Passando por cima da polémica que possa causar um programa que mostra o quotidiano de uma casa onde moram crianças, achei pertinente o comentário da redação da revista em causa:
«Curioso que, em 2019, homens a tratar das tarefas caseiras continuem a ser apresentados como algo de exótico».
19 de janeiro de 2019
Feminismo
«Uma mulher que educa os seus filhos seguindo os
ensinamentos e os valores cristãos faz mais pelo progresso da política e pela
verdadeira emancipação feminina do que todas as feministas do mundo, com os
seus costumes duvidosos».
Gosta desta frase? No fim deste post, direi
quem e quando a proferiu.
O feminismo é ainda muito mal visto. No caso dos
homens, não me admira. Afinal, a ambição, por parte das mulheres, de atingirem
igualdade de direitos e oportunidades significa que eles têm de fazer concessões,
aprender a dividir o poder. E quem gosta de perder privilégios?
No caso das mulheres, já me preocupa mais, pois mostra
que estão imbuídas de mentalidade machista, mesmo sem o saberem. Não querem ser
confundidas com ativistas, não vão os homens pensar que também são “dessas”. Ou
seja, submetem-se à imagem que os homens criaram para elas.
Muitos homens parecem ficar ciumentos, perguntam porque
não podem eles ser machistas, ou seja, consideram o feminismo um pendant do machismo. Esta interpretação
está errada. A História da nossa sociedade patriarcal prova que o machismo se
baseia na subjugação da mulher, considerando o sexo masculino superior. O
feminismo, por seu lado, “apenas” almeja igualdade de direitos e
oportunidades. Não se trata de supremacia, mas de igualdade. As pioneiras do movimento
necessitaram de um termo que caracterizasse a sua causa e a sua luta. Os homens
não precisam, nem nunca precisaram, de lutar contra a subjugação por parte das
mulheres. E, no entanto, parecem sentir-se ameaçados por elas! Sentem
necessidade de se agarrarem a um termo com o pretexto de lhes fazerem frente. Pois
eu acharia ótimo que o feminismo não fosse necessário. Mas vivemos ainda numa
sociedade marcadamente patriarcal, foram muitos séculos de supremacia masculina
e, se o feminismo não o lembrasse constantemente, depressa se voltaria ao
passado.
Não resisto a fazer um paralelo com o racismo (que não
é a mesma coisa, mas tem pontos de contacto). Muitos brancos se sentem
afrontados com a expressão black pride
e acham que também têm o direito de apregoar o white pride. Eu não concordo. A História conta-nos séculos de
subjugação indigna dos negros. Apesar de a escravatura ter sido abolida há
muito tempo, nós, brancos, carregamos essa herança, quer queiramos, quer não.
Até porque a verdadeira igualdade ainda não foi atingida, há muitos negros
vítimas de discriminação.
Acham que os brancos não têm de carregar herança
nenhuma? E se eu falar de alemães, por exemplo? Acham que os alemães de hoje
não têm de carregar com o estigma nazi? Como reagiriam os portugueses, se
vissem um alemão alto, forte e loiro a passear em Portugal com uma t-shirt ostentado
o dístico german pride? Decerto não
lhes agradaria. E com razão. Porque, também neste caso, há uma História de desrespeito
pelos direitos e pela dignidade de outros povos (e inclusive de genocídio) por
parte dos alemães.
Voltando ao ponto de partida: muitas mulheres alegam
que não precisam do feminismo para se sentirem ao mesmo nível dos homens. E apontam
comportamentos impróprios de ativistas mais radicais para justificarem a sua
aversão. É verdade que o movimento feminista já conheceu radicalismos. Por
outro lado, é preciso reconhecer o grande valor das pioneiras do movimento,
que, muitas vezes, precisaram de atitudes radicais para serem ouvidas. Mulheres
atuais com aversão ao feminismo esquecem-se de que, se não fossem essas ativistas,
talvez ainda não pudessem votar, nem viajar sozinhas sem a autorização de um
homem, nem sequer orgulhar-se de não se sentirem inferiores a nenhum homem e de
não terem medo deles. Atitudes destas, no dia-a-dia, são muito de louvar, mas
não modificam leis. E são as leis que garantem a igualdade de direitos. As
modificações de que beneficiamos, hoje, foram conseguidas pelas feministas que certas
mulheres tanto desprezam.
Mulheres com aversão ao feminismo e homens machistas
são, em regra, lestos a criticar a situação da mulher na sociedade islâmica.
Eles e elas esquecem-se de que o podem fazer graças às feministas.
Infelizmente, a verdadeira igualdade não foi ainda atingida,
mesmo na nossa democracia ocidental. Ainda há muita mulher a ser agredida pelo
marido e/ou companheiro; ainda há muita mulher a ganhar menos do que os homens
pelo mesmo trabalho; ainda há muita mulher a ser culpada por ter sido violada e
a sofrer vexames incomportáveis perante sentenças de juízes e juízas!
Volto agora à frase que serviu de mote a este post, confessando que a modifiquei um
pouco. A versão original é a seguinte:
«Uma mulher que educa os seus filhos seguindo os
ensinamentos da religião católica faz mais pelo progresso da política e pela
verdadeira emancipação feminina do que todas as lutadoras pelo direito de voto,
em todo o mundo, com os seus costumes duvidosos».*
Sim, a frase foi escrita para agredir as feministas que
lutavam pelo direito do voto das mulheres, em 1912! Foi escrita por mulheres! Fez
parte de um comunicado da União das Mulheres Cristãs (Christliche Frauenbund), na Alemanha.
Pelos vistos, há mulheres que continuam a pensar segundo
os mesmos esquemas. Foi só preciso fazer umas pequenas modificações para o
provar.
Acrescento ainda que a expressão «costumes duvidosos»
se refere às fundadoras da Associação Alemã para o Direito de Voto Feminino (Deutscher Verein für Frauenstimmrecht), criada
em 1902. Chamavam-se Anita Augspurg e Lida Gustava Heymann e eram um par
lésbico. É interessante verificar que este facto se tornava mais importante do
que a causa em si. Hoje, continua a acontecer. Muitas vezes se atacam pessoas pelas
suas opções sexuais, ofuscando a sua luta por causas justas.
* Traduzido, por mim, do alemão. O original foi lido
na KirchenZeitung, um jornal
católico alemão, edição de 13 de janeiro de 2019, e aqui o transcrevo:
«Eine Frau, die in echt katholischer Gesinnung Söhne erzieht, hat mehr
für den politische Fortschritt und die wahre Emanzipation des weiblichen
Geschlechtes getan als alle Wahlrechtdamen der Welt mit ihren höchst
zweifelhaften Sitten insgesamt».
26 de outubro de 2017
O Estigma do Conceito de “Feminismo”
Depois dizem-me que ser feminista é uma coisa datada? Tenham paciência - escreveu Patrícia Reis, numa crónica publicada a 15 de Outubro. Embora a escritora se refira ao facto de os salários das mulheres serem, ainda hoje, 21,8% inferior aos dos homens, a frase assenta que nem uma luva no caso do acórdão da Relação do Porto sobre violência doméstica.
O
feminismo é ainda muito necessário, sim! Mas o conceito não sofre apenas do
problema de muita gente o achar datado. Sofre igualmente de um estigma que o apelida de radical e
assusta muitas mulheres. Mafalda Anjos, Diretora da revista Visão, escrevia, numa crónica publicada
no nº 1279: «Sou pouco adepta da paranoia radical na nomenclatura sem género,
mas chamar Ironman a uma competição que admite homens e mulheres parece-me
simplesmente estúpido e anacrónico». Esta frase é de uma contradição brutal!
Infelizmente,
é frequente encontrar expressões deste tipo, entre mulheres: «eu nem sou nada
feminista, mas não acho bem que…»; ou «eu não sou adepta dessas ideias radicais
de igualdade, mas o certo é que…».
Quando
é que as mulheres vão deixar de pedir desculpa e de polir a sua imagem, antes
de expressarem uma opinião? O feminismo possui um historial do qual todas nós
nos devemos orgulhar. As nossas antepassadas lutaram por nós. Não fossem as
feministas, as mulheres não estariam autorizadas, entre outras coisas, a seguir
uma carreira profissional. Nem sequer a votar! As sufraguettes também foram consideradas radicais histéricas, no seu
tempo. E, como vemos, o facto de já possuirmos esses direitos não quer dizer
que o feminismo se tenha tornado obsoleto. Querem melhores exemplos do que a
desigualdade nos salários, ou o minimizar o crime de violência doméstica pelo
facto de uma mulher ter cometido adultério?
A
verdade é que nós mulheres continuamos a ter medo dos homens. Medo de os
desiludirmos, de os chocarmos, medo de não correspondermos às suas
expectativas.
Ainda
não repararam que quem dá, e deu, uma imagem radical do feminismo foram/são os
homens? E que nós continuamos a cair na armadilha? O uso da palavra “radical”,
em justificações do género «eu nem sou adepta dessas ideias radicais de
igualdade, mas…», é pura manipulação masculina. A jornalista Mafalda Anjos vai
ainda mais longe e usa a expressão “paranoia radical”! Tirem-na da frase acima citada
e a contradição salta aos olhos!
Quando
vamos deixar de querer ser as meninas bonitas, simpáticas e agradáveis, com
medo de ofender o papá, o irmão, ou o marido, para passarmos a ser humanas em
pleno, com opinião própria, sem medo das palavras?
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