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23 de junho de 2015
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (17)
O desempenho de funções paternais e maternais por parte de outros parentes também se encontra recordado na cronística dos finais da Idade Média.
(...)
O sentimento do privado transborda, assim, da casa para a parentela, mais vulgarmente tios ou primos, na companhia dos quais decorria, muitas vezes, uma parte significativa da infância.
Entre a fidalguia rural minhota dos séculos XII e XIII, era costume confiar o aleitamento e a criação dos seus filhos às mulheres das famílias locais de camponeses livres, as quais, ao amamentá-los em conjunto com os seus próprios bebés, no quadro de uma irmandade de leite, passavam, por via desse serviço, a isentar o seu lar de pagamento de tributos régios.
(...)
Durante os séculos XII e XIII, a aprendizagem dos jovens fidalgos implicava, frequentemente, o abandono da casa paterna, por vezes logo após o desmame. Separados da mãe e das irmãs, os pequenos nobres passavam, então, a participar no mundo viril das cavalgadas, caçadas, armas e jogos de destreza guerreira, ao mesmo tempo que se incorporavam nos quotidianos próprios das famílias nobres onde passavam a viver, contribuindo deste modo para o reforço dos laços de dependência feudal que os uniam às suas linhagens de origem. Esta integração numa nova família podia, inclusivamente, sobrepor-se à própria consaguinidade, reforçando-a ou mesmo substituindo-a como laço vinculador, originando uma ligação social e afectiva muito forte.
(...)
No âmbito das elites aristocráticas, sobretudo fidalgas, as crianças ainda poderiam integrar uma nova família por outros motivos. Quando raparigas, era frequente o abandono da casa paterna, quando atingiam a idade requerida para o permitir, ou seja, a partir dos sete anos, para os prometimentos «que o direito chama esposórios», para serem criadas na própria casa dos futuros sogros, onde passavam a integrar uma nova família que as tratava como filhas, aí aguardando a idade convencionada para a concretização dos matrimónios previamente negociados, aos doze anos. Na cronística de Avis mencionam-se várias meninas infantas que, muito novas, e para cumprir o seu destino matrimonial, se viram obrigadas a abandonar a corte paterna.
A Criança, Ana Rodrigues Oliveira, pp. 277, 278 e 279.
16 de junho de 2015
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (16)
Os pedagogos dos finais da Idade Média começaram, também, a abordar o tema da instrução das meninas, sobretudo as oriundas da nobreza, dedicando-lhes passagens ou até partes dos seus tratados, embora sem as inovações introduzidas na matéria destinada aos rapazes. De uma forma geral, o seu discurso sobre as raparigas encontra-se bastante condicionado pelo facto de as conceberem na qualidade de grupo que não só partilhava com as mulheres a suposta condição de um sexo dotado de fraca racionalidade, como também correspondia a uma idade, a infantil, considerada naturalmente indisciplinada e moralmente débil.
Neste contexto, não se insistia muito na educação letrada das raparigas. Ressalvando o caso das que se destinavam à vida religiosa, desaconselhava-se mesmo a aprendizagem do alfabeto e da escrita, para que as raparigas não se sentissem estimuladas a dizer secretamente por escrito o que não ousariam afirmar oralmente. Contudo, alguns pedagogos não lhes recusavam o direito de aprender a ler e a escrever, porque, ao aplicarem-se assiduamente nessas honestas ocupações, afastavam os maus pensamentos e os consequentes pecados da carne e da vaidade.
A Criança, Ana Rodrigues Oliveira - pp. 267/268
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23 de outubro de 2014
História da Vida Privada (15)
Nestas cozinhas as alfaias eram pobres e reduzidas ao essencial. Não podia faltar a panela, de barro, onde se coziam os alimentos e, sempre que possível, uma trempe de ferro sobre a qual ela era colocada. Convinha também que não faltasse um saleiro, de madeira mesmo nas casas mais acomodadas, um pote para azeite, outro para o vinho e, naturalmente, um outro ainda, maior, para armazenar a água com que se confeccionava a refeição e com que se lavavam os víveres. Em regra era o mesmo de onde saíam as águas para as abluções da família e da casa. Naturalmente podiam existir outras alfaias, sobretudo potes e panelas de tamanhos diversos, alguidares, bacias. Os milhares de fragmentos de cerâmica que a arqueologia tem exumado de escombros e lixeiras indicam, precisamente, isso. Muito menos comuns eram os utensílios em metal. Quando muito, uma sertã, onde se faziam alguns fritos.Contudo esta míngua de apetrechos supria-se, em regra, por empréstimo entre vizinhos. Até o próprio fogo era, quantas vezes, procurado na casa próxima, que mais cedo acendera a lareira. Na verdade, a obtenção de fogo não era, na época, tarefa fácil nem rápida. Obtinha-se, normalmente, por fricção de um fuzil confeccionado com um metal rico em carbono sobre uma pedra de sílex, do que se esperava resultassem faúlhas que se lançavam sobre uma matéria inflamável preparada para o efeito. Criar o fogo era, assim, acto complexo, pelo que uma pinha, um pau enresinado ou outro qualquer combustível eficaz, ateado em lume alheio, era solução bem mais simples e com frequência utilizada.
Capítulo A Alimentação, Iria Gonçalves (p. 240)
16 de maio de 2014
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (14)
Ervas aromáticas e especiarias eram os dois extremos da acessibilidade. Se as primeiras se colhiam no campo, tão gratuitas como o sol e a água que as fazia crescer, ou vicejavam na horta doméstica, em conjunto com toda a outra sua variada produção, as segundas vinham das longínquas terras do Oriente, oneradas com os custos astronómicos de meses de viagem onde perigos de vária ordem esperavam quotidianamente e, por isso mesmo, poucos se atreviam a afrontá-los. A sua oferta, muito variada em espécies porque a Idade Média usou muitas mais do que aquelas que actualmente se conhecem, era relativamente reduzida em quantidade. E caríssima. E rara. Só as grandes cidades as ofereciam à venda, ou o mercador que se aproximava do paço senhorial. Aliás, só as famílias de grandes recursos económicos podiam adquirir especiarias puras. As outras, gentes endinheiradas, cidadãos grados, tinham de contentar-se com misturas mais ou menos adulteradas. Aos demais eram completamente inacessíveis.
A Alimentação, Iria Gonçalves (p. 239)
«porque a Idade Média usou muitas mais do que aquelas que actualmente se conhecem» - a prova de que não fomos nós que introduzimos as especiarias na Europa. Elas já eram bem conhecidas, antes dos Descobrimentos portugueses, e bem mais variadas do que hoje em dia.
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19 de abril de 2014
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (13)
Na cidade os processos eram diferentes. Os «cidadãos honrados» que detinham o poder económico e o governo local podiam - vários deles ao menos - ser grandes proprietários de terras, pelo que o abastecimento familiar estava garantido. Outros de entre eles - mercadores, por exemplo, sobretudo estrangeiros - embora não tendo bens fundiários próprios ou não os suficientes, possuíam a liquidez necessária para se abastecerem de uma só vez para todo o ano, comprando o cereal posto à venda na cidade ou, melhor ainda, procurando-o nos lugares adequados. Estes faziam as suas aquisições nos meses subsequentes à colheita, quando o grão se encontrava mais largamente disponível e a preços mais baixos. Estas famílias, porque as mais ricas, abasteciam-se de forma mais económica. Mas à medida que a situação financeira se ia degradando, os custos do abastecimento doméstico iam aumentando. Quer ele pudesse fazer-se semestral ou trimestralmente, quer os rendimentos familiares não permitissem aquisições mais volumosas do que as necessárias para cada semana ou menos ainda, de acordo com a periodicidade com que os respectivos proventos fossem recebidos, o custo do cereal para estas famílias ia-se sempre agravando, porque os preços iam sempre subindo, à medida que o ano se ia distanciando da época das ceifas. Mormente em períodos de escassez cerealífera - e tantos foram os que a Idade Média padeceu - esses preços podiam subir de forma dramática. E era sobre os citadinos de mais débeis recursos económicos que as oscilações sazonais e conjunturais recaíam com maior violência. Naturalmente, em vez do cereal podia adquirir-se o pão já confeccionado pelas padeiras, de que todos os dias eram postas à venda novas fornadas. Mas assim o produto final saía ainda mais encarecido.
A Alimentação, Iria Gonçalves (p. 233)
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29 de março de 2014
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (12)
Uma terceira e muito importante fonte para a produção de apodos foi o próprio indivíduo seu futuro portador, escalpelizado em todas as suas facetas, quer no seu aspecto físico, quer nas características morais ou intelectuais, na maneira de ser, nos costumes adquiridos, em eventuais peculariedades de qualquer tipo. Ele podia ser observado de todas as maneiras, olhado sob todos os ângulos, com olhares imbuídos de diversíssimas intenções, mas quase sempre mordazes, mesmo hostis. O produto dessas observações era a alcunha. Alcunha que podia apresentar-se de forma aparentemente inócua - Alto, Louro, Claro, Barba - ou até de conotações laudatórias - Amigo, Forte, Verdadeiro, Belo, Bem-falante - mas que assumia muitas vezes um tom mordaz, satírico - Ranhoso, Madraço, Mata Piolhos, Tinhoso, Unhas de Gato - ou até mesmo insultuoso - Pestelença, Maldito, Ravasco, Roussado, Galeado. À distância de alguns séculos é impossível saber que conteúdos teriam os milhares de alcunhas que a documentação trouxe até nós. Mas, conhecida como é a mordacidade quase sem limites do humor medieval e sabido como em todos os tempos as alcunhas se comprazem de forma especial nos vícios, nos defeitos, nos ridículos, é muito possível que quase todas elas, independentemente do conteúdo semântico da palavra ou expressão que deu voz à característica que se quis salientar, se fizessem acompanhar pelos risos trocistas dos seus criadores, talvez de modo tanto mais acerbo quanto mais laudatória fosse a forma utilizada.
Muito comum era ainda a transposição da característica a sublinhar no indivíduo visado, para o animal que supostamente a possuiria em alto grau. E ela podia ser feita pela simples referência ao animal em questão - Lobo, Perdiz, Anho, Cordeiro, ou ainda Coelhinho, Cervinho, Baratão - ou utilizando formas mais elaboradas: Boi Negro, Barbas de Porco, Quadril de Pega, Mãos de Águia, Bicho Feio. Menos comum era a transposição feita para plantas - Cebola, Nabo, Botelho - uma vez que as árvores, bastante frequentes na nossa antroponímia, na medida em que o são igualmente ou ainda mais na sua expressão como nomes geográficos, foi por essa via que a maior parte delas - e dificilmente poderá conhecer-se o seu volume - entrou na onomástica pessoal.
O Nome, Iria Gonçalves (p. 214)
16 de março de 2014
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (11)
Tirando algumas torres de castelos, não havia construções prisionais de raiz. Sendo a respectiva função muito desvalorizada, não se lhe afectavam boas casas; as cadeias eram geralmente pardieiros, muitas vezes um anexo da pobre casa do carcereiro. Não tinham quaisquer condições de conforto, de salubridade, não separavam os detidos: criminosos empedernidos misturavam-se com devedores, com crianças apanhadas a fazer asneiras, com alguma mulher de língua mais destravada, com inocentes indevidamente acusados. Comiam e dormiam todos juntos. Só no reinado de D. Manuel, e aproveitando os excedentes de um imposto extraordinário, a Coroa manda investir na construção de espaços prisionais minimamente dignos, desde logo com separação por sexos. O que mais atormentava os presos? É difícil escolher: o frio ou o calor; a sujidade (sem latrinas nem facilidades higiénicas de qualquer tipo, era um espectáculo habitual, por exemplo no Porto, ver sair da prisão uma fila de gente acorrentada, de todas as idades e dos dois sexos, conduzida pelo carcereiro, para se aliviar no espaço público fronteiro antes de regressar ao cárcere); a fome; a falta de auxílio na doença; a promiscuidade; sobretudo o confinamento físico, terrível para gente habituada ao ar livre, e de enlouquecer quando os detidos estavam presos às paredes com cadeias que lhes corriam pelos pés ou por uma argola à volta do pescoço. Mais do que tudo, a falta de luz. Muitos morreram na cadeia, e os que lá passaram demasiado tempo para a sua capacidade de resistência física, psíquica e material podem ter regressado à liberdade apenas para constatarem que já não conseguiam manter o seu lugar na comunidade a que antes pertenciam.
Marginalidade e Marginais, Luís Miguel Duarte (pp. 194/195)
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1 de março de 2014
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (10)
Para responder à questão que formulei - até que ponto certos castigos podiam atirar uma pessoa bem inserida em redes familiares e sociais para a vagabundagem, a exclusão e a criminalidade - temos de levar em conta dois factores: a dimensão infamante da pena, a suprema vergonha, a humilhação pública em comunidades que só na nossa imaginação nostálgica eram harmoniosas e idílicas e que podiam ser extremamente cruéis levaria a que muitos dos que passaram por isso nunca mais quisessem voltar; e não era fácil recomeçar a vida noutro lado, sem apoios. Além disso, em economias familiares precárias, com baixa produtividade e escassa poupança, a falta de um elemento - pai, mãe, filho - em idade de trabalhar podia significar pura e simplesmente a ruína, das terras ou do negócio.
(...)
Como experiência humana, a prisão podia ser terrível. Mas aqui também seria um equívoco generalizar. Não creio que tivessem existido no Portugal medievo os sinistros calabouços nas profundezas de castelos como a imaginação romântica os pintou. Embora os do mosteiro de Alcobaça descritos por Iria Gonçalves não pareçam andar longe disso: o mosteiro ia buscar os presos às cadeias dos concelhos e lançava-os «por cordas no fundo das suas torres ou nos aljubes onde, segundo a expressão empregada, não há claridade de sol nem de lua, não os deixando ver as famílias e conservando-os assim detidos, em más prisões, por muito tempo, até perderem "a vista dos olhos"».
Na esmagadora maioria dos casos, as prisões não seriam tão severas.
Marginalidade e marginais, Luís Miguel Duarte (pp. 193/194)
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23 de fevereiro de 2014
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (9)
A massa popular, ainda que saibamos ter havido uma evolução temporal e espacial, professava uma religiosidade que se exprimia em actos colectivos de devoção, fossem eles mais penitentes e purificadores, ou mais festivos e lúdicos. Religiosidade essa em que os homens, numa íntima comunhão com o cosmos, celebravam festivamente os movimentos cíclicos sazonais e os ritos fecundadores e produtivos da natureza, que se identificavam em pleno e eram até mesmo propiciadores da fertilidade humana. É a festa a reverter em intimidade e privacidade. Como a intimidade e privacidade conduzem à sociabilidade e à festa.
Expressão de uma celebração, de uma comemoração que só ao homem cabe, como senhor da memória, a festa assume-se primariamente, em tempos medievais, como uma festa do religioso e do sagrado.
A festa - a convivialidade, Maria Helena da Cruz Coelho (p. 145)
Comentário:
Aproveito para notar um contraste curioso que se verificava na Idade Média: apesar de haver muita identificação com a natureza, havia um grande distanciamento em relação aos animais. Penso que os homens não se viam propriamente como fazendo parte da natureza. Distanciavam-se dela, a fim de a dominarem, de a usarem para seu próprio benefício, a fim de estabelecerem a sua condição de "ser especial", criado à imagem de Deus. Apesar de se considerar que tudo o que existia fora criado por Deus, distinguia-se entre o natural e o divino.
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10 de fevereiro de 2014
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (8)
De acordo com o sistema linhagístico puro, digamos assim, as vias que se abriam a um secundogénito excluído da herança familiar passariam pelo serviço ao irmão mais velho ou a um senhor mais poderoso, por uma carreira no clero secular ou pelo afastamento do claustro monástico, ou até pelo ingresso numa ordem militar, ou pura e simplesmente por uma vida de aventuras apostada na sorte das armas ou no favor de uma herdeira. Quanto às senhoras, as soluções eram menos variadas, destinando-se para a maior parte o celibato monástico, enquanto algumas outras - poucas delas, como é óbvio, tendo em conta a perda patrimonial que o dote implicava - poderiam contribuir para os interesses estratégicos da linhagem através das alianças matrimoniais.
Em Portugal, porém, e como já se percebeu, a imagem ideal deste modelo teórico foi vivida com outros contornos. Na verdade, a documentação do século XIII e ainda da primeira metade da centúria seguinte, sobretudo através dos testamentos e das cartas de partilhas, revela uma prática continuada da divisão da herança por todos os irmãos.
(...)
Na impossibilidade de recorrer às velhas práticas endogâmicas, e para além, depois das partilhas, de trocas ou compra de bens efectuadas entre os vários herdeiros (o que permitia a reconstituição, pelo menos parcialmente, dos bens familiares), deve-se sobretudo sublinhar o elevado índice de celibato, especialmente feminino.
Na verdade, a única forma de impedir que os bens distribuídos pelas senhoras fossem enriquecer o património da linhagem dos respectivos cônjuges, era impedir o seu matrimónio.
A família - estruturas de parentesco e casamento, Bernardo Vasconcelos e Sousa, José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (pp. 138/139)
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1 de fevereiro de 2014
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (7)
Do forte impulso dado à Reconquista por Afonso III de Leão (866-910), levando decididamente a linha de fronteira para o vale do Douro, ou mesmo para o do Mondego na sua extrema sudoeste - aproveitando a profunda crise interna por que passou o emirato cordovês ao longo da segunda metade do século IX -, resultou a criação dos condados de Portugal (868) e de Coimbra (878). Os seus respectivos presores, Vímara Peres e Hermenegildo Guterres, foram os fundadores das duas principais famílias em torno das quais se alicerçou a chamada Nobreza Condal, que em grande medida liderou até ao final do século XI os destinos políticos do território que mais tarde seria Portugal.
Para além das funções políticas e judiciais/administrativas que exercia por delegação dos reis leoneses, esta nobreza condal definia-se também através de uma série de características claramente reveladoras da sua estruturação cognática. Desde logo, na forma da transmissão do título condal, isto é, da chefia da família, que tanto podia ser feita por via masculina como por via feminina.
Mas é ao nível do regime matrimonial e da transmissão do património que aquelas características mais se evidenciam. Quanto ao primeiro, já devidamente valorizado no ponto anterior, não se pode deixar de acentuar o alto nível de endogamia que o caracterizava. Na verdade, o casamento entre parentes com um grau de consanguinidade muito próximo - primos coirmãos ou tios/sobrinhos - era bastante frequente.
A família - estruturas de parentesco e casamento (pp. 134/135), Bernardo Vasconcelos e Sousa e José Augusto de Sotto Mayor Pizarro
4 de janeiro de 2014
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (6)
A Igreja dispunha assim de capacidade para intervir no fazer ou desfazer de alianças estabelecidas por via do casamento, tendo uma palavra decisiva na prossecução das estratégias familiares da nobreza. E se é verdade que podia anular matrimónios sobre os quais recaíssem impedimentos de parentesco ou outros (a loucura de um dos cônjuges, por exemplo), também não é menos verdade que o papa possuía a faculdade de conceder dispensas àqueles cujo parentesco, à partida, os impedisse de casar.
A doutrina canónica e a acção dos clérigos entraram muitas vezes em choque com as tradições e as práticas da nobreza, para a qual o casamento era essencialmente uma forma de constituir ou de reforçar alianças entre linhagens, de modo a garantir a perpetuação destas e a transmissão do respectivo património, material e simbólico. Para os nobres, a dissolução do casamento e o repúdio da mulher casada poderiam ter lugar se a relação conjugal não gerava herdeiros ou se se perfilava uma mais promissora aliança por via de um novo casamento.
A família - estruturas de parentesco e casamento, Bernardo Vasconcelos e Sousa e José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, pág. 130
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18 de dezembro de 2013
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (5)
É verdade que as práticas associadas ao casamento estavam profundamente marcadas por tradições pagãs, de origem romana ou germânica, se não mesmo anteriores, e que encaravam o casamento como a efectiva união de um homem e de uma mulher, sem que fosse necessária a intervenção de qualquer autoridade pública, civil ou religiosa. Tratava-se, pois, de um acto privado, envolvendo apenas os dois cônjuges. E apesar dos preceitos doutrinários e da disciplina que a Igreja foi impondo a este respeito, a verdade é que aquela matriz permaneceu muito arreigada ao longo de toda a Idade Média, sobretudo nos estratos populares, tanto do campo como da cidade. Tais situações eram socialmente reconhecidas, não deixando o homem e a mulher respectivos de ser considerados juridicamente como um casal cujos cônjuges se situavam no mesmo plano. É esta imagem, aliás, que ressalta dos contratos de cedência de prédios rústicos ou urbanos, em que marido e mulher recebem conjuntamente um bem para explorarem ou habitarem, mediante o pagamento de uma renda (prazo ou foro).
Mais vigilante e interveniente seria a actuação da Igreja face aos casamentos de membros da nobreza. Aqui, a acção eclesiástica esforçou-se por aplicar as regras definidas para o matrimónio, sobretudo a partir do século XII, com a reforma gregoriana.
A família - estruturas de parentesco e casamento, Bernardo Vasconcelos e Sousa e José Augusto de Sotto Mayor Pizarro - págs. 127/128
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30 de novembro de 2013
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (4)
O homem, para conseguir a desejada aliança matrimonial, para obter uma genitrix, «compra o seu corpo», oferece arras e donas a sua mulher (...)
«Para compra do seu corpo» - expressão também registada no Livro do Deão e no Livro de Linhagens do conde D. Pedro - traduz claramente que a função fundamental do matrimónio é garantir a procriação, a missão da esposa é gerar (...) O que significa que, pela lei do matrimónio, os homens adquirem o direito de utilização do corpo da mulher, nele procurando a sua utilitas, a procriação.
(...)
No que toca às classes mais desfavorecidas, o direito foraleiro dos séculos XII e XIII punia o abandono do cônjuge - pelo marido ou pela mulher - com pena mais severa e discriminatória para a mulher, como seria de esperar (...) Revele-se que só o casamento de bênçãos, aquele que é celebrado com todas as solenidades do direito e consagrado pela religião, está protegido por esse direito. O que não significa que o rei não considere como válidos outros casamentos (...) desde que o casal viva continuadamente na mesma casa durante sete anos, considerando-os pois marido e mulher «ainda que nom sejam casados em façe da Igreja».
(...)
E inúmeras são as relações extra-conjugais (...) O Livro de Linhagens do Conde D. Pedro regista o nome de várias dezenas de barregãs, que o foram da maior parte dos nossos monarcas, de grandes nobres (Sousas, Maias e tantos outros) e, até, de bispos e arcebispos. Todos eles dessas barregãs ou «amigas» tiveram «filhos de gaança», isto é, ilegítimos. Esta mesma fonte revela também casos de abandono de esposas («leixou-a e nom curou mais dela») seguidos de raptos («roussos») de outras mulheres, tidas depois publicamente como barregãs. A multiplicação destes «maaos enxempros» no século XIV, ao nível da nobreza e da vilania, obrigou Afonso IV e D. Pedro a legislar sobre o assunto.
A família: o léxico, Leontina Ventura - páginas 110 a 114
16 de novembro de 2013
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (3)
A vida no interior das residências de reis, bispos, membros da nobreza, era relativamente simples. Só a pouco e pouco, à medida que se foi caminhando para o final da Idade Média, as exigências de conforto passaram a ter maior expressão, quer ao nível dos objectos materiais de uso diário quer à multiplicação das dependências e do número de servidores, organizados hierarquicamente, adstritos às funções domésticas.
(...)
Os móveis eram reduzidos. Entre todos, o de maior excelência era a cama. Frequentemente deixada em testamento, particularmente a instituições religiosas, denuncia, neste caso, a importância de que gozava na sociedade medieval.
(...)
Quando se fala de camas, há que entender também todos os aprestos necessários à sua utilização. Colchas e cobricamas, almofadas, lençóis, cobertores, etc., gozavam da mesma importância e apreço que o leito propriamente dito.
A seguir à cama, o móvel mais difundido e mais útil era a arca. A sua função primordial era a de servir de guarda às roupas de vestir e aos objectos mais preciosos, mas também de mesa ou de apoio a outras funções. Era, sem dúvida, o móvel mais plurifuncional e, além disso, absolutamente indispensável aquando de deslocações.
(...)
Mesas e cadeiras, embora as houvesse, eram relativamente limitadas. Maior uso e difusão tinham os bancos, com ou sem encosto, sendo as cadeiras reservadas apenas a grandes senhores (reis, bispos e a mor fidalguia) e utilizadas em cerimónias de aparato, com um sentido muito preciso de poder.
(...)
A decoração das salas e câmaras dos paços fazia-se através de tapeçarias, panos-de-rás, couros lavrados.
(...)
A tapeçaria, de modo particular, alia ao aspecto utilitário a vertente moralizante ou celebrativa. Com efeito, a sua trama serve de suporte a grandiosas cenas e histórias do Antigo Testamento, a feitos de heróis da Antiguidade greco-romana, a façanhas gloriosas dos próprios encomendantes: a sua exposição permite, desta maneira, a evocação constante das virtudes ou dos feitos exemplares que todos devem seguir.
O Paço (José Custódio Vieira da Silva) - páginas 90/91
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5 de novembro de 2013
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (2)
Como é evidente, a escrita medieval é inicialmente monopólio da Igreja. Só a partir do século XII começa a ser usada também pelos príncipes e senhores, mantendo-se, no entanto, até aos finais do século XV, o controle clerical sobre toda a escrita, mesmo a que dimanava do poder político. Ora a escrita clerical dita as normas, expõe as crenças, legitima as práticas, mas não descreve a realidade. No fim do Império Romano, a Igreja, tendo alcançado uma posição de poder, combate a desordem bárbara, defende a paz social, a hierarquia e o respeito pela lei. Carlos Magno consagra o princípio de que o poder terrestre tem como objectivo final o Reino de Deus sobre a Terra. A sociedade cristã deve aproximar-se tanto quanto possível do seu modelo ideal que é a Jerusalém celeste.
Neste quadro, o que importa é a ordem pública. Imposta e mantida a estrutura social, definido o bem e o mal, faz parte da estratégia da Igreja apelar constantemente para o ideal como uma meta colectiva, mas não tanto denunciar o hiato entre o modelo e a realidade. O pecado só é denunciado quando se torna público, para evitar a sua propagação. O que se passa na vida privada deve ser secreto. Compete ao chefe de família ou da linhagem velar pelo cumprimento da norma no espaço doméstico.
Introdução (José Mattoso e Bernardo Vasconcelos e Sousa) - página 18
(destaques da minha responsabilidade)
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21 de outubro de 2013
História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (1)
Este livro é uma oportunidade de entrar em contacto com temas que, normalmente, não são abordados, como a habitação, a alimentação, a família, a convivialidade, a criança, a mulher, a sexualidade, a morte, etc.
O projeto, em vários volumes (que incluem várias épocas, até aos dias de hoje), é dirigido pelo Professor José Mattoso. O primeiro volume, dedicado à Idade Média, é coordenado pelo Dr. Bernardo Vasconcelos e Sousa, o autor, entre outros, da biografia de D. Afonso IV (Temas e Debates, 2009). Os temas foram distribuídos por historiadores, conforme a sua especialidade.
Mas (e há sempre um "mas"), não há dúvida de que alguns capítulos se leem melhor do que outros, uns dão mais informação, outros dão menos. No início, há uma Apresentação Geral, escrita pelo próprio Professor Mattoso, e que nos chama a atenção para o facto de que o historiador tem à disposição mais dados para a baixa Idade Média (séculos XIV e XV), deparando-se com a falta de fontes para os séculos anteriores.
O capítulo intitulado O Paço, da autoria de José Custódio Vieira da Silva, foi, para mim, uma desilusão. Admito que não seja da responsabilidade do autor, mas, de facto, apenas se encontram informações sobre as habitações do rei e da nobreza para a baixa Idade Média, já na transição para o Renascimento, entrando mesmo neste período. A descrição pormenorizada que se faz de um paço real é baseada no Real Conselheiro, obra de D. Duarte, que regeu em meados do século XV. Procura-se, em vão, descrições dos paços ao tempo de D. Afonso Henriques e, até, de D. Dinis, o que pressupõe que não se sabe mesmo nada sobre o assunto (só se pode deduzir). Mas é um dado adquirido que as diferenças entre os séculos XII e XV são enormes e não se pode cair no erro de retratar os rituais, os costumes e o quotidiano da corte do nosso primeiro rei a partir das descrições de D. Duarte.
As minhas preferências, pela riqueza de informação e pelo estilo da escrita, vão para os capítulos:
- A família - estruturas de parentesco e casamento, da autoria de Bernardo Vasconcelos e Sousa e José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (este último, autor da biografia de D. Dinis)
- A festa - a convivialidade, da autoria de Maria Helena da Cruz Coelho
- O nome, da autoria de Iria Gonçalves
- A alimentação (excelente), também de Iria Gonçalves
- A mulher, da autoria de Ana Rodrigues Oliveira e António Resende de Oliveira
- O corpo, a saúde e a doença, da autoria do Professor Mattoso
- Memórias (excelente), da autoria de Mário Jorge Barroca
(Claro que esta classificação depende do gosto pessoal, pois todos os historiadores envolvidos no projeto são excelentes profissionais).
Resta dizer que, à semelhança do que fiz com Naquele Tempo, iniciarei, em breve, uma série com excertos desta extraordinária obra.
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