Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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14 de dezembro de 2019

Os Físicos




Os Físicos é uma hilariante peça teatral do suíço Friedrich Dürrenmatt (1921/1990), que escrevia em língua alemã. Talvez ele não seja atualmente muito conhecido no nosso país, mas vários romances e peças de Dürrenmatt foram adaptadas ao cinema. Um dos filmes mais conhecidos intitula-se A Visita (The Visit), realizado em 1964 e protagonizado por Ingrid Bergman e Anthony Quinn.

Caracterizei a peça Os Físicos como hilariante, pois ela está cheia de situações absurdas e cómicas, onde aliás impera o humor negro, o que torna a leitura muito agradável. No entanto, Os Físicos tematiza uma problemática nada risível: físicos geniais e suas descobertas, que tanto podem ser úteis à humanidade, como contribuir para a sua destruição, tudo dependendo das mãos em que cai esse saber. O ponto de partida é o facto de que, sem as descobertas de Einstein, a bomba atómica nunca seria possível. Dürrenmatt tinha 24 anos, quando Hiroxima e Nagasaki foram devastadas pela bomba atómica, ficando impressionado com o poder que o ser humano possui e os efeitos catastróficos que daí podem advir. Os Físicos desenrola-se uma clínica psiquiátrica, local de esconderijo de um cientista genial, na esperança de que o mundo nunca venha a ter contacto com as suas descobertas.

Não encontrei versão portuguesa à venda desta peça, embora ela seja, de vez em quando, levada à cena, como aconteceu, por exemplo, em 2017, na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, e na Escola Alemã de Lisboa, a 8 de junho de 2018. Quem esteja interessado em lê-la em inglês pode adquiri-la na wook.pt.

Gostei tanto do estilo e da ironia de Friedrich Dürrenmatt, que lerei, de seguida, uma das suas obras mais famosas: O Juiz e o seu Carrasco.


6 de dezembro de 2019

A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty




Peter Handke é o vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2019. Constatei que tinha este seu livro em casa (na versão original, em alemão), um dos seus contos mais conhecidos, talvez pelo título apelativo. Escusado será dizer que pouco tem a ver com futebol. A personagem principal, Josef Bloch, é um eletricista que foi, em tempos, um guarda-redes mais ou menos conhecido. O título do livro é usado como metáfora para alguém que se vê numa situação em que não se pode permitir erros.

Numa manhã, Josef Bloch chega ao trabalho apenas para ficar a saber que foi despedido. Desnorteado, passa a errar pelas ruas da cidade, agindo por instinto. O leitor é confrontado com situações banais, mas sem nexo, Josef Bloch limita-se a deixar que os acontecimentos passem por ele. Há, no entanto, uma situação em que ele reage… da pior maneira: perdendo o controlo sobre si mesmo e cometendo um crime. Vê-se obrigado a fugir, deixa a cidade para se refugiar numa pequena estância de férias, na fronteira entre a Áustria e a Suíça. A partir daqui, Josef Bloch não se pode permitir erros. Continua, porém, a vaguear, sem um plano, ou uma direção.

A escrita de Peter Handke é fria, limita-se a constatar factos. Os sentimentos e as emoções das suas personagens ficam por conta do leitor, mas o estilo é tão poupado (por vezes, mesmo enigmático), que se torna difícil adivinhar o que vai na cabeça de Josef Bloch. Este tipo de escrita fez-me lembrar a de Gonçalo M. Tavares, porquanto o escritor português consegue ser mais emotivo. Peter Handke deixa tudo bem lá no fundo. O que vem à superfície é apenas o que todos conseguem ver, o resto tem de ser imaginado (ou seria melhor dizer adivinhado?) pelo leitor.

Confesso que foi uma escrita que não me empolgou. Realço, no entanto, que Handke tem tantas obras publicadas, que seria desonesto ajuizar sobre o escritor baseada apenas neste livro.


31 de outubro de 2019

Barco Negro




Depois de ter postado aqui sobre os “Portugal-Krimis”, ou seja, livros policiais situados em território português, mas escritos por alemães, houve um escritor, com pseudónimo Mario Lima, que se manifestou nos comentários. Este autor alemão vive há vários anos no Minho com a mulher e três gatos e dedica-se à produção (em pequena escala) de vinho verde tinto.

Fiquei curiosa quanto aos seus livros, não só por ter trocado impressões com ele, como por ele os situar na cidade do Porto, uma cidade que me diz muito. Nasci em Castelo de Paiva, vivi muitos anos em Vila Nova de Gaia e licenciei-me na Universidade do Porto. A personagem principal dos dois livros de Mario Lima é o inspector Fonseca, da PJ do Porto.

Li o seu primeiro policial, Barco Negro, inspirado no lindíssimo fado homónimo de Amália Rodrigues (no link indicado, pode ouvir-se a versão original e a cantada por Mariza). Trata-se de um enredo bem construído e uma leitura que entretém, mantendo o leitor em suspense. Não há dúvida de que Mario Lima conhece bem o Porto e Matosinhos e consegue transmitir a atmosfera dessas duas cidades, pelo menos, no inverno. Este foi um aspeto que apreciei particularmente. Ainda não li mais nenhum destes “Portugal-Krimis”, mas sempre imaginei que os autores falassem muito do sol e das praias.

Pois bem, a ação de Barco Negro decorre de início de Novembro até Janeiro do ano seguinte, ou seja, em plena estação fria e cheia da chuva. A história inicia-se debaixo de uma chuva torrencial, que atrapalha o trabalho dos investigadores da PJ, quando surgem dois cadáveres em Perafita, Matosinhos. Embora haja dias de sol pelo meio, o frio não deixa de nos perseguir durante todo o livro, havendo inclusive uma cena passada perto de uma casa de montanha, na zona de Montalegre, com temperaturas abaixo de zero. Pois, isto também é Portugal! Achei igualmente interessante alguma referência ao tempo da ditadura e à PIDE.

Entre os investigadores da PJ, encontra-se uma jovem estagiária, psicóloga, que, na verdade, chega a roubar protagonismo ao inspetor Fonseca, perguntando-se o leitor quem será, afinal, a personagem principal. Enfim, o inspetor Fonseca é o único que vem mencionado na capa dos dois livros. Não sei como é no segundo, Tod in Porto (Morte no Porto), mas, na minha opinião, se Mario Lima pretende criar um inspetor carismático para a sua série de policiais, vai ter de se dedicar mais ao Fonseca e refrear a sua “paixão” pela bonita e sexy Ana Cristina.

Infelizmente, o livro só existe em língua alemã e eu recomendaria a sua tradução. Algo que aprecio em obras destas é a nossa imagem, vista por alguém de fora. Por isso, não resisto a traduzir uma pequena passagem da página 265. O cenário é um hipermercado em vésperas de consoada natalícia:

«Na secção do peixe, encontravam-se quantidades extra de bacalhaus empilhados sobre mesas. Escolher o bacalhau certo para a consoada não era resolução para tomar de ânimo leve. Todos se aglomeravam à volta das mesas, cada qual o melhor especialista na matéria. Um bacalhau assim, salgado e seco, não devia ter uma cor muito esbranquiçada e também a consistência era importante: fosse ele mole demais, não servia. As pessoas pegavam nos bacalhaus e vergavam-nos, de olhar crítico. Era aquele o certo? A maior parte dos peixes acabava por ser novamente atirada para a pilha. Não haveria melhor? Casais mais velhos entreolhavam-se preocupados, abanando a cabeça. “Não valem nada”. Uma velhota baixinha desconfiava que os melhores estavam escondidos bem lá no fundo. Resoluta, arrancava um bacalhau a seguir ao outro do fundo da pilha, atirando-os para cima do monte, examinando cada um deles de testa franzida. Nada, mais uma vez. Venha o próximo!» 

Texto originalmente publicado aqui.