Jacinta estava profundamente agradecida à
gémea, por ela a haver salvado, mesmo contra a vontade da família. Mas dava-se
agora conta que não seria legítimo que esse agradecimento condicionasse a sua
vida, que vivesse em função dele. Se alguém, por ter salvado outrem, o
considerasse propriedade sua e o mantivesse sob o seu favor, a fim de o
condicionar e controlar os seus desejos, passos e decisões, estava mais a
pensar em si próprio do que no outro. Estava a tentar ser feliz através do
outro, roubando-lhe a sua luminosidade, quiçá por ele próprio se sentir escuro
e vazio. E, se lhe tirava o direito de escolher o seu caminho, seria porque não o
amava.
Mostrar mensagens com a etiqueta Os Segredos de Jacinta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Os Segredos de Jacinta. Mostrar todas as mensagens
25 de março de 2015
18 de março de 2015
Os Segredos de Jacinta - Excertos (15)
Jacinta sentiu então uma vontade indomável de
lhe mostrar que podia ser melhor do que Zaida. Trocou a pandeireta pelas
castanholas e, a fim de contrastar com os rodopios infernais da moura, começou
a bailar em movimentos lentos e voluptuosos, realçando o manejo de braços e
mãos.
O guarda tornou a incitá-la:
- Mostra-lhe, rapariga!
Zaida apoderou-se igualmente das castanholas.
Atirando com o xaile, começou com a sua dança de ventre, sabendo que a
companheira não era muito versada naquele estilo, enquanto as castanholas lhe
estalavam furiosas nas mãos.
Os homens ensandeciam.
Jacinta livrou-se igualmente do xaile e foi-se
insinuar junto do guarda que dissera ter apostado nela. Zaida fez o mesmo com o
outro. Por sobre o adarve, faziam-se mais apostas e puxava-se pelas
bailadeiras.
O mancebo admirador de Jacinta agarrou-a pela
cinta e tentou beijá-la, mas ela deu-lhe um empurrão, causando grande galhofa
na assistência. Afastou-se dele em rodopios vigorosos, que lhe levantavam as
saias e lhe faziam voar os cabelos. Zaida juntou-se-lhe. Lançando-se olhares hostis, as duas
competiam uma com a outra, em movimentos lascivos de ancas, ou, frente a
frente, quase se tocando, fazendo abanar as lantejoulas sobre o peito.
O delírio era total, alguém gritou do adarve:
- Deixai entrar essas bailadeiras!
Outras vozes se lhe juntaram, mostrando que
uma pequena multidão lá se reunira. Mas um dos guardas contrapôs, cá de baixo:
- Temos ordens para não deixar entrar
ninguém.
- O diabo do homem não se deixa amolecer!
- Quer a ruça só para ele!
- Homessa! São bailadeiras para fidalgos! Queremo-las
cá dentro!
4 de março de 2015
Os Segredos de Jacinta - Excertos (14)
A moura regateou o preço na língua dos
infiéis. Jacinta nunca a ouvira falar assim. Também Zaida tinha o seu passado,
crescera num outro mundo, aprendera as suas primeiras palavras num outro
idioma. Teria nascido em berço rico, ou pobre? Que vida levara, antes de ser
feita cativa e trazida para a terra dos cristãos?
Jacinta sabia como se tratavam as mouras
cativas, principalmente, as formosas. Quantos Fuças houvera na vida de Zaida? Quantas vezes tivera ela de passar
por tal tormento?
Finda a transação, as três
encantavam-se com as suas compras, também Rosinha exibia orgulhosa a pequena
bracelete que Zaida lhe oferecera como prenda de anos. Completava os seis, a
mãe dizia que ela nascera «pela Páscoa». Jacinta ia ficando para trás, tentando
segurar as lágrimas.
A moura aguardou-a, deixando as outras
adiantarem-se, e disse-lhe:
- Também devias ter comprado alguma cousa,
para te alegrares.
Jacinta olhou-a, começou a murmurar:
- Peca-se, quando se escolhe o caminho do
mal. Mas como é, quando não se tem escolha?
- Que dizes?
- Supõe que vamos por uma estrada fora, que,
num certo ponto, se divide em duas. Dizem-nos que a da direita leva a anos de
sacrifício, mas, no fim, à salvação. A da esquerda leva-nos a anos de folia e
prazeres, mas, no fim, à condenação. Sabemos que pecamos se nos deixarmos levar
pela folia. Mas… E se não nos dão escolha? Se nos encaminham para uma estrada
que nunca se bifurca e somos obrigados a percorrê-la até ao fim, seja ela qual
for? Pecamos, mesmo que escolhêssemos outra, tendo essa oportunidade?
Zaida olhava-a, agora, igualmente séria.
Jacinta acrescentou:
- Nem a D. Mafalda, uma donzela tão nobre, se
permite escolher o rumo da sua vida. Temos de nos sujeitar àquilo que decidem
por nós… Ou àquilo que nos fazem…
Apesar de os olhos da moura não poderem ser
mais negros, Jacinta viu uma sombra de tristeza e sofrimento perpassá-los. Por
fim, Zaida murmurou:
- Estamos todos nas mãos de Deus… Não podemos
cair mais fundo do que isso…
25 de fevereiro de 2015
Os Segredos de Jacinta - Excertos (13)
Jacinta abriu igualmente os braços e ensaiou
umas voltas. Não tardou, porém, a parar, muito tonta. A moura lançou, no meio
dos seus rodopios:
- Assim que te sentires recobrada, recomeça! Se quiseres ser bailadeira, tens de te acostumar, quanto mais voltas, melhor.
Jacinta assim fez. De braços abertos, dava voltas e mais voltas.
Diogo e Rosinha abeiraram-se, fascinados, como agem as crianças quando veem adultos a soltarem-se como elas. A pequena Rosa decidiu imitar as duas e pôs-se a rodopiar, de braços abertos, dando gritinhos de prazer. Mas também cedo perdeu o equilíbrio, foi de encontro a Jacinta e as duas caíram na areia, soltando gargalhadas. Zaida puxou-lhes pelos braços:
- Mas que ronceiras vós me saístes! Erguei-vos, vamos!
Recomeçaram as três a rodopiar, rindo de satisfação. Diogo, que até aí mantivera a pose, não se conseguiu segurar mais e os quatro rodopiavam, de braços abertos, olhos fechados e cara levantada ao sol. Por vezes, iam de encontro uns aos outros e caíam, para se tornarem a erguer, numa galhofa pegada.
Jacinta sentia-se inebriada de alegria e liberdade, como se voasse. A felicidade suprema consistia em rodopiar ao sol, de cabelos soltos e braços abertos, gargalhando a seu bel-prazer. Era tão simples! Porque não se soltavam as pessoas mais vezes, alegrando-se apenas por estarem vivas, rindo a bom rir, até ficarem tontas, até perderem o ar?
- Assim que te sentires recobrada, recomeça! Se quiseres ser bailadeira, tens de te acostumar, quanto mais voltas, melhor.
Jacinta assim fez. De braços abertos, dava voltas e mais voltas.
Diogo e Rosinha abeiraram-se, fascinados, como agem as crianças quando veem adultos a soltarem-se como elas. A pequena Rosa decidiu imitar as duas e pôs-se a rodopiar, de braços abertos, dando gritinhos de prazer. Mas também cedo perdeu o equilíbrio, foi de encontro a Jacinta e as duas caíram na areia, soltando gargalhadas. Zaida puxou-lhes pelos braços:
- Mas que ronceiras vós me saístes! Erguei-vos, vamos!
Recomeçaram as três a rodopiar, rindo de satisfação. Diogo, que até aí mantivera a pose, não se conseguiu segurar mais e os quatro rodopiavam, de braços abertos, olhos fechados e cara levantada ao sol. Por vezes, iam de encontro uns aos outros e caíam, para se tornarem a erguer, numa galhofa pegada.
Jacinta sentia-se inebriada de alegria e liberdade, como se voasse. A felicidade suprema consistia em rodopiar ao sol, de cabelos soltos e braços abertos, gargalhando a seu bel-prazer. Era tão simples! Porque não se soltavam as pessoas mais vezes, alegrando-se apenas por estarem vivas, rindo a bom rir, até ficarem tontas, até perderem o ar?
18 de fevereiro de 2015
Os Segredos de Jacinta - Excertos (12)
- Não te queres tornar uma de nós?
Jacinta olhou a moura tão atónita, que esta
acrescentou:
- Ou julgas-te preciosa demais? Afinal, estiveste num convento… E deves saber ler e escrever, guardas esse teu livrinho como se de um tesouro se tratasse.
Jacinta remeteu-se ao silêncio, lutando consigo própria. Estava sozinha no mundo, valia menos do que um cão de pastor, ou uma vaca de camponês. Mais cedo,ou mais tarde, haveriam de
abusar dela, como o Fuças fizera.
Também nessa altura ela se esforçara por ser humilde e recatada. E de nada
adiantara!
Não seria melhor passar da defesa ao ataque? Várias vezes, constatara que o mal não estava nos atos em si, mas nas circunstâncias em que ocorriam. Como soldadeira, poderia, pelo menos, escolher com que homem se deitar. E ainda ganharia dinheiro com isso.
Que mais lhe restava, como mulher, esgotadas que estavam as possibilidades do casamento e do mosteiro? Possibilidades que desperdiçara, fosse por azar, por burrice, ou por ruindade…
Olhou para Rosinha, de apenas cinco anos, que corria livre e feliz, pela areia. A única hipótese daquela catraia era tornar-se soldadeira, todas as outras lhe estavam vedadas. Porque condenava Deus crianças doces e inocentes a tal destino?
Não passaríamos todos de gotas de chuva a vaguear ao sabor do vento…
- Crês que me podias ensinar a bailar?
Zaida, que, perante o silêncio dela, tornara a concentrar a sua atenção no mar, mirou-a crítica. Depois, considerou:
- Bem, és tão alta como eu e, embora sejas magra, pareces-me bem-feita. Além disso, – pôs-lhe a mão debaixo do queixo, obrigando-a a erguer a cabeça, – tens uma pele clarinha e mimosa. Há homens doudos por isso. E esses olhos de gata também os enfeitiçam. – Recolheu a mão e acrescentou: - Desprende lá os cabelos!
- Ou julgas-te preciosa demais? Afinal, estiveste num convento… E deves saber ler e escrever, guardas esse teu livrinho como se de um tesouro se tratasse.
Jacinta remeteu-se ao silêncio, lutando consigo própria. Estava sozinha no mundo, valia menos do que um cão de pastor, ou uma vaca de camponês. Mais cedo,
Não seria melhor passar da defesa ao ataque? Várias vezes, constatara que o mal não estava nos atos em si, mas nas circunstâncias em que ocorriam. Como soldadeira, poderia, pelo menos, escolher com que homem se deitar. E ainda ganharia dinheiro com isso.
Que mais lhe restava, como mulher, esgotadas que estavam as possibilidades do casamento e do mosteiro? Possibilidades que desperdiçara, fosse por azar, por burrice, ou por ruindade…
Olhou para Rosinha, de apenas cinco anos, que corria livre e feliz, pela areia. A única hipótese daquela catraia era tornar-se soldadeira, todas as outras lhe estavam vedadas. Porque condenava Deus crianças doces e inocentes a tal destino?
Não passaríamos todos de gotas de chuva a vaguear ao sabor do vento…
- Crês que me podias ensinar a bailar?
Zaida, que, perante o silêncio dela, tornara a concentrar a sua atenção no mar, mirou-a crítica. Depois, considerou:
- Bem, és tão alta como eu e, embora sejas magra, pareces-me bem-feita. Além disso, – pôs-lhe a mão debaixo do queixo, obrigando-a a erguer a cabeça, – tens uma pele clarinha e mimosa. Há homens doudos por isso. E esses olhos de gata também os enfeitiçam. – Recolheu a mão e acrescentou: - Desprende lá os cabelos!
Subscrever:
Mensagens (Atom)