Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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5 de maio de 2015

Os Segredos de Jacinta (21)



O povo dirigia-se aos magotes para a foz do Tejo. Todos queriam dar o seu contributo para a expulsão dos infiéis, consideravam-se peregrinos em missão de fé. Os mais pobres e miseráveis, gente sem eira nem beira, viam na campanha de Lisboa uma oportunidade de mudança de vida. Famílias sonhavam com propriedades férteis em terras de mouros; aventureiros e mendigos viam-se a arrebanhar as riquezas dos pagãos; soldadeiras, rameiras e outras mancebas perguntavam-se se os cruzados, estrangeiros à solta num reino desconhecido, não engraçariam com elas e não lhes proporiam casamento. Muitos previam a ocorrência de milagres, numa expedição levada a cabo por cruzados, comandados por el-rei D. Afonso, a quem já surgira Jesus Cristo.
Jacinta limitava-se a ouvir sem se expressar. Que pensassem o que quisessem! Sabia que só podia contar com uma pessoa: ela própria. Na vida terrena, Deus só atuava se o descobríssemos dentro de nós. Vê-Lo como uma entidade exterior e esperar que Ele nos resolvesse os problemas não passava de ilusão. Só nós, em sintonia com Ele, sentindo-O no nosso interior, estávamos em condições de mover montanhas.


28 de abril de 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (20)



A 16 de junho, a multidão que se espalhara pelos montes e colinas sobranceiros ao Douro, assim como os habitantes do Porto e de Gaia, testemunharam a chegada das embarcações. As que transportavam os comandantes e os clérigos atracaram no cais da Ribeira, enquanto as restantes se iam acomodando lado a lado, entre uma e outra margem. Outras ainda tiveram de lançar âncora nos areais junto à foz.

Nunca se vira tão grande armada e crescia o entusiasmo em relação ao cerco. Tomava proporções de campanha sagrada, garantindo a salvação a todos que nela participassem. Pois se Deus decidira enviar tantos cruzados a el-rei D. Afonso!

Do Sul, veio Soeiro Viegas, um outro filho do falecido Egas Moniz, com uma carta d’el-rei para o bispo, informando que o monarca já se encontrava na região de Lisboa, conquistando fortalezas e atalaias, a fim de isolar a cidade, preparando o caminho para a chegada das tropas cristãs.

Também do Norte chegavam barões. O irmão de Bernardo surgiu com muitos senhores de Entre Cávado e Minho. O Sousão e Mem Pais Bofinho haviam convencido os Braganções e, no seu caminho, reuniram-se-lhes nobres de Baião, Benviver e Penafiel de Canas, ou seja, das terras entre Constantim de Panóias e o Porto, que incluíam o vale do Tâmega.

Os Braganções eram a prova de que os barões mais renitentes haviam sido convencidos. Ninguém escapava à febre do cerco, sentiam-se um povo eleito, testemunhas de uma nova era, a maioria nem considerava que faltava convencer os cruzados a auxiliar el-rei. Disso dava conta a carta enviada por D. Afonso a Pedro de Pitões, que pregou aos estrangeiros no Largo da Sé, tendo a secundá-lo João Peculiar, arcebispo de Braga, surgido entretanto com os recém-eleitos bispos de Lamego e Viseu.

Jacinta não se deixava contagiar pela febre do cerco e volvera ao seu mester de curandeira, tratando de um rapazito atacado por sezões, o membro mais novo de uma família da Terra de Refojos, composta pelos pais e mais três filhas. Não possuíam terra própria, eram trabalhadores sazonais que alugavam casais aos fidalgos. Fartos da miséria, iam em busca de melhor fortuna, crendo que el-rei os recompensaria a todos, havendo mister de cristãos para povoar as terras que tomaria aos pagãos. Tomavam D. Afonso por santo, pois se até Cristo lhe surgira, antes da batalha de Ourique!


21 de abril de 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (19)



Tais novidades não estarreceram apenas Jacinta. Durante todo o dia, não se falou de outra cousa, no castelo de Lanhoso. O acontecimento teria repercussões em todo o reino, logo começando num despovoamento temporário do Norte, o que pôs o jogral Francisco Lopes de Braga deveras preocupado. Se os mais poderosos se deslocariam para Sul, pouco compensaria atuar nas romarias de Entre Douro e Minho. O melhor seria acompanhar os guerreiros que haveriam mister de divertimento.

Jacinta notou, porém, que Zaida se quedava cabisbaixa, contrastando com a euforia geral. Estaria ainda amuada com o que se passara no serão? Mas a moura revelou que as suas cismas eram outras: não desejava rumar a Sul.

-Eu sei o que se passará - disse-lhe, com lágrimas nos olhos. – Pelejas, mortes, padecimento… Não o quero tornar a testemunhar. Aumentará o ódio pelos mouros…

- Estarás protegida pelo grupo…

- Mesmo que não haja mister de temer por mim, recuso-me a assistir às injúrias a que o meu povo será infligido!

Jacinta recordou os mouros cativos, depois da Batalha de Ourique, e igualmente se perguntou se deveria acompanhar o grupo. Como poderia entreter os guerreiros, assistindo à miséria e ao sofrimento?


14 de abril de 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (18)



Juntavam as trouxas, na véspera da partida, quando a aproximação de uma comitiva de dezenas de cavaleiros, vinda dos lados de Braga, perturbou a vida no castelo de Lanhoso. A algazarra aumentou de tom, ao reconhecer-se o estandarte de D. Gonçalo Mendes Sousão, o íntimo de D. Afonso Henriques que estivera a seu lado na conquista de Santarém. A agitação dos humanos transmitiu-se, como de costume, aos animais, sobretudo aos cães, que desataram num grande histerismo, sendo custosos de dominar, à chegada dos cavaleiros.
No meio da confusão de berros, latidos e algumas mordidas, as atenções centraram-se à volta do grande senhor de Sousa, imponente sobre a sua montada. Jacinta encontrava-se a uma distância considerável, sem interesse em furar por entre o povo, embora não deixasse igualmente de observar o fidalgo, como se se pudesse assim pressentir a razão do seu surgimento.
Demorou até se estabelecer a normalidade. Os cães continuavam agitados, enquanto os moços de estrebaria andavam numa lufa-lufa a fim de acomodar os cavalos dos recém-chegados e os escudeiros montavam tendas, pois não caberiam todos nos aposentos do castelo. Além disso, discutia-se sobre o significado daquele surgimento e Francisco recordou aos seus que seriam chamados a animar o serão. A sua partida ficava adiada e havia que desfazer as trouxas já preparadas.


2 de abril de 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (17)



Surgiu, porém, uma notícia que alvoroçou os barões de Entre Douro e Minho: el-rei D. Afonso conquistara Santarém, nas margens do Tejo, sem convocar a nobreza do Norte! Prescindira dos seus serviços, apresentando-lhes o facto consumado. Preferira o auxílio dos cavaleiros de Coimbra, muitos deles moçárabes, e dos cavaleiros vilãos dos concelhos do Sul, guerreiros sem origem nobre, vistos com muito desdenho pelos fidalgos. Lourenço Viegas Espadeiro (filho do falecido Egas Moniz), Gonçalo Mendes Sousão e Fernão Peres Cativo haviam sido os únicos barões a assistir o monarca naquela campanha.
(…)
- Nessa altura nem nos tínheis encontrado, fomos para o Porto, depois da Páscoa. Meu pai tinha assuntos a tratar com D. Pedro de Pitões e foi lá que recebemos a mensagem de D. Gonçalo. Em nome da amizade que une as nossas famílias, ele solicitou o nosso auxílio para acalmar os ânimos. Meu pai nunca quebrará a amizade que liga os Sousa aos Azevedo, apesar de igualmente haver ficado sentido com a atitude d’el-rei. Por isso, temos acompanhado D. Gonçalo neste seu périplo pela região.
- E tendes sido bem sucedidos?
- Ao tomar conhecimento das novidades que trazemos, os barões logo olvidam rancores.
Jacinta hesitou, mas atreveu-se:
- E que novas são essas?
Bernardo olhou-a entre a diversão e a advertência:
- Sempre me saíste uma curiosa…
- É tão grande segredo?
- Não. Em breve todos saberão que el-rei se prepara para pôr cerco a Lisboa, para expulsar de lá os mouros.
Jacinta abriu muito os olhos:
- A Lisboa?
- Essa mesmo, quatro ou cinco vezes maior do que Coimbra! Haverá riquezas e terras para distribuir.
- Mas almejará D. Afonso conquistar tão grande cidade?
- Com os cruzados, com certeza que sim.
- Cruzados? – A moça ergueu o tronco, de olhos ainda mais escancarados: - Quais cruzados?