Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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23 de julho de 2024

Perfeita

 


 

Hoje não me apetece rir e sorrir para toda a gente

Não me apetece ser encantadora

Esforçar-me por ser a mais bonita

A mais inteligente

Achar piada a conversas estúpidas

Dizer que está tudo delicioso,

quando não está,

ou quando está e eu não posso comer o que me apetece

para continuar a caber no vestido.

Hoje não me apetece ser perfeita.

15 de julho de 2024

23 de outubro de 2021

Linguagem inclusiva

«Elena Ferrante é uma das grandes escritoras contemporâneas».

[The New York Times]

Frase impressa na contracapa do livro A Amiga Genial, de Elena Ferrante

(tradução de Margarida Periquito, Relógio d'Água 2011)

Esta frase suscita-nos dúvidas. Quando diz «uma das grandes escritoras contemporâneas», engloba escritores e escritoras? É Elena Ferrante apenas uma das melhores entre uma parte dos que escrevem, ou entre todos? Considerando que a frase foi originalmente escrita em inglês, concluímos que englobará o universo de todas as pessoas que escrevem livros. Mas é preciso considerar o original para tirarmos esta conclusão. À semelhança da maioria das línguas, a nossa, neste caso, não esclarece.

Paciência, dirão alguns, é assim que funciona a língua portuguesa. E não seria melhor mudar? Não, é a nossa língua, com as suas regras, nada a fazer.

Pois, não me parece! E explico porquê.

As línguas não são entidades autónomas, algo superior que se rege por leis divinas e que existe independentemente de nós. Nós não somos escravos da língua. Somos mais velhos do que qualquer idioma, já por cá andávamos, antes de eles surgirem. As línguas foram criadas e desenvolvidas unicamente pelo ser humano e existem para o servir, não o contrário. Claro que uma língua deve ser respeitada e também desenvolve uma dinâmica própria, mas essa dinâmica está intimamente ligada ao nosso comportamento, às nossas crenças, hábitos, etc. Ela reflete aquilo que vivemos e em que acreditamos. As regras que a definem foram sendo criadas ao longo dos tempos, a fim de facilitar a comunicação. Nos inícios da nossa nacionalidade, um português do Norte dificilmente compreenderia um português do Sul, havia grandes diferenças regionais (e até línguas diferentes). Ao decretar o português como língua oficial da corte, um dos objetivos de D. Dinis foi precisamente criar uma língua-padrão suscetível de ser entendida em todos os cantos do reino.

Até, digamos, há trinta anos, passava pela cabeça de muito pouca gente que uma mulher pudesse estar incluída no clube restrito dos melhores escritores mundiais (entre 1901 e 1990, o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído a apenas seis autoras, não chega a uma por década). Quando se falava de uma das melhores escritoras, considerava-se, em regra, apenas o mundo das mulheres que escreviam. Por isso, não havia necessidade de clarificar casos destes. Se recuarmos ainda mais no tempo, nem sequer se considerava que uma mulher pudesse escrever livros.

Vivemos, há milénios, numa sociedade patriarcal. As línguas foram desenvolvidas por essa sociedade e projetam isso mesmo. Para dar um exemplo: no galaico-português, não havia género feminino para muitos substantivos, nomeadamente os acabados em “or”. Por isso se dizia “senhor” mesmo em relação a uma mulher. Na nossa Idade Média, havia “lavrador”, mas não havia “lavradora”. As mulheres não contavam, mesmo aquelas que fizessem o mesmo trabalho de homens.

As coisas vão mudando ao longo dos tempos, mas algumas custam muito a mudar. E é um erro considerar que já chegámos ao fim do processo. Nem preciso de recuar assim tanto no tempo. Tenho cinquenta e seis anos e lembro-me bem do sururu criado, quando, depois do 25 de Abril, Maria de Lurdes Pintasilgo foi nomeada primeira-ministra. Hoje, custa a acreditar, mas não havia, na língua portuguesa, o género feminino para a palavra “ministro”. Nem para “juiz”, já agora (como ainda hoje não há para “bispo”, pois a Igreja Católica, ao contrário da Luterana, não concebe mulheres a exercerem essa função). Quando, em 1979, se instalou a discussão, com gente a ter o desplante de clamar que uma mulher “ministro” devia ser chamada “ministra”, a maior parte da população indignou-se (tive um belo exemplo em minha casa: o meu pai, professor do ensino primário, era profundamente alérgico a termos como “ministra” e “juíza”). A designação “primeira-ministra” era das maiores aberrações linguísticas que essas pessoas podiam imaginar, atingia estatuto de sacrilégio. Os homens (e muitas mulheres) desdenhavam ou zombavam. Achava-se preferível, imagine-se, dizer “a primeiro-ministro”, ou “a senhora primeiro-ministro”, muito à semelhança do “mia senhor” medieval.

Dizer que a gramática não tem sexo e que não é discriminatória é uma falácia. O plural masculino abrangente é de facto discriminatório. Vem igualmente da era medieval, em que as mulheres não contavam. A palavra “portugueses”, usada para se dirigir aos naturais de Portugal, vem desses tempos, em que as mulheres estavam impedidas de tomarem posições e resoluções sociais, porque os homens tomavam por elas. O rei, os condes e os nobres em geral, quando comunicavam as suas resoluções, ou davam as suas ordens no que respeitava ao governo das suas terras, não consideravam dirigirem-se às mulheres. Por isso, “portugueses” chegava muito bem. E chegou, até há quase cinco décadas. Antes de as mulheres poderem votar, que necessidade havia de os políticos se dirigirem às “portuguesas”?

É interessante que muita gente rejeita a versão “portuguesas e portugueses” (a ordem é indiferente), mas acha muito natural dizer “minhas senhoras e meus senhores”. Entre os defensores e as defensoras da linguagem inclusiva, há reivindicações complicadas, mas não me parece que casos destes sejam difíceis de pôr em prática. Nas missas alemãs, por exemplo, tanto católicas, como protestantes, já é regra dizer “irmãos e irmãs” (a ordem é, mais uma vez, aleatória). E, sim, a atual tradução alemã do Evangelho inclui essa fórmula. No Jornal Católico da diocese de Hildesheim, também se têm operado algumas mudanças, com a preocupação de não tornarem o texto muito complicado. Quando se nomeiam várias profissões, escrevem-se alternadamente no género masculino e feminino, por exemplo: "médicos, advogadas, professores, engenheiras, enfermeiros, escritoras". Havendo consenso em que, escrevendo assim, são considerados os dois géneros nas várias profissões nomeadas, esta modalidade bem se poderia tornar regra em qualquer língua.

Podia dar muitos mais exemplos de como a nossa língua reflete toda uma postura patriarcal e machista. Mas também considero dever evitar-se radicalizações (ressalvo que não tenho competência para falar em nome de grupos que não se reveem nos géneros tradicionais). Muitas propostas tornam a escrita (e a fala) demasiado complicada. Terá de se encontrar uma solução prática, que, porém, só será atingida através de um debate sério e ponderado. Mas eu acredito na criatividade e na inteligência do ser humano. Não encontrar uma forma praticável de linguagem inclusiva seria um verdadeiro atestado de incompetência ao homo sapiens sapiens.

Vai demorar até encontrarmos um consenso, ou um modelo, que não nos complique demasiado a vida. Estou, contudo, certa de que a mudança acontecerá. Uma língua tem de ter regras, sim, mas somos nós que as fazemos. As leis também se mudam e adaptam ao progresso humano. As regras da gramática mais não são do que as leis da língua.

1 de abril de 2021

Diz que é a mais antiga do mundo...

… mas é a prostituição uma profissão? É o serviço sexual comparável a outro tipo de serviço? O princípio que justifica a existência do negócio do sexo é medieval: a aceitação de um mal necessário. De um lado, as mulheres “puras”, com a função de serem esposas e mães; do outro lado, as meretrizes, que se usam para não se “fazer mal” às primeiras. Sinceramente, como pode uma sociedade que apregoa a igualdade conviver pacificamente com tal discriminação?

De há uns anos para cá, tenho formado uma opinião sobre este assunto, que se confirmou, depois de ter visto um documentário transmitido pelo 3sat, um canal público alemão ligado ao ZDF, dedicado à cultura, ao documentário e ao debate de temas sociais (excluindo os fait-divers políticos e desportivos). Nesse documentário, comparava-se o sistema alemão, que legalizou a prostituição em 2002, com o sueco, que proibiu, em 1999, a compra de serviço sexual. Dizem os suecos que a prática da prostituição não é compatível com a dignidade humana.

Prostitutas inscritas na Segurança Social, com direito a serviço médico, subsídio de desemprego e reforma - que maravilha! A sociedade fica descansada, considera resolvido um problema tão incómodo. A realidade, porém, é muito diferente. A Alemanha tornou-se num verdadeiro centro de tráfico humano, as mulheres circulam por toda a Europa, tornaram-se num produto de compra e venda entre os donos dos bordeis.

Das cerca de 400.000 pessoas que se prostituem (um número que se calcula e cuja esmagadora maioria são mulheres), apenas 40.400 estão legalizadas. Passados quase vinte anos sobre a aprovação da lei, 90% das prostitutas na Alemanha continuam desprovidas de Segurança Social e de qualquer tipo de direitos e apoios. Não exercem a actividade por escolha própria e são mantidas à custa de muita violência, qualquer tentativa de desistência é resolvida com espancamentos e/ou chantagens. Muitas dessas mulheres nem sequer sabem falar alemão, vêm do Leste europeu pela mão de traficantes, não conhecem os seus direitos, os bordeis onde trabalham não estão legalizados, são exploradas e violentadas. Vêem-se num beco sem saída, não sabem a quem pedir ajuda e acabam por quebrar ao ponto de nada lhes interessar, de nem sequer saberem se querem desistir ou continuar. Sentem-se lixo.

As prostitutas que escolhem a sua profissão e a exercem, muitas vezes, por conta própria, é uma minoria irrisória. As assistentes sociais que lidam com o problema resumem a questão da seguinte maneira: 50% das prostitutas são viciadas em droga e sujeitam-se para pagarem o vício; a outra metade são raparigas e mulheres com um historial de abusos desde a infância, vidas cheias de violência e/ou de pobreza extrema. Jovens nesta situação são muito fáceis de manipular e acreditam nos traficantes, que lhes garantem uma mudança de vida num país rico.

Os clientes, por seu lado, não estão interessados em saber se a prostituta o faz obrigada ou por vontade própria. Eles não fazem ideia do que as mulheres sofrem, nem da complexidade das suas vidas. Pagam por um serviço e sentem-se no direito de o exigir.

Os suecos apostam numa mudança de mentalidades. Na verdade, eles não criminalizaram a prostituição, mas sim a compra do serviço sexual e os donos dos bordeis. Ou seja: a prostituição não é ilegal, mas pagar para ter sexo já o é. Não é a prostituta que comete a ilegalidade, mas sim o cliente, é sobre ele que a lei actua.

Sob o pressuposto de que a prostituição não combina com a dignidade humana, a Suécia aposta numa educação social que considera errado comprar serviço de sexo. Ao mesmo tempo, financiam-se programas que permitem às mulheres mudarem de vida. Nos últimos vinte anos, a prostituição de rua reduziu para metade  e muitos traficantes passaram a evitar este país. Além disso, as assistentes sociais e outras pessoas que apoiam prostitutas e que difundem este novo tipo de educação social (também homens, claro) sentem a mudança das mentalidades e estão convencidas de que a situação continuará a evoluir nesse sentido.

Um ginecologista que colabora com uma instituição de apoio a prostitutas, na cidade alemã de Mannheim, confirmou que as mulheres estão sujeitas a muita violência, a vários tipos de doenças e obrigadas a práticas inaceitáveis. Um ex-inspector da Polícia Judiciária Alemã (Kriminalpolizei), que tinha a seu cargo a investigação do tráfico humano, declarou que é impossível separar este da prostituição e frisou que as mulheres não são vistas como seres humanos, mas como mercadorias oferecidas ao cliente, conforme os gostos deste, além de compradas, vendidas e trocadas entre os donos dos bordeis.

Na Alemanha, há quem lute para que o país adopte o modelo sueco, pois considera que o Estado, ao legalizar a prostituição, está a dizer ao homem que ele tem direito a comprar serviço sexual. A prostituta é estigmatizada, o cliente não (é este pressuposto que os suecos pretendem inverter). A prostituição é extremamente desgastante do ponto de vista físico e psicológico. Ex-prostitutas mostram sintomas semelhantes aos traumatizados de guerra: tendem a depressões, pesadelos, e são praticamente incapazes de fazer uma vida normal.

O documentário encerra com a declaração da deputada do SPD Leny Breymeier: por mais que falemos de igualdade, de participação e capacitação das mulheres em todos os sectores sociais, a nossa sociedade nunca será igualitária, enquanto os homens se sentirem no direito de comprar uma mulher.

 

Nota: o documentário foi rodado em tempo de pandemia, mas os dados reportam-se à era pré-Covid. Apesar do confinamento, continua naturalmente a existir prostituição, mas, sendo ainda mais clandestina, torna-se mais difícil de controlar pelas autoridades e pensa-se que a situação das mulheres piorou.

No caso de passar por aqui alguém que saiba alemão e estiver interessado no tema, pode ver o documentário no seguinte link:

https://www.3sat.de/wissen/wissenschaftsdoku/210304-prostitution-wido-104.html

 

Texto originalmente publicado aqui.

18 de março de 2019

«Nunca uma boa causa deve servir para santificar métodos moralmente dúbios ou mesmo inaceitáveis»*




Lembrei-me desta frase do Professor alemão de Ética Teológica Andreas Lob-Hüdepohl, ao ler sobre a campanha da Sociedade de Medicina de Reprodução que alerta para a importância e a urgência da doação de óvulos e espermatozoides para responder à crescente procura de tratamentos de infertilidade.


Servindo-se do drama da baixa natalidade em Portugal e citando o objetivo nobre de casais inférteis de desejarem um filho, o Dr. Pedro Xavier apela aos jovens que doem mais espermatozoides e óvulos.

Tudo isto seria muito bonito, se, associado à Medicina de Reprodução, não encontrássemos o problema dos embriões congelados e, muitas vezes, deitados fora. Já aqui alertei para o problema: na fertilização in vitro, são fecundados [em laboratório] mais óvulos do que aqueles que podem ser implantados e ninguém sabe bem qual o destino a dar a esses embriões. Deixemo-nos então de paninhos quentes: milhões de bebés aguardam congelados que se lhes dê um destino e este é, normalmente, o caixote do lixo!

Numa sociedade em que se condena o aborto, é estranho aceitarem-se práticas tão dúbias em nome da intenção nobre que subsiste na fertilização in vitro. Ou será antes o interesse no progresso da Medicina de Reprodução que move o Dr. Pedro Xavier?


É triste ser casal infértil, eu própria vivo essa situação. Mas há outras soluções: porque não considerar a adoção de uma criança? Muitas jovens, e outras mulheres, vendo-se grávidas em alturas difíceis da sua vida, optam por abortar. Porque não criar um sistema de adoção transparente e socialmente aceite ligado a esses casos?

A outra solução (aquela que nós acabámos por seguir) é dar um lar a animais domésticos, ou dedicar-se à causa dos animais abandonados.

Ambas estas alternativas são nobres. Muito mais nobres do que criar embriões condenados a viver num frigorífico, ou a serem deitados ao lixo.


* Tradução minha do alemão: Niemals darf der noch so gute Zweck moralisch bedenkliche oder sogar verwerfliche Mittel heiligen (KiZ nº 10, 2019-03-10).

Nota: a imagem pertence ao artigo citado.


10 de novembro de 2018

Politicamentes


Detesto o politicamente correto. Assim como detesto o politicamente incorreto.
Detesto que haja quem se julga lutador contra o sistema apenas por dizer que é politicamente incorreto.
Desteto que já não se possa ter opinião, sem que nos apelidem de politicamente corretos ou incorretos.
Detesto que muita gente, antes de dizer se concorda ou discorda de uma opinião, pense primeiro se esta é politicamente correta ou incorreta, para concordar ou discordar baseada nesse juízo - ou seja, não é a opinião em si que está em causa, mas a sua etiqueta.
Detesto visões simplistas, principalmente, quando se trata de problemas complexos: há insegurança, criminalidade? Vamos dar uma arma a cada cidadão e resolve-se o problema!
Detesto que haja ídolos políticos apenas porque se apelidam de politicamente incorretos.

Ser do contra condiciona tanto como o seu contrário, ou seja, o politicamente incorreto condiciona tanto como o politicamente correto.
É politicamente correto, ou incorreto, ser contra alguém politicamente incorreto? E o seu contrário?

Sempre detestei divisões em grupos, baseado no pressuposto: se não és por nós, és contra nós.
Detesto fake news. Mas não é por ser politicamente correta. É simplesmente por não gostar de mentiras.
OK, vão-me dizer que toda a gente mente.
Eu também. Passo a vida a mentir.