Gosto muito do papa Francisco, mas ele já me desiludiu duas vezes (enfim, ninguém é perfeito). A primeira foi quando elogiou um pai que lhe comunicou bater no filho, mas nunca na face, para não lhe atacar a dignidade. Na minha opinião, é grave um papa apoiar qualquer tipo de violência. Alguém me poderá dizer porque há de ser mais escandaloso bater num adulto do que numa criança? Com a agravante de que a criança é mais pequena e mais fraca do que o adulto. Não aprendemos que não devemos bater nos mais fracos, ou em todos aqueles que não se possam defender? Confesso: também eu era adepta da disciplina à custa da estalada, foi assim que
aprendi. Um exame de consciência, porém, numa certa altura da minha
vida, ajudou-me a perceber que a estratégia me prejudicou mais do que
ajudou.
Adiante! Passemos à segunda desilusão, esta recente, que o papa me causou:
O papa Francisco lamentou hoje que algumas pessoas sintam compaixão pelos animais, mas depois mostrem indiferença perante as dificuldades de um vizinho.
Claro que devemos pôr as pessoas à frente dos outros animais. Mas a forma que o papa escolheu para o dizer foi muito infeliz. Ele não devia fazer comparações entre pessoas, alegando que umas valem mais do que as outras, vai contra o princípio da igualdade! Além disso, quem não gosta de animais, vê-se confirmado na sua crença de que pessoas que gostam de animais não gostam de outras pessoas e isso está longe de ser verdade. Há casos e casos. Declarações destas contribuem para que ainda mais animais sofram, pois, quem ajuda animais, vai ter mais problemas, vai ser mais insultado, já que quem é contra se sente com mais legitimidade para o fazer. Um papa deve apelar à piedade e à compaixão, apelar a que ajudemos o próximo, que compartilhemos da sua tristeza... Sim, é essencial! Mas sem comparações destas, por favor!
Palavras destas são aproveitadas para cavar ainda mais o fosso entre os amigos dos animais e aqueles que os odeiam, ou seja, causam inimizades, insulto e ódios, em vez de unir! Claro que há casos extremos e comportamentos inaceitáveis, mas devíamos
pensar muito, antes de compararmos pessoas, ou comportamentos. E uma
pessoa com a autoridade moral do papa tem responsabilidades acrescidas.
Todos nós devíamos evitar comparações, como entre irmãos, por exemplo, dizendo que um é mais inteligente ou dinâmico que o outro, ou coisa parecida. É sempre uma grande desconsideração em relação à pessoa que fica mal vista e cria desentendimentos, inimizades, invejas, até ódio.
Não gosto de comparações, cada um é como é e cada um se dedica às causas que acha certas. Quem se dedica à causa animal, faz algo de bom e devia ser elogiado, em vez de criticado. Porque uma coisa é certa: não será por desistirmos de nos dedicarmos aos animais que o mundo ficará mais justo, ou que menos pessoas sofrerão.
Mostrar mensagens com a etiqueta Pensamentos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pensamentos. Mostrar todas as mensagens
18 de maio de 2016
25 de junho de 2015
Que emoções sentimos quando caminhamos de mãos dadas?
Esta pergunta da Alice Alfazema fez-me ir ao baú onde guardo coisas que escrevo, a fim de ir buscar este pequeno texto:
A
menina segue pela mão frouxa da mãe. A menina gostava que ela a agarrasse melhor, para o caso de vir uma
lufada de vento, que a levasse da mãe. E ela não quer ser levada da mãe. Mas a
mãe caminha sem lhe prestar atenção, como se lhe fosse indiferente que a filha
ali esteja. Por isso, não se dá ao trabalho de lhe segurar melhor a mão.
A
menina não sente que a mãe a quer muito e que não a largaria por nada deste
mundo. De vez em quando, põe a outra sua mão sobre a mão da mãe e aperta, mostrando-lhe
que se quer sentir mais agarrada. A mãe reage impulsivamente e aperta mais os
dedos sobre a mão da menina. Mas é sol de pouca dura. Depressa os seus dedos readquirem
a frouxidão habitual.
A
menina repete aquele gesto várias vezes, pelo caminho, até que a mãe pergunta
porque faz ela isso. A menina diz que quer que ela a agarre melhor. A mãe
olha-a como se a achasse estranha, pateta. E não se apercebe de que o insólito consiste
em ela ter necessidade de fazer aquela pergunta.
3 de março de 2015
Da mais antiga profissão do mundo
«Aquele
que usa os serviços de uma prostituta não é um homem a sério».
Estas
palavras soam, à primeira vista, exageradas. Afinal, não se considera a
prostituição uma profissão como outra qualquer?
Para
a freira italiana Valeria Gandini, não.
Ora,
perguntarão muitos, que se esperaria de uma freira?
Bem,
esta não é uma freira qualquer. Há vinte anos que Valeria Gandini se ocupa de
prostitutas, em Palermo, na Sicília. Dá-lhes assistência, conforta-as, ajuda-as
a superar muitos problemas e a mudar de vida. E sabe, melhor do que ninguém,
que a maioria delas exerce forçada essa profissão, ou não viu outra alternativa.
Existem
redes de prostituição e tráfico de mulheres por toda a Europa, muitas das moças
não sabem para o que vão. Este é, porém, um assunto pouco divulgado e discutido
e os homens que usam tais serviços não perdem um segundo a questionar-se se as
mulheres ali estão de livre vontade, ou forçadas, escravizadas mesmo.
Ao
abordar o assunto sob essa perspetiva, confesso que me vejo tentada a concordar, pelo menos, em parte,
com Valeria Gandini, já que as generalizações são sempre
traiçoeiras.
1 de março de 2015
Ódio
Li, num jornal alemão, uma interessante interpretação de ódio:
«É quando alguém não vê no seu semelhante a imagem de Deus, mas sim escumalha».
«É quando alguém não vê no seu semelhante a imagem de Deus, mas sim escumalha».
Deus
criou o Homem à sua imagem e semelhança, lembram-se? Se não conseguirmos ver no próximo essa imagem, então estamos perto do ódio. Se virmos escumalha, odiamos.
24 de janeiro de 2015
O Nosso Tamanho
Ninguém se deve fazer maior do que aquilo que é. Mas também não há razão nenhuma para que nos façamos mais pequenos do que aquilo que somos, ou até para que nos escondamos.
21 de março de 2014
Quem não deve...
Quem não deve, não teme,
Quem não dá, não recebe,
Quem não ouve, não aprende,
Quem não ri, não aquece,
Quem não ama, não vive,
Quem não respeita, não progride,
Quem não acarinha, não colhe.
Quem não arrisca, não petisca,
Quem não procura, não encontra,
Quem não pergunta, não avança,
Quem não sonha, não cria,
Quem não sorri, não brilha,
Quem não vê, não ilumina,
Quem não ajuda, não alegra,
Quem não rejeita, não liberta.
3 de novembro de 2013
Uma pergunta
Imitando a Alice Alfazema, lanço hoje uma pergunta para o ar:
A esperança só existe, quando acreditamos em algo que nunca acontece?
28 de outubro de 2013
Viver na ilusão
Há pessoas que vivem numa ilusão permanente. Talvez lhes custe pousar os pés na terra, o que é compreensível. Serão essas pessoas mais felizes? Por vezes, penso que sim, embora ache que, no fundo, tenham de fazer um grande esforço para ignorar a realidade. Por outro lado, levam esse exercício a uma tão grande perfeição, que se torna cada vez mais fácil, com o passar dos anos.
Será, então, melhor viver iludido? Quase diria que sim. Não fosse um grande senão: só é possível construir um mundo de fantasia à custa dos outros, gerando a infelicidade alheia. Há quem se agarre às suas ilusões com unhas e dentes, não olhando a meios, tornando-se implacável na defesa dessa sua estratégia, roubando a luz e a felicidade dos outros. Nem que esses outros sejam os próprios filhos, que constantemente lhes tentam lembrar que existem.
Mais um pequeno texto inspirado pelas perguntas da Alice Alfazema.
Será, então, melhor viver iludido? Quase diria que sim. Não fosse um grande senão: só é possível construir um mundo de fantasia à custa dos outros, gerando a infelicidade alheia. Há quem se agarre às suas ilusões com unhas e dentes, não olhando a meios, tornando-se implacável na defesa dessa sua estratégia, roubando a luz e a felicidade dos outros. Nem que esses outros sejam os próprios filhos, que constantemente lhes tentam lembrar que existem.
Mais um pequeno texto inspirado pelas perguntas da Alice Alfazema.
27 de outubro de 2013
Quem quer ser inofensivo?
«Ser inofensivo significa não ser levado a sério, não ser reconhecido como personalidade, não construir nada, nem levar a cabo nenhum projeto».
Norbert Trelle, bispo de Hildesheim
Norbert Trelle, bispo de Hildesheim
15 de setembro de 2013
Elogios
«Um elogio, mesmo a formulação de um elogio, dá trabalho. Supõe alguma penetração, pede alguma disponibilidade mental, e moral também».
Fernando Venâncio, Ler nº 125, Junho 2013
E eu digo: se elogiássemos mais e ralhássemos menos contribuiríamos para um mundo melhor.
Fernando Venâncio, Ler nº 125, Junho 2013
E eu digo: se elogiássemos mais e ralhássemos menos contribuiríamos para um mundo melhor.
24 de julho de 2013
Ternura
| |
| Amigos da Ganika |
Às vezes pergunto-me: se somos tão especiais como muitos de nós acreditam, porque é que Deus nos fez tão parecidos com os outros animais?
Etiquetas:
Love your pet,
Pensamentos
3 de abril de 2013
Keira Nightley
Interpretem como quiser, mas eu, se fosse homem, queria uma mulher como a Keira Nightley.
Sendo mulher, pois... Gostava de ter a carinha dela. Se bem que ainda estou para ver como será ela com a minha idade ;-)
29 de março de 2013
Humildade
O dever de ser humilde está fortemente enraizado na nossa tradição judaico-cristã. Mas o que é, verdadeiramente, ser humilde?
Na minha opinião, este conceito tem sido mal interpretado e tem servido para alimentar o desejo de manipulação inerente ao ser humano (refiro-me mais a quem subjuga, mas a humildade também pode ser um meio de manipulação). Confunde-se humilde com subserviente, com a proibição de dizer «não», com o imperativo de obedecer sem limites, com o servir de capachinho, com o aguentar impropérios e maus tratos sem reclamar, etc.
Cada um de nós é único, à sua maneira. Devíamos aprender com toda a gente. É este o segredo da humildade.
Estas palavras de Kirpal Singh, líder espiritual indiano, encerram, a meu ver, o verdadeiro significado de humildade. Devemos estar predispostos a aprender algo com qualquer pessoa, seja ela rica ou pobre, velha ou nova, homem ou mulher, iletrada ou culta, com ou sem deficiência. Os pais, por exemplo, não deviam ter problemas em descer ao nível dos filhos e aprender com eles, porque, sim, podemos aprender muito com as crianças. E nenhum ser humano devia ter vergonha de aprender com um animal, porque também eles têm muito que nos ensinar. Assim como a Natureza! Humildade significa, pois, «aprender com», em vez de «rebaixar-se perante». Há aqui uma grande diferença!
É necessário observar, dar-se ao trabalho de compreender, vivermos de olhos abertos e recetivos a todos os estímulos; saber reconhecer a sabedoria alheia e os nossos erros, mas sem nos anularmos, pois temos uma dignidade a preservar. Respeitemo-nos, para que nos respeitem; sejamos humildes com dignidade!
Na minha opinião, este conceito tem sido mal interpretado e tem servido para alimentar o desejo de manipulação inerente ao ser humano (refiro-me mais a quem subjuga, mas a humildade também pode ser um meio de manipulação). Confunde-se humilde com subserviente, com a proibição de dizer «não», com o imperativo de obedecer sem limites, com o servir de capachinho, com o aguentar impropérios e maus tratos sem reclamar, etc.
Cada um de nós é único, à sua maneira. Devíamos aprender com toda a gente. É este o segredo da humildade.
Estas palavras de Kirpal Singh, líder espiritual indiano, encerram, a meu ver, o verdadeiro significado de humildade. Devemos estar predispostos a aprender algo com qualquer pessoa, seja ela rica ou pobre, velha ou nova, homem ou mulher, iletrada ou culta, com ou sem deficiência. Os pais, por exemplo, não deviam ter problemas em descer ao nível dos filhos e aprender com eles, porque, sim, podemos aprender muito com as crianças. E nenhum ser humano devia ter vergonha de aprender com um animal, porque também eles têm muito que nos ensinar. Assim como a Natureza! Humildade significa, pois, «aprender com», em vez de «rebaixar-se perante». Há aqui uma grande diferença!
É necessário observar, dar-se ao trabalho de compreender, vivermos de olhos abertos e recetivos a todos os estímulos; saber reconhecer a sabedoria alheia e os nossos erros, mas sem nos anularmos, pois temos uma dignidade a preservar. Respeitemo-nos, para que nos respeitem; sejamos humildes com dignidade!
Etiquetas:
Pensamentos,
Psicologia,
Religião
19 de março de 2013
Respeitar as fronteiras
Man soll mit Vorsicht zärtlich sein.
Uma frase de Wilhelm Busch, que, em português, soa mais ou menos assim:
Deve-se ser carinhoso com cuidado.
É importantíssimo sermos carinhosos. Mas não devemos transformar o ser carinhoso num pretexto para atuarmos sempre que nos apetecer. Reconhecer, sem nos ofendermos, que um determinado momento não será o mais apropriado para se ser carinhoso com alguém, aceitando que essa pessoa reaja contrariada e incomodada, caso a "ataquemos" com ternuras, é, também, uma prova de amor.
Todos temos fronteiras que devem ser respeitadas. Em relação a crianças, principalmente, às mais pequenas, pode ser difícil, para os pais, aceitá-las. Mas uma criança que não vê as suas fronteiras respeitadas, não irá, um dia, respeitar as dos outros.
Proximidade, que permite espaço próprio; segurança, que não subjuga, nem esmaga - o verdadeiro amor.
Uma frase de Wilhelm Busch, que, em português, soa mais ou menos assim:
Deve-se ser carinhoso com cuidado.
É importantíssimo sermos carinhosos. Mas não devemos transformar o ser carinhoso num pretexto para atuarmos sempre que nos apetecer. Reconhecer, sem nos ofendermos, que um determinado momento não será o mais apropriado para se ser carinhoso com alguém, aceitando que essa pessoa reaja contrariada e incomodada, caso a "ataquemos" com ternuras, é, também, uma prova de amor.
Todos temos fronteiras que devem ser respeitadas. Em relação a crianças, principalmente, às mais pequenas, pode ser difícil, para os pais, aceitá-las. Mas uma criança que não vê as suas fronteiras respeitadas, não irá, um dia, respeitar as dos outros.
Proximidade, que permite espaço próprio; segurança, que não subjuga, nem esmaga - o verdadeiro amor.
Etiquetas:
Pensamentos,
Psicologia
25 de fevereiro de 2013
O preço do sucesso
Stille, o telefilme alemão de que falei no post anterior, baseado no livro Cleaver, de Tim Parks, suscita-me uma outra reflexão. Em Stille, três membros de uma família (mãe, filho e filha) gravitam à volta do quarto membro, um jornalista famoso, o pai. Todos vivem na sua sombra, não há lugar para mais ninguém brilhar, a não ser esse pai, egocêntrico e narcisista, que tudo sacrifica em nome do seu sucesso. Atingida a idade adulta, os filhos têm uma grande dificuldade em encontrar o seu próprio caminho e, mesmo quando se julgam libertados, construindo a sua própria carreira, fica sempre a suspeita de que o conseguiram apenas por serem filhos de.
Muitas vezes me pergunto se este tipo de narcisismo é essencial para se atingir a fama. Não há dúvida de que o talento é igualmente necessário, mas, na vida dos famosos, há quase sempre algo que é sacrificado. E, quando se tem filhos, a coisa pode tornar-se problemática (ver também o conflito de Jane Austen).
Qualquer famoso constrói a sua carreira à custa de muito esforço. Mas esse esforço implica a total concentração na sua pessoa, o que pode gerar egoísmo e incapacidade para superar contrariedades e desilusões, ou seja, baixa tolerância às frustrações. Pergunto-me se o caso do atleta sul-africano Oscar Pistorius não terá a ver com isto. E que dizer de Lance Armstrong, que, ao superar uma doença grave, entendeu não haver limites para que atingisse os seus fins?
Claro que também há muitas pessoas de sucesso que são altruistas e carinhosas com os seus. Mas o sucesso implica sempre um grande investimento em si próprio. Aí, não há volta a dar! Resta saber a que preço.
Muitas vezes me pergunto se este tipo de narcisismo é essencial para se atingir a fama. Não há dúvida de que o talento é igualmente necessário, mas, na vida dos famosos, há quase sempre algo que é sacrificado. E, quando se tem filhos, a coisa pode tornar-se problemática (ver também o conflito de Jane Austen).
Qualquer famoso constrói a sua carreira à custa de muito esforço. Mas esse esforço implica a total concentração na sua pessoa, o que pode gerar egoísmo e incapacidade para superar contrariedades e desilusões, ou seja, baixa tolerância às frustrações. Pergunto-me se o caso do atleta sul-africano Oscar Pistorius não terá a ver com isto. E que dizer de Lance Armstrong, que, ao superar uma doença grave, entendeu não haver limites para que atingisse os seus fins?
Claro que também há muitas pessoas de sucesso que são altruistas e carinhosas com os seus. Mas o sucesso implica sempre um grande investimento em si próprio. Aí, não há volta a dar! Resta saber a que preço.
Etiquetas:
Pensamentos,
Psicologia
20 de dezembro de 2012
Uma questão de perspetiva
A culpa começou a corroê-la, ao constatar a pontinha de alegria que sentia perante a desgraça alheia. Não costumava congratular-se com a infelicidade dos outros, ainda para mais, de um parente próximo. Estaria a ficar invejosa e mesquinha?
Ele ignorara-a e desprezara-a, fizera de conta, anos a fio, que ela não existia. Não ligara patavina às suas opiniões, nem quando ela o tentara avisar da desgraça iminente. Mostrou incómodo na sua presença, como se a sua existência fosse supérflua. Enchera-a de uma tristeza sem fim, convencera-a de que não valia nada, apesar de ela se ter esforçado por solidificar o laço que os unia. Quando ainda acreditava que esse laço existia.
A infelicidade atingiu-o, uma infelicidade que ela vira chegar, que adivinhara. Mas, sempre que o referia, ele fazia-a sentir-se ignorante, ou mesmo, afetada psicologicamente. «Pensas que és melhor do que os outros, que sabes mais do que os outros?» E, para dentro: «o melhor é não lhe ligar, nunca foi boa da cabeça».
Milhentas vezes, ela tentara a aproximação, o reconhecimento e o carinho dele. Sincera e de coração aberto. Mas batera contra a parede. E tanto bateu, que os seus sentimentos por ele foram arrefecendo. Uma chama, que, aliás, não se apagou, sem primeiro lhe provocar uma ardência interior, que a deixava acordada, noites a fio. A ferida foi cicatrizando, até ela tornar a poder dormir em paz, mas deixou o seu preço: ele quase deixara de ter significado na sua vida.
A infelicidade chegou. E ela sentiu a pontinha de alegria, o travo doce da vingança. Censurou-se. Mas travou a fundo. Livrar-se de qualquer sentimento de culpa era a única hipótese de manter a sanidade. E reparou que nunca na sua vida se sentira tão liberta.
Ele ignorara-a e desprezara-a, fizera de conta, anos a fio, que ela não existia. Não ligara patavina às suas opiniões, nem quando ela o tentara avisar da desgraça iminente. Mostrou incómodo na sua presença, como se a sua existência fosse supérflua. Enchera-a de uma tristeza sem fim, convencera-a de que não valia nada, apesar de ela se ter esforçado por solidificar o laço que os unia. Quando ainda acreditava que esse laço existia.
A infelicidade atingiu-o, uma infelicidade que ela vira chegar, que adivinhara. Mas, sempre que o referia, ele fazia-a sentir-se ignorante, ou mesmo, afetada psicologicamente. «Pensas que és melhor do que os outros, que sabes mais do que os outros?» E, para dentro: «o melhor é não lhe ligar, nunca foi boa da cabeça».
Milhentas vezes, ela tentara a aproximação, o reconhecimento e o carinho dele. Sincera e de coração aberto. Mas batera contra a parede. E tanto bateu, que os seus sentimentos por ele foram arrefecendo. Uma chama, que, aliás, não se apagou, sem primeiro lhe provocar uma ardência interior, que a deixava acordada, noites a fio. A ferida foi cicatrizando, até ela tornar a poder dormir em paz, mas deixou o seu preço: ele quase deixara de ter significado na sua vida.
A infelicidade chegou. E ela sentiu a pontinha de alegria, o travo doce da vingança. Censurou-se. Mas travou a fundo. Livrar-se de qualquer sentimento de culpa era a única hipótese de manter a sanidade. E reparou que nunca na sua vida se sentira tão liberta.
18 de dezembro de 2012
Buracos Negros
Roubam-nos a energia.
Ou porque nos enchem de defeitos, ou porque nada do que fazemos é bem feito, ou porque nos responsabilizam pelas suas depressões, os seus falhanços, as suas desgraças.
Ou porque nos enchem de defeitos, ou porque nada do que fazemos é bem feito, ou porque nos responsabilizam pelas suas depressões, os seus falhanços, as suas desgraças.
Vagueiam pela vida como um buraco
negro no Universo, sugando a luz, a criatividade e a vivacidade de quem de si se aproxima, numa tentativa desesperada de, um
dia, virem a transformar-se num sol radioso.
Mas não se apercebem de que, enquanto se
limitarem a roubar a energia alheia, nunca passarão de buracos negros.
7 de novembro de 2012
O que é ser sábio?
É sábio quem sabe muito? Ou seja: basta reunir muitos conhecimentos no nosso cérebro para nos tornarmos sábios? E como se distingue o sábio do génio?
Num artigo de jornal, gostei da tentativa de explicação da psicóloga alemã Judith Glück. Na sua opinião, há duas características imprescindíveis numa pessoa que se quer sábia: o querer fazer o bem aos outros e a consciência de que não sabe tudo, mesmo quando sabe muito.
Podemos saber muito, ou seja, ter reunido muitos conhecimentos, mas, se não nos abrirmos à perspetiva do próximo, dificilmente seremos sábios. O mesmo acontece se não tivermos consciência de que há muita coisa na vida que não poderemos controlar, nem saber. Por isso, Judith Glück aconselha-nos a não perdermos a capacidade de nos questionarmos a nós próprios e tudo aquilo que nos rodeia, além de nos mantermos abertos às ideias dos outros.
Outros dois psicólogos, professores universitários, Ursula Staudinger e Paul Baltes (referenciados no mesmo artigo de jornal), estabeleceram as cinco bases da sabedoria: saber relacionar contextos, agir com sensatez, reconhecer a diferença entre a relatividade e o absoluto, incluir o contexto ao julgar determinada atitude ou acontecimento, ter consciência da própria ignorância.
Apesar de soarem um pouco abstratos e, por vezes, relativos (o que é sensatez?), estes cinco pressupostos podem constituir uma boa base de reflexão. E, ao refletirmos sobre o que nos dizem, ou algo que lemos, revelamos abertura para a perspetiva dos outros, ou seja, o primeiro passo para nos tornarmos sábios.
Num artigo de jornal, gostei da tentativa de explicação da psicóloga alemã Judith Glück. Na sua opinião, há duas características imprescindíveis numa pessoa que se quer sábia: o querer fazer o bem aos outros e a consciência de que não sabe tudo, mesmo quando sabe muito.
Podemos saber muito, ou seja, ter reunido muitos conhecimentos, mas, se não nos abrirmos à perspetiva do próximo, dificilmente seremos sábios. O mesmo acontece se não tivermos consciência de que há muita coisa na vida que não poderemos controlar, nem saber. Por isso, Judith Glück aconselha-nos a não perdermos a capacidade de nos questionarmos a nós próprios e tudo aquilo que nos rodeia, além de nos mantermos abertos às ideias dos outros.
Outros dois psicólogos, professores universitários, Ursula Staudinger e Paul Baltes (referenciados no mesmo artigo de jornal), estabeleceram as cinco bases da sabedoria: saber relacionar contextos, agir com sensatez, reconhecer a diferença entre a relatividade e o absoluto, incluir o contexto ao julgar determinada atitude ou acontecimento, ter consciência da própria ignorância.
Apesar de soarem um pouco abstratos e, por vezes, relativos (o que é sensatez?), estes cinco pressupostos podem constituir uma boa base de reflexão. E, ao refletirmos sobre o que nos dizem, ou algo que lemos, revelamos abertura para a perspetiva dos outros, ou seja, o primeiro passo para nos tornarmos sábios.
Etiquetas:
Pensamentos,
Psicologia
15 de setembro de 2012
Viver à pressa
A
maior parte de nós vive na ânsia de colecionar experiências, umas a seguir às outras,
quanto mais exclusivas, melhor. Chegamos a sacrificar os nossos gostos
pessoais, em nome dessa política. O importante é viver algo diferente, todos os
dias. Temos medo de nos aborrecermos. Ou de estarmos sozinhos.
No
fundo, não vivemos, porque não damos utilidade àquilo que experimentamos. Sem coisas novas, caímos no
vazio. E não nos passa pela cabeça pensarmos em nós próprios, no que está bem e
no que está mal, no que nos agrada e no que não nos agrada. Prescindimos do
prazer de recordar e esmiuçar as vivências agradáveis e desprezamos a
utilidade de aprendermos com as desagradáveis.
As
experiências, boas e más, só nos são úteis se tivermos ocasião de as analisar
e trabalhar. Mas sentimo-nos sem valor. Convencemo-nos de que ninguém está
interessado em ocupar-se dos nossos pensamentos, das nossas ideias, preferências
e experiências. Ninguém (julgamos), nem sequer nós próprios. Porém, se nos
limitarmos a reunir experiências, abafamos o nosso poder criativo,
desperdiçando todo um potencial.
Todos
nós temos algo que contar. Qualquer vida é única e contém aspetos insólitos,
interessantes e originais. É preciso ter coragem de ir à procura deles. E aquilo
que pretendemos esquecer, que nos forçamos a ignorar, é o mais digno de ser
gritado ao mundo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
