Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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17 de outubro de 2015

Refugees welcome!




A Alemanha tinha calculado receber 750.000 refugiados, durante este ano, mas, na verdade, já passaram de um milhão. Só no mês de Setembro entraram 200.000. Por isso, entristece-me que, em Portugal, muita gente seja contra o acolhimento de cerca de 5.000. Claro que a Alemanha tem melhor situação económica, mas também há pobreza neste país. E não acho que o facto de haver gente com necessidades, dentro das fronteiras, seja motivo para recusar ajuda a quem dela precisa. Como se sentiriam esses portugueses se, em caso de guerra, tivessem de fugir com os seus filhos, procurando abrigo noutra terra e lhes fechassem as fronteiras com o pretexto: temos aqui muitos problemas! Ou: quem nos diz que no meio de vocês não se encontram terroristas?

Muita dessa gente que se declara contra é a mesma que culpa a Europa pelas mortes dos migrantes no Mediterrâneo. Gritam indignados que já não há humanismo… E onde está o seu humanismo, neste caso? Somos um país com tradições migrantes, muitos dos nossos compatriotas viveram ilegais, no estrangeiro. São considerados com admiração. Mas o que vale para uns deve valer para outros. Se fechar as fronteiras a portugueses é um escândalo, fechá-las a outros povos não pode ser aceitável, muito menos recomendável!

A política de aceitação de refugiados da Merkel deixa muita gente descontente, a chanceler debate-se com bastante oposição, alguma vinda do seu próprio partido. E todos sabemos que na Alemanha há neonazis e xenofobia – aliás, como em todo o lado. No entanto, a sociedade civil tem-se mobilizado, a fim de apoiar os refugiados e de neutralizar a ação da extrema-direita.


A campanha Refugees welcome traduz-se em várias iniciativas. Nos estádios de futebol exibem-se cartazes. E muita gente resolve dar horas de trabalho de graça, depois de sair do emprego, indo para centros de acolhimento receber as pessoas e distribuir bens de primeira necessidade até altas horas da noite.





Na estação de rádio que costumo ouvir, qualquer ouvinte pode enviar uma mensagem pelo Whatsapp, inspirada no tema Refugees Welcome. De vez em quando, interrompe-se a emissão, a fim de transmitir uma dessas mensagens, que vão desde as pessoas que se expressam contra o racismo, passando pelas que contam o que fizeram para ajudar, até aos próprios refugiados que, vivendo aqui há alguns meses, já arranham um pouco de alemão e exprimem o seu agradecimento. Gosto particularmente destas mensagens. Por vezes, são difíceis de perceber, mas o que conta, neste caso, é promover a aproximação entre os povos.

Portugal adora promover a sua língua. Não gostariam de ouvir sírios a arranhar o português, expressando o seu agradecimento e elogiando o nosso país e os portugueses? Penso que nesta, como noutras situações, perdemos, no fundo, uma boa oportunidade de nos expandirmos e autopromovermos.


1 de outubro de 2015

A propósito de eleições...


Daqui

           
            Para a Verónica, o primeiro acontecimento relacionado com a revolução digno de nota foram as eleições para a Assembleia Constituinte, as primeiras totalmente livres em Portugal, onde puderam votar todos os cidadãos maiores de idade, homens e mulheres. Oportunamente marcadas para 25 de abril de 1975, foram intensamente vividas, a abstenção não chegou a atingir os 10%.
A Verónica acompanhou a mãe à assembleia de voto. A primeira coisa que viu foi uma enorme fila, pela rua fora. Pessoas que já haviam exercido o seu direito de voto, mas que ainda por ali se quedavam, conversavam animadamente.
A mãe da Verónica colocou-se no fim da fila, a filha a seu lado. À medida que se iam aproximando do edifício, ouviam conversas ainda mais excitadas. Começaram a ter a sensação de que, lá dentro, ralhavam uns com os outros. Quando entraram, constataram que ninguém se entendia!
Os cadernos eleitorais eram folheados de trás para a frente e da frente para trás, em grande azáfama. Pelos vistos, revelava-se difícil encontrar os nomes dos eleitores que se apresentavam. Por vezes, desesperados pela procura infrutífera, os voluntários de serviço sentiam-se tentados a entregar o boletim de voto ao eleitor, sem terem dado baixa do nome. Eram travados pelo presidente da mesa, que gesticulava e berrava: «isto não pode ser assim». Eleitores que já tinham votado surgiam com o boletim ainda aberto, querendo metê-lo na urna, pelo que o homem alertava: «tem de o dobrar! Então? O voto é secreto». Outros, vendo as cabines de voto ocupadas, tencionavam fazer a sua cruz logo ali, em cima da mesa, e o homem via-se aflito para os pôr na ordem. Ainda outros, indignados com os seus berros, berravam-lhe de volta. E havia ainda quem lhe solicitasse: «Ó senhor, diga-me lá onde ponho a cruz para votar na mãozinha dos socialistas!»


 O homem suava as estopinhas. E era um velho conhecido da Verónica: o pai da morenita, o senhor magrinho, que tinha estado preso naquele sítio onde lhe batiam e não lhe davam os óculos e que a Verónica sabia agora ter-se tratado de um calabouço da PIDE.
Os ânimos estavam tão exaltados, que ela ficou com receio de que aquilo desse para o torto, enquanto a mãe se via aflita para que lhe prestassem atenção. Quando finalmente lhe passaram o boletim para as mãos, o pai da morenita não deixou a filha ir para a cabine de voto com ela. A Verónica ficou à espera que ela exercesse o seu direito cívico, impressionada com a aflição do senhor, que não sabia para onde se virar. Estivera preso por pertencer ao Partido Comunista, mas a democracia e a liberdade, naquele momento, também se lhe revelavam complicadas. Pelo menos, ninguém lhe roubava os óculos, apesar de a Verónica ter a impressão de que havia gente com vontade de lhe bater.
Eram as eleições à portuguesa. Premiaram o «socialismo à portuguesa».




11 de setembro de 2015

Pagar ou não pagar, eis a questão (a que nem eles sabem responder)


Os portugueses não são preguiçosos, nem piegas, são até muito esforçados, e possuem grande vontade de agradar. Aos de fora. Em relação aos seus compatriotas, mostram pouca solidariedade. Além disso, ocupam grande parte do seu tempo com coisas evitáveis. Esse é, no fundo, o grande problema do nosso país: produtividade baixa devido à concentração de forças nas coisas erradas. Senti-o na pele, num assunto que se arrastou durante ano e meio, consumindo esforços e dinheiro desnecessários.


Em Abril de 2014, recebi, da Segurança Social, uma Certidão de Dívida, já em processo de execução, de quase seis mil euros, dizendo respeito a contribuições que não teria pago, desde Janeiro de 2011. Ora, eu tinha, de facto, atividade profissional aberta nas Finanças. No que respeitava ao período considerado, porém, os meus ganhos tinham sido de 0,00 €. A editora em questão não avançou com os pagamentos, eu nem sequer tenho qualquer informação sobre o número de exemplares de minha autoria vendidos. Entreguei, todos os anos, pontualmente, a minha declaração de IRS. Sem ganhos a declarar, nada a pagar, nada a receber. Pensei que o assunto estava resolvido.

Enganei-me! Quando recebi a Certidão de Dívida, reclamei, explicando a minha situação. Recebi uma resposta que não me satisfez e tornei a reclamar, depois de consultado o Código dos Regimes Contributivos do Sistema Previdencial de Segurança Social em vigor, que diz expressamente ter a Segurança Social o dever de contactar o cidadão contribuinte, depois de este ter declarado atividade profissional nas Finanças, a fim de esclarecer a situação.


Andei cerca de dois meses sem notícias. Quando as recebi, em fins de Agosto de 2014, foram as piores possíveis: a dívida, diziam-me, persistia e davam-me um prazo de dez dias para a pagar, ao fim do qual o processo seguiria «os ulteriores termos de penhora». Foi grande a aflição. A dívida pagou-se, fez-se um pedido para travar o processo de penhora. Apesar de achar me ter sido feito grande injustiça, não pude deixar de sentir alívio, pensando que o assunto estivesse resolvido.

Mais uma vez me enganei! Recebi, em meados de Fevereiro de 2015, um despacho de um Diretor (fico-me por aqui, no título), a deferir o pedido de isenção de pagamentos da minha parte no período em questão, por baixo rendimento! Isto, em resposta à minha reclamação de Junho de 2014. E cinco meses depois de eu ter pago a “dívida”.

Tomei providências no sentido de me ser devolvido o dinheiro. Ao fim de sete meses, ele chegou enfim à minha conta! Apesar de demorada, a justiça acabou por se fazer (excluindo juros de mora, claro). Mas não queria deixar de assinalar que vários funcionários da Segurança Social (só Deus sabe quantos) estiveram ocupados, durante ano e meio, com um falso problema. Assim se gastam recursos e tempo no nosso país.