Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal no seu melhor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal no seu melhor. Mostrar todas as mensagens

4 de março de 2017

Saudade, Desbundar, Desenrascanço



Não parece, mas estas palavras têm algo em comum: considera-se que são intraduzíveis. Pelo menos, assim o diz Tim Lomas, da Universidade de Londres.

Que a palavra saudade não tem tradução literal noutras línguas, já era conhecido - embora eu duvide; ou melhor, chamo a atenção para o facto de que a dificuldade de tradução não implica que os naturais de outros países não saibam o que é ter saudades, ou não conheçam o sentimento ligado à saudade.

Esta dificuldade de tradução costuma deixar-nos muito orgulhosos, pois a saudade, tendo um conceito muito poético, torna-se própria de um país de poetas. Mas que dizer de desbundar e desenrascanço? São muito portuguesas, mas não são poéticas. Enfim, só prova que temos outras características, o que é muito bom.

Não se pense, porém, que somos o único povo do mundo a ter palavras intraduzíveis (uma outra característica nossa é pensarmos constantemente que somos os únicos ou os melhores do mundo nisto ou naquilo; é pena não haver uma palavra que defina isso mesmo). O estudo de Tim Lomas encontrou palavras dessas em muitas línguas. É o caso do termo filipino Kilig, ou da palavra holandesa Uitwaaien, ou ainda do termo do dialeto africano Bantu Mbuki-mvuki. Para ficarem a saber os seus significados, cliquem nelas!

Este estudo encontrou também uma palavra alemã difícil de traduzir: Sehnsucht, um termo que considero aliás muito próximo da nossa saudade. 


25 de fevereiro de 2017

Bruxas e Caretos



Tenho pena que o Carnaval tradicional português, também conhecido por Entrudo, com características específicas de cada região, se esteja a perder em nome da importação brasileira. Não critico que existam escolas de samba em Portugal, o samba é uma dança belíssima, além de ótimo exercício físico, mas festejar um Carnaval abrasileirado, com dançarinas a tiritar de frio, parece-me fora de contexto.


 

Em certas zonas, porém, continua a manter-se a tradição, como no nordeste transmontano, nomeadamente no concelho de Macedo de Cavaleiros, com os Caretos de Podence. São figuras curiosas, que me abrem o apetite para um livro publicado recentemente sob a chancela da Poética Edições e de autoria de Luís Filipe Costa.




Não sei até que ponto o autor explica a origem dos Caretos, mas gostaria muito de saber se há alguma ligação com as bruxas Allersberger Flecklashexen, figuras do Carnaval bávaro, que surpreendentemente me fazem lembrar as do nordeste transmontano. Desde as máscaras, à vestimenta e aos guizos que tilintam com os movimentos, em tudo são semelhantes aos “nossos” Caretos (que utilizam aliás chocalhos).




Penso que seria interessante ir ao fundo da questão, averiguar se realmente há uma origem comum, quiçá celta, mas nem sei se tal pesquisa será possível. Quem sabe, algum dia arranjo tempo…

Deixo-vos com imagens de um espetáculo carnavalesco da Baviera, bem diferente daquilo que consideramos Carnaval, mas, pelo menos, genuíno:





17 de fevereiro de 2017

As Audrey Hepburns das nossas vidas

Como Presidente da República, Cavaco Silva não agradou a toda a gente. Talvez até nem tenha agradado à maioria, apesar de ter sido eleito por uma. Em democracia, porém, acontece que eleitores se desiludam com o desempenho dos por si eleitos.

Os que não apreciaram a atuação de Cavaco Silva podem e devem criticá-lo. Por atitudes que tomou, ou não tomou; por palavras que disse, ou não disse; pela sua alegada falta de cultura literária ou outra. Mas criticá-lo, ou mesmo ridicularizá-lo, por palavras elogiosas e ternurentas usadas em relação à mulher com quem está casado há mais de cinquenta anos? Numa altura em que a violência (não só) doméstica e a falta de respeito pelo seu semelhante está na ordem do dia? Há aqui algo que me escapa.

Maria Cavaco Silva teve vinte anos, como todos nós. E, com vinte anos, todas as mulheres são bonitas. E que, aos olhos de familiares e/ou amigos, Maria Cavaco Silva fosse parecida com Audrey Hepburn, é porque ela o era realmente! Porque estas coisas são mesmo assim! Pensem, meus senhores, nas vossas mulheres, quanto tinham vinte anos; em alguma namorada que tiveram, nas vossas mães, irmãs, filhas, netas! E pensem em vós próprias, minhas senhoras, pois certamente muitas de vós foram comparadas a estrelas de cinema ou outras figuras públicas conhecidas pela sua beleza! Quão cinzentas seriam as nossas vidas sem as nossas próprias Audrey Hepburns, Brigitte Bardots, ou Marilyn Monroes!

Ridicularizar Cavaco Silva por usar palavras elogiosas ao definir a mulher com quem está casado há mais de cinquenta anos não revela apenas mau-gosto e falta de educação, revela, acima de tudo, um grande, enorme, gigantesco preconceito!


24 de novembro de 2015

Figos de Cacto

Depois de termos estado em Mourão (ver post do dia 22), e estando o depósito do carro quase vazio, resolvemos ir meter gasolina a Espanha, que é bem mais barato (já foi em 2010, mas a situação era idêntica). No caminho para a fronteira, viam-se, na berma da estrada, muitos figos de cacto, o que encantou o Horst, pois na Alemanha não há destas coisas. De regresso, parámos o carro em plena planície alentejana, a fim de ir fotografar os frutos, que, em Setembro, estavam ainda um pouco verdes.










4 de novembro de 2015

O choradinho do costume


Será difícil explicar o que é ser português, porque, desde sempre, fomos um povo com tendência para nos espalharmos pelo mundo, adaptando-nos a outras formas de vida?

É sem dúvida interessante a série que o canal franco-alemão ARTE tem vindo a transmitir: os países europeus explicados pelos seus próprios escritores. A minha satisfação foi grande, quando chegou a vez de Portugal, com a participação de quatro grandes vultos da literatura lusófona: Lídia Jorge, Mário de Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Mia Couto.

Confesso, no entanto, que fiquei desiludida. Não tanto com os escritores, mas com o tom do documentário que optou por um caminho já desgastado: um povo extraordinário, capaz de se adaptar a qualquer país do mundo e a qualquer situação, mas muito sofredor, com muito azar, ao ver-se constantemente subjugado. Primeiro, foi a ditadura salazarista; agora, é a Europa!

Mário de Carvalho expressou a convicção (ou o desejo?) de que uma revolta estaria para breve, uma revolta que, como sempre, surgiria de surpresa. E este escritor, assim como Gonçalo M. Tavares, ainda referiram que não deveríamos ser o único povo do mundo a sentir isto e aquilo, outros povos sentiriam de maneira semelhante, em situações semelhantes… Não me digam!

A participação mais interessante, na minha opinião, foi a de Mia Couto, que referiu que a problemática da colonização está longe de resolvida. Chegou ao ponto de dizer (penso que foi ele) que a famosa expressão de Fernando Pessoa, «a minha pátria é a língua portuguesa», pode soar colonialista, aos ouvidos dos naturais dos países lusófonos. Ora, cá está alguém que propõe ruturas, novos temas de debate, gostei! Por seu lado, Lídia Jorge embarcou perfeitamente no espírito do documentário, amaldiçoando a ditadura e a Europa, que abafa tão valoroso povo!

Senti-me desconfortável. Vivo no estrangeiro há 23 anos, regozijo-me por poder assistir a um programa sobre o meu país, com a participação da nata da nossa literatura, e afinal lá vem a ladainha dos desgraçadinhos, constantemente impedidos de mostrarem o que valem…

Enfim, é o que temos!

O programa, em francês, está aqui disponível até ao dia 20 de Dezembro: