Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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18 de agosto de 2017

Ensino de Português no Estrangeiro




Toda a gente acha muito bem que os filhos de portugueses no estrangeiro frequentem aulas de língua materna. Mas alguém se questiona como funciona esse ensino, qual a sua eficiência e em que condições os professores trabalham?

Dei aulas a crianças portuguesas em Hamburgo apenas durante dois anos letivos e, apesar de ter sido uma experiência interessante, fiquei revoltada com uma série de coisas. Como, porém, já se passaram quase vinte anos (foi entre 1998 e 2000), pensei que a situação tivesse melhorado, até porque participei em reuniões em que muito se discutia o assunto e me deixavam com a impressão de que se estava perto da viragem. Li, agora, uma entrevista que a Secretária-Geral do Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas, Teresa Soares, deu ao jornal Portugal Post e constatei que a situação, afinal, está pior do que nunca!

Os professores do Ensino de Português no Estrangeiro (EPE) não têm os mesmos direitos dos seus colegas a exercer em Portugal no que, por exemplo, diz respeito à progressão na carreira. Teresa Soares diz que o ME sacode a água do capote, alegando que, com a passagem do EPE para o MNE/Instituto Camões em 2010, deixou de ter responsabilidades para com os docentes no estrangeiro.

Teresa Soares não poupa, aliás, em críticas ao Instituto Camões, que, segundo ela, recusa o cumprimento das leis de proteção à família e à maternidade, não podendo as professoras no estrangeiro recuperar férias suspensas por licença de maternidade nem usufruir das reduções de horários previstas para cuidar de filhos pequenos. No caso de doença grave, os professores do EPE, além de poderem ser despedidos se faltarem mais de sessenta dias, não têm direito à Lei da Mobilidade Especial, que permite ter um local de trabalho mais próximo da sua residência.

A diminuição constante do número de alunos obriga a turmas cada vez mais mistas, com quatro e cinco níveis de escolaridade acumulados. Além disso, há professores que se deslocam a uma localidade diferente em cada dia da semana e têm a seu cargo alunos do 1º ao 12º ano de escolaridade e com conhecimentos de Português de níveis diferentes.

Esta questão dos níveis é muito difícil de gerir. Eu, por acaso, dava aulas sempre no mesmo local e só tinha alunos do 1º e 2º anos. Mas o nível de conhecimentos de Português variava realmente muito. No 1º ano, eu tentava ensinar a ler em Português a, pelo menos, três tipos de alunos: os que tinham bons conhecimentos da nossa língua, porque os pais falavam Português em casa; os que tinham conhecimentos sofríveis, porque os pais, apesar de serem portugueses, tinham ido para a Alemanha em crianças, ou até nascido nesse país, e falavam maioritariamente Alemão em casa; os que não entendiam patavina de Português, porque eram filhos de casais mistos, ou seja, um dos pais era português, enquanto o outro era alemão ou até nacional de outro país, como a Polónia ou a Sérvia, casais que se entendiam em Alemão, pelo nunca se falava Português em casa deles.

Teresa Soares alega que os professores com maiores deslocações e que lecionam todos os níveis deviam ter horários reduzidos, pois a preparação das aulas consome mais tempo e o desgaste, tanto físico como psíquico, é maior. Nas palavras da Secretária-Geral do Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas, a tutela, porém, «nem quer ouvir falar de tais coisas» e não parece interessada na qualidade do ensino. Cada grupo de alunos tem, semanalmente, sessenta ou noventa minutos de aula de Português, o que Teresa Soares considera insuficiente.

Há também o problema da propina, instituída em 2012 pelo governo de Passos Coelho, nessa altura, duramente criticada pelo PS, que se recusa agora a aboli-la, apesar dos protestos dos partidos que sustentam o governo de minoria. A propina levou à perda de mais de dez mil alunos a nível mundial.

Uma outra questão, a dos manuais, era talvez o meu maior problema, na altura em que dei aulas. Usavam-se os mesmos manuais que em Portugal e não é difícil de calcular que eram perfeitamente desadequados, não só por as crianças estarem inseridas em sociedades diferentes, como não ajudavam a gerir os diferentes níveis de conhecimentos da língua na mesma turma. Hoje em dia, há manuais feitos para o EPE, mas que Teresa Soares considera igualmente inadequados, já que se baseiam no princípio do ensino de Português como língua estrangeira, por decisão do Instituto Camões.

Como se vê, é um assunto longe de estar resolvido, o que surpreende, se pensarmos que o ensino de Português no estrangeiro foi instituído há várias décadas. Pelos vistos, a tutela não tem aprendido nada com a experiência. 


25 de janeiro de 2017

Construção de mentalidades, aqui e na China


Segundo uma notícia do The Guardian, o governo chinês decidiu reescrever a História, nos livros escolares, aumentando a guerra sino-japonesa em seis anos. Receia-se que a alteração possa irritar o Japão e piorar a relação entre os dois países.

É comummente aceite pelos historiadores que a segunda guerra sino-japonesa se iniciou em 1937, com o designado incidente da Ponte Marco Polo, em que tropas japonesas e chinesas se combateram ao longo de uma linha férrea, a sudoeste de Pequim. O governo chinês quer agora impor a invasão japonesa da Manchúria, iniciada no Outono de 1931, como o ponto de partida desta guerra. No entanto, só a partir de 1937, os comunistas chineses se juntaram aos nacionalistas, a fim de combaterem o Japão. Até aí, os dois partidos estiveram envolvidos numa guerra civil. 

Este assunto que, em princípio, não nos diz respeito, fez-me lembrar que o influenciar das mentalidades nos bancos de escola funcionou muito bem entre nós, durante a ditadura do Estado Novo. Funcionou tão bem, que, segundo o Professor Moisés de Lemos Martins, da Universidade do Minho, o imaginário salazarista permanece no imaginário contemporâneo, através das ideias de portugalidade e lusofonia. 

De facto, desde que comecei a pesquisar sobre a nossa História Medieval, baseando-me nas fontes mais atuais possíveis, constatei que o nosso imaginário ainda está cheio de lendas e outras narrativas, cultivadas pelo Estado Novo e que enchiam os livros escolares da altura, dando-nos uma ideia errada de certos acontecimentos.

Mas o imaginário salazarista não se faz sentir apenas na História. Na tese de doutoramento defendida por Moisés de Lemos Martins na Universidade de Ciências Humanas de Estrasburgo, em 1984, o agora Professor Catedrático chama a atenção para o Portugal criado por Salazar: um país que vivia modestamente, gerindo bem os seus recursos, mas que simultaneamente era um império que ia “do Minho a Timor, e se mais mundos houvera”.

Os discursos salazaristas serviam-se de duas figuras: a da “boa dona de casa”, que vive modestamente, mas que sabe gerir bem os pequenos recursos e as suas poupanças, e a do “navegador-guerreiro das caravelas”, que exalta o império.

A mentalidade criada por estas duas figuras continua tão atual, que a editora Afrontamento resolveu publicar a 2.ª edição do livro O Olho de Deus no Discurso Salazarista, que reproduz a tese de doutoramento referida.


4 de novembro de 2015

O choradinho do costume


Será difícil explicar o que é ser português, porque, desde sempre, fomos um povo com tendência para nos espalharmos pelo mundo, adaptando-nos a outras formas de vida?

É sem dúvida interessante a série que o canal franco-alemão ARTE tem vindo a transmitir: os países europeus explicados pelos seus próprios escritores. A minha satisfação foi grande, quando chegou a vez de Portugal, com a participação de quatro grandes vultos da literatura lusófona: Lídia Jorge, Mário de Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Mia Couto.

Confesso, no entanto, que fiquei desiludida. Não tanto com os escritores, mas com o tom do documentário que optou por um caminho já desgastado: um povo extraordinário, capaz de se adaptar a qualquer país do mundo e a qualquer situação, mas muito sofredor, com muito azar, ao ver-se constantemente subjugado. Primeiro, foi a ditadura salazarista; agora, é a Europa!

Mário de Carvalho expressou a convicção (ou o desejo?) de que uma revolta estaria para breve, uma revolta que, como sempre, surgiria de surpresa. E este escritor, assim como Gonçalo M. Tavares, ainda referiram que não deveríamos ser o único povo do mundo a sentir isto e aquilo, outros povos sentiriam de maneira semelhante, em situações semelhantes… Não me digam!

A participação mais interessante, na minha opinião, foi a de Mia Couto, que referiu que a problemática da colonização está longe de resolvida. Chegou ao ponto de dizer (penso que foi ele) que a famosa expressão de Fernando Pessoa, «a minha pátria é a língua portuguesa», pode soar colonialista, aos ouvidos dos naturais dos países lusófonos. Ora, cá está alguém que propõe ruturas, novos temas de debate, gostei! Por seu lado, Lídia Jorge embarcou perfeitamente no espírito do documentário, amaldiçoando a ditadura e a Europa, que abafa tão valoroso povo!

Senti-me desconfortável. Vivo no estrangeiro há 23 anos, regozijo-me por poder assistir a um programa sobre o meu país, com a participação da nata da nossa literatura, e afinal lá vem a ladainha dos desgraçadinhos, constantemente impedidos de mostrarem o que valem…

Enfim, é o que temos!

O programa, em francês, está aqui disponível até ao dia 20 de Dezembro: