O
Horas Extraordinárias, da editora Maria do Rosário Pedreira, grupo
Leya, é, com razão, um dos blogues mais conhecidos e elogiados da blogosfera. Também eu gosto de o ler, todos os dias, mas intrigou-me o
post publicado, precisamente, na data simbólica de 1 de Abril. Não é tanto o seu conteúdo que me incomoda, mas a maneira como é expressado.
Intitulado
"Ser Escritor", inicia assim:
Não se é escritor porque se quer, mas porque se pode. Considero esta frase infeliz, na sua ambiguidade. Eu diria antes: não é escritor só quem pode, mas quem quer; e muito! Todos sabemos que o talento não chega, é preciso disciplina e, acima de tudo, perseverança. Dizer que
não se é escritor porque se quer não faz, para mim, qualquer sentido, porque, se não o quisermos ser, não o seremos, de certeza! Como tudo na vida, aquilo que se quer alcançar, tem de se querer muito.
A frase até pode dar azo a interpretações menos honestas.
Não se é escritor porque se quer, isto é, porque se vive com essa vocação e esse desejo,
mas porque se pode, ou seja, quem tem contactos, cunhas, é famoso, tem pais famosos, ou dinheiro. Eu sei que não foi isso que a Maria do Rosário Pedreira quis dizer, mas, por isso mesmo, a frase é infeliz.
Mais à frente, lê-se:
... infelizmente, nem toda a gente que aprende a juntar as letras sabe ler. Os verdadeiros leitores, como os verdadeiros escritores, serão sempre uma minoria. Deixemos, para já, os escritores de lado e concentremo-nos nos leitores. Então, passa-se assim um atestado de burrice e incapacidade à maioria da população que compra livros?! Talvez compre livros de que a Maria do Rosário Pedreira não gosta, ou que considera de qualidade inferior. Mas, daí a dizer que essas pessoas não sabem ler?! Entre amigos, ou num meio literário em que as opiniões coincidem, dizem-se coisas destas. Mas expô-las ao público, indicia, a meu ver, prepotência.
Conceitos como
verdadeiro escritor,
verdadeiro leitor e
literatura séria não são estanques e deviam ser usados com cuidado. Os comentadores do
post discutem o facto de muito poucos escritores poderem viver daquilo que editam. Mas, se há nomes que não deixam margem para dúvidas, como Saramago, Gonçalo M. Tavares e António Lobo Antunes, que dizer de José Rodrigues dos Santos, ou, a nível internacional, Dan Brown e Stephenie Meyer? Todos eles podem viver bem daquilo que editam. Mas são eles v
erdadeiros escritores? Escrevem eles
literatura séria?
Um comentador anónimo diz algo, a meu ver, muito pertinente:
Todavia, há que dizer que a literatura que tem como único propósito a diversão e o entretenimento também merece respeito. Aliás, se calhar até é ela que paga o salário da MRP no grande grupo económico em que trabalha. E no entanto, a Maria do Rosário Pedreira diz, no seu
post:
a literatura séria está, com o tempo, condenada a ocupar uma pequena parcela das prateleiras das livrarias, onde hão-de proliferar muitos outros géneros de mais fácil assimilação. A verdade, que temos de aceitar e com a qual temos de viver é a de que os livros não passam de um negócio! As editoras preferem seguir as regras do mercado, em vez de apostar na qualidade. Só assim conseguem sobreviver e pagar salários.A autora do
Horas Extraordinárias devia estar bem dentro deste assunto!
Embora todos os comentários sejam interessantes (o
post acaba por ter essa virtude de despoletar a discussão), não resisto a transcrever o de um outro anónimo (ou será o mesmo?):
A velha polémica entre a literatura experimental vs. "uma boa história". Já me fartei do Bolaño, mas continuo a gostar do John Grisham. Gosto dos clássicos russos, mas nunca consegui ler o "Ulisses" do Joyce. Gostei muito do "Monte dos Vendavais" da Emily Brontë, mas detestei "Retrato de Uma Senhora" do Henry James. Adorei "Kane e Abel" do Jeffrey Archer, nas não consigo terminar "Os Detectives Selvagens"... Li quase tudo de Fiódor Dostoiévski, mas não suporto a imitação "tuga" do JRS e, no entanto, gosto de Dan Brown. Que leitor serei eu?
Ou seja, muitas vezes, a "qualidade", a "verdadeira literatura" é uma questão de gosto. E eu posso gostar de Saramago, Dan Brown e Stephenie Meyer ao mesmo tempo. Insisto na minha opinião, que já
aqui expressei: mais vale ler livros "maus", do que não ler, aprende-se, pelo menos, a escrever sem erros.
E, respondendo à pergunta que serviu de título a este meu
post, lembro o conceito de
Sol Stein: escritores não são só aqueles que já publicaram livros, mas todos aqueles que não concebem a sua vida sem escrever. Ou seja, quem ama a escrita, é escritor. E quem ama os seus livros, sejam eles quais forem, é um verdadeiro leitor.