Há coisa de um mês, a Zélia Parreira, minha colega do 2711, publicou um post sobre a fulminante proposta do Sr. Ministro Álvaro Pereira de comercializar os nosso pastéis de nata, ou de Belém, como modo de sair da crise, pois, segundo ele, as natas não tinham sido nunca até hoje internacionalizadas. Na altura, escrevi o seguinte comentário:
É mentira! Eu já vi um programa de TV aqui na Alemanha sobre o pastel de nata e como ele é comercializado em várias partes do mundo! Chamam-se "portuguese custards". Aliás, de Macau, passaram à China, onde são vendidas em estabelecimentos de "fast-food". Não sei se a receita é a original, mas têm o mesmo aspecto. E os chineses deliciam-se! Não pagam é direitos de autor!
Confesso que não me lembro do nome do programa, nem sei quando o vi, nem em que canal, o que tornava estas minhas afirmações pouco credíveis. Pois agora posso afirmar, com toda a certeza, que o pastelinho de nata é mesmo um sucesso comercial na China! O Exilado, numa das suas viagens àquele país, tirou, há cerca de três anos, esta fotografia:
Lá está ele, o produto que nos poderia tirar da crise, já conhecido de todos os chineses, bem divulgado nessa grande cadeia de fast-food que é a KFC!
Por sugestão do Exilado, fui dar uma espreitadela ao Belém Livre, que nos diz que o valioso pastelinho, afinal, foi introduzido em Hong Kong por um casal de ingleses e que, daí, se espalhou por toda a China.Mas isto ainda não é tudo!
Fui ao Google e enfiei lá portuguese custard tarts (também dá com portuguese egg tarts) e encontrei tantos resultados, tanta receita em língua inglesa, que nem sabia para onde me virar. E a página inglesa da Wikipedia diz: they are common in Portugal, the Lusosphere — Brazil, Angola, Mozambique, Cape Verde, São Tomé and Príncipe, Guinea-Bissau, Timor-Leste, Goa, and Macau — and countries with significant Portuguese populations, such as Canada, Australia, Luxembourg, the United States, and France, among others.
Posso confirmar. Em Hamburgo, qualquer café português (propriedade de emigrantes) vende o pastelinho de nata. Além disso, também dei com um blogue que informa onde encontrar the best portuguese custard tarts in Toronto, o youtube apresenta vários vídeos, onde se pode acompanhar a confecção deste prodígio da culinária, e até a página do cozinheiro Jamie Olivier nos dá a receita.
Tenho muita pena, Sr. Ministro, mas já perdemos esta corrida. Porém, não desanime! Aconselho-o a ir dar uma olhada à proposta do Exilado de comercializar um outro doce cá da casa, bem popular: a eterna cavaca! Que teria a vantagem de se encontrar facilmente um "padrinho" para a campanha de divulgação...
Também aqui.
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6 de fevereiro de 2012
21 de dezembro de 2011
Vida inventada
Da autoria de J. Rentes de Carvalho:
É humana, muitas vezes até simpática, a curiosidade pela vida alheia, mas mesmo que se trate de uma que não seja corrente nas peripécias e de desenlaces imprevisíveis, ninguém quer a versão original. Há por parte de quem pergunta o anseio quase infantil de ouvir histórias, casos incomuns, e por seu turno o narrador alegremente cumpre, evitando os escolhos, sobrepondo a versão cosmética à da realidade.
Bem é que assim seja e muito desagrado se poupa, pois do mesmo modo que evitamos desnudar-nos em público, acalentamos, uns e outros, a ilusão de que somos interessantes ou até excepcionais.
Metendo a mão no peito, sabemos que de facto nenhuma vida se conta, nem talvez se possa contar, já que a verdadeira até de nós próprios a escondemos.
Graças a Deus, que tudo arranja, faz Ele com que isso não nos torne infelizes, deixando-nos viver a vida que inventamos, mais fácil de suportar.
É humana, muitas vezes até simpática, a curiosidade pela vida alheia, mas mesmo que se trate de uma que não seja corrente nas peripécias e de desenlaces imprevisíveis, ninguém quer a versão original. Há por parte de quem pergunta o anseio quase infantil de ouvir histórias, casos incomuns, e por seu turno o narrador alegremente cumpre, evitando os escolhos, sobrepondo a versão cosmética à da realidade.
Bem é que assim seja e muito desagrado se poupa, pois do mesmo modo que evitamos desnudar-nos em público, acalentamos, uns e outros, a ilusão de que somos interessantes ou até excepcionais.
Metendo a mão no peito, sabemos que de facto nenhuma vida se conta, nem talvez se possa contar, já que a verdadeira até de nós próprios a escondemos.
Graças a Deus, que tudo arranja, faz Ele com que isso não nos torne infelizes, deixando-nos viver a vida que inventamos, mais fácil de suportar.
19 de dezembro de 2011
Peto
Hoje, ao divagar pela lista dos blogues que sigo, deparei com o Peto. E o Peto sobressaiu de todos os outros posts. A figura do Peto, a sinopse do livro e a opinião, escritas com tanta sensibilidade e carinho pela Maria Manuel, do Marcador de Livros, tocaram-me tanto, que aqui vai:
Pois, a lei não pune os infractores...
Por aqui, já se vai fazendo alguma coisa. Por estes dias, em Hamburgo, um homem atirou com um cão Jack Russell Terrier (a raça da minha Lucy) contra a parede, por ele ter roubado um pão que estava em cima de uma mesa. O homem estragou-lhe a anca de tal maneira, que o cãozinho, de apenas um ano, vai ter problemas durante toda a sua vida.
O homem foi condenado, por um tribunal, a pagar cerca de 2.600 euros. Acho pouco!!!
Sinopse:
O Peto apareceu na rua, ainda bebé, e lá viveu durante doze longos anos, comendo dos caixotes do lixo. A certa altura, duas senhoras repararam nele e foram-no protegendo como podiam, dando-lhe comida e água. E ele por ali foi ficando. Foi recolhido duas vezes por pessoas que o voltaram a abandonar porque, afinal, era grande demais ou deixava a casa cheia de pelos. Na sua vida na rua, foi agredido diversas vezes e durante muito tempo teve dificuldade em usar as patas traseiras. Foi também atropelado mais do que uma vez. Chegou a ser esfaqueado na barriga. Tinha Leishmaniose, e por dormir tantos anos ao relento sofria ainda de artrite, passando a ter de tomar medicação quatro vezes ao dia. Foi atacado diversas ocasiões por cães com «donos perigosos» e o seu corpo ficou marcado por várias cicatrizes. Enfrentou duas denúncias de vizinhos, que não o queriam ali. Numa das vezes acabou num canil para ser abatido, como tantos outros cães vadios. Mas foram buscá-lo e ele voltou à sua rua. A sua sorte mudou quando, um dia, Paula, reparou no cão meigo e triste que se arrastava cheio de sangue, terra e pó. Começou por lhe limpar as feridas. Acabou por saber a sua história e seis meses depois, em Novembro de 2005, levou-o para casa e encheu-o de amor. Peto escapou da morte nesse inverno.
A minha opinião:
Esta é a história de um cão de rua sortudo que apanhou pela frente Paula Cairo uma defensora dos animais como há poucas. Foi levado para casa da autora do livro com doze anos e que, apesar de nunca ter tido cães e ter já alguns gatos em casa, não hesitou e acolheu o cão de olhos doces e que precisava de carinho e de cuidados. E até se ter transformado numa grande amizade foi um passo. A partir daí nunca mais se largaram. Peto foi o seu companheiro até à morte deste, aos 18 anos. Por tê-lo adoptado foi olhada por diversas vezes de lado e criticada, teve de mudar de casa porque os seus vizinhos não aceitaram bem aquela adopção, mas mesmo assim Paula não esmoreceu e levou a sua ideia avante: não iria largar Peto. E foram muito felizes juntos, vivendo várias aventuras com outros animais que foram vivendo também nas suas casas.
Também eu adoro animais e não consigo ver ninguém a maltratá-los, mas admiro a coragem da autora e adoptá-los e dar o seu amor pelos seus amigos de quatro patas. Também eu tenho uma gatinha e esta também faz parte da família. É tratada como tal por toda a gente e é assim que deve ser. Infelizmente nem todos pensam assim e a lei não pune os infractores...
O Peto apareceu na rua, ainda bebé, e lá viveu durante doze longos anos, comendo dos caixotes do lixo. A certa altura, duas senhoras repararam nele e foram-no protegendo como podiam, dando-lhe comida e água. E ele por ali foi ficando. Foi recolhido duas vezes por pessoas que o voltaram a abandonar porque, afinal, era grande demais ou deixava a casa cheia de pelos. Na sua vida na rua, foi agredido diversas vezes e durante muito tempo teve dificuldade em usar as patas traseiras. Foi também atropelado mais do que uma vez. Chegou a ser esfaqueado na barriga. Tinha Leishmaniose, e por dormir tantos anos ao relento sofria ainda de artrite, passando a ter de tomar medicação quatro vezes ao dia. Foi atacado diversas ocasiões por cães com «donos perigosos» e o seu corpo ficou marcado por várias cicatrizes. Enfrentou duas denúncias de vizinhos, que não o queriam ali. Numa das vezes acabou num canil para ser abatido, como tantos outros cães vadios. Mas foram buscá-lo e ele voltou à sua rua. A sua sorte mudou quando, um dia, Paula, reparou no cão meigo e triste que se arrastava cheio de sangue, terra e pó. Começou por lhe limpar as feridas. Acabou por saber a sua história e seis meses depois, em Novembro de 2005, levou-o para casa e encheu-o de amor. Peto escapou da morte nesse inverno.
A minha opinião:
Esta é a história de um cão de rua sortudo que apanhou pela frente Paula Cairo uma defensora dos animais como há poucas. Foi levado para casa da autora do livro com doze anos e que, apesar de nunca ter tido cães e ter já alguns gatos em casa, não hesitou e acolheu o cão de olhos doces e que precisava de carinho e de cuidados. E até se ter transformado numa grande amizade foi um passo. A partir daí nunca mais se largaram. Peto foi o seu companheiro até à morte deste, aos 18 anos. Por tê-lo adoptado foi olhada por diversas vezes de lado e criticada, teve de mudar de casa porque os seus vizinhos não aceitaram bem aquela adopção, mas mesmo assim Paula não esmoreceu e levou a sua ideia avante: não iria largar Peto. E foram muito felizes juntos, vivendo várias aventuras com outros animais que foram vivendo também nas suas casas.
Também eu adoro animais e não consigo ver ninguém a maltratá-los, mas admiro a coragem da autora e adoptá-los e dar o seu amor pelos seus amigos de quatro patas. Também eu tenho uma gatinha e esta também faz parte da família. É tratada como tal por toda a gente e é assim que deve ser. Infelizmente nem todos pensam assim e a lei não pune os infractores...
Pois, a lei não pune os infractores...
Por aqui, já se vai fazendo alguma coisa. Por estes dias, em Hamburgo, um homem atirou com um cão Jack Russell Terrier (a raça da minha Lucy) contra a parede, por ele ter roubado um pão que estava em cima de uma mesa. O homem estragou-lhe a anca de tal maneira, que o cãozinho, de apenas um ano, vai ter problemas durante toda a sua vida.
O homem foi condenado, por um tribunal, a pagar cerca de 2.600 euros. Acho pouco!!!
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24 de novembro de 2011
Não deixar saudades
Pobre dele? Coitado? Infeliz? Deus se compadeça? Desconhecemos as razões, mas era mau, mesmo para os que lhe queriam, os do seu sangue.
Trombudo, azedo, arrogante, violento, cheio de si. A soco e pontapé, com o cinto, à varada, mais de cinquenta anos bateu na mulher, nos filhos, na mula, no cão, nas galinhas que se lhe atravessavam no caminho. Desdenhoso, olhando de esguelha, as boas-horas, se as dava, saíam-lhe dentre os lábios como a cuspir um insulto.
É terrível, este sentimento: alguém morre e não deixa saudade.
Surripiado ao Tempo Contado.
Trombudo, azedo, arrogante, violento, cheio de si. A soco e pontapé, com o cinto, à varada, mais de cinquenta anos bateu na mulher, nos filhos, na mula, no cão, nas galinhas que se lhe atravessavam no caminho. Desdenhoso, olhando de esguelha, as boas-horas, se as dava, saíam-lhe dentre os lábios como a cuspir um insulto.
É terrível, este sentimento: alguém morre e não deixa saudade.
Surripiado ao Tempo Contado.
21 de novembro de 2011
9 de novembro de 2011
Revistas cor-de-rosa
No Verão passado, o jornalista Pedro Rolo Duarte confessou comprar e ler revistas cor-de-rosa. Baseado na sua experiência, desenvolveu uma espécie de dicionário muito divertido, de que se seguem três exemplos:
A figura X afirma: “Estou disponível para o amor”. Isso é o mesmo que: “Por favor, alguém me pega?”. Ou: “Hello, não querem ser meus amigos no Facebook?”
A legenda da revista afirma que a figura X, “aos 42 anos, está em excelente forma física”. Tradução: ainda não é este ano que fazemos uma reportagem com ela no Ângelo Rebelo.
Ou... “Aos 47 anos, recuperou a sua auto-estima”. Tradução: foi ao Ângelo Rebelo.
Eu não sou grande consumidora dessas revistas e é verdade que limito a sua leitura às idas ao cabeleireiro, ou ao médico (por isso, só leio alemãs). Mas confesso que as acho interessantes. Por um lado, acho útil andarmos informados, seja sobre o que for. Aliás, como só leio alemãs, tenho sinceramente pena de, em Portugal, muitas vezes, não saber de quem se trata, quando as pessoas falam em fulana ou sicrano. Por outro, enriquecemos o nosso conhecimento da natureza humana. Gosto sempre de saber até onde as pessoas são capazes de ir, não só neste campo, como em todos os outros. Além disso, uma mulher deve acompanhar a moda.
E assim se prova que qualquer leitura pode ser instrutiva, tudo depende da maneira como a encaramos.
A figura X afirma: “Estou disponível para o amor”. Isso é o mesmo que: “Por favor, alguém me pega?”. Ou: “Hello, não querem ser meus amigos no Facebook?”
A legenda da revista afirma que a figura X, “aos 42 anos, está em excelente forma física”. Tradução: ainda não é este ano que fazemos uma reportagem com ela no Ângelo Rebelo.
Ou... “Aos 47 anos, recuperou a sua auto-estima”. Tradução: foi ao Ângelo Rebelo.
Eu não sou grande consumidora dessas revistas e é verdade que limito a sua leitura às idas ao cabeleireiro, ou ao médico (por isso, só leio alemãs). Mas confesso que as acho interessantes. Por um lado, acho útil andarmos informados, seja sobre o que for. Aliás, como só leio alemãs, tenho sinceramente pena de, em Portugal, muitas vezes, não saber de quem se trata, quando as pessoas falam em fulana ou sicrano. Por outro, enriquecemos o nosso conhecimento da natureza humana. Gosto sempre de saber até onde as pessoas são capazes de ir, não só neste campo, como em todos os outros. Além disso, uma mulher deve acompanhar a moda.
E assim se prova que qualquer leitura pode ser instrutiva, tudo depende da maneira como a encaramos.
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3 de novembro de 2011
A escrita, por J. Rentes de Carvalho
Disfarçamo-nos no que escrevemos. Ora mostramos como gostaríamos de ser, ora escondemos os nossos medos entregando-os ao personagem, fingimos rir do que nos envergonha, criamos a virtude que seria bom ter e a coragem que nos falta, escondemos nesse irmão de empréstimo a cobardia e as hesitações que nos afligem, comete ele os crimes que não ousamos.
Toda a escrita é auto-retrato. Quanto melhor conseguida, mais difícil se torna, mesmo para o próprio, separar o vero do inventado. É também frágil equilíbrio em corda bamba, que uma vez perdido leva a cair na pose, dá a ilusão de que se pertence aos eleitos.
Quem pensa em escrever deveria, pois, como um beneditino, obrigar-se à clausura. A probabilidade é grande que, terminado o retiro, corra dali ao psiquiatra em vez de se arriscar à escrita.
Toda a escrita é auto-retrato. Quanto melhor conseguida, mais difícil se torna, mesmo para o próprio, separar o vero do inventado. É também frágil equilíbrio em corda bamba, que uma vez perdido leva a cair na pose, dá a ilusão de que se pertence aos eleitos.
Quem pensa em escrever deveria, pois, como um beneditino, obrigar-se à clausura. A probabilidade é grande que, terminado o retiro, corra dali ao psiquiatra em vez de se arriscar à escrita.
20 de outubro de 2011
A arte de bem ouvir
Ouvi-a com paciência e ternura. Não aconselhei nem repreendi, tão-pouco disse que não se afligisse ou que no futuro há sempre uma aberta, raios de luz. Isso poderá ela descobrir um dia por si só, pois a consciência da perda é condição do resgate, é o painel a indicar o bom caminho.
Todos se apressam a dar a sua opinião, a dar conselhos, a tentar consolar-nos, a fazer-nos esquecer os problemas, que tenhamos fé num futuro melhor. E esquecem-se de que precisamos, acima de tudo, de quem nos ouça. Apenas ouvir, sem julgar, sem aconselhar, sem repreender. Ouvir.
Todos se apressam a dar a sua opinião, a dar conselhos, a tentar consolar-nos, a fazer-nos esquecer os problemas, que tenhamos fé num futuro melhor. E esquecem-se de que precisamos, acima de tudo, de quem nos ouça. Apenas ouvir, sem julgar, sem aconselhar, sem repreender. Ouvir.
23 de setembro de 2011
Para onde fogem?
Da autoria de Rui Hebron, publicado no Jugular:
"É certo: há nostálgicos e há espertalhões que defendem seja o que for desde que sirva para manter o seu negócio. O que não há, entre as elites, é desinformados. Sabia-se o que era a RDA e sabe-se o que são Cuba, China, Síria, Arábia Saudita ou Irão. E, em caso de dúvida, temos o senso comum. Em que direcção fugiam os alemães? Isso diz tudo. Corriam do leste para ocidente e não ao contrário, assim como agora há quem vá de sul para norte, também por razões de liberdade, de justiça, de guerra e fome. Se nas escolas se explicasse a fundo em que direcção os povos fugiram ao longo dos tempos, talvez houvesse menos mal-entendidos e mais prevenção perante certos profetas."
(Clicar no link para ler o texto completo).
Não resisto a completar estas afirmações com palavras do escritor cubano Leonardo Padura, a propósito do seu livro O Homem que Gostava de Cães (Porto Editora, 2011):
"O meu livro mostra como a União Soviética, a partir da época de Estaline, sofreu um acelerado processo de dogmatização, de perversão, que acabou por converter o país numa autocracia onde só Estaline decidia. Não decidia só o que acontecia na União Soviética, decidia o que acontecia no resto dos partidos comunistas do mundo. Quem não correspondia a essa ortodoxia ficava de fora".
"O sentido de perda de identidade, de perda de independência, de perda de espaço para se poder pensar, para se poder decidir, é um dos elementos mais dramáticos desta perversão da utopia socialista, que tinha como princípio criar uma sociedade onde houvesse o máximo de liberdade com o máximo de democracia. Digo o mais dramático porque não devo dizer o mais terrível; o mais terrível é o que matou mais de 20 milhões de pessoas".
"... o Partido Comunista Cubano trata de afastar-se do que significou esse modelo, trata de propor um modelo social e económico diferente. Como vão conseguir fazê-lo, e se a burocracia vai permitir que esse afastamento seja possível ou não, é algo que só o futuro dirá. Mas é evidente que mesmo os mais altos dirigentes cubanos se deram conta de que tinham cometido um grande erro ao importar um sistema que já vinha doente, que já estava pervertido."
"É certo: há nostálgicos e há espertalhões que defendem seja o que for desde que sirva para manter o seu negócio. O que não há, entre as elites, é desinformados. Sabia-se o que era a RDA e sabe-se o que são Cuba, China, Síria, Arábia Saudita ou Irão. E, em caso de dúvida, temos o senso comum. Em que direcção fugiam os alemães? Isso diz tudo. Corriam do leste para ocidente e não ao contrário, assim como agora há quem vá de sul para norte, também por razões de liberdade, de justiça, de guerra e fome. Se nas escolas se explicasse a fundo em que direcção os povos fugiram ao longo dos tempos, talvez houvesse menos mal-entendidos e mais prevenção perante certos profetas."
(Clicar no link para ler o texto completo).
Não resisto a completar estas afirmações com palavras do escritor cubano Leonardo Padura, a propósito do seu livro O Homem que Gostava de Cães (Porto Editora, 2011):
"O meu livro mostra como a União Soviética, a partir da época de Estaline, sofreu um acelerado processo de dogmatização, de perversão, que acabou por converter o país numa autocracia onde só Estaline decidia. Não decidia só o que acontecia na União Soviética, decidia o que acontecia no resto dos partidos comunistas do mundo. Quem não correspondia a essa ortodoxia ficava de fora".
"O sentido de perda de identidade, de perda de independência, de perda de espaço para se poder pensar, para se poder decidir, é um dos elementos mais dramáticos desta perversão da utopia socialista, que tinha como princípio criar uma sociedade onde houvesse o máximo de liberdade com o máximo de democracia. Digo o mais dramático porque não devo dizer o mais terrível; o mais terrível é o que matou mais de 20 milhões de pessoas".
"... o Partido Comunista Cubano trata de afastar-se do que significou esse modelo, trata de propor um modelo social e económico diferente. Como vão conseguir fazê-lo, e se a burocracia vai permitir que esse afastamento seja possível ou não, é algo que só o futuro dirá. Mas é evidente que mesmo os mais altos dirigentes cubanos se deram conta de que tinham cometido um grande erro ao importar um sistema que já vinha doente, que já estava pervertido."
20 de setembro de 2011
Vida de Abandono
Há um novo blogue, Vida de Abandono, que fala de vidas de animais domésticos recuperadas do abandono. As histórias são contadas sob a perspectiva do animal, o que eu acho muito importante, porque lhes dão uma voz. Muitas vezes, os animais são vistos como coisas e, não, como seres com sentimentos, seres que sofrem. Porque eles sofrem!!! Sofrem quando têm fome, mas, também, quando estão sozinhos e desprezados.
Dizem-se coisas do género:
- Eu tenho os meus cães fechados em jaulas, eles habituam-se!
É verdade. E as pessoas? Também se habituam, tal e qual, já tem havido casos (infelizmente).
- Eu deixo o meu cão sozinho todo o dia, ele não morre por isso!
Pois não. Tal e qual como as pessoas, crianças incluídas!
- Que passe fome, ele aguenta muito tempo sem comer!
Uma pessoa também, mais de um mês!
Uma outra particularidade do Vida de Abandono é que conta casos que tiveram um final feliz. Há muitos blogues que apresentam os maus tratos e as misérias. Também é necessário. Mas uma mensagem de esperança é sempre bem-vinda. E, às vezes, consegue converter melhor os cépticos.
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7 de setembro de 2011
Bookcrossing
No Xaile de Seda, Olinda Melo divulga a iniciativa Bookcrossing, que eu acho muito interessante. É raríssimo lermos um livro duas vezes. E, mesmo que não nos consigamos separar da maioria deles, outros há em que esse acto não será tão difícil quanto isso.
A ideia do Bookcrossing é criar uma biblioteca global, um objectivo difícil de atingir, mas não custa tentar. Se há livros que estão a mais, porque não libertá-los, proporcionando a outras pessoas a possibilidade de os ler? Ainda para mais, ao preço a que eles estão, em Portugal...
Já agora, aproveito para dizer que uma visita ao Xaile de Seda compensa sempre. Olinda Melo dá espaço à poesia e tem uma sensibilidade muito própria para escrever sobre os mais variados assuntos.
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21 de agosto de 2011
D. João Peculiar
Já aqui falei na importância de D. João Peculiar, arcebispo de Braga durante mais de trinta anos, o grande obreiro do processo da independência de Portugal. O Prof. José Mattoso diz-nos, na sua biografia de D. Afonso Henriques, que, sem ele, o nosso primeiro não teria atingido o seu objectivo.
JDACT publicou igualmente um texto sobre este importante arcebispo, baseado no estudo de Carl Erdmann, Das Papsttum und Portugal im ersten Jahrhundert der portugiesischen Geschichte:
Só agora se pode apreciar devidamente o papel extraordinário desempenhado por um homem, cuja acção não foi ainda julgada devidamente. Refiro-me ao arcebispo João Peculiar de Braga, que suportou sobre os seus ombros, durante quatro decénios, quase todas as negociações com Roma. Se Portugal conseguiu por fim, graças ao reconhecimento por parte da cúria, assegurar a sua, independência política e autonomia eclesiástica em relação aos estados vizinhos, isso pode considerar-se obra sua.
14 de agosto de 2011
Somos um livro
Manuel de Sousa publicou este bonito texto:
Somos um livro de histórias com uma duração invariável, que depende dos anos da nossa vida e das peripécias que a constituem.
No livro da vida há acção, romance, mistério, investigação, drama, tudo em formato de poesia e de prosa.
Somos o reflexo dos livros que lemos e que gostamos e as nossas acções assemelham-se aos livros, por mais impossíveis e imprevisíveis que possam ser.
A vida é recheada de páginas e de cores, dependentes das nossas tendências e frustrações e de histórias ou contos que não são contados até ao fim.
Somos vítimas de um enredo, em que, de leitores, passamos a personagens principais ou figurantes. A nossa vida pode tornar-se num livro descritivo ou simplesmente sintético em que pouco há para contar.
Os livros não mentem sobre aquilo que somos. Da próxima vez que leres um livro e disseres que gostaste muito, lembra-te que ele é o espelho do teu ser.
M. Brunner
Somos um livro de histórias com uma duração invariável, que depende dos anos da nossa vida e das peripécias que a constituem.
No livro da vida há acção, romance, mistério, investigação, drama, tudo em formato de poesia e de prosa.
Somos o reflexo dos livros que lemos e que gostamos e as nossas acções assemelham-se aos livros, por mais impossíveis e imprevisíveis que possam ser.
A vida é recheada de páginas e de cores, dependentes das nossas tendências e frustrações e de histórias ou contos que não são contados até ao fim.
Somos vítimas de um enredo, em que, de leitores, passamos a personagens principais ou figurantes. A nossa vida pode tornar-se num livro descritivo ou simplesmente sintético em que pouco há para contar.
Os livros não mentem sobre aquilo que somos. Da próxima vez que leres um livro e disseres que gostaste muito, lembra-te que ele é o espelho do teu ser.
M. Brunner
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7 de agosto de 2011
Baixa-Mar
De Teresa Ribeiro, Delito de Opinião
![]() |
| E agora digam que eles não têm alma! |
Parado no areal, o cão olhava um ponto difuso, indiferente ao movimento dos veraneantes. A expressão era sofrida. Representava a dor física e psicológica com uma intensidade difícil de surpreender em rostos humanos. A uns metros um gato esquálido parou a avaliá-lo, mas logo se desinteressou, voltando à sua vidinha de trinca-espinhas desenrascado. Até para os felinos com um terço do seu tamanho se tinha tornado irrelevante. Dizem que os animais não têm consciência de si, mas este sabia-se transparente. Caminhava entre as pessoas sem as encarar com a desenvoltura de um agente camuflado e de facto nem para ele olhavam, apesar de ser grande.
Do toldo segui-o. Cheguei mesmo a rodar o tronco para o ver passar, emocionada com a minha própria compaixão. Mas também a mim o cão ignorou e quando se perdeu no horizonte meti a minha bestial sensibilidade onde ele me mandou meter.
"O meu apartamento não é assim tão grande e o gato não o consentiria lá em casa", ainda argumentei antes de me voltar para apanhar um banho de sol.
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4 de agosto de 2011
Até um dia
O coração inquieto é a raiz da peregrinação. No ser humano vive uma saudade que o força para além da rotina do quotidiano e da estreiteza do seu ambiente habitual.
Ao deparar com esta frase de Santo Agostinho de Hippo, ou Hipona, lembrei-me de uma cena da "Viagem", de Tiago R Cardoso:
“- Raios, quem me estará ligar a esta hora?”
Aquele toque de telefone e dada a hora, tinha-lhe parecido um grito nos ouvidos. Quase sem abrir os olhos tacteou a mesinha de cabeceira em busca do culpado de tanto barulho.
“- Estou…”, disse arrastando a voz, era uma forma de transmitir desde logo o incomodo do telefonema.
“- Desculpa lá jovem….”
“- És tu, que se passa? É grave?”
“- Não pá, apenas para te dizer que vou embora.”
Aquilo serviu de mola para ele se levantar, achou que não tinha ouvido bem.
“- Repete, vais embora?”
“- Sim jovem…”, o interlocutor fez uma pausa como que a ganhar fôlego, “Acordei há pouco tempo e quando me olhei no espelho não me reconheci…”, fez-se silencio.
“- Essa não percebi.”
“- Sabes, olhei no espelho e ali estava alguém que não me dizia nada, era eu mas não era eu.”
“- Lá estás tu, outra vez?”
“- Desta vez fui mais longe, peguei de seguida num papel e tentei escrever coisas relevantes que eu tenha feito, não enchi sequer meia folha. Resumindo, consegui escrever a minha vida numa assentada.
Nasci, andei na escola, arranjei um trabalho, depois outro, vivo o dia a dia como toda a gente, quer dizer, vivo é uma questão de opinião.
“- É pá, então não exageres”, tentou aliviar a conversa.
“-Estou deslocado de tudo, não me enquadro em nada, sinto-me incompleto, mesmo as coisas que gostaria de fazer não as consigo fazer. Acho que chegou a altura de procurar o meu “Eu”, por isso vou embora.”
“- Estás mas é deprimido”, arrependeu-se de seguida mas nem teve tempo de compor a frase.
“- Não estou deprimido, sinto-me apenas incompleto, a vida tem de ser mais do que isto, mais do que trabalhar e sonhar com um dia melhor, a vida é para ser vivida e não um mar de sonhos adiados.”
“- Então que vais fazer?”, perguntou já compreendendo a situação, naquele momento ele também estava no mesmo barco.
“- Sei lá, vou viajar, procurar algo novo, sei lá… arriscar ler um Saramago, escrever, fotografar, sei lá… conhecer algo diferente da rotina que tenho.”,
“- Se queres saber? Fazes bem!”, avançou já com o assunto totalmente encaixado, “E não te esqueças de ir dando noticias.”
“- Evidentemente que sim, até um dia."
30 de julho de 2011
Filhos
Não tendo filhos, vejo-me sempre numa posição um pouco complicada, quando quero dar a minha opinião sobre crianças, ou questões de educação. Por isso, deixo falar a Zélia Parreira, mãe de três filhos. A propósito das notícias de maus tratos que algumas amas infligiam às crianças a seu cargo, a Zélia escreveu um post que devia pôr muita gente a pensar:
Porque razão temos filhos?
Porque razão insistimos em trazer vidas a este planeta das quais não somos capazes de cuidar?
Porque razão as despejamos nas escolas, nas creches e em amas de madrugada e só voltamos já de noite?
Porque razão não estamos disponíveis para perceber que os nossos filhos estão tristes, acabrunhados, violentados?
Porque razão nós, seres imperfeitos e manifestamente incapazes de lidar com a realidade que vivemos, permanentemente afogados em mágoas e reclamações sobre tudo e sobre todos, insistimos em acreditar que os nossos filhos vão ser seres lindos e perfeitos, sempre lavados e penteados, sempre bem-comportados à mesa, que nunca vão chorar para não incomodar, que nunca vão fazer asneiras, que nunca vão ter problemas, nem angústias, que nunca vão ser infelizes?
Porque razão insistimos em ter filhos se depois permitimos que isto lhes aconteça mesmo debaixo dos nossos olhos e ainda insistimos em negar para não assumirmos que falhámos, que estivemos distraídos, que não vimos os sinais, que não soubemos ser bons pais?
Só uma das partes é inocente, tanto nesta história como nas outras histórias de crianças e jovens perdidos na vida, entregues ao abandono e à violência que têm vindo a público. São eles, as crianças e os jovens, e no entanto, são os únicos que foram punidos. De resto - as amas, os pais das crianças, os professores e todos nós, que construímos esta sociedade onde só o superficial importa - somos todos culpados. Que ninguém se atreva a lavar as mãos como Pilatos.
Porque razão insistimos em trazer vidas a este planeta das quais não somos capazes de cuidar?
Porque razão as despejamos nas escolas, nas creches e em amas de madrugada e só voltamos já de noite?
Porque razão não estamos disponíveis para perceber que os nossos filhos estão tristes, acabrunhados, violentados?
Porque razão nós, seres imperfeitos e manifestamente incapazes de lidar com a realidade que vivemos, permanentemente afogados em mágoas e reclamações sobre tudo e sobre todos, insistimos em acreditar que os nossos filhos vão ser seres lindos e perfeitos, sempre lavados e penteados, sempre bem-comportados à mesa, que nunca vão chorar para não incomodar, que nunca vão fazer asneiras, que nunca vão ter problemas, nem angústias, que nunca vão ser infelizes?
Porque razão insistimos em ter filhos se depois permitimos que isto lhes aconteça mesmo debaixo dos nossos olhos e ainda insistimos em negar para não assumirmos que falhámos, que estivemos distraídos, que não vimos os sinais, que não soubemos ser bons pais?
Só uma das partes é inocente, tanto nesta história como nas outras histórias de crianças e jovens perdidos na vida, entregues ao abandono e à violência que têm vindo a público. São eles, as crianças e os jovens, e no entanto, são os únicos que foram punidos. De resto - as amas, os pais das crianças, os professores e todos nós, que construímos esta sociedade onde só o superficial importa - somos todos culpados. Que ninguém se atreva a lavar as mãos como Pilatos.
20 de julho de 2011
A Conquista do Pólo Sul
A sua «corrida contra-relógio» com o inglês Robert Scott, que Amundsen acabou por vencer ao chegar em primeiro lugar à meta, às três da tarde do dia 14 de Dezembro de 1911, é uma das aventuras mais admiráveis do século XX. Amundsen e Scott protagonizaram um duelo inesquecível. No entanto, a bandeira que ficou no extremo mais austral da Terra foi a norueguesa». In Gayban Grafie.
Sim, foi o norueguês quem ganhou. Mas, para mim, o herói foi o vencido: Robert Scott. A sua amargura é visível na fotografia que, ainda assim, a equipa inglesa tirou, para a posteridade, quando atingiu o Pólo Sul, em Janeiro de 1912, e constatou que tinha perdido a corrida.
Robert Scott embarcou na aventura, deu o tudo por tudo, mas não conseguiu chegar em primeiro lugar. Nada mais lhe restava do que regressar, depois de tirar a fotografia. Essa viagem de regresso prova que se pode viver o inferno num dos lugares mais frios do mundo. Vi uma série televisiva, já há muitos anos, em que se dava conta da luta daqueles homens, pelo meio de tempestades de neve e temperaturas gélidas, usando um equipamento longe de ser eficaz. Tinham milhares de quilómetros a percorrer e teriam de o fazer antes de começar o Inverno antárctico, em Março.
As forças foram faltando, o frio e as tempestades de neve surgiram mais cedo do que o esperado, membros da equipa morreram pelo caminho. Um desgaste incrível, não só físico, como psicológico. Quando já só restavam Robert Scott e dois companheiros e se encontravam a apenas 11 milhas de uma estação de reabastecimento, os três estavam esgotados, já só se mexiam por instinto, como se fossem tele-comandados. Montaram a tenda no meio de uma tempestade, deitaram-se aconchegados uns nos outros... E nunca mais se levantaram.
Impressionante são as últimas linhas que Scott escreveu no seu diário, a muito custo, quando se apercebeu de que os seus dois companheiros, encostados a ele, um de cada lado, já haviam partido deste mundo. Essas últimas linhas incluíam uma carta a sua mulher, Kathleen Scott. O casal tinha um filho de apenas três anos.
"Dear it is not easy to write because of the cold — 70 degrees below zero and nothing but the shelter of our tent — you know I have loved you, you know my thoughts must have constantly dwelt on you and oh dear me you must know that quite the worst aspect of this situation is the thought that I shall not see you again."
A tenda só foi encontrada vários meses mais tarde, depois do Inverno austral, que acaba em Setembro. E só o foi por sorte, pois estava quase completamente soterrada pela neve. Os três cadáveres estavam congelados lá dentro. As mãos de Robert Scott ainda seguravam a caneta e o diário.
A descrição minuciosa da aventura, as fotografias, todo o drama foram assim recuperados para a Humanidade.
Sim, foi o norueguês quem ganhou. Mas, para mim, o herói foi o vencido: Robert Scott. A sua amargura é visível na fotografia que, ainda assim, a equipa inglesa tirou, para a posteridade, quando atingiu o Pólo Sul, em Janeiro de 1912, e constatou que tinha perdido a corrida.
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| Scott é o do meio, atrás |
Robert Scott embarcou na aventura, deu o tudo por tudo, mas não conseguiu chegar em primeiro lugar. Nada mais lhe restava do que regressar, depois de tirar a fotografia. Essa viagem de regresso prova que se pode viver o inferno num dos lugares mais frios do mundo. Vi uma série televisiva, já há muitos anos, em que se dava conta da luta daqueles homens, pelo meio de tempestades de neve e temperaturas gélidas, usando um equipamento longe de ser eficaz. Tinham milhares de quilómetros a percorrer e teriam de o fazer antes de começar o Inverno antárctico, em Março.
As forças foram faltando, o frio e as tempestades de neve surgiram mais cedo do que o esperado, membros da equipa morreram pelo caminho. Um desgaste incrível, não só físico, como psicológico. Quando já só restavam Robert Scott e dois companheiros e se encontravam a apenas 11 milhas de uma estação de reabastecimento, os três estavam esgotados, já só se mexiam por instinto, como se fossem tele-comandados. Montaram a tenda no meio de uma tempestade, deitaram-se aconchegados uns nos outros... E nunca mais se levantaram.
Impressionante são as últimas linhas que Scott escreveu no seu diário, a muito custo, quando se apercebeu de que os seus dois companheiros, encostados a ele, um de cada lado, já haviam partido deste mundo. Essas últimas linhas incluíam uma carta a sua mulher, Kathleen Scott. O casal tinha um filho de apenas três anos.
"Dear it is not easy to write because of the cold — 70 degrees below zero and nothing but the shelter of our tent — you know I have loved you, you know my thoughts must have constantly dwelt on you and oh dear me you must know that quite the worst aspect of this situation is the thought that I shall not see you again."
A tenda só foi encontrada vários meses mais tarde, depois do Inverno austral, que acaba em Setembro. E só o foi por sorte, pois estava quase completamente soterrada pela neve. Os três cadáveres estavam congelados lá dentro. As mãos de Robert Scott ainda seguravam a caneta e o diário.
A descrição minuciosa da aventura, as fotografias, todo o drama foram assim recuperados para a Humanidade.
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19 de julho de 2011
Pois... (e retomando o tema)
Da autoria de Hugo Xavier, via Blogtailors (texto completo no link do autor):
A crise chegou e as editoras estão em pânico. As curtíssimas margens de lucro num negócio que pouco tinha de negócio desapareceram num espaço ainda mais curto de tempo. As livrarias não pagam, os leitores não compram. E vai piorar.As pequenas e médias editoras ou têm fundo de maneio que lhes permita aguentar a crise ou vão fechar portas (conheço muito poucas que tenham essa almofada de segurança). O mesmo vai passar-se com as pequenas e médias livrarias.
No que toca às grandes editoras, as soluções dos gestores passam por baixar preços e fazer grandes saldos, medidas inevitáveis para a sobrevivência no momento mas de consequências desastrosas no futuro. Se e quando a crise começar a passar, os alguns anos de preços da chuva, "packs" e saldos vão condicionar os leitores sobreviventes relativamente a preços mais 'verdadeiros'.
Não devemos escamotear a verdade: o sector vai ficar moribundo. Vão fechar editoras, distribuidoras, livrarias e mesmo gráficas. Muitas. A maior parte. Vão ficar sem trabalho editores, livreiros, comerciais, tradutores, revisores, técnicos diversos das mais diversas áreas ligadas à edição de livros e sua produção.
A crise chegou e as editoras estão em pânico. As curtíssimas margens de lucro num negócio que pouco tinha de negócio desapareceram num espaço ainda mais curto de tempo. As livrarias não pagam, os leitores não compram. E vai piorar.As pequenas e médias editoras ou têm fundo de maneio que lhes permita aguentar a crise ou vão fechar portas (conheço muito poucas que tenham essa almofada de segurança). O mesmo vai passar-se com as pequenas e médias livrarias.
No que toca às grandes editoras, as soluções dos gestores passam por baixar preços e fazer grandes saldos, medidas inevitáveis para a sobrevivência no momento mas de consequências desastrosas no futuro. Se e quando a crise começar a passar, os alguns anos de preços da chuva, "packs" e saldos vão condicionar os leitores sobreviventes relativamente a preços mais 'verdadeiros'.
Não devemos escamotear a verdade: o sector vai ficar moribundo. Vão fechar editoras, distribuidoras, livrarias e mesmo gráficas. Muitas. A maior parte. Vão ficar sem trabalho editores, livreiros, comerciais, tradutores, revisores, técnicos diversos das mais diversas áreas ligadas à edição de livros e sua produção.
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22 de junho de 2011
O Comando é o Céu
10 de junho de 2011
Criancices, Bíblia & Felicidade
Há um lado infantil em cada um de nós que permanece ao longo de toda a vida, escreveu a Maria do Rosário Pedreira no seu blogue.
Como comentário, eu deixei: Quanto maior for a importância desse lado infantil na nossa vida, mais felizes somos. Já reparou na felicidade que sente quando faz uma criancice? Claro que não estou a dizer que se façam criancices a torto e a direito, temos o lado crescido que toma conta de nós. Mas deixemos o lado infantil imperar, sempre que seja possível (e não prejudiquemos os outros).
Quem vem seguindo estas Andanças, sabe que eu sou apologista de manter um diálogo com a nossa criança interior, a fim de tratarmos de nós próprios como gostaríamos que os nossos pais tivessem tratado de nós em criança (Kim-Anne Jannes).
Neste, como em muitos outros casos, podemos aprender com os cães. Tenham a idade que tiverem, desde que a sua condição física o permita, eles adoram brincar como se ainda fossem cachorrinhos. Sem preconceitos, sem recearem fazer figura de parvos, ou que os outros os tomem por infantis. Além disso, são sinceros, espontâneos, leais, fiéis. Bem hajam!
Na verdade, se nos atrevermos a fazer uma criancice, proporcionamos a libertação daquelas hormonas ou substâncias da felicidade, de que não me lembro agora o nome. Eu sei que o chocolate também o faz, mas o chocolate engorda!
Atitudes saudáveis são, por exemplo, brincar com os filhos a algo que sempre adorámos, na infância; ou desatar a dançar, se ouvirmos uma canção no rádio que costumávamos dançar na discoteca, quando éramos mais jovens; ou cantá-la bem alto. As crianças costumam ser assim espontâneas. Porque não seguir esse impulso? Se o fizermos, experimentamos uma sensação de felicidade dentro de nós, pode mesmo ser muito intensiva. Com a vantagem de que não engordamos. No caso da dança, até queimamos calorias ;-)
Temos, cá em casa, duas versões da Bíblia, uma portuguesa e uma alemã. Numa das suas passagens mais conhecidas, a tradução não coincide a 100%, um aspecto, aliás, frequente. A tradução da Bíblia é um processo contínuo e há quase tantas versões, como publicações. Neste caso, acho que a pequena divergência faz mesmo a diferença.
Na portuguesa leio:
Deixai vir a Mim as criancinhas, não as afasteis, pois a elas pertence o reino de Deus. - Mc 10, 14b
Na alemã:
Deixai vir a mim as crianças; não as impeçais! Pois a pessoas como elas pertence o reino de Deus.
(no original: Lasst die Kinder zu mir kommen; hindert sie nicht daran! Denn Menschen wie ihnen gehört das Reich Gottes. - Mk 10, 14b).
Ora, se a diferença nas expressões "não as afasteis"/"não as impeçais", se revela irrelevante, o mesmo não acontece em "a elas pertence o reino de Deus"/"a pessoas como elas pertence o reino de Deus".
No primeiro caso, é-se levado a pensar que, para quem não é criança, a mensagem perde importância. Gera, apenas, condescendência por parte dos adultos perante as crianças, na pior das hipóteses, indiferença: para quê preocuparmo-nos com elas, se estão nas mãos de Deus?
No segundo caso, diz-se directamente que os adultos devem ser como as crianças. É uma diferença abismal, que influencia o nosso comportamento de maneira bem diversa.
Preservemos, pois, o nosso lado infantil e deixemo-lo actuar, sempre que tivermos possibilidade!
Como comentário, eu deixei: Quanto maior for a importância desse lado infantil na nossa vida, mais felizes somos. Já reparou na felicidade que sente quando faz uma criancice? Claro que não estou a dizer que se façam criancices a torto e a direito, temos o lado crescido que toma conta de nós. Mas deixemos o lado infantil imperar, sempre que seja possível (e não prejudiquemos os outros).
Quem vem seguindo estas Andanças, sabe que eu sou apologista de manter um diálogo com a nossa criança interior, a fim de tratarmos de nós próprios como gostaríamos que os nossos pais tivessem tratado de nós em criança (Kim-Anne Jannes).
Neste, como em muitos outros casos, podemos aprender com os cães. Tenham a idade que tiverem, desde que a sua condição física o permita, eles adoram brincar como se ainda fossem cachorrinhos. Sem preconceitos, sem recearem fazer figura de parvos, ou que os outros os tomem por infantis. Além disso, são sinceros, espontâneos, leais, fiéis. Bem hajam!
Na verdade, se nos atrevermos a fazer uma criancice, proporcionamos a libertação daquelas hormonas ou substâncias da felicidade, de que não me lembro agora o nome. Eu sei que o chocolate também o faz, mas o chocolate engorda!
Atitudes saudáveis são, por exemplo, brincar com os filhos a algo que sempre adorámos, na infância; ou desatar a dançar, se ouvirmos uma canção no rádio que costumávamos dançar na discoteca, quando éramos mais jovens; ou cantá-la bem alto. As crianças costumam ser assim espontâneas. Porque não seguir esse impulso? Se o fizermos, experimentamos uma sensação de felicidade dentro de nós, pode mesmo ser muito intensiva. Com a vantagem de que não engordamos. No caso da dança, até queimamos calorias ;-)
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| Daqui |
Temos, cá em casa, duas versões da Bíblia, uma portuguesa e uma alemã. Numa das suas passagens mais conhecidas, a tradução não coincide a 100%, um aspecto, aliás, frequente. A tradução da Bíblia é um processo contínuo e há quase tantas versões, como publicações. Neste caso, acho que a pequena divergência faz mesmo a diferença.
Na portuguesa leio:
Deixai vir a Mim as criancinhas, não as afasteis, pois a elas pertence o reino de Deus. - Mc 10, 14b
Na alemã:
Deixai vir a mim as crianças; não as impeçais! Pois a pessoas como elas pertence o reino de Deus.
(no original: Lasst die Kinder zu mir kommen; hindert sie nicht daran! Denn Menschen wie ihnen gehört das Reich Gottes. - Mk 10, 14b).
Ora, se a diferença nas expressões "não as afasteis"/"não as impeçais", se revela irrelevante, o mesmo não acontece em "a elas pertence o reino de Deus"/"a pessoas como elas pertence o reino de Deus".
No primeiro caso, é-se levado a pensar que, para quem não é criança, a mensagem perde importância. Gera, apenas, condescendência por parte dos adultos perante as crianças, na pior das hipóteses, indiferença: para quê preocuparmo-nos com elas, se estão nas mãos de Deus?
No segundo caso, diz-se directamente que os adultos devem ser como as crianças. É uma diferença abismal, que influencia o nosso comportamento de maneira bem diversa.
Preservemos, pois, o nosso lado infantil e deixemo-lo actuar, sempre que tivermos possibilidade!
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