Continuando o assunto iniciado no post anterior, tratemos agora da tão apreciada «atmosfera do romance histórico», com incidência na época medieval, pois é sobre ela que escrevo. Yourcenar (citada por Orhan Pamuk) chamou a atenção para o facto de a linguagem usada antes do século XX não ter sido gravada. E eu acrescento: nenhuma cena foi fotografada. Também pouco sabemos àcerca do quotidiano medieval e nunca viremos a saber.
O Prof. Mattoso chama-nos a atenção para o facto de aquilo sobre o que se escreve
não ser, necessariamente, aquilo que se pratica. Para uma época como a Idade Média, há que
contar com uma grande discrepância entre os registos que chegaram até
aos nossos dias e a vida real das pessoas.
Para dar um exemplo: por se explicitar, nas cantigas de amor, uma certa forma de amar, não quer dizer que assim fosse. Quer, sim, dizer como deveria ser - o modelo. Não esqueçamos que D. Dinis compôs diversas dessas cantigas, onde fazia a apologia do amor platónico, mas, na prática, apreciava mais o amor físico. E, se tivermos em conta que o rapto era um costume muito disseminado entre a nobreza (ou seja, muitos nobres, não tendo a concordância da família de uma donzela para casar com ela, não hesitavam em raptá-la), constatamos a discrepância entre a teoria e a prática.
Por outro lado, havia uma outra grande discrepância: entre o comportamento da nobreza e o do povo, que constituía mais de 95% da população. O Prof. Mattoso refere no seu livro Naquele Tempo que a virgindade feminina não era importante entre o povo, nem sequer o casamento religioso, que raramente acontecia. Não esqueçamos que os clérigos eram das poucas pessoas que sabiam ler e escrever. Se escreviam textos onde faziam a apologia de certos dogmas, é preciso notar que: primeiro, o povo não estava em condições de ler esses textos e, segundo, não havia quem os contradissesse na forma escrita, a fim de deixar fontes, para a posteridade, com outro tipo de opiniões e convicções.
Além disso, há assuntos pouco abordados, nas fontes medievais, como a homossexualidade, tanto masculina, como feminina. E havia grandes diferenças regionais nos costumes e tradições, ou seja, aquilo que era aceitável numa terra, poderia ser considerado absurdo noutra. Por isso, é um grande erro usar um único modelo para o comportamento medieval, tanto a nível de espaço, como a nível de tempo. Não esqueçamos que a expressão "Idade Média" engloba cerca de mil anos da História da Humanidade.
Claro que há certos aspetos que nos ajudam a criar uma atmosfera medieval: as pessoas aqueciam-se à lareira e usavam a luz das velas para iluminar as casas; as comunicações à distância, quando existiam, eram difíceis, nunca se sabia se uma carta chegava ao seu destino (não esquecendo que só o clero e a nobreza comunicavam por carta); a riqueza media-se pela quantidade de terras, cavalos e restante gado; dominava, nas povoações, o cheiro a dejetos, pois não havia instalações sanitárias, nem serviço de recolha de lixos, etc. Mas, na verdade, tirando estes aspetos do conhecimento geral, pouco mais podemos dizer sobre o comportamento e a atmosfera medievais. Resta-nos usar a imaginação.
Relembro a frase com que o Prof. José Mattoso inicia a biografia de D. Afonso Henriques: Não
é preciso ser historiador profissional para perceber que não se pode
traçar a biografia de uma personagem medieval sem uma grande dose de
imaginação.
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17 de outubro de 2012
15 de outubro de 2012
Da linguagem no romance histórico
Quando se fala sobre a linguagem do romance histórico, muita gente apelida de "anacronismo" o facto de pôr pessoas da Idade Média a falarem como nos nossos dias.
Eu discordo!
Porquê? Porque o romance histórico é sempre uma "tradução"!
A fim de melhor expor o meu ponto de vista, começo por citar o escritor nobelizado Orhan Pamuk, num excerto do livro sobre o qual dei minha opinião:
O facto de, como diz Yourcenar, a linguagem de todos os dias não ter sido gravada antes do aparecimento do romance, leva-nos a pensar no absurdo, ou mesmo na impossibilidade do que é designado por «romance histórico». Quando se refere ao «inevitável simplismo» dos romances históricos e à ingenuidade dos seus leitores, Henry James não estava a falar só de palavras, mas também da dificuldade em penetrar no espírito de uma época muito diferente da nossa. Quando eu estava a escrever o meu romance histórico O Meu Nome É Vermelho, tinha consciência de que, ao ler meticulosamente os documentos relativos à corte otomana, registos de negócios e documentos públicos, a fim de encontrar elementos precisos sobre a vida quotidiana da época, isso não bastaria para ultrapassar o abismo que me separava dela e compreender profundamente essa época. Decidi então revelar e até exagerar os aspetos concretos e evitar a especulação interpretativa sobre a linguagem corrente, o diálogo praticado quotidianamente no século dezasseis, em Istambul, elemento que, de facto, desconhecemos.
Desconhecemos o diálogo praticado quotidianamente no século XVI, em Istambul. Como desconhecemos o diálogo praticado quotidianamente nos séculos XII e XIII, em Portugal. Desconhecemos e é impossível virmos, algum dia, a conhecer. Como disse Yourcenar, citada por Orhan Pamuk, essa linguagem não foi gravada. Somos forçados a "traduzir" aquilo que julgamos que as pessoas sentiram e disseram. E, ao fazer uma tradução, o melhor é usar uma linguagem que toda a gente entenda!
Claro que devemos, tanto quanto for possível, tentar transmitir um pouco da atmosfera da época (ou, pelo menos, aquilo que julgamos que o tivesse sido). Mas passar para os diálogos expressões que se leem em textos e crónicas antigas é um método muito discutível. Além de dificilmente dar um retrato fiel, dificulta muito a compreensão do texto.
Como diz o Prof. José Mattoso, aquilo que sabemos da Idade Média é-nos dado através de documentos oficiais, redigidos por uma elite. Mas não era assim que as pessoas falavam, nem sequer os nobres, nem sequer o rei. Hoje em dia, também não falamos uns com os outros como se estivéssemos a redigir uma certidão, ou a fazer um requerimento. Se não houvesse gravações, daqui a 500 anos ainda nos punham a despedirmo-nos (oralmente) de um amigo deste modo: "confiando na resolução pronta deste meu problema, despeço-me, com os meus melhores cumprimentos".
Usar expressões das cantigas de amigo e de amor, para declarações de amor, ou situações românticas, também não será boa ideia, pois os poemas não costumam imitar a linguagem do dia-a-dia. A não ser que a personagem cite alguma cantiga que conheça, mas, nesse caso, é aconselhável que o refira.
Eu discordo!
Porquê? Porque o romance histórico é sempre uma "tradução"!
A fim de melhor expor o meu ponto de vista, começo por citar o escritor nobelizado Orhan Pamuk, num excerto do livro sobre o qual dei minha opinião:
O facto de, como diz Yourcenar, a linguagem de todos os dias não ter sido gravada antes do aparecimento do romance, leva-nos a pensar no absurdo, ou mesmo na impossibilidade do que é designado por «romance histórico». Quando se refere ao «inevitável simplismo» dos romances históricos e à ingenuidade dos seus leitores, Henry James não estava a falar só de palavras, mas também da dificuldade em penetrar no espírito de uma época muito diferente da nossa. Quando eu estava a escrever o meu romance histórico O Meu Nome É Vermelho, tinha consciência de que, ao ler meticulosamente os documentos relativos à corte otomana, registos de negócios e documentos públicos, a fim de encontrar elementos precisos sobre a vida quotidiana da época, isso não bastaria para ultrapassar o abismo que me separava dela e compreender profundamente essa época. Decidi então revelar e até exagerar os aspetos concretos e evitar a especulação interpretativa sobre a linguagem corrente, o diálogo praticado quotidianamente no século dezasseis, em Istambul, elemento que, de facto, desconhecemos.
Desconhecemos o diálogo praticado quotidianamente no século XVI, em Istambul. Como desconhecemos o diálogo praticado quotidianamente nos séculos XII e XIII, em Portugal. Desconhecemos e é impossível virmos, algum dia, a conhecer. Como disse Yourcenar, citada por Orhan Pamuk, essa linguagem não foi gravada. Somos forçados a "traduzir" aquilo que julgamos que as pessoas sentiram e disseram. E, ao fazer uma tradução, o melhor é usar uma linguagem que toda a gente entenda!
Claro que devemos, tanto quanto for possível, tentar transmitir um pouco da atmosfera da época (ou, pelo menos, aquilo que julgamos que o tivesse sido). Mas passar para os diálogos expressões que se leem em textos e crónicas antigas é um método muito discutível. Além de dificilmente dar um retrato fiel, dificulta muito a compreensão do texto.
Como diz o Prof. José Mattoso, aquilo que sabemos da Idade Média é-nos dado através de documentos oficiais, redigidos por uma elite. Mas não era assim que as pessoas falavam, nem sequer os nobres, nem sequer o rei. Hoje em dia, também não falamos uns com os outros como se estivéssemos a redigir uma certidão, ou a fazer um requerimento. Se não houvesse gravações, daqui a 500 anos ainda nos punham a despedirmo-nos (oralmente) de um amigo deste modo: "confiando na resolução pronta deste meu problema, despeço-me, com os meus melhores cumprimentos".
Usar expressões das cantigas de amigo e de amor, para declarações de amor, ou situações românticas, também não será boa ideia, pois os poemas não costumam imitar a linguagem do dia-a-dia. A não ser que a personagem cite alguma cantiga que conheça, mas, nesse caso, é aconselhável que o refira.
24 de maio de 2012
A Moura em alemão
Deu-me um trabalhão, mas consegui traduzir A Cruz de Esmeraldas para alemão. O meu marido teve de ajudar, porque o alemão é uma língua desgraçada. Mesmo depois de 20 anos de Alemanha (e uma licenciatura em Estudos Ingleses e Alemães) ainda não consigo escrever isenta de erros!
Mas o Horst não só corrigiu o texto, como modificou a capa, para que eu possa pôr o romance como ebook à disposição. Descubra as diferenças:
Dei-lhe o título original: A Moura e o Cruzado. Para já, só parentes, amigos e conhecidos me farão o favor de descarregar (e talvez ler) este livro.
Se alguém conhecer alguém que queira ler o livro em alemão, pode fazer o download aqui.
Mas o Horst não só corrigiu o texto, como modificou a capa, para que eu possa pôr o romance como ebook à disposição. Descubra as diferenças:
Dei-lhe o título original: A Moura e o Cruzado. Para já, só parentes, amigos e conhecidos me farão o favor de descarregar (e talvez ler) este livro.
Se alguém conhecer alguém que queira ler o livro em alemão, pode fazer o download aqui.
21 de setembro de 2011
Do trabalho de escrever um romance histórico
Felizmente, vai havendo escritores que mostram todo o trabalho que se esconde por detrás de um romance histórico. Estou a falar do cubano Leonardo Padura, que deu uma entrevista à Ípsilon no passado mês de Abril, a propósito do seu livro O Homem que gostava de Cães (Porto Editora 2011).
Deixo aqui as suas palavras:
"Passei dois anos a investigar, não fazia mais nada. Li muito, sistematizei o meu conhecimento e quando já tinha capacidade para poder movimentar as personagens na história comecei a escrever. Isso aconteceu três anos antes de terminar o romance." (a escrita levou todo este tempo porque o autor não deixou de pesquisar e ia encontrando novas informações, que se via obrigado a incluir no enredo já existente).
(Leonardo Padura) gosta de utilizar a História como componente da ficção porque acredita que "a ficção é capaz de realçar a parte mais dramática da História" (...) "É muito complicado escrever romances históricos no sentido em que os acontecimentos da realidade têm a sua própria dramaturgia e os acontecimentos da literatura têm de ter a sua - que é diferente. Têm leis diferentes. A realidade é realidade, a ficção é ficção, e comportam-se de maneiras dramaticamente diferentes. É complicado tratar o romance histórico tentando ter um respeito pelos factos reais."
Muitos escritores dizem que os seus livros acabam por seguir um rumo diferente daquele que tinham planeado, porque, tanto as personagens, como o enredo, ganham vida própria. Também me acontece. Mas, ao escrever um romance histórico, temos de desenvolver uma grande disciplina, a fim de nos cingirmos aos factos. É necessário seguir um "guião" já existente e precisamos de força para nos despedirmos de ideias geradas pela dinâmica do romance e regressar à linha ditada pela História. Existe a obrigatoriedade de nos adaptarmos a personagens que não foram criadas por nós e do esforço de coordenação das pesquisas, construindo um enredo credível, lógico e susceptível de criar dramatismo e suspense.
Ao ler as palavras de Leonardo Padura, lembrei-me das da autora brasileira Patrícia Melo. Deu uma entrevista à OML nº 83, no já longínquo Janeiro de 2010, mas eu apontei uma das suas afirmações e cito-a aqui, pois, embora pronunciadas num contexto diferente, no seu princípio, podem aplicar-se à escrita de um romance histórico:
"Hoje, tenho medo de fazer adaptações. O fato de já haver uma história e personagens pode dar a ilusão de que o trabalho será mais fácil. Mas é muito mais fácil trabalhar com histórias originais".
Em Espanha, existe o Premio de Novela Histórica Alfonso X El Sabio, que, todos os anos, distingue uma obra de ficção histórica. Para quando, em Portugal, um país com uma História tão rica, tal reconhecimento e incentivo para quem se dedica a este tipo de literatura?
24 de julho de 2011
A Cruzada das Crianças
A minha última leitura de ficção foi um romance histórico em língua alemã, que não está traduzido em português. Resolvi, mesmo assim, referi-lo aqui, porque foca um tema pouco conhecido, a Cruzada das Crianças, um acontecimento envolvido em lendas, sendo difícil separar a realidade da ficção.
No ano de 1212, dois grupos de dezenas de milhares de crianças, um em França e outro na Alemanha, fizeram-se ao caminho, em direcção à Terra Santa, a fim de libertarem Jerusalém apenas com a força das suas preces, que iriam converter os infiéis!
As origens destes movimentos permanecem na penumbra, diz-se que várias crianças, na solidão do seu ofício de pastoras, foram abordadas por anjos, ou pelo próprio Cristo, que as predispuseram a iniciar a aventura, prometendo-lhes que, assim que chegassem ao Mar Mediterrâneo, este se abriria, como aconteceu a Moisés, na Bíblia, permitindo-lhes caminhar até à Terra Santa!
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| A Cruzada das Crianças, por Gustave Doré |
Recordemos que, na Idade Média, havia muita pobreza e miséria, o povo analfabeto agarrava-se a todas as promessas de uma vida melhor. As crianças vindas de Colónia e outras partes da Alemanha, guiadas por um miúdo-profeta, que teria tido a visita de um desses enviados de Deus, aventuraram-se pelos Alpes, sem qualquer tipo de meios. Claro que a maior parte morreu de fome, exaustão, ou congelada, muitas delas caíram em precipícios.
Também é claro que o Mediterrâneo não se dividiu. Terá havido, então, tentativas de arranjar embarcações, que levassem as crianças que ainda resistiam até à Palestina. Os únicos marinheiros que se dispuseram a transportá-las de graça eram piratas sem escrúpulos, que as venderam como escravas, em Alexandria.
Apesar do tema, o romance não me impressionou. Houve partes que me empolgaram, outras, que me desiludiram, pelas ingenuidade e facilidade na resolução de conflitos. Além disso, não me agradou que a autora responsabilizasse os franciscanos pela iniciação da Cruzada (seriam eles que estariam por trás das "aparições"), seguindo a tese de um historiador, Thomas Ritter, que ela, aliás, tem o cuidado de designar, num posfácio, como sendo polémica. Seguindo esta linha, há uma cena final, em que São Francisco de Assis nos é apresentado como um fanático sem escrúpulos, totalmente alheio à realidade, defendendo a justeza da iniciativa (mesmo depois de terem acontecido as desgraças). Enfim, não me pareceu verosímil.
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12 de julho de 2011
Opinião Afonso Henriques II
Este livro é um verdadeiro exemplo do que deve ser um romance histórico porque consegue construir uma dramatização dos factos sem manchar a verdade histórica, ao mesmo tempo que revela uma especial sensibilidade na abordagem da dimensão psicológica na caracterização dos personagens.
Estas palavras são da autoria de Manuel Cardoso. Ele caracteriza a minha escrita como sendo "cinematográfica" (obrigada, essa foi mesmo uma opção que tomei, como escritora) e elogia a minha sensibilidade para compreender e exprimir a alma humana; os seus personagens são tão “humanos” que o leitor se envolve com eles, vivendo as suas paixões, o seu sofrimento e as suas alegrias.
O constatar que os meus objectivos foram atingidos, que a "mensagem passou", é uma das melhores recompensas que me podem dar, o verificar que valeu a pena, mesmo se, muitas vezes, pensei em desistir, na altura em que coleccionava recusas de editoras. E, mesmo que não tenha vendido muito até agora (deste romance venderam-se cerca de 2000 exemplares), depois de ler linhas destas, fico com a certeza de que o esforço compensou. E crio motivação para continuar a escrever.
Mais alguns excertos da opinião do Manuel Cardoso:
Ao longo de toda a obra, CT desfaz-nos vários pré-conceitos, herdados do senso comum e de tradições literárias e cinematográficas.
Em relação a alguns aspectos mais controversos da vida de AH, em que a historiografia não dá respostas definitivas, CT contorna-os habilmente: o local de nascimento de AH, a localização exacta da batalha de S. Mamede ou a “prisão” de D. Teresa no Castelo de Lanhoso.
Outro aspecto muito importante, muito bem explanado por CT é este: o nascimento de Portugal está umbilicalmente ligado à afirmação da diocese de Braga face a Santiago de Compostela e a Toledo, capital hispânica da cristandade. Ao longo do livro é notória a influência do arcebispo de Braga, D. João Peculiar.
Não é difícil perceber que considero esta obra brilhante! Mas gostava de finalizar este comentário com a referência a um episódio que bem demonstra o espírito da obra e que é, a meu ver, um dos pontos mais altos da narrativa: o momento em que Afonso Henriques, gravemente ferido no desastre de Badajoz, é assistido por um brilhante físico (médico) muçulmano. Nesse momento, AH reconhece o absurdo da guerra religiosa, comprometendo-se perante a sua consciência a respeitar a população muçulmana.
Em Dos Meus Livros pode-se naturalmente ler a opinião completa.
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23 de junho de 2011
Comentários à Entrevista
Nos comentários à minha entrevista, no Destante, ficou mais uma vez provado que o romance histórico é, injustamente, pouco explorado em Portugal. Como antónio ganhão - o implume vem dizendo, aqui no Andanças (e reiterou no Destante) na nossa História ainda impera a visão transmitida pelo Estado Novo. Manuel Cardoso aproveita a tirada e lembra que os nossos reis eram pessoas como nós. Não há seres humanos diferentes só por terem uma coroa na cabeça ou por constarem dos livros mais ou menos catequéticos que se escreveram nesse período tão negro da nossa história.
O facto de haver poucos autores a dedicarem-se a este tipo de literatura tem, como consequências, que os leitores portugueses se dediquem aos romances históricos estrangeiros e que sejam autores igualmente estrangeiros a escrever sobre a História de Portugal.
Comentário de Ana C. Nunes: Estranhamente tenho a ideia de que há muita gente em Portugal que gosta de ler romances históricos, mas talvez não sejam romances históricos sobre a história portuguesa.
Comentário de Luís Miguel: Acho que fazem falta mais autores portugueses a escrever romances históricos, principalmente sobre a nossa História, de que não nos podemos deixar de orgulhar. Pessoalmente, é o meu género favorito e fico orgulhoso quando leio livros de autores estrangeiros que mencionam factos sobre a nossa História.
Comentário de Luís Miguel: Acho que fazem falta mais autores portugueses a escrever romances históricos, principalmente sobre a nossa História, de que não nos podemos deixar de orgulhar. Pessoalmente, é o meu género favorito e fico orgulhoso quando leio livros de autores estrangeiros que mencionam factos sobre a nossa História.
O Manuel Cardoso, que conduziu a entrevista, lembra ainda, numa das perguntas, que foi com um romance histórico que se projectou o nosso Prémio Nobel, José Saramago.
Há várias maneiras de escrever e abordar o romance histórico: com mais ou menos ficção; dando mais relevo a certos factos do que a outros; partindo dos factos históricos para desenvolver um mistério, ou mesmo, uma fantasia; dando mais relevo à parte humana, em detrimento dos acontecimentos, etc. A literatura anda muitas vezes ligada ao cinema e eu posso dizer que me apaixonei pela narrativa histórica com o filme Amadeus. Foi, na altura, aliás, muito criticado, por Milos Forman dar uma versão da vida de Mozart que nada teria a ver com a realidade. Que interessa isso? Trata-se de uma ficção, o filme é soberbo e eu, além de ficar fascinada com aquele tipo de enredo, fiquei fã da música de Mozart, que, até aí, mal conhecia.
Além disso, não precisamos de nos cingir às personagens e aos heróis conhecidos. Como fez Saramago, podemos focar a vida de pessoas "comuns", num determinado contexto histórico. Estou a preparar a escrita de um romance que transmita o impacto que acontecimentos como a Batalha de Ourique e o Cerco de Lisboa causaram no reino que se estava a formar. Principalmente este último acontecimento terá provocado uma verdadeira revolução no Portugal jovem, quando circulou a notícia de que cruzados estrangeiros vinham ajudar D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa. Milhares de pessoas deslocaram-se, a partir do que hoje é o Norte do país, em direcção àquela que viria a ser a nossa capital. Não só guerreiros se aventuraram, outros homens, juntos com mulheres e crianças, não esquecendo os prelados, partiram em busca de melhores perspectivas. No século XII, abundavam aqueles que nada tinham a perder em deixar a terra que os vira nascer, na esperança de alcançarem riquezas. Muitos viajaram de barco, junto com os cruzados, a partir do Porto, mas outros terão ido a pé, pela antiga estrada romana, que, de Braga, passava no Porto, Coimbra e Santarém, até Lisboa. É minha intenção apresentar esses acontecimentos sob a perspectiva de quem os viveu de perto, de quem sentiu essa esperança de uma mudança de vida.
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| O Cerco de Lisboa, por Roque Gameiro |
Há várias maneiras de abordar e escrever um romance histórico. O problema é que, enquanto os autores forem poucos, as alternativas escasseiam...
20 de junho de 2011
Catarina de Bragança
Comecei a ler este livro com grande expectativa. Não só a autora é conhecida, como trata da vida de uma mulher que fez História, caso raro, infelizmente, em tempos idos.
O sub-título, "A coragem de uma infanta portuguesa que se tornou rainha de Inglaterra", também me cativou. Aqui está uma mulher de armas, pensei eu, que enfrenta o desconhecido.
O desconhecido, ela enfrentou, mas apenas por não ter escolha. Coragem? Isabel Stilwell dá-nos a imagem de uma mulher muito submissa. Embora se refira, várias vezes, que Catarina tinha poder de decisão, esse, infelizmente, pouco nos é mostrado por acções da própria, que se limita a suportar o sofrimento que lhe causa um marido infiel, que ela ama. Além disso, é dado pouco relevo aos hábitos que ela introduziu na corte inglesa, como o do chá e do doce de laranja, características, hoje, tipicamente inglesas.
O carácter de Charles II de Inglaterra é, a meu ver, um problema. Tanto é amoroso e atencioso com a sua esposa, a ponto de se sentar à sua cabeceira, horas a fio, quando ela está doente, como a sujeita às maiores humilhações, por exemplo, entrar de braço dado com uma das suas amantes, numa festa da corte, com a rainha sentada no trono. Catarina desmaia. E, depois de recobrar a consciência, só pensa na vergonha que a mãe dela sentirá, se vier a saber do percalço!
As situações humilhantes são frequentes, como o prova uma frase, já para o final do romance: Mais uma vez, Charles não tivera a menor consideração pelos seus sentimentos, nem sequer o respeito mínimo exigido a uma esposa (pág. 482).
Como explicar, então, a ironia suprema de um pensamento de Charles, depois de 17 anos de casamento, quando Catarina, através de intrigas, é envolvida em tentativas de assassínio do rei: O rei olhou-a de soslaio, cheio de pena: que mais teria de sofrer esta pobre mulher, que todos tinham tratado tão mal desde que há 17 anos desembarcara em Portsmouth? (pág. 558). Então, não foi ele quem a fez sofrer mais?
Era impossível não ter pena desta portuguesinha, sempre tão corajosa, sempre tão disposta a culpar-se a si mesma e a desculpar os outros (pág. 424, opinião de lady Suffolk, uma das amigas da rainha). Esta pena da portuguesinha é uma constante. É verdade que as mulheres, naquela altura, eram submissas. Mas uma heroína de romance, uma portuguesa que se tornou rainha de Inglaterra, não deveria oferecer mais ao leitor, do que ser objecto da pena de todos?
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2 de junho de 2011
O Livro de Cale
Uma das razões porque mal posso esperar pela minha ida à Feira do Livro do Porto:
Não sabia da existência deste livro (de capa excelente), até há cerca de dois meses, ao ler sobre ele, aqui. Dedica-se aos jogos de poder no Condado de Portucalense, muito antes de D. Afonso Henriques e mesmo de D. Teresa. Porque, para a constituição da nacionalidade portuguesa (...) foi também importante a contribuição de um grupo de poderosos infanções que ao longo do século X e XI, cimentou uma posição política e social... (Clique, para ler mais).
Estou com vontade de me dedicar a esta época, onde assentam os fundamentos da obra construída pelo nosso primeiro rei. Também me seduz muito a Lenda de Gaia ou do Rei Ramiro. Digam lá que não são assuntos para belos romances históricos! Tem de ser sempre o Rei Artur, ou Ricardo Coração de Leão?
Não sabia da existência deste livro (de capa excelente), até há cerca de dois meses, ao ler sobre ele, aqui. Dedica-se aos jogos de poder no Condado de Portucalense, muito antes de D. Afonso Henriques e mesmo de D. Teresa. Porque, para a constituição da nacionalidade portuguesa (...) foi também importante a contribuição de um grupo de poderosos infanções que ao longo do século X e XI, cimentou uma posição política e social... (Clique, para ler mais).
Estou com vontade de me dedicar a esta época, onde assentam os fundamentos da obra construída pelo nosso primeiro rei. Também me seduz muito a Lenda de Gaia ou do Rei Ramiro. Digam lá que não são assuntos para belos romances históricos! Tem de ser sempre o Rei Artur, ou Ricardo Coração de Leão?
3 de maio de 2011
Onde Vais, Isabel?
Este foi o segundo livro que li de Maria Helena Ventura, depois de Afonso, o Conquistador. Gostei mais deste, a linguagem não é tão densa, adquiriu uma leveza que torna a leitura mais fluente.
Também é interessante escrever sobre a vida da Rainha Santa sob a perspectiva de um seu servidor, que vem com ela de Aragão e com direito a enredo próprio. Por outro lado, isso afasta o leitor da personagem principal, ou põe-nos na dúvida: qual será ela? Acabamos por nos identificar mais com o servidor aragonês, passando a rainha para segundo plano. A partir do título, eu esperava entrar mais nos pensamentos e nas motivações de D. Isabel.
De resto, é um romance que nos dá imagens vivas da Idade Média. E a qualidade da escrita de Maria Helena Ventura é indiscutível. A aconselhar, sem dúvida.
Uma palavra para a capa, de que gosto muito.
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25 de abril de 2011
Romance Histórico na 100ª Mensagem
Decidi assinalar esta pequena efeméride: a publicação do post nº 100 (para quem não sabe, o blogger chama mensagens aos posts), com um dos meus temas favoritos: o romance histórico. Apesar de recentes edições, continua a ser pouco publicado no nosso país. Para vos mostrar do que falo, convido-vos a ver estas fotografias, tiradas na livraria Thalia, de Stade, a cidade onde vivo. Thalia é uma grande rede alemã de livrarias, o estabelecimento em causa é relativamente pequeno. Stade, com os seus 40 000 habitantes, estará ao nível de algumas capitais de distrito portuguesas. Mas reparem nas quantidades de livros em exposição num único escaparate:
E se eu vos disser que estas fotografias se resumem à oferta de romances históricos? É verdade! Trata-se do escaparate reservado a este tipo de literatura.
A maior parte destes romances são de autores alemães, os traduzidos resumem-se praticamente aos de língua inglesa. Mas há outros que conseguem furar neste mercado, nomeadamente, os de língua castelhana, como Ildefonso Falcones.
Não era bom que também houvesse um ou outro português, pelo meio? Para isso, era necessário que mais autores (conhecidos ou novos) se dedicassem a este tipo de escrita. Uma boa ideia de incentivo seria a criação de um Prémio Literário para o romance histórico, à semelhança do que acontece em Espanha, com o seu Prémio Alfonso X.
Além deste escaparate, há uma secção de prateleiras reservada aos super best-sellers, ou publicações "fresquinhas".
À laia de curiosidade, conto como consegui tirar estas fotografias. Quando fui ter com um dos funcionários, a perguntar se podia usar a minha máquina dentro da livraria, levei logo com uma recusa. Enquanto ponderava se devia insistir, explicando as minhas razões, o livreiro facilitou a tarefa, perguntando por elas. Quando lhe disse que também publicava livros em Portugal e queria usar as fotografias no meu blogue, ele mudou de ideias. Até vieram algumas colegas dele falar comigo, perguntar-me sobre o que eu escrevia. Acabaram todos a ser muito simpáticos, deram-me os parabéns e deixaram-me o caminho livre :-)
E se eu vos disser que estas fotografias se resumem à oferta de romances históricos? É verdade! Trata-se do escaparate reservado a este tipo de literatura.
A maior parte destes romances são de autores alemães, os traduzidos resumem-se praticamente aos de língua inglesa. Mas há outros que conseguem furar neste mercado, nomeadamente, os de língua castelhana, como Ildefonso Falcones.
Não era bom que também houvesse um ou outro português, pelo meio? Para isso, era necessário que mais autores (conhecidos ou novos) se dedicassem a este tipo de escrita. Uma boa ideia de incentivo seria a criação de um Prémio Literário para o romance histórico, à semelhança do que acontece em Espanha, com o seu Prémio Alfonso X.
Além deste escaparate, há uma secção de prateleiras reservada aos super best-sellers, ou publicações "fresquinhas".
À laia de curiosidade, conto como consegui tirar estas fotografias. Quando fui ter com um dos funcionários, a perguntar se podia usar a minha máquina dentro da livraria, levei logo com uma recusa. Enquanto ponderava se devia insistir, explicando as minhas razões, o livreiro facilitou a tarefa, perguntando por elas. Quando lhe disse que também publicava livros em Portugal e queria usar as fotografias no meu blogue, ele mudou de ideias. Até vieram algumas colegas dele falar comigo, perguntar-me sobre o que eu escrevia. Acabaram todos a ser muito simpáticos, deram-me os parabéns e deixaram-me o caminho livre :-)
10 de abril de 2011
O Templário d'el-Rei
O ponto forte deste romance, do historiador António Balcão Vicente, é a caracterização da Idade Média, mais precisamente, o final do século XIII. O autor é conhecedor dos ritos e da filosofia dos Templários, dá-nos uma excelente descrição de um séquito real e dos festejos do Espírito Santo e refere a vida eremítica, tão apreciada naquele tempo, além de nos pôr a par de diversos usos e costumes, como as ervas usadas nas diversas doenças.
A competência de António Balcão Vicente é indiscutível, mas confesso que esperava mais de um romance. A ideia inicial é excelente: uma mulher morre ao dar à luz uma menina, clandestinamente, pois o pai é um cavaleiro Templário aragonês, obrigado ao voto da castidade. A recém-nascida é posta aos cuidados, primeiro, de um casal sem filhos e, com apenas um ano, entregue a um convento. O leitor fica na expectativa: que futuro para essa menina? Com que conflitos se debaterá? Saberá, algum dia, quem são os seus pais? O enredo, porém, centra-se nas reflexões do Templário e nas conversas que ele tem com o seu escudeiro, a par das descrições das suas viagens e das outras já mencionadas. O leitor torna a ganhar uma certa esperança, quando a menina, alguns anos mais tarde, trava amizade com Isabel de Aragão, também criança, essa mesma, que há-de casar com D. Dinis. Mas também essa amizade só nos é referida, não desenvolvida.
Pouco depois do nascimento da filha, o Templário entra ao serviço de Pedro II de Aragão e acaba por vir para Portugal, no séquito de D. Isabel. Também a sua filha faz parte dele, um segredo que o cavaleiro guarda no seu peito. Nem a própria, nem ninguém, o vem a saber. Não há acontecimentos inesperados, declarações explosivas, escândalos, ou tragédias, ou seja, tudo aquilo que faz um romance interessante.
Não é, por isso, leitura de entretenimento, o ritmo é lento, por vezes, mesmo exaustivo. Adequado para quem se interesse muito pela época medieval, os Templários, a vida eremítica e a temática do Espírito Santo.
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2 de fevereiro de 2011
Quando Lisboa Tremeu
Uma boa ideia, já cá faltava um romance que desse a dimensão da tragédia. Gostaria, no entanto, de fazer um reparo, algo que me irritou durante toda a leitura.
É verdade que um inglês, por mais tempo que viva em Portugal, nunca conseguirá falar Português correcto. E também é verdade que o Inglês se tornou numa língua universal.
Mas estamos no século XVIII! Gostava que me explicassem como é que um homem, que passa o tempo todo a dizer coisas do género: "Damn! Eu forgot que eles are coming", é entendido por uma escrava e mais uma data de gente que nunca aprendeu línguas!
Um doce a quem me der uma explicação verosímil!
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7 de janeiro de 2011
D. Dinis e D. Maria de Molina (II)
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D. Dinis estava ligado por estreitos laços de parentesco à família real castelhana. D. Afonso X o Sábio era seu avô e o sucessor D. Sancho IV seu tio, apesar de ser apenas quatro anos mais velho. D. Maria de Molina, da idade do rei português, era, portanto, a viúva do tio e o filho dela, com apenas 9 anos, primo de D. Dinis. Não admira, por isso, que o Rei Lavrador se visse envolvido nas lutas pela sucessão do trono castelhano.
O monarca português mudou várias vezes de campo, tanto apoiava o primo de 9 anos, que carecia de legitimação, como o tio D. Juan, irmão do monarca falecido. Os jogos políticos do costume, à espreita do local de onde soprassem os ventos favoráveis. D. Dinis apostaria, sobretudo, numa divisão entre Leão e Castela, que significaria um maior equilíbrio entre os reinos hispânicos.
Porém, sendo D. Maria de Molina uma mulher de excepção e D. Dinis um rei poeta e sedutor, não resisti à tentação de, no meu romance, estabelecer uma atracção entre os dois:
Maria de Molina não ostentava uma beleza submissa, como muito se apreciava nas mulheres. Era mais uma formosura majestática. Dinis comparou-a a Isabel, embora as duas fossem completamente diferentes. O encanto da rainha portuguesa residia na sua aura de espiritualidade, que a punha inatingível. A castelhana combinava inacessibilidade, dada pela nobreza da sua pose, com atracção física, nos seus traços voluptuosos. Aquela dualidade perturbava Dinis.
Um ano e meio depois da morte de D. Sancho IV, a causa de D. Maria de Molina e de seu filho parecia perdida, o próprio D. Jaime II de Aragão, cunhado de D. Dinis, apoiava os adversários da grande senhora. O Rei Lavrador chegou a entrar em Castela, em Setembro de 1296, à frente de um exército, com o fito de pôr cerco a Valhadolid.
O cerco, porém, nunca chegou a realizar-se, o exército de D. Dinis, que contava com as forças castelhanas e aragonesas, desintegrou-se. Dos motivos, pouco se sabe, hoje em dia. Terão havido desentendimentos, intrigas, negociações secretas...
É nestes casos que o/a romancista pode dar largas à imaginação. Eu inventei uma ida de D. Maria de Molina ao acampamento do exército português em segredo, disfarçada de guerreiro, na calada da noite, a fim de negociar com D. Dinis, ciente da atracção que exercia nele:
- Pedistes-me que desistisse das minhas intenções de montar cerco a Valladolid. E eu estou disposto a fazê-lo… Se atenderdes todas as minhas exigências.
Maria de Molina arqueou as sobrancelhas:
- Quereis dizer que tendes mais a exigir, além da promessa de casamento da infanta D. Constança com el-rei de Leão e Castela e da integração das vilas a leste do Guadiana em Portugal?
- De facto, minha senhora. Sabei que D. Juan, caso seja coroado rei de Leão, me prometeu Castelo Rodrigo, Alfaiates, Sabugal e outros lugares de Ribacoa!
Fixando Dinis irritada, Maria de Molina cruzou os braços, fazendo tilintar a cota de malha. Aquela atitude de desagrado dava-lhe, porém, ainda mais encanto. Dinis achou cativante como ela, esquecendo o peso da vestimenta, agia como se envergasse um dos seus habituais vestidos de seda. E a pequena ruga na sua testa mostrava a sua firmeza em defender os direitos do seu reino. Naquele momento, Dinis achou-a tão adorável, que quase se arrependeu de lhe ter mentido. Porque, afinal, o tio Juan ainda não lhe prometera nada!
É um facto que, além das vilas a leste do Guadiana (Moura, Mourão Serpa e Noudar), Castelo Rodrigo, Alfaiates, Sabugal e outros lugares de Ribacoa passaram a pertencer ao reino de Portugal, depois do Tratado de Alcañices, em Setembro de 1297.
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5 de janeiro de 2011
D. Dinis e D. Maria de Molina
As pesquisas necessárias à escrita de um romance histórico reservam-nos surpresas agradáveis, principalmente, quando se depara com uma personalidade que não se conhecia e que nos enche as medidas. Foi o que me aconteceu com D. Maria de Molina.
É do conhecimento geral que a Idade Média não era propícia às mulheres, vistas como seres menores, oprimidas, sem acesso à cultura e afastadas do poder. Mesmo assim, houve quem se conseguisse impor num mundo de homens. Na Península Ibérica, há vários exemplos, D. Teresa foi uma delas. Infelizmente, a nossa tradição vê-a como uma mãe desnaturada e mulher promíscua. No primeiro caso, porque foi adversária do próprio filho, o fundador de Portugal; no segundo, porque, depois de enviuvar, envolveu-se em aventuras amorosas com os dois irmãos Trava. Pouca gente se pergunta como conseguiu ela a proeza de se colocar à frente de um Condado. Dona de uma personalidade forte e de uma vontade indomável (aliás, como a da irmã D. Urraca; qualidades que, a meu ver, transmitiu ao filho Afonso), D. Teresa merecia mais estudos, mais livros, mais romances sobre ela.
D. Maria de Molina viu-se viúva à volta dos trinta anos, com sete filhos por legitimar (entre os 11 e 1 ano de idade). O seu casamento com el-rei D. Sancho IV de Leão e Castela nunca chegou a ser reconhecido pela Igreja, dado o parentesco entre os dois (que até nem era tão próximo como isso). À altura da morte do monarca, o varão mais velho, D. Fernando, contava 9 anos. Geraram-se lutas terríveis pela posse do trono, com os irmãos de D. Sancho IV à cabeça, pois recusavam-se a obedecer a uma "criança bastarda".
A causa de D. Maria de Molina e dos seus filhos parecia perdida. Mas ela surpreendeu tudo e todos. No meu romance, D. João Anes Redondo relata impressionado, ao seu monarca el-rei D. Dinis, o que presenciou em Valhadolid:
De facto! Além de exercer uma primeira regência, enquanto esperava pela maioridade do filho, a rainha castelhana orientou-o durante o seu reinado e, como D. Fernando IV morreu cedo, ela exerceu uma segunda regência pelo neto, D. Afonso XI (que era igualmente neto de D. Dinis e D. Isabel). Esteve à frente dos destinos de Leão e Castela durante mais de vinte anos, apesar dos obstáculos que lhe surgiram, pois nem todos os nobres viam com bons olhos tal protagonismo por parte de uma mulher.
Continuarei com este tema.
(Para ler mais excertos do romance clicar na etiqueta Citando o Lavrador)
É do conhecimento geral que a Idade Média não era propícia às mulheres, vistas como seres menores, oprimidas, sem acesso à cultura e afastadas do poder. Mesmo assim, houve quem se conseguisse impor num mundo de homens. Na Península Ibérica, há vários exemplos, D. Teresa foi uma delas. Infelizmente, a nossa tradição vê-a como uma mãe desnaturada e mulher promíscua. No primeiro caso, porque foi adversária do próprio filho, o fundador de Portugal; no segundo, porque, depois de enviuvar, envolveu-se em aventuras amorosas com os dois irmãos Trava. Pouca gente se pergunta como conseguiu ela a proeza de se colocar à frente de um Condado. Dona de uma personalidade forte e de uma vontade indomável (aliás, como a da irmã D. Urraca; qualidades que, a meu ver, transmitiu ao filho Afonso), D. Teresa merecia mais estudos, mais livros, mais romances sobre ela.
D. Maria de Molina viu-se viúva à volta dos trinta anos, com sete filhos por legitimar (entre os 11 e 1 ano de idade). O seu casamento com el-rei D. Sancho IV de Leão e Castela nunca chegou a ser reconhecido pela Igreja, dado o parentesco entre os dois (que até nem era tão próximo como isso). À altura da morte do monarca, o varão mais velho, D. Fernando, contava 9 anos. Geraram-se lutas terríveis pela posse do trono, com os irmãos de D. Sancho IV à cabeça, pois recusavam-se a obedecer a uma "criança bastarda".
A causa de D. Maria de Molina e dos seus filhos parecia perdida. Mas ela surpreendeu tudo e todos. No meu romance, D. João Anes Redondo relata impressionado, ao seu monarca el-rei D. Dinis, o que presenciou em Valhadolid:
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- Numa das cenas mais admiráveis e mais impressionantes que eu presenciei, D. Maria de Molina, cheia de coragem e majestade, apresentou o filho de nove anos à assembleia ali reunida, convencendo o arcebispo de Toledo, os bispos e todos os nobres a jurarem fidelidade ao pequeno rei D. Fernando IV.
Dinis quedou-se estupefacto. Maria de Molina estava longe de ser uma viúva abandonada, com um rancho de filhos por legitimar. Uma mulher que se impunha num mundo dominado por homens! Ser-lhe-ia realmente possível tal proeza? De facto! Além de exercer uma primeira regência, enquanto esperava pela maioridade do filho, a rainha castelhana orientou-o durante o seu reinado e, como D. Fernando IV morreu cedo, ela exerceu uma segunda regência pelo neto, D. Afonso XI (que era igualmente neto de D. Dinis e D. Isabel). Esteve à frente dos destinos de Leão e Castela durante mais de vinte anos, apesar dos obstáculos que lhe surgiram, pois nem todos os nobres viam com bons olhos tal protagonismo por parte de uma mulher.
Continuarei com este tema.
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3 de janeiro de 2011
D. Dinis, o seu Aniversário e a Universidade Portuguesa
D. Dinis nasceu a 9 de Outubro de 1261, ou seja, em 2011 completam-se 750 anos sobre a data. Não sei se a efeméride passará despercebida, ou se se procederá a algum tipo de comemoração. A cidade de Coimbra teria boas razões para assinalar o acontecimento, mas, acima de tudo, Lisboa.
É curioso constatar que os dois reis mais significativos da nossa Idade Média estão, pela tradição, ligados às cidades "erradas". D. Afonso Henriques é identificado com Guimarães. Foi lá que ele assentou arraiais na sua juventude, talvez até lá tenha nascido (também aqui hei-de abordar a polémica do seu nascimento). A verdade, porém, é que foi em Coimbra que o primeiro rei estabeleceu a sua corte, fundando o mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz, no início dos anos 1130, data a partir da qual poucas vezes esteve em Guimarães, até à sua morte, em 1185 (são mais de cinquenta anos).
Por sua vez, a "cidade querida" de D. Dinis era Lisboa. Seu pai, D. Afonso III, foi o primeiro monarca a estabelecer a corte definitivamente na cidade junto à foz do Tejo.
A segunda cidade preferida de D. Dinis parece ter sido Santarém (que, à altura, era vila, por não ser assento episcopal) e só em terceiro lugar viria Coimbra (não esquecendo que Leiria contava igualmente entre as preferências do par real). Para a identificação da cidade junto ao Mondego com o Rei Lavrador contribuiu, acima de tudo, a sua esposa D. Isabel, que lá viveu recolhida, depois de enviuvar, no mosteiro de Santa Clara. E foi lá, nos Paços que a Rainha Santa habitou, que se deu a tragédia de Inês de Castro.
D. Dinis ficou conhecido, acima de tudo, por ter fundado a primeira Universidade Portuguesa, primeiramente apelidada de Estudo Geral e cujo verdadeiro berço foi a cidade de Lisboa. A esse propósito, cito, mais uma vez, o meu romance:
Decorria o ano de 1289. E só dezoito anos mais tarde o Estudo Geral seria transferido para Coimbra. Sobre as razões, pouco se sabe, fala-se em desentendimentos entre os estudantes e a população lisboeta, havendo, pelo meio, uma confusão com a Casa da Moeda, que D. Dinis instalou no edifício, em princípio, destinado ao Estudo Geral.
A polémica não ficou por aqui. No reinado do filho, D. Afonso IV, a Universidade tornou a ser transferida para Lisboa, regressando a Coimbra apenas em 1354, já reinava o neto D. Pedro I, quase trinta anos depois da morte de D. Dinis.
(Para ler mais excertos do romance clicar na etiqueta Citando o Lavrador).
É curioso constatar que os dois reis mais significativos da nossa Idade Média estão, pela tradição, ligados às cidades "erradas". D. Afonso Henriques é identificado com Guimarães. Foi lá que ele assentou arraiais na sua juventude, talvez até lá tenha nascido (também aqui hei-de abordar a polémica do seu nascimento). A verdade, porém, é que foi em Coimbra que o primeiro rei estabeleceu a sua corte, fundando o mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz, no início dos anos 1130, data a partir da qual poucas vezes esteve em Guimarães, até à sua morte, em 1185 (são mais de cinquenta anos).
| Claustro da Igreja de Santa Cruz de Coimbra |
Por sua vez, a "cidade querida" de D. Dinis era Lisboa. Seu pai, D. Afonso III, foi o primeiro monarca a estabelecer a corte definitivamente na cidade junto à foz do Tejo.
| Vista sobre o Tejo a partir do Castelo de S. Jorge |
A segunda cidade preferida de D. Dinis parece ter sido Santarém (que, à altura, era vila, por não ser assento episcopal) e só em terceiro lugar viria Coimbra (não esquecendo que Leiria contava igualmente entre as preferências do par real). Para a identificação da cidade junto ao Mondego com o Rei Lavrador contribuiu, acima de tudo, a sua esposa D. Isabel, que lá viveu recolhida, depois de enviuvar, no mosteiro de Santa Clara. E foi lá, nos Paços que a Rainha Santa habitou, que se deu a tragédia de Inês de Castro.
D. Dinis ficou conhecido, acima de tudo, por ter fundado a primeira Universidade Portuguesa, primeiramente apelidada de Estudo Geral e cujo verdadeiro berço foi a cidade de Lisboa. A esse propósito, cito, mais uma vez, o meu romance:
De facto, eram várias as matérias a considerar, por exemplo, a escolha de um local para o Estudo Geral. Dinis resolveu construir um edifício de raiz, onde funcionassem as aulas e onde se acomodassem os estudantes de poucas posses. O rei acabou por decidir instalar a instituição no Campo da Pedreira, abaixo do Mosteiro de São Vicente, junto à Lapa. O terreno pertencia ao capítulo da Sé de Lisboa, pelo que o monarca tencionava permutá-lo com as rendas de casas ou tendas que valessem por ano trinta e cinco libras. O Estudo Geral ficaria assim situado no extremo sudeste de Lisboa, nos limites das freguesias de Santo Estêvão de Alfama e de São Vicente de Fora.
| S. Vicente de Fora visto do Castelo de S. Jorge |
Decorria o ano de 1289. E só dezoito anos mais tarde o Estudo Geral seria transferido para Coimbra. Sobre as razões, pouco se sabe, fala-se em desentendimentos entre os estudantes e a população lisboeta, havendo, pelo meio, uma confusão com a Casa da Moeda, que D. Dinis instalou no edifício, em princípio, destinado ao Estudo Geral.
A polémica não ficou por aqui. No reinado do filho, D. Afonso IV, a Universidade tornou a ser transferida para Lisboa, regressando a Coimbra apenas em 1354, já reinava o neto D. Pedro I, quase trinta anos depois da morte de D. Dinis.
(Para ler mais excertos do romance clicar na etiqueta Citando o Lavrador).
20 de dezembro de 2010
D. Dinis e sua mãe
Os historiadores são peremptórios em afirmar que o relacionamento entre D. Dinis e sua mãe D. Beatriz não terá sido fácil nos primeiros meses de reinado do monarca, que tinha apenas dezassete anos. D. Beatriz estava habituada a participar na regência do reino, desde que o marido, D. Afonso III, adoecera. O velho rei teria mesmo aconselhado o seu herdeiro a continuar a apoiar-se na mãe.
Parece certo que se formou um conselho de regência, depois da morte de D. Afonso III. Escassos dois meses mais tarde, porém, esse conselho já não existia e nota-se o afastamento de D. Beatriz.
O jovem rei terá pretendido, desde o início, mostrar quem realmente mandava no reino, o que denota uma grande auto-estima, coragem e segurança por parte dele. Mas não terá sido fácil revelar as suas intenções à mãe. Aqui, uma passagem da discussão entre os dois:
(Ler outros extractos do romance na etiqueta Citando o Lavrador)
Parece certo que se formou um conselho de regência, depois da morte de D. Afonso III. Escassos dois meses mais tarde, porém, esse conselho já não existia e nota-se o afastamento de D. Beatriz.
O jovem rei terá pretendido, desde o início, mostrar quem realmente mandava no reino, o que denota uma grande auto-estima, coragem e segurança por parte dele. Mas não terá sido fácil revelar as suas intenções à mãe. Aqui, uma passagem da discussão entre os dois:
- Neste reino existe um soberano maior de idade, não há espaço para conselhos de regência.
A mãe olhou-o irritada, mas não respondeu logo, evitando precipitar-se, dizendo algo inconveniente. Ela bem sabia que já não tinha um infante à sua frente, mas um soberano. Finalmente, retorquiu:
- Sois rei, mas sois muito jovem. Além disso, sois meu filho, conheço-vos bem. Não duvido das vossas capacidades, sempre fostes inteligente e perspicaz. Tereis, porém, que aprender a controlar uma certa impulsividade, que pode ser interpretada como insegurança, ou até fraqueza.
- Não vos preocupeis. Sei perfeitamente o que de mim é esperado.
- Apenas vos quero ajudar…
- Eu não preciso de ajuda.
Dinis não falava de ânimo leve, pois não duvidava das capacidades de sua mãe. Mas imperava mostrar, desde o início, quem era o soberano.
Beatriz olhava-o estupefacta e insistiu:
- Mas o conselho de regência deveria…
- Não existe nenhum conselho de regência!
- Ignorais o desejo de vosso falecido pai? Que tanto vos amava e tantas esperanças em vós depositou?
- Não acho que meu pai tenha desejado que o seu sucessor fosse comandado. Fosse por quem fosse.
- Negais que ele vos aconselhou a confiar na minha experiência e a seguir a minha orientação?
- Talvez ele quisesse prevenir alguma dificuldade ou insegurança que me surgisse. Mas asseguro-vos: nada disso acontecerá.
Dinis era implacável, mas Beatriz estava incapaz de se conformar com aquela decisão do filho:
- Bem sabeis que ele me pôs à frente do grupo dos testamenteiros, formado pelo mordomo-mor, pelo chanceler e…
- Minha senhora! D. João Peres de Aboim era mordomo-mor de meu pai e D. Estêvão Anes o seu chanceler. Mas, por maior desgosto que me tenha causado a sua morte e por mais respeito que guarde pela sua memória, factos são factos: el-rei de Portugal já não se chama D. Afonso III e sim D. Dinis!
Sua mãe olhava-o escandalizada e ele acrescentou:
- Nomearei novos colaboradores e conselheiros, o mais depressa possível.
- Pretendeis afastar do conselho de regência os melhores servidores de vosso falecido pai? Seus amigos de infância?
Dinis levantou-se irritado:
- Quando parais de falar nesse bendito conselho de regência?
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16 de dezembro de 2010
D. Dinis e D. Isabel
A minha principal intenção ao escrever um romance histórico deste tipo é entrar na intimidade das personagens, tentar perceber que tipo de pessoas elas foram, que incentivos as moviam e com que conflitos se debatiam. No entanto, não é fácil encontrar o tom certo para descrever a intimidade de personalidades que nos habituámos a venerar. No caso de D. Isabel, a dificuldade é acrescida pelo facto de ela ter sido canonizada.
D. Dinis e D. Isabel, o par real mais venerado da nossa História, só tiveram dois filhos, em mais de 40 anos de casamento. Claro que se pode sempre dizer que D. Dinis, ocupado com as suas barregãs, pouca atenção dava à sua rainha. Mas será essa explicação suficiente, para um tempo em que não havia contracetivos eficazes? Outra hipótese, avançada no romance "Onde vais, Isabel", de Maria Helena Ventura, seria D. Isabel ter ficado estéril, na sequência do parto difícil do infante D. Afonso.
Eu dei a minha própria versão. Que começou com os sentimentos contraditórios que D. Isabel, chegada de Aragão com apenas doze anos, provocou no seu noivo, de vinte e um:
A quem dedicou D. Dinis poemas de conteúdo tão sofrido, como os que se seguem? E, se foi à rainha, qual seria o verdadeiro motivo?
Nota: estas cantigas de amor foram originalmente escritas em galaico-português e são de compreensão difícil para quem não se ocupe com assuntos deste tipo. Optei, por isso, por transcrever, neste blogue, apenas o seu sentido, "traduzido" para o português moderno. No romance, as cantigas são reproduzidas na íntegra.
(Ler mais extractos do romance na etiqueta Citando o Lavrador)
D. Dinis e D. Isabel, o par real mais venerado da nossa História, só tiveram dois filhos, em mais de 40 anos de casamento. Claro que se pode sempre dizer que D. Dinis, ocupado com as suas barregãs, pouca atenção dava à sua rainha. Mas será essa explicação suficiente, para um tempo em que não havia contracetivos eficazes? Outra hipótese, avançada no romance "Onde vais, Isabel", de Maria Helena Ventura, seria D. Isabel ter ficado estéril, na sequência do parto difícil do infante D. Afonso.
Eu dei a minha própria versão. Que começou com os sentimentos contraditórios que D. Isabel, chegada de Aragão com apenas doze anos, provocou no seu noivo, de vinte e um:
Dinis não sabia descrever a impressão que ela provocava nele. Normalmente, ao pousar os olhos numa jovem senhora, logo decidia se ela lhe agradava ou não. Mas com Isabel era diferente. Não que não a achasse bonita, pelo contrário. Quem não ficaria encantado com os cabelos sedosos, os olhos brilhantes e as faces delicadas? Aquele ar sábio dela, porém, incomodava-o. Preferia ter uma jovem à sua frente que corasse de cada vez que ele pousasse os olhos nela. Como poderia ele surpreender Isabel? Manteria ela aquele seu ar superior e intocável perante tudo? Mesmo perante uma intimidade que ela ainda não conhecia?
(...)
Isabel conversava agora com Nuno Martins de Chacim, completamente rendido aos encantos da jovem rainha. Todos aqueles em quem ela pousava os seus olhos negros e brilhantes pareciam encarar uma luz divina e Dinis perguntava-se se tal rainha representava uma bênção… ou uma maldição!
A quem dedicou D. Dinis poemas de conteúdo tão sofrido, como os que se seguem? E, se foi à rainha, qual seria o verdadeiro motivo?
O meu grande mal foi pousar os olhos na “mia senhor”, pelo que muitas vezes me amaldiçoei, e ao mundo e a Deus. Desde que a vi, nunca mais recordei outra coisa, se não ela; nunca mais sofri por outra coisa, senão por ela. Faz-me querer mal a mim mesmo e desesperar de Deus. Por ela, quer este meu coração sair do seu lugar e eu morro, já depois de ter perdido o juízo e a razão. Todo este mal ela me fez e mais fará.
Como justificareis a minha morte perante Deus? Pois que me matastes a mim, cujo único mal é o grande amor que vos tenho, que não há amor maior, e por vós morrerei. Será essa a única razão que Lhe podeis dar da minha morte, não O podereis enganar, que Ele bem sabe quanto vos amo e que nunca mereci que de vós me adviesse a morte. Por tal injustiça, nunca d’ Ele obtereis perdão, pelo que sereis condenada, quando todos formos diante d’ Ele.
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13 de dezembro de 2010
D. Dinis e seu irmão (II)
Sobretudo na Idade Média, seria difícil ser o filho segundo de um rei. D. Dinis terá compreendido a situação ingrata do irmão mais novo, pois perdoou-lhe todas as revoltas. D. Isabel, no entanto, não sentiria grande simpatia pelo cunhado, já que apresentou um protesto formal na Alcáçova de Coimbra, quando D. Dinis se preparava para legitimar os sobrinhos.
O infante D. Afonso estava casado com uma parente próxima, pelo que necessitava de uma dispensa papal, que não chegou a receber. Pediu, por isso, ao irmão rei que lhe legitimasse os filhos, para que estes pudessem herdar os seus bens. Apesar do protesto de D. Isabel, D. Dinis fez a vontade ao irmão.
Esta antipatia da rainha, normalmente generosa e paciente, estranhou D. Dinis:
Mais tarde, porém, D. Isabel arrepende-se:
O infante D. Afonso terá passado os seus últimos anos de vida muito amargurado, recolhido na sua vila de Vide, afastado de tudo e de todos, morrendo com apenas 48 anos. Mas não vou revelar aqui as razões, há-de haver motivos para que comprem o livro!
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O infante D. Afonso estava casado com uma parente próxima, pelo que necessitava de uma dispensa papal, que não chegou a receber. Pediu, por isso, ao irmão rei que lhe legitimasse os filhos, para que estes pudessem herdar os seus bens. Apesar do protesto de D. Isabel, D. Dinis fez a vontade ao irmão.
Esta antipatia da rainha, normalmente generosa e paciente, estranhou D. Dinis:
Dinis notava como Isabel tinha dificuldades em disfarçar a antipatia que sentia pelo infante. Como se tratava de algo extremamente raro nela, já a averiguara nesse sentido, pelo que ela o informara que Afonso representava tudo aquilo o que ela abominava: falsidade, inveja, irresponsabilidade e inconveniência. O rei espantara-se com a brusquidão daquela resposta, mas só num primeiro momento. Isabel era mesmo assim: sincera, no bem e no mal.
Mais tarde, porém, D. Isabel arrepende-se:
Regressado a Lisboa em Setembro, o rei encontrou Isabel preocupada. Por um lado, o estado de saúde da sogra inspirava cada vez mais cuidados e, por outro, ouviam-se rumores quanto a manobras de Afonso:
- Diz-se que ele jamais tornará a fazer as pazes convosco, que só descansará quando se apoderar ele próprio do trono.
- E porque vos afligis tanto? Acreditais que ele me consiga derrubar?
- Não, mas pressinto uma guerra, o verter desnecessário de sangue… Além disso, preocupo-me com ele...
Dinis arqueou as sobrancelhas espantado:
- Vós preocupais-vos com o vosso cunhado?
- Na Primavera, quando recebestes o pedido de auxílio dos concelhos leoneses, ele reagiu de forma muito estranha: aqueles ataques de fúria despropositados, a crença de que todos o abandonaram, até a própria mãe…
O rei encolheu os ombros:
- Ele sempre foi de birras.
- Pressinto algo mais grave… E censuro-me por o ter desprezado.
- Que dizeis?
Visivelmente incomodada, Isabel confessou:
- Não sei porque o fiz. Afinal, empenho-me em ajudar e em compreender os outros, por mais defeitos que tenham. Mas Afonso… - suspirou, agitada. - Ele sempre teve uma habilidade incrível para me repugnar. E censuro-me por não ter conseguido vencer essa aversão. Não me consigo livrar da convicção que, se tivesse sido mais compreensiva e procurado uma aproximação, talvez ele não se sentisse tão abandonado pela família e não tivesse tanta necessidade de vos afrontar… e de magoar a mãe.
- Não vos martirizeis! Afonso, no fundo, nunca se conformou com a sua condição de filho segundo. Desconfio que, mesmo quando acompanha a corte e encabeça a lista dos confirmantes, remói o seu desagrado, a sua frustração… Enfim, é uma condição maldita…
- Mais uma razão para sermos compreensivos com ele.
- Mas eu sempre o fui! Sempre me esforcei por cumprir o desejo de meu pai, que tomasse conta dele, que o amparasse… - Abriu os braços, num gesto de impotência: - O que eu não posso é pôr-lhe o trono à disposição!
O infante D. Afonso terá passado os seus últimos anos de vida muito amargurado, recolhido na sua vila de Vide, afastado de tudo e de todos, morrendo com apenas 48 anos. Mas não vou revelar aqui as razões, há-de haver motivos para que comprem o livro!
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10 de dezembro de 2010
D. Dinis e seu irmão
D. Dinis é visto como um rei sábio e justo, amante da poesia e dos prazeres da vida. E, no entanto, como diz o texto da contracapa do meu romance: "A tragédia também assolou a sua alma, primeiro foi o conflito armado com o irmão, no final da vida, a dilacerante guerra com o seu próprio filho herdeiro".
É curioso verificar que os dois acontecimentos que mais ensombraram o seu reinado tiveram, como protagonistas, os seus parentes mais chegados: o irmão e o filho (que, por acaso, tinham o mesmo nome). A tradição dá-lhes mau génio, apelida-os de mal agradecidos, ilibando D. Dinis de qualquer culpa. Mas seria simplista demais considerar que o monarca tenha sido apenas vítima.
É curioso verificar que os dois acontecimentos que mais ensombraram o seu reinado tiveram, como protagonistas, os seus parentes mais chegados: o irmão e o filho (que, por acaso, tinham o mesmo nome). A tradição dá-lhes mau génio, apelida-os de mal agradecidos, ilibando D. Dinis de qualquer culpa. Mas seria simplista demais considerar que o monarca tenha sido apenas vítima.
Deixo o filho para outra altura e falo hoje no irmão. Nas pesquisas sobre D. Dinis, é comum ler-se uma certa perplexidade em relação ao facto de D. Afonso, por três vezes, se ter revoltado contra o irmão rei e de todas ter sido perdoado. Magnanimidade infinita por parte de D. Dinis? Eu penso que seria, por um lado, compreensão pela condição de filho segundo, por outro, o acreditar que D. Afonso nunca lhe poderia ser realmente perigoso. E acrescentei ainda a vontade dos pais de D. Dinis em que ele proteja o irmão.
Numa passagem do romance, em que os dois ainda são infantes (14 e 16 anos), numa altura em que cavalgam para uma caçada, lê-se o seguinte:
O príncipe herdeiro observou o mais novo de soslaio. Afonso cavalgava casmurro e mal disposto a seu lado, mas era curioso constatar que, com os seus cabelos e olhos escuros, era parecidíssimo com o pai. O que levava muita gente a dizer que usufruía de compleição real…
No fundo, Dinis tinha pena dele. Havia de ser uma cruz bem pesada, essa de saber que nunca chegaria a rei, apesar de ser filho de um. Ele próprio, vendo-se nessa situação, aceitaria o seu destino? Ou lutaria pelo trono? Naquele momento, pareceu-lhe impossível viver como filho segundo e deu graças a Deus por não o ser.
Pobre Afonso! Noutra passagem, D. Afonso III, sentindo a morte a aproximar-se, faz recomendações ao seu herdeiro de 17 anos, entre outras:
- E não olvides cuidar de Afonso!
Dinis hesitou, mas inquiriu cauteloso:
- Achais mesmo que posso confiar nele?
- Mas claro, ele é teu irmão!
O príncipe achou aquele argumento muito fraco. A História da Cristandade estava cheia de casos de irmãos mais novos que cobiçavam o trono dos herdeiros, cometendo traições e crimes. Como é que seu pai, um monarca tão astuto e com tanta experiência de vida, podia dar resposta tão ingénua àquela questão? Só podia ser por se tratar de dois filhos dele. Dinis insistiu:
- Não sei, o Afonso é… tão fechado, tão misterioso…
Beatriz resolveu intervir, o que Dinis aliás já calculava. E, como sempre, defendeu o filho mais novo:
- Afonso só há mister de alguém que tome conta dele, alguém que o oriente, que lhe indique o caminho a seguir. Se o souberdes levar, ele não vos causará dissabores.
- De resto - acrescentou o pai, - mesmo que ele se ponha com ideias, não te será custoso pô-lo na linha.
- Só há mister de saber levá-lo - insistiu a mãe.
Dinis suspirou conformado. Sabia que não valia a pena contrariar os pais naquele assunto.E, quer queiramos, quer não, o que nos é incutido pelos nossos pais acaba por nos influenciar durante toda a vida. Para o bem e para o mal...
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