Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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30 de novembro de 2017

As Cantigas de Amor e a Realidade


Sem pôr em causa o valor literário e cultural das cantigas de amor, elas funcionavam como uma espécie de armadilha para as mulheres. Elevavam-nas, mas cultivando uma imagem criada pelos homens: a da mulher perfeita, educada, casta, pura. Elogiavam um ideal que não existia, nem existe, influenciado pela imagem da Virgem Maria, divulgada pela igreja. Tanto assim era, que Afonso X de Castela criou as Cantigas de Santa Maria, de louvor à Virgem, baseadas no modelo das cantigas de amor. 




A Idade Média foi uma época de grande discrepância entre a teoria e a prática, em vários aspetos. O papel da mulher era notoriamente submisso. Na vida quotidiana, era mais maltratada do que elevada e nem este tipo de poesia serviu para lhe conceder um estatuto mais considerado. Mesmo as mulheres da alta nobreza estavam sujeitas a serem raptadas, presas, rejeitadas, postas de lado, se os pais e/ou maridos assim o entendessem. Metiam-se em conventos ou, pura e simplesmente, se encarceravam, isoladas do mundo e dadas como loucas ou incapazes, para que os seus maridos pudessem tornar a casar.

A mulher considerada "deusa" é uma cruel armadilha. Afinal, quem, entre nós, quer ficar lá nas alturas, intocável; admirada, mas isolada?

 

15 de agosto de 2017

Quem lia a Bíblia no século XI?



«No século XVIII, Maria Antonieta supostamente aconselhou as massas famintas a que, se ficassem sem pão, comessem bolos. Hoje, os pobres seguem este conselho à letra. Enquanto os habitantes ricos de Beverly Hills comem salada de alface e tofu cozido a vapor com quinoa, nos bairros da lata e guetos os pobres engolem bolos industriais, pacotes de aperitivos salgados, hambúrgueres e pizzas (…) Já não existe fome natural no mundo, há apenas fome de origem política (…) na maioria dos países, hoje, comer demais tornou-se um problema muito pior do que a fome (…) Em 2010, a fome e a desnutrição combinadas mataram cerca de um milhão de pessoas, enquanto a obesidade matou três milhões».

São palavras do historiador israelita Yuval Noah Harari, autor do livro Homo Deus - História Breve do Amanhã (Elsinore 2017) numa entrevista ao DN. Na sinopse da Editora Elsinore, Homo Deus é um «ensaio que explora os projetos, sonhos e pesadelos que vão dar forma ao século XXI, da erradicação da fome ao fim da guerra, passando pela vida artificial».


A julgar pela entrevista, o livro vale a pena. Além de analisar o presente, e baseado na História da espécie humana, Yuval Noah Harari faz um retrato bem fundamentado de um futuro próximo, em que seremos condicionados pelo algoritmo e em que «existe o perigo de a humanidade se dividir em castas biológicas».

Na entrevista, Yuval Noah Harari foca o problema de, pela primeira vez na História, não sabermos o que ensinar aos jovens, já que tudo acontece muito depressa. Daqui a vinte ou trinta anos, os nossos filhos não poderão usar aquilo que lhes ensinamos hoje. «O nosso conhecimento está a aumentar a uma velocidade vertiginosa e, teoricamente, deveríamos entender o mundo cada vez melhor. Mas está a acontecer precisamente o contrário». De facto, antigamente, tudo era mais previsível: «Em 1017, os pais ensinaram aos seus filhos como plantar trigo, como tecer lã, ou como ler a Bíblia e era óbvio que essas capacidades ainda seriam necessárias em 1050. Pelo contrário, a maior parte do que as crianças aprendem hoje na escola será irrelevante em 2050».

Este pensamento é realmente interessante. Mas, e apesar de não contrariar a sua lógica, há uma informação falsa nestas afirmações, um erro, que um historiador não devia dar: «Em 1017, os pais ensinaram aos seus filhos (…) como ler a Bíblia».

Recuemos a 1017!

Há mil anos, não era possível ir a uma livraria comprar a Bíblia traduzida na nossa língua. Não havia livrarias. Só existiam livros nos mosteiros, escritos e/ou copiados à mão pelos monges, pois faltavam mais de quatro séculos para a imprensa ser inventada.

Em 1017, 99% das pessoas não sabia ler, nem sequer o que era um livro. As Bíblias que se guardavam nos mosteiros estavam escritas em hebraico, grego ou latim e, além dos clérigos instruídos (porque os havia ignorantes), ninguém sabia ler nelas, nem sequer os membros das casas reais. Na Idade Média, havia uma ordem considerada divina: a nobreza, que se dedicava à guerra; o clero, que se dedicava à religião e à cultura (as duas coisas andavam ligadas); o povo, que se dedicava ao trabalho agrícola. Ou seja: mesmo a nobreza deixava a leitura da Bíblia a cargo do clero e orientava-se pelas pregações deste. Os camponeses, que ensinavam os seus filhos a plantar trigo, viviam aterrorizados com o pecado e o inferno e conheceriam apenas algumas histórias da Bíblia, as que lhes eram contadas pelos padres.

Tanto quanto sei, a leitura da Bíblia em família só surgiu na época moderna, ou seja, a partir do século XVIII, e mais entre os Protestantes, resultado da Reforma Luterana que, aliás, coincidiu, no tempo, com a invenção da imprensa. As ideias de Lutero nunca teriam atingido tanta popularidade, se não fossem difundidas pela invenção de Gutenberg. A Bíblia de Lutero, traduzida em alemão (e a que se seguiriam outras traduções), deu início a uma verdadeira revolução, pois, pela primeira vez, qualquer pessoa (que soubesse ler e, no século XVI, já eram mais do que no XI) podia ter acesso às Escrituras Sagradas e interpretá-las à sua maneira.

Dizer que os pais ensinavam os filhos a ler na Bíblia, no século XI, é, por isso, uma expressão muito infeliz deste notável historiador.


27 de janeiro de 2016

Hábitos religiosos

Faz hoje 709 anos que o bispo de Lisboa Dom João Martins de Soalhães, colaborador de Dom Dinis desde o início do reinado, reuniu um sínodo, procurando a formação do clero paroquial a fim de prestigiar o ministério. Igualmente se procurou promover o matrimónio religioso, erradicar a bigamia e inculcar a prática da confissão anual ao respetivo pároco.

A necessidade de reunir um sínodo, a fim de tratar destes assuntos, é elucidativa em relação a alguns hábitos medievais portugueses, por parte do povo comum, o que vem contradizer a imagem medieval de profundos hábitos religiosos e morais.

Na verdade, o povo estava ainda muito ligado a ritos pagãos. A Igreja tentava, desde o século XI, moralizar os costumes, mas só para o fim da Idade Média as práticas e os sacramentos se começaram a generalizar.


28 de julho de 2015

Guédelon – Construção de um castelo medieval



O Canal televisivo ARTE mostrou, no passado dia 20 de Junho, o documentário Renaissance d’un château medieval, sobre a construção de um castelo, na Borgonha. Este ambicioso projeto, iniciado há quase 20 anos, tem por objetivo pôr de pé uma fortaleza, usando apenas técnicas do século XIII.


A fotografia acima mostra o aspeto geral da obra, já se vendo a casa de residência dos senhores do castelo, uma das torres em estado bastante adiantado e o esboço das muralhas. Foi isto que se conseguiu desde 1997, ressalvando que as obras são interrompidas durante todo o Inverno, devido à lama que se cria, e não se usam guindastes, instrumentos, materiais ou técnicas posteriores ao século XIII (incluindo de desenho, medição, planeamento e transporte das pedras).


O documentário evidenciou bem as dificuldades encontradas pela equipa responsável por esta construção. Impressionaram-me particularmente os festejos e o alívio dos envolvidos ao conseguirem acabar a janela da capela (na foto), tão difícil foi a sua concretização, devido aos arcos. E perguntamo-nos como foi possível construir as catedrais góticas…



Admiro muito as pessoas que se dedicam a projetos destes, pela sua perseverança, mas também pelo respeito que votam ao passado, no meu entender, a única maneira de apreciar, em pleno, e entender melhor o presente.


O castelo de Guédelon está aberto a visitantes durante a época de férias. Para mais informações, consultem o site oficial, aqui em língua francesa, e em língua inglesa.


Podem ver aqui o vídeo do documentário (em francês). Todas as fotografias usadas neste post têm a mesma origem.


30 de novembro de 2013

História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (4)


O homem, para conseguir a desejada aliança matrimonial, para obter uma genitrix, «compra o seu corpo», oferece arras e donas a sua mulher (...)
«Para compra do seu corpo» - expressão também registada no Livro do Deão e no Livro de Linhagens do conde D. Pedro - traduz claramente que a função fundamental do matrimónio é garantir a procriação, a missão da esposa é gerar (...) O que significa que, pela lei do matrimónio, os homens adquirem o direito de utilização do corpo da mulher, nele procurando a sua utilitas, a procriação.
(...)
No que toca às classes mais desfavorecidas, o direito foraleiro dos séculos XII e XIII punia o abandono do cônjuge - pelo marido ou pela mulher - com pena mais severa e discriminatória para a mulher, como seria de esperar (...) Revele-se que só o casamento de bênçãos, aquele que é celebrado com todas as solenidades do direito e consagrado pela religião, está protegido por esse direito. O que não significa que o rei não considere como válidos outros casamentos (...) desde que o casal viva continuadamente na mesma casa durante sete anos, considerando-os pois marido e mulher «ainda que nom sejam casados em façe da Igreja».
(...)
E inúmeras são as relações extra-conjugais (...) O Livro de Linhagens do Conde D. Pedro regista o nome de várias dezenas de barregãs, que o foram da maior parte dos nossos monarcas, de grandes nobres (Sousas, Maias e tantos outros) e, até, de bispos e arcebispos. Todos eles dessas barregãs ou «amigas» tiveram «filhos de gaança», isto é, ilegítimos. Esta mesma fonte revela também casos de abandono de esposas («leixou-a e nom curou mais dela») seguidos de raptos («roussos») de outras mulheres, tidas depois publicamente como barregãs. A multiplicação destes «maaos enxempros» no século XIV, ao nível da nobreza e da vilania, obrigou Afonso IV e D. Pedro a legislar sobre o assunto.

A família: o léxico, Leontina Ventura - páginas 110 a 114


21 de outubro de 2013

História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (1)


Este livro é uma oportunidade de entrar em contacto com temas que, normalmente, não são abordados, como a habitação, a alimentação, a família, a convivialidade, a criança, a mulher, a sexualidade, a morte, etc.

O projeto, em vários volumes (que incluem várias épocas, até aos dias de hoje), é dirigido pelo Professor José Mattoso. O primeiro volume, dedicado à Idade Média, é coordenado pelo Dr. Bernardo Vasconcelos e Sousa, o autor, entre outros, da biografia de D. Afonso IV (Temas e Debates, 2009). Os temas foram distribuídos por historiadores, conforme a sua especialidade.

Mas (e há sempre um "mas"), não há dúvida de que alguns capítulos se leem melhor do que outros, uns dão mais informação, outros dão menos. No início, há uma Apresentação Geral, escrita pelo próprio Professor Mattoso, e que nos chama a atenção para o facto de que o historiador tem à disposição mais dados para a baixa Idade Média (séculos XIV e XV), deparando-se com a falta de fontes para os séculos anteriores.

O capítulo intitulado O Paço, da autoria de José Custódio Vieira da Silva, foi, para mim, uma desilusão. Admito que não seja da responsabilidade do autor, mas, de facto, apenas se encontram informações sobre as habitações do rei e da nobreza para a baixa Idade Média, já na transição para o Renascimento, entrando mesmo neste período. A descrição pormenorizada que se faz de um paço real é baseada no Real Conselheiro, obra de D. Duarte, que regeu em meados do século XV. Procura-se, em vão, descrições dos paços ao tempo de D. Afonso Henriques e, até, de D. Dinis, o que pressupõe que não se sabe mesmo nada sobre o assunto (só se pode deduzir). Mas é um dado adquirido que as diferenças entre os séculos XII e XV são enormes e não se pode cair no erro de retratar os rituais, os costumes e o quotidiano da corte do nosso primeiro rei a partir das descrições de D. Duarte.

As minhas preferências, pela riqueza de informação e pelo estilo da escrita, vão para os capítulos:

- A família - estruturas de parentesco e casamento, da autoria de Bernardo Vasconcelos e Sousa e José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (este último, autor da biografia de D. Dinis)
- A festa - a convivialidade, da autoria de Maria Helena da Cruz Coelho
- O nome, da autoria de Iria Gonçalves
- A alimentação (excelente), também de Iria Gonçalves
- A mulher, da autoria de Ana Rodrigues Oliveira e António Resende de Oliveira
- O corpo, a saúde e a doença, da autoria do Professor Mattoso
- Memórias (excelente), da autoria de Mário Jorge Barroca

(Claro que esta classificação depende do gosto pessoal, pois todos os historiadores envolvidos no projeto são excelentes profissionais).

Resta dizer que, à semelhança do que fiz com Naquele Tempo, iniciarei, em breve, uma série com excertos desta extraordinária obra.



9 de setembro de 2011

A Vida na Idade Média II



Na Idade Média, havia mais higiene corporal do que no tempo de Luís XIV ou da Belle Époque.

O teor de álcool no vinho devia andar apenas entre os 7 e os 10%. Armazenado em pipas, não chegava a durar um ano. Bebia-se muito, um a três litros por dia e por pessoa, incluindo mulheres e monges. O que se havia de beber? A água nem sempre era própria para consumo, causava cólicas e diarreias. A cerveja era mais usada no Norte da Europa.

Tanto o dia, como a noite, se dividiam em 12 horas, que, até ao século XIV, devido às condições naturais, ditadas pelas estações do ano, tinham duração diferente (ou seja, uma hora diária, no Verão, era mais longa do que no Inverno, acontecendo o inverso com a noite). As pessoas regiam-se pelo troar dos sinos das igrejas ou dos mosteiros, que se faziam ouvir às horas das orações: as primas, ao nascer do sol; três horas depois, as terças; ao meio do dia as sextas; três horas mais tarde, as nonas; ao pôr-do-sol, as vésperas. A noite dividia-se em três períodos: as completas, as matinas e o laudes. Ou seja, tomando os equinócios como referência (as ocasiões em que o dia e a noite duram o mesmo tempo), os sinos troavam às 6:00, 9:00, 12:00, 15:00, 18:00, 21:00, 0:00 e 3:00 horas.

Durante a noite, o diabo e as bruxas lançavam as suas armadilhas: pânico no escuro, tentações carnais e, ainda pior, violência, assaltos e violações - mais de metade dos crimes acontecia durante a noite. As pessoas deviam ter muito cuidado, fechar-se dentro das suas casas e, se necessário, renderem-se em períodos de vigilância.

Do ponto de vista económico, não existia o conceito de concorrência. A Igreja assim o ditava, pois via aí a fonte da rivalidade e do ciúme, considerados pecado. A publicidade seria uma forma de vigarizar e um sinal de ambição, a venda a preços mais baixos do que os estipulados seria visto como um ataque ao trabalho do próximo. Os negócios citadinos encontravam-se sob vigilância apertada, tanto no que respeita à sua qualidade, como aos preços praticados. O objectivo do trabalho era o bem comum.

O trabalho era recompensado, mas tinha também o seu preço. O guerreiro atingia fama, mas pagava-a, muitas vezes, com a própria vida. O prelado era muito considerado, posto no topo da sociedade, mas só depois de longos estudos. O mesteiral e o mercador podiam atingir a riqueza, mas tinham de lidar com o risco do mercado e a conjuntura. E o camponês? A ele estava garantida a salvação, mas só se provasse ser devoto e se dedicasse de corpo e alma ao seu trabalho duro, embora pacífico.

A Igreja não via o progresso com bons olhos, pois conduzia à ambição e ao ganho, perigosos para a salvação da alma. Condenava iniciativas que não estivessem de acordo com as Sagradas Escrituras e desconfiava de todos aqueles que enveredassem por um caminho pessoal e inovador.

Das Leben im Mittelalter, Robert Fossier (tradução minha, do alemão).
Versão portuguesa: Gente da Idade Média, Texto Editores

19 de agosto de 2011

A Vida na Idade Média

Tanto no campo, como na cidade, o aborto era prática do quotidiano, mas feito em segredo (...) As receitas eram as do costume: beberagens de camomila, gengibre e fetos, assim como operações perigosíssimas. Sobre os motivos que levavam a tal atitude, pouco se sabe (...), muitos seriam consequência de uma violação. Aqui, a Igreja contradizia-se, pois condenava a violação, mas, ainda mais, o aborto. A infertilidade, assim como o aborto espontâneo, eram considerados da exclusiva responsabilidade da mulher.

Como lidar com o nascimento de gémeos? Não eram eles a prova de que a mãe fora infiel ao marido, pois teria sido fecundada por dois homens? Ou era um dos recém-nascidos o sósia do original, gerado pelo Diabo? E qual deles? Pouco se sabe sobre o nascimento de gémeos, mas o facto de eles raramente fazerem parte da árvore genealógica dos nobres aponta para o infanticídio - um crime gravíssimo, mais grave do que o aborto, mas talvez a única possibilidade de salvar a honra da família.

O cabelo solto nas mulheres era um símbolo sexual, significava a tentação feminina, como a da Eva, de Maria Madalena, ou da rameira. As mulheres tinham de cobrir o cabelo em público, velar por ele como se de um bem pessoal se tratasse. Ainda no início do século XX, as mulheres que saíssem de casa sem chapéu ou lenço na cabeça podiam ficar com a reputação estragada.

A opinião sobre as mulheres era ditada por prelados, isto é, homens solteiros, os únicos a quem se dava crédito, no mundo cristão. E a opinião era arrasadora: a mulher era uma obra do Diabo, que incitava ao pecado, o símbolo da impureza, provada pelo sangue que ela expelia, a loba cruel e insaciável, consumidora de homens.

Excertos de Das Leben im Mittelalter, de Robert Fossier, título original: Ces gens du Moyen Âge (tradução minha, do alemão). Existe a versão portuguesa, com o título Gente da Idade Média: