Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

7 de janeiro de 2011

D. Dinis e D. Maria de Molina (II)

Imagem Wikipedia



D. Dinis estava ligado por estreitos laços de parentesco à família real castelhana. D. Afonso X o Sábio era seu avô e o sucessor D. Sancho IV seu tio, apesar de ser apenas quatro anos mais velho. D. Maria de Molina, da idade do rei português, era, portanto, a viúva do tio e o filho dela, com apenas 9 anos, primo de D. Dinis. Não admira, por isso, que o Rei Lavrador se visse envolvido nas lutas pela sucessão do trono castelhano.

O monarca português mudou várias vezes de campo, tanto apoiava o primo de 9 anos, que carecia de legitimação, como o tio D. Juan, irmão do monarca falecido. Os jogos políticos do costume, à espreita do local de onde soprassem os ventos favoráveis. D. Dinis apostaria, sobretudo, numa divisão entre Leão e Castela, que significaria um maior equilíbrio entre os reinos hispânicos.

Porém, sendo D. Maria de Molina uma mulher de excepção e D. Dinis um rei poeta e sedutor, não resisti à tentação de, no meu romance, estabelecer uma atracção entre os dois:

             Maria de Molina não ostentava uma beleza submissa, como muito se apreciava nas mulheres. Era mais uma formosura majestática. Dinis comparou-a a Isabel, embora as duas fossem completamente diferentes. O encanto da rainha portuguesa residia na sua aura de espiritualidade, que a punha inatingível. A castelhana combinava inacessibilidade, dada pela nobreza da sua pose, com atracção física, nos seus traços voluptuosos. Aquela dualidade perturbava Dinis.

Um ano e meio depois da morte de D. Sancho IV, a causa de D. Maria de Molina e de seu filho parecia perdida, o próprio D. Jaime II de Aragão, cunhado de D. Dinis, apoiava os adversários da grande senhora. O Rei Lavrador chegou a entrar em Castela, em Setembro de 1296, à frente de um exército, com o fito de pôr cerco a Valhadolid.

O cerco, porém, nunca chegou a realizar-se, o exército de D. Dinis, que contava com as forças castelhanas e aragonesas, desintegrou-se. Dos motivos, pouco se sabe, hoje em dia. Terão havido desentendimentos, intrigas, negociações secretas...

É nestes casos que o/a romancista pode dar largas à imaginação. Eu inventei uma ida de D. Maria de Molina ao acampamento do exército português em segredo, disfarçada de guerreiro, na calada da noite, a fim de negociar com D. Dinis, ciente da atracção que exercia nele:



- Pedistes-me que desistisse das minhas intenções de montar cerco a Valladolid. E eu estou disposto a fazê-lo… Se atenderdes todas as minhas exigências.
Maria de Molina arqueou as sobrancelhas:
- Quereis dizer que tendes mais a exigir, além da promessa de casamento da infanta D. Constança com el-rei de Leão e Castela e da integração das vilas a leste do Guadiana em Portugal?
- De facto, minha senhora. Sabei que D. Juan, caso seja coroado rei de Leão, me prometeu Castelo Rodrigo, Alfaiates, Sabugal e outros lugares de Ribacoa!
Fixando Dinis irritada, Maria de Molina cruzou os braços, fazendo tilintar a cota de malha. Aquela atitude de desagrado dava-lhe, porém, ainda mais encanto. Dinis achou cativante como ela, esquecendo o peso da vestimenta, agia como se envergasse um dos seus habituais vestidos de seda. E a pequena ruga na sua testa mostrava a sua firmeza em defender os direitos do seu reino. Naquele momento, Dinis achou-a tão adorável, que quase se arrependeu de lhe ter mentido. Porque, afinal, o tio Juan ainda não lhe prometera nada!



É um facto que, além das vilas a leste do Guadiana (Moura, Mourão Serpa e Noudar), Castelo Rodrigo, Alfaiates, Sabugal e outros lugares de Ribacoa passaram a pertencer ao reino de Portugal, depois do Tratado de Alcañices, em Setembro de 1297.

Para ler mais extractos do romance, clicar na etiqueta Citando o Lavrador.

5 de janeiro de 2011

D. Dinis e D. Maria de Molina

As pesquisas necessárias à escrita de um romance histórico reservam-nos surpresas agradáveis, principalmente, quando se depara com uma personalidade que não se conhecia e que nos enche as medidas. Foi o que me aconteceu com D. Maria de Molina.

É do conhecimento geral que a Idade Média não era propícia às mulheres, vistas como seres menores, oprimidas, sem acesso à cultura e afastadas do poder. Mesmo assim, houve quem se conseguisse impor num mundo de homens. Na Península Ibérica, há vários exemplos, D. Teresa foi uma delas. Infelizmente, a nossa tradição vê-a como uma mãe desnaturada e mulher promíscua. No primeiro caso, porque foi adversária do próprio filho, o fundador de Portugal; no segundo, porque, depois de enviuvar, envolveu-se em aventuras amorosas com os dois irmãos Trava. Pouca gente se pergunta como conseguiu ela a proeza de se colocar à frente de um Condado. Dona de uma personalidade forte e de uma vontade indomável (aliás, como a da irmã D. Urraca; qualidades que, a meu ver, transmitiu ao filho Afonso), D. Teresa merecia mais estudos, mais livros, mais romances sobre ela.

D. Maria de Molina viu-se viúva à volta dos trinta anos, com sete filhos por legitimar (entre os 11 e 1 ano de idade). O seu casamento com el-rei D. Sancho IV de Leão e Castela nunca chegou a ser reconhecido pela Igreja, dado o parentesco entre os dois (que até nem era tão próximo como isso). À altura da morte do monarca, o varão mais velho, D. Fernando, contava 9 anos. Geraram-se lutas terríveis pela posse do trono, com os irmãos de D. Sancho IV à cabeça, pois recusavam-se a obedecer a uma "criança bastarda".

A causa de D. Maria de Molina e dos seus filhos parecia perdida. Mas ela surpreendeu tudo e todos. No meu romance, D. João Anes Redondo relata impressionado, ao seu monarca el-rei D. Dinis, o que presenciou em Valhadolid:

Imagem Wikipedia


- Numa das cenas mais admiráveis e mais impressionantes que eu presenciei, D. Maria de Molina, cheia de coragem e majestade, apresentou o filho de nove anos à assembleia ali reunida, convencendo o arcebispo de Toledo, os bispos e todos os nobres a jurarem fidelidade ao pequeno rei D. Fernando IV.
            Dinis quedou-se estupefacto. Maria de Molina estava longe de ser uma viúva abandonada, com um rancho de filhos por legitimar. Uma mulher que se impunha num mundo dominado por homens! Ser-lhe-ia realmente possível tal proeza?

De facto! Além de exercer uma primeira regência, enquanto esperava pela maioridade do filho, a rainha castelhana orientou-o durante o seu reinado e, como D. Fernando IV  morreu cedo, ela exerceu uma segunda regência pelo neto, D. Afonso XI (que era igualmente neto de D. Dinis e D. Isabel). Esteve à frente dos destinos de Leão e Castela durante mais de vinte anos, apesar dos obstáculos que lhe surgiram, pois nem todos os nobres viam com bons olhos tal protagonismo por parte de uma mulher.

Continuarei com este tema.

(Para ler mais excertos do romance clicar na etiqueta Citando o Lavrador)

3 de janeiro de 2011

D. Dinis, o seu Aniversário e a Universidade Portuguesa

D. Dinis nasceu a 9 de Outubro de 1261, ou seja, em 2011 completam-se 750 anos sobre a data. Não sei se a efeméride passará despercebida, ou se se procederá a algum tipo de comemoração. A cidade de Coimbra teria boas razões para assinalar o acontecimento, mas, acima de tudo, Lisboa.

É curioso constatar que os dois reis mais significativos da nossa Idade Média estão, pela tradição, ligados às cidades "erradas". D. Afonso Henriques é identificado com Guimarães. Foi lá que ele assentou arraiais na sua juventude, talvez até lá tenha nascido (também aqui hei-de abordar a polémica do seu nascimento). A verdade, porém, é que foi em Coimbra que o primeiro rei estabeleceu a sua corte, fundando o mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz, no início dos anos 1130, data a partir da qual poucas vezes esteve em Guimarães, até à sua morte, em 1185 (são mais de cinquenta anos).

Claustro da Igreja de Santa Cruz de Coimbra


Por sua vez, a "cidade querida" de D. Dinis era Lisboa. Seu pai, D. Afonso III, foi o primeiro monarca a estabelecer a corte definitivamente na cidade junto à foz do Tejo.

Vista sobre o Tejo a partir do Castelo de S. Jorge


A segunda cidade preferida de D. Dinis parece ter sido Santarém (que, à altura, era vila, por não ser assento episcopal) e só em terceiro lugar viria Coimbra (não esquecendo que Leiria contava igualmente entre as preferências do par real). Para a identificação da cidade junto ao Mondego com o Rei Lavrador contribuiu, acima de tudo, a sua esposa D. Isabel, que lá viveu recolhida, depois de enviuvar, no mosteiro de Santa Clara. E foi lá, nos Paços que a Rainha Santa habitou, que se deu a tragédia de Inês de Castro.

D. Dinis ficou conhecido, acima de tudo, por ter fundado a primeira Universidade Portuguesa, primeiramente apelidada de Estudo Geral e cujo verdadeiro berço foi a cidade de Lisboa. A esse propósito, cito, mais uma vez, o meu romance:

 
De facto, eram várias as matérias a considerar, por exemplo, a escolha de um local para o Estudo Geral. Dinis resolveu construir um edifício de raiz, onde funcionassem as aulas e onde se acomodassem os estudantes de poucas posses. O rei acabou por decidir instalar a instituição no Campo da Pedreira, abaixo do Mosteiro de São Vicente, junto à Lapa. O terreno pertencia ao capítulo da Sé de Lisboa, pelo que o monarca tencionava permutá-lo com as rendas de casas ou tendas que valessem por ano trinta e cinco libras. O Estudo Geral ficaria assim situado no extremo sudeste de Lisboa, nos limites das freguesias de Santo Estêvão de Alfama e de São Vicente de Fora.

S. Vicente de Fora visto do Castelo de S. Jorge


Decorria o ano de 1289. E só dezoito anos mais tarde o Estudo Geral seria transferido para Coimbra. Sobre as razões, pouco se sabe, fala-se em desentendimentos entre os estudantes e a população lisboeta, havendo, pelo meio, uma confusão com a Casa da Moeda, que D. Dinis instalou no edifício, em princípio, destinado ao Estudo Geral.

A polémica não ficou por aqui. No reinado do filho, D. Afonso IV, a Universidade tornou a ser transferida para Lisboa, regressando a Coimbra apenas em 1354, já reinava o neto D. Pedro I, quase trinta anos depois da morte de D. Dinis.

(Para ler mais excertos do romance clicar na etiqueta Citando o Lavrador).

1 de janeiro de 2011

Ano Novo... e coisa e tal...

Resolvi despedir-me da Kássia Kiss, contratada para apresentar o Cloning Adolf. Agora que essa saga chegou ao fim e que criei estas Andanças, onde esparramei os meus livros, já não faz sentido que ela continue a dar a cara por mim. Melhor dizendo: o nome, já que a cara continuará a ser dada pela foto-modelo de excepção...

Já tinha começado, em Dezembro, a assinar comentários com o meu nome em blogues do Sapo, mas faltava modificar o meu perfil do Blogger.

Foi divertido trabalhar com a Kássia. E, quem sabe, pode ser que nos tornemos a encontrar um dia ;-)

Já agora, mais uns foto-modelos de excepção, fofinhos e carinhosos, para começar bem o ano:


PJRTClub of Germany

28 de dezembro de 2010

Inverno (II)

Anos a fio pedia-se por aqui um Natal branco. Claro que costuma nevar no Inverno, mas, na época de Natal, não vinha nada. O norte da Alemanha, por ser muito plano e pela proximidade ao Mar do Norte, tem pouca neve, se compararmos com o sul montanhoso (a Baviera, os Alpes). E entre 2000 e 2008 nevava tão pouco, que já se dizia que "não se faziam Invernos como antigamente".

No Inverno passado, a neve veio um pouco tarde, a partir de Janeiro. Mas veio em força. Este Outono/Inverno veio mais cedo... e com mais força ainda.


Agora, anda toda a gente cheia de neve. Quem não precisa de viajar, pode gozar a paisagem. Mas nos aeroportos e nas estações de caminho-de-ferro instalou-se o caos e muita gente viu-se obrigada a passar lá o Natal. Além disso, muitas estradas (e auto-estradas) estão intransitáveis, a neve é tanta, que nem a protecção civil cá do sítio, habituada a Invernos rigorosos, consegue normalizar a situação.



E também para quem está em casa as coisas começam a complicar-se. O lixo, por exemplo, não é recolhido, pois os camiões ficam atolados. Além disso, uma pessoa começa a encher-se de limpar neve às pazadas todos os dias para poder entrar e sair de casa.

Num lago gelado, fotografei estes patinhos, que se vêem obrigados a andar em vez de nadar. O que, diga-se de passagem, não será grande problema para eles, pois, mesmo sem virem carradas de neve, a situação verifica-se quase sempre, nesta altura.




Enfim, resta-nos a possibilidade de apreciar o cenário. E, como os alemães costumam dizer: "Der nächste Sommer kommt bestimmt" (o próximo Verão vem de certeza). Esperemos então por ele...





 

26 de dezembro de 2010

Espírito de Natal

Há quem se alegre com a aproximação do Natal, há quem fique deprimido. Uma das desvantagens de viver no estrangeiro é aquele sentimento de não se pertencer verdadeiramente a lado nenhum. Muitas vezes, a viagem "à terra" acaba em decepção, quando certos parentes fazem questão de nos mostrar que, a partir do momento em que escolhemos um outro lugar para viver, dificilmente nos voltaremos a integrar no círculo íntimo. Pergunto-me de que terão medo...




Mais uma vez, fiquei na Alemanha, até porque não gosto de andar de avião (e este ano até arriscava passar o Natal no aeroporto). Mas o jantar da Consoada não me saiu bem. É no que dá, experimentar receitas novas em dias destes...

No dia de Natal, a Lucy começou a mostrar sinais de impaciência logo às oito da manhã. Lá me levantei e fui dar a volta habitual com ela, ainda antes do pequeno-almoço. Estavam dez graus negativos, as ruas desertas, a neve acumulada em todos os cantos e eu com aquele vazio... Mas onde estava o espírito de Natal?  Porque se esquecia ele de mim?

Ao longe, vi o dono de um cão que conheço de vista, a passear com o dito cujo. Quando nos cruzámos, em vez do habitual "Guten Morgen" (bom dia), saiu-me: "Frohe Weihnachten" (Feliz Natal). O homem olhou-me surpreendido, mas logo abriu um grande sorriso e respondeu: "Danke, gleichfalls" (obrigada, igualmente).

Continuei o meu caminho, sentindo-me mais quente por dentro, como se tivesse bebido um café ou um chá reconfortante. Acho que foi por fazer alguém sorrir. Alguns metros mais à frente, apercebi-me de que se aproximava um ciclista, por trás de mim. Há muitos ciclistas por aqui, eu própria ando muitas vezes de bicicleta. Mas, com este frio... Ainda por cima, o passeio tinha apenas uma faixa estreita limpa de neve. Ainda pensei: não me desvio, o passeio é para os peões, ele que mude para a rua. Mas a rua estava  escorregadia. E era Natal. Parei, cheguei a Lucy a mim e deixei espaço para o ciclista passar. O homem abriu um grande sorriso e disse qualquer coisa como: "Mas que simpatia! Muito obrigado." Tive que sorrir também, ao responder: "De nada".

Quando cheguei a casa, o Horst já tinha preparado o pequeno-almoço: o café quentinho, o pão torrado e estaladiço, a manteiga... Falámos sobre os presentes que tínhamos trocado no serão anterior. A sensação reconfortante tomava cada vez mais conta de mim, preenchendo o vazio...

Afinal, ele lembrou-se de mim, o espírito de Natal!



24 de dezembro de 2010

Doces



     Mas, quando passaram as casas de São Pedro, e entraram na estrada, silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou também para a Lua, e murmurou de entre os seus agasalhos:
     - Ó Alencar, recita para aí alguma coisa...
     O poeta condescendeu logo - apesar de um dos criados ir ali ao lado deles, dentro do break. Mas, que havia ele de recitar, sob o encanto da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da Lua! Enfim, ia dizer-lhe uma história bem verdadeira e bem triste... Veio sentar-se ao pé do Cruges, dentro do seu grande capotão, esvaziou os restos do cachimbo e, depois de acariciar algum tempo os bigodes, começou, num tom familiar e simples:

                                                         Era o jardim de uma vivenda antiga
                                                         Sem arrebiques d'artes ou flores de luxo;
                                                         Ruas singelas d'alfazema e buxo,
                                                         Cravos, roseiras...

     - Com mil raios! - exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta, com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos da almofada, assustou o trintanário.
     O break parara, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silêncio da charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou:
     - Esqueceram-me as queijadas!

Os Maias, Eça de Queiróz


BOAS FESTAS!

PJRTClub of Germany


E não se esqueçam dos doces para as sobremesas de Natal :-)

21 de dezembro de 2010

Weihnachtsmarkt



Uma das coisas que muito me surpreendeu (e agradou) nos meus primeiros tempos na Alemanha foi o Mercado de Natal. Em todas as cidades, grandes e pequenas, realiza-se, durante o Advento, um Mercado de Natal, onde se podem comprar objectos alusivos à quadra, sem esquecer os habituais comes e bebes, que incluem doces, muitos doces. Para quem não sabe, os alemães são grandes comedores de bolos, chocolates e afins.

Na fotografia seguinte podem-se ver Lebkuchen, bolos de especiarias, neste caso, em forma de coração, com dizeres escritos a creme de açúcar. As mensagens variam, agora há, claro, muitos "Feliz Natal" e "Boas Festas", mas também se encontram os "amo-te", "és a minha gatinha" e outras do género.




As fotografias foram tiradas em Stade, a cidade onde vivo, que tem cerca de 40 000 habitantes. Estavam 4 graus negativos, o que não impede que as pessoas andem na rua (um alemão que se preze não tem medo do frio). Este tipo de mercado decorre paralelo ao comércio habitual e costuma acabar por estes dias, antes do Natal propriamente dito.




O Mercado de Natal transmite muito bem a atmosfera desta época, principalmente, quando há neve e faz este frio de rachar. Claro que isto nada tem a ver com as condições climatéricas da terra onde Cristo nasceu, mas o frio, a neve, as luzinhas são, para o bem e para o mal, o símbolo do Natal europeu.




Por acaso, não tenho nenhuma fotografia de uma barraca de Glühwein. Como o próprio nome indica, Glühwein (vinho incandescente, ou em brasa) é feito de um vinho tinto um pouco ácido, assim a dar para o nosso verde, ao qual se juntam várias especiarias (canela, cardamomo, anis, etc.). Pode ainda ter um Schuss (pinguinha) de rum ou um qualquer bagaço. Agora, imaginem o carácter explosivo da mistela. Há quem venha ao Weihnachtsmarkt apenas para beber canecas de Glühwein mit Schuss... Não há frio que resista...

À falta das ditas fotografias, fico-me, para rematar, pelas habituais e inofensivas estrelas decorativas.


Vésperas de Natal

Blog ABC do Humor

20 de dezembro de 2010

D. Dinis e sua mãe

Os historiadores são peremptórios em afirmar que o relacionamento entre D. Dinis e sua mãe D. Beatriz não terá sido fácil nos primeiros meses de reinado do monarca, que tinha apenas dezassete anos. D. Beatriz estava habituada a participar na regência do reino, desde que o marido, D. Afonso III, adoecera. O velho rei teria mesmo aconselhado o seu herdeiro a continuar a apoiar-se na mãe.

Parece certo que se formou um conselho de regência, depois da morte de D. Afonso III. Escassos dois meses mais tarde, porém, esse conselho já não existia e nota-se o afastamento de D. Beatriz.

O jovem rei terá pretendido, desde o início, mostrar quem realmente mandava no reino, o que denota uma grande auto-estima, coragem e segurança por parte dele. Mas não terá sido fácil revelar as suas intenções à mãe. Aqui, uma passagem da discussão entre os dois:


- Neste reino existe um soberano maior de idade, não há espaço para conselhos de regência.
A mãe olhou-o irritada, mas não respondeu logo, evitando precipitar-se, dizendo algo inconveniente. Ela bem sabia que já não tinha um infante à sua frente, mas um soberano. Finalmente, retorquiu:
- Sois rei, mas sois muito jovem. Além disso, sois meu filho, conheço-vos bem. Não duvido das vossas capacidades, sempre fostes inteligente e perspicaz. Tereis, porém, que aprender a controlar uma certa impulsividade, que pode ser interpretada como insegurança, ou até fraqueza.
- Não vos preocupeis. Sei perfeitamente o que de mim é esperado.
- Apenas vos quero ajudar…
- Eu não preciso de ajuda.
Dinis não falava de ânimo leve, pois não duvidava das capacidades de sua mãe. Mas imperava mostrar, desde o início, quem era o soberano.
Beatriz olhava-o estupefacta e insistiu:
- Mas o conselho de regência deveria…
- Não existe nenhum conselho de regência!
- Ignorais o desejo de vosso falecido pai? Que tanto vos amava e tantas esperanças em vós depositou?
- Não acho que meu pai tenha desejado que o seu sucessor fosse comandado. Fosse por quem fosse.
- Negais que ele vos aconselhou a confiar na minha experiência e a seguir a minha orientação?
- Talvez ele quisesse prevenir alguma dificuldade ou insegurança que me surgisse. Mas asseguro-vos: nada disso acontecerá.
Dinis era implacável, mas Beatriz estava incapaz de se conformar com aquela decisão do filho:
- Bem sabeis que ele me pôs à frente do grupo dos testamenteiros, formado pelo mordomo-mor, pelo chanceler e…
- Minha senhora! D. João Peres de Aboim era mordomo-mor de meu pai e D. Estêvão Anes o seu chanceler. Mas, por maior desgosto que me tenha causado a sua morte e por mais respeito que guarde pela sua memória, factos são factos: el-rei de Portugal já não se chama D. Afonso III e sim D. Dinis!
Sua mãe olhava-o escandalizada e ele acrescentou:
- Nomearei novos colaboradores e conselheiros, o mais depressa possível.
- Pretendeis afastar do conselho de regência os melhores servidores de vosso falecido pai? Seus amigos de infância?
Dinis levantou-se irritado:
- Quando parais de falar nesse bendito conselho de regência?


(Ler outros extractos do romance na etiqueta Citando o Lavrador)

18 de dezembro de 2010

A Casa Pobre da Europa

"A Eurostat indica Portugal como o país mais pobre da Europa ocidental, devido, principalmente, à sua baixa produtividade. A Comissão Europeia diz que o problema principal assenta na má formação de grandes faixas da população portuguesa."

Estas afirmações (por mim traduzidas do alemão) podem ser lidas no site da ZDF, onde o nosso país é caracterizado pela expressão que serve de título a este post. E eu cito-as aqui porque referem um problema poucas vezes mencionado, ainda e sempre subestimado, mas que não deixará de causar dissabores enquanto persistir.

Em Portugal, não se aprendem profissões, ainda prevalece a mentalidade do "jeitoso", que vai aprendendo à medida que trabalha. Uma falha no sistema educativo, que é igualmente responsável pela desmotivação de muitos estudantes que desistem do liceu a meio, ou empurra outros para cursos superiores por falta de alternativas, correndo o risco de não arranjarem um emprego condizente. Além disso, permite a qualquer "jeitoso" fundar uma firma, sem dar provas das suas competências. Na Alemanha, um mecânico de automóveis, por exemplo, só é autorizado a abrir uma oficina se tiver o título de Meister. Este consegue-se frequentando um curso (normalmente de três anos), depois de se ter cumprido um certo tempo de escolaridade (não precisa do 12º ano), ao fim do qual se faz um exame rigoroso.

O investimento neste tipo de ensino demoraria a dar os seus frutos. Mas, se Portugal o tivesse feito a partir de meados dos anos oitenta (quando o país entrou na CEE) os resultados já se sentiam. E talvez a crise não nos apanhasse tão desprevenidos e ninguém nos apelidasse de "Casa Pobre da Europa".

17 de dezembro de 2010