Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

23 de novembro de 2014

A Esmeralda do Rei





Foi bom reencontrar personagens históricas com as quais já “convivi”, como D. Afonso Henriques, D. Sancho I e a infanta D. Teresa. É sempre refrescante deparar com uma visão dos acontecimentos diferente da nossa e, no entanto, encontrar pontos de contacto, certas coincidências, no carácter imaginado de pessoas que viveram há quase mil anos, mas cujas existências ficaram registadas. Gostei igualmente da abordagem ao início do reinado de D. Afonso II, sobre o qual sei pouco.

Este livro conta a história de Esmeralda, filha de uma moura e de um cruzado que se estabeleceu em Arruda, depois da conquista de Lisboa. Trava conhecimento com D. Sancho ainda infante e aprende a amá-lo, mas a vida de Esmeralda será marcada por múltiplas aventuras, que tanto a aproximam, como a afastam do seu rei. Não pude deixar de recordar livros meus, nomeadamente, A Cruz de Esmeraldas e Os Segredos de Jacinta, o que não deixa de ser curioso, pois todos estes romances foram escritos numa altura em que o Paulo Pimentel e eu não tínhamos conhecimento da existência um do outro, nem lido nenhum dos livros de cada um.

Acompanhando o percurso de Esmeralda, entramos na vida e nos acontecimentos que marcaram o reino português nas últimas décadas do século XII e nas primeiras do seguinte. Notável é a capacidade do autor em vestir a pele de uma personagem feminina, cheia de sensibilidade. A escrita de Paulo Pimentel é bastante poética, muito marcada pela comunhão entre o ser humano e a natureza. Somos parte de um cosmos e sentimo-lo, se algum dia descobrirmos as nossas asas.

«Muhammad, o profeta do Islão, designava que a grande jihad é aquela batalha que travamos com a nossa alma. Pois bem, esse é o esforço que tenho andado a fazer há anos. Sei que o meu fim também está próximo. Já pressinto a hora de abrir as minhas asas, e regressar à luz. Não tenho medo. Hei de transformar-me em mais um ponto de brilho, na infinita abóbada celeste». (Pág. 372)

Não obstante alguns alongamentos no enredo, este livro faz as delícias de qualquer apaixonado pela vida medieval. Por isso, estou já curiosa quanto ao próximo romance de Paulo Pimentel, que será publicado em 2015 e que terá como tema, mais uma vez, a nossa Idade Média.


21 de novembro de 2014

Casamentos com Divórcio à Vista

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Numa época em que os divórcios se sucedem (alguns, quiçá, de ânimo leve), a expressão que serve de título a este post usa-se com ironia. Serve, porém, na perfeição ao novo porgrama do canal alemão SAT 1, com o título Casamento à Primeira Vista (Hochzeit auf den ersten Blick, no original).

Oito adultos, (quatro pares) candidatam-se a um casamento com alguém que não conhecem. São aconselhados por vários experts, entre os quais uma psicoterapeuta e um pastor evangélico, que analisam as suas personalidades e decidem quem casa com quem. Os nubentes veem-se pela primeira vez em pleno Registo Civil, depois de já se terem comprometido a dizer sim. São depois acompanhados durante dois meses pelas câmaras, ao fim dos quais têm liberdade para decidir: continuarem casados ou divorciarem-se.

Enfim, parece que na guerra e no amor tudo é permitido, principalmente quando está em causa a guerra das audiências televisivas...


20 de novembro de 2014

Crónicas das Minhas Teclas

A sessão de lançamento das Crónicas das Minhas Teclas, do jornalista Antunes Ferreira, vai acontecer já no próximo dia 26 de novembro, em Lisboa.





18 de novembro de 2014

Negócio do Livro em Portugal



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Não é segredo nenhum que em Portugal se lê pouco. Comparando o mercado livreiro do nosso país com o alemão, parece-me que se poderia obter melhores resultados, considerando dois pontos muito importantes:

1 – Os livros em Portugal são caros demais! Não está em causa o valor inestimável de uma boa obra literária, mas, querendo vender mais, seria bom alterar a estratégia. Os livros, na Alemanha, são mais baratos e os salários, em média, três vezes superiores aos portugueses! Não admira que os alemães sejam mais espontâneos na hora de adquirirem um livro. Na Alemanha, há basicamente duas versões de livros: capa dura e edições de bolso (Taschenbuch). Diga-se de passagem que os Taschenbücher são de muito melhor qualidade do que as edições portuguesas correspondentes. O seu preço varia entre os 10 e os 14 € (conforme a quantidade de páginas). A grande maioria dos livros é editada sob a forma de Taschenbuch, pelo que se podem comprar as novidades e as grandes obras literárias por aqueles preços convidativos. Nunca nenhum escritor se queixou (e não me consta que os escritores portugueses tenham algo contra o serem editados na Alemanha). Obras que se sabe de antemão que vendem bem, têm, por vezes, uma primeira edição de capa dura e aí o seu preço varia entre os 20 e os 40 €. Mais cedo ou mais tarde, surge a edição de bolso, normalmente, quando a outra deixa de vender. Em Portugal, os livros são, digamos, híbridos – nem capa dura, nem de bolso. A qualidade é boa, sim, mas os preços iniciam-se pelos 18 €. Definitivamente, caros demais!

2 – Os livros em Portugal são difíceis de adquirir! Sim, na Alemanha também se editam livros sem fim, limitando o tempo de exposição nas livrarias. Mas há algo muito importante: pode-se adquirir qualquer livro, em qualquer altura, em qualquer livraria (mesmo na mais remota província). Não o tendo em stock, o livreiro garante-o no prazo máximo de três dias (muitas vezes, de um dia para o outro), independentemente de ser uma edição conhecida e/ou premiada, um auto-publicado, um print on demand, um livro antigo, ou mesmo um livro do qual o livreiro nunca ouviu falar. Uma simples consulta ao computador diz-lhe se o livro se encontra disponível; com um simples clique, o livro fica encomendado. Em Portugal, dizem-nos que o livro está esgotado, quando ele, muitas vezes, apodrece num qualquer depósito do distribuidor! É uma falta de respeito pelos clientes e (talvez ainda mais) pelos escritores. Por isso, o meu apelo: se o sistema não compensa que se façam encomendas de um simples livro, modifique-se o sistema!


17 de novembro de 2014

A Citação da Semana (35)

«As pessoas sem humor parecem mais velhas. O humor talvez não nos mantenha jovens, mas mantém-nos despertos».

Loriot (humorista, ator, realizador e ilustrador alemão)

Algumas das suas ilustrações:

























 
Loriot (1923 / 2011)






15 de novembro de 2014

Filhos de um deus menor


Um livro só é livro e um escritor só é escritor quando editado numa editora considerada, sendo examinado por editor e revisor profissionais? Se eu disser que não, troçam de mim. E se for um escritor com provas dadas, finalista de um Prémio LeYa, como Pedro Guilherme-Moreira? «Recebo qualquer livro com entusiasmo», diz-nos ele no seu blogue, «mas desconfio sempre dos que têm ar de serem auto-editados, porque respeito tanto o ofício de editor e revisor profissional». Tal não impediu de se render ao livro "Memórias da memória", de Cesário Costa, já editado em 2002, por um escritor que ninguém conhece, por uma editora que ninguém conhece, sem direito a revisão profissional. Teve a humildade de partilhar tal publicamente e a coragem de contradizer Saramago. A homenagem que Pedro Guilherme-Moreira faz a este livro é tocante. Aconselho a pessoas que se consideram eleitas por um Deus maior e desprezam os «filhos de um deus menor»!

14 de novembro de 2014

Mania de Escritor

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O título é roubado a um post da editora Maria do Rosário Pedreira e este texto é baseado no meu comentário.

Em primeiro lugar, não sei se sou escritora, se não. Para alguns, serei; para mim, sou (caso contrário não me dava ao trabalho de exercer uma atividade que monetariamente não compensa); para outros, ando a armar-me em.

Enquanto escrevo, sempre no computador, a minha única mania é... anular manias. Nada de café, bolos, chocolates, álcool, cigarros (deixei de fumar há cerca de vinte anos, uma das melhores decisões da minha vida). No máximo, tenho um copo de água a meu lado. A utilidade disto tudo? Não alimentar vícios que são extremamente difíceis de erradicar. E sou de opinião de que, quando se come, ou se bebe, não se deve fazer outra coisa ao mesmo tempo (talvez apenas conversar) para melhor apreciarmos aquilo que engolimos.

Às vezes, esqueço-me de comer durante quatro ou cinco horas.

Disciplinada? Sou! Deve ser por isso que me dei bem na Alemanha, desde o primeiro dia. Mas há quem diga que a disciplina é essencial ao escritor...


P.S. Estou a rever o romance sobre D. Dinis (já não pegava nele há mais de três anos) e estou a adorar! Em breve, porei algumas páginas à disposição para download.


11 de novembro de 2014

Excerto (5)


A pesada régua de castanho sobe e desce furiosa, o moço contorce-se e grita, tenta fugir com a mão e então recebe o resto do castigo no corpo, nas costas, no rabo, até na cabeça - Bem feito, que não paras quieto!, justificar-se-á o mestre, tudo isto debaixo dos meios sorrisos dos meninos prendados, que, no entanto, não ousam rir abertamente, receosos de represálias: - Lá fora, tu comes-as!
Para os Escabelados, pouco importa o motivo do castigo, pois todos os dias haverá outros, pode ser a falta de equipamento, que não têm botas, nem bata, nem livros e cadernos, apenas pedra, como chamamos ao rectângulo de ardósia onde escrevemos com o ponteiro a tabuada e fazemos as contas, apagando com cuspo e manga de camisa, pode também ser a ignorância: sempre que o mestre-escola precisar de exercitar mão ou régua bastará pedir-lhes que papagueiem a tabuada do nove ou as preposições simples ou os apeadeiros do ramal de Tomar...


10 de novembro de 2014

A Citação da Semana (34)

«A vida é um campo a perder de vista, quando a encaramos no seu início. Mas parece medir apenas duas ou três jardas, quando, no fim, olhamos para trás».

Adalbert Stifter


9 de novembro de 2014

Divagações

Ninguém censura pais que não tratam bem dos filhos, diz-se que são métodos educativos. Mas toda a gente censura filhos que não tratam bem dos pais.

Concebe-se que os pais batam nos filhos, mas não se concebe o contrário. É, sem dúvida, chocante e inadmissível bater num idoso. O idoso é fraco, é cobarde agredi-lo. Mas não o é agredir crianças? As crianças têm menos direitos que os idosos?

Os pais talvez tivessem a ganhar se fossem mais abertos a outras formas educativas e ouvissem outras opiniões. Costumam ser inflexíveis, no que respeita à educação dos seus filhos. Ninguém tem o direito de se meter! Não terá? E se sentirmos que a criança é reprimida, tratada com injustiça, vítima de violência, objeto de chantagem emocional, posta sob pressão?

Não estou a dizer que nos devemos imiscuir em tudo. Mas não faria mal nenhum aos pais ouvirem e refletirem sobre outras opiniões. A eles pertence sempre a opção de as aceitarem ou não.

Porque se depreende que os filhos foram bem tratados? Porque agimos sempre, em relação a idosos, como se eles tivessem sido pais exemplares? Tratou de ti, lavou-te, alimentou-te, sustentou-te... Sabe-se lá o que acontecia pelo meio do tratar, do lavar, do alimentar, do sustentar...

Foram os pais que puseram os filhos no mundo, não o contrário.


6 de novembro de 2014

«Um mouro de trabalho»

Ilustração de Jorge Miguel

Os mouros eram conhecidos por serem excelentes artífices. Eram melhores em tudo: os melhores jardineiros, carpinteiros, oleiros, telheiros, tanoeiros, etc. Porém, as suas competências eram desprezadas, em vez de reconhecidas. Sob regência cristã, os mouros constituíam o estrato mais baixo da sociedade. E assim, durante séculos, se desdenhou das suas profissões, outrora tão cobiçadas. Não se concebia que um cristão fizesse certos serviços, afinal havia os mouros, que transmitiam os seus  valiosos conhecimentos de geração em geração, uma mão de obra barata, até porque muitos deles eram escravos.

Ao recordar esta característica da sociedade medieval portuguesa, não posso deixar de a ligar às pertinentes palavras de Rui Curado da Silva no Aventar:

«O ensino técnico em Portugal é tratado como um ensino de segunda, ou pior, olhado frequentemente como uma via para delinquentes e marginais. Isso está muito errado. Deveria ser a base de uma carreira digna, responsável pela introdução de mais qualidade e de novas tecnologias na sociedade. Uma oportunidade para a criação de emprego com potencial para gerar novos empregos».

As declarações de Merkel sobre o suposto excesso de licenciados em Portugal, tiveram, pelo menos, um mérito: puseram muita gente (eu incluída) a falar sobre a falta de um sistema de ensino tecnico-profissional em Portugal. Na verdade, a Alemanha tem uma tradição bem diferente. Os artífices, na Idade Média, eram especialistas considerados, que se protegiam, e à sua sabedoria, em confrarias. Só quem passasse com distinção num exigente exame, poderia exercer a sua profissão de pedreiro, carpinteiro, ou até de limpa-chaminés. Ainda hoje é assim, pelo que os jovens não necessitam de um curso superior para se sentirem respeitados e admirados.

Connosco parece ser diferente. Quem se ocupa de certas atividades ainda é «um mouro de trabalho».


5 de novembro de 2014

Vale a pena ler (2)

Vale a pena ler o texto da Sara dos Desabafos Agridoces sobre aquela polémica de um tribunal de Nova Iorque ter de decidir se os chimpanzés devem ser considerados pessoas legais.


Alguns excertos:

Fiquei a pensar nisto e com franqueza parece-me muito ridículo. Não pelos motivos óbvios - símios serem considerados pessoas, o horror! Mas pelo simples facto de se perder tempo a discutir se um ser vivo deve ter ou não direito à liberdade...

Há pouco tempo li um livro do Eça, um conjunto de crónicas que ele escreveu em Londres, e dizia numa delas com o seu sarcasmo habitual que nos achamos no direito de escravizar outros povos só porque eles não sabem construir pianos ou escrever óperas cómicas.

A um nível mais vasto o ser humano acha-se superior às demais formas de vida no planeta e por isso usa e abusa dos recursos. Ficamos reconfortados ao pensar que os animais não têm sentimentos ou raciocínio complexo (...) Estar um tribunal a decidir se os animais devem ou não ser libertados, não passa de mais uma prova em como nos consideramos superiores a tudo o resto. Claro que ganharíamos mais se vivêssemos em comunhão com outros seres vivos, animais e plantas, mas...O mais perigoso é talvez aquela ideia: são apenas quatro macacos - é apenas um cão, apenas uma mulher numa terrinha, apenas uma escola, apenas um milhão de pessoas.



4 de novembro de 2014

Crónicas das Minhas Teclas

Será brevemente publicado o novo livro de Henrique Antunes Ferreira, um jornalista cheio de experiência e muitas histórias para contar.


Ainda não há data para o lançamento. Para mais informações sobre o livro e o autor, visite A Minha Travessa do Ferreira.


3 de novembro de 2014

A Citação da Semana (33)

«A vida assemelha-se a um livro: os imprudentes folheiam-no distraídos; o sábio lê-o com atenção, pois sabe que só o poderá ler uma vez».

Jean Paul


1 de novembro de 2014

Mega-Passatempo

Para comemorar a barreira dos 2 500 seguidores, a Cris Delgado promove um mega-passatempo no seu blogue O Tempo Entre Os Meus Livros. Estão em causa nada mais nada menos do que 18 (dezoito) livros. Entre eles, os meus quatro já publicados. O passatempo termina a 12 de novembro. Cliquem aqui para mais informações!