Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

9 de dezembro de 2014

Excerto (6)



«As gentes miúdas, essas, já se habituaram às regulares desavenças entre os dois reinos. Choram a destruição e a míngua nas colheitas, sofrem com o fogo botado nas casas, adoecem e morrem com a água envenenada nos poços, perdem os filhos, resignam-se pelas raparigas desonradas e tomadas à força pelos invasores. Nesta terra, constantemente martirizada pelas disputas dos grandes senhores, o povo aprendeu a resistir. Tudo se aguenta, desde que haja um naco de pão negro para enganar o bandulho».

In "A Esmeralda do Rei", Paulo Pimentel (Edições Mahatma) 


8 de dezembro de 2014

A Citação da Semana (38)

«Não faças nada pela metade, senão perdes mais do que aquilo que algum dia possas recuperar».

Louis Armstrong

6 de dezembro de 2014

Os Segredos de Jacinta - Excertos (3)



Pairava o receio sobre os frequentadores da igreja de São Pedro do Paraíso. Sabiam da existência de mouros, gente cruel, que renegava os ensinamentos de Cristo, mas havia muito que a Terra de Paiva se encontrava fora da sua ameaça, nem sequer se organizavam correrias e fossados, como nas povoações de fronteira. As terras dos mouros ficavam para lá de Coimbra, onde o infante tinha a sua corte, mas ninguém fazia ideia onde se situava. Só se sabia que era longe.
Durante a missa, em que celebrou a ressurreição do Senhor, o pároco Sindila falou na necessidade da guerra contra os infiéis e, no fim, pôs o altar à disposição de um dos cavaleiros, que deixou claro que D. Afonso Henriques havia mister de todos os homens do condado. Os mouros haviam, há cousa de dois anos, destruído um castelo que o infante mandara construir num sítio chamado Leiria, chacinando duzentos e quarenta soldados e cavaleiros. D. Afonso tencionava vingar-se, levando a cabo um fossado de proporções nunca vistas, penetrando bem fundo nas terras dos pagãos. O sacrifício seria recompensado, haveriam de volver ricos, cheios de despojos: ouros, sedas e brocados, além de escravos e animais.


4 de dezembro de 2014

Estão mesmo a pedi-las



Publiquei há dias, no meu mural do Facebook, um link conduzindo a uma notícia, em que se dava conta de uma advogada inglesa ter iniciado um boicote às férias no Algarve, com petição e recolha de assinaturas, por causa de cavalos que via com sinais de subnutrição e desidratação. As reações não se fizeram esperar: aqui d’el-rei, que uma inglesa tontinha e histérica se atrevia a atacar o nosso jardinzinho à beira-mar plantado, por causa de um bando de equinos magritos! Afinal, nós temos as melhores praias do mundo, a melhor comida do mundo, somos o povo mais hospitaleiro do mundo, etc. e tal. Que mais quer a mulher? Que se fique lá pela sua Inglaterra natal, onde há problemas que sobrem!

Pois é, meus amigos, eu também amo o meu país. Por isso mesmo, não me limito a ver aquilo que é bom. É necessário tomar consciência do que está mal, principalmente, quando se trata de uma fonte de receitas tão importantes como o turismo. Por acaso, houve um comentador, residente em Sagres, que confirmou o estado de calamidade que tem observado, até contou um caso de uma carcaça de um cavalo que jazeu a céu aberto, na berma da estrada, durante três dias!

Como eu aqui já disse, somos nós, humanos, os mais beneficiados, quando se trata de proteger e defender os animais. Por aí se vê, de facto, o nível de um país. Mas a coisa não se ficou por aqui! Houve um comentador que achou ter encontrado o remédio certo para inglesas histéricas: umas «boas palmadas nas nalgas»!

Homens que se julgam criaturas superiores, com a obrigação de educarem as mulheres, se preciso for, com umas tareiazinhas, há-os aos montes. Afinal, elas estão mesmo a pedi-las e a paciência de um homem é limitada.

Depois admirem-se de haver tanta violência doméstica!
Arrogância para dar e vender… Isto está tudo ligado, é o que vos digo!



2 de dezembro de 2014

Farrusco - Um Cão de Gado Transmontano






Poucos livros me emocionaram tanto como este.

Através do Farrusco, Isabel Mateus refere a extinção de um modo de vida transmontano: a pastorícia. Somos transportados para um tempo e um lugar onde a luta pela sobrevivência é dura, tanto para humanos, como para animais. E, no entanto, há quem saiba perfeitamente corresponder à empatia transmitida por um cão, assim como há quem lhe fique indiferente, ou a despreze. Não tenho dúvida de que o coração de um homem se pode medir pela maneira como ele trata os animais. Sendo eles o símbolo da nossa essência, despertam o mais íntimo do nosso carácter, seja a comunhão de sentimentos, a mera indiferença, ou a crueldade, sem pruridos.

O Farrusco foi feliz enquanto teve um dono que lhe apreciava as capacidades, reconhecia-o como parceiro indispensável na guarda do rebanho, um trabalho perigoso, quando se tratava de defender as ovelhas dos lobos e até de ladrões de gado. Mas dava sentido à sua vida.

Quando o dono emigrou, o Farrusco foi guiado para um novo lar, de um pastor que nunca o respeitou. Nem sequer lhe dava comida suficiente e não hesitava em castigá-lo duramente com o seu cajado, caso algo não lhe agradasse. Quando o Farrusco, apesar de não ser velho, já de nada lhe servia, pois também este pastor vendeu o seu rebanho, o homem tratou de se livrar dele. Encarregou um seu neto de empurrar o cão para dentro de uma cova, que dava acesso a uma antiga mina de ferro, provocando sofrimento atroz também à criança, sem arcaboiço para carregar com tamanha culpa.



O Farrusco sobreviveu uma semana no escuro, ferido, sem água nem comida. Um grupo de crianças atendeu ao seu ganir desesperado e conseguiu salvá-lo. Uma idosa, que o conhecia de outros tempos, deu-lhe guarida. O Farrusco, embora sentindo que não levava a vida para que fora destinado, adaptou-se àquela velhinha que o tratava com dignidade, dividindo com ele o pouco que tinha. Mas a senhora não resistiu a mais um inverno rigoroso das montanhas transmontanas. O Farrusco acompanhou o caixão ao cemitério, ficou lá um dia inteiro de guarda, na neve, e voltou, depois, à sua vida errante, sem comida certa. Desaparecia dias a fio, no meio das montanhas, e regressava à aldeia, mais escanzelado do que nunca, dependendo da caridade, que era pouca.

Um dia, Josefina, uma das crianças que o tinha resgatado da cova, decidiu segui-lo. E viu-o encaminhar-se para o local onde o seu primeiro dono havia construído um bardo (curral de ovelhas), assim como um abrigo para ele próprio, a fim de passar as noites de estio com o rebanho no monte. Apenas lá se encontrava o abrigo abandonado, mas o Farrusco via o bardo e as ovelhas, recordando os melhores momentos da sua vida, em plena comunhão com o pastor, os dois se apoiando na solidão mútua. Um bom lugar para se despedir deste mundo...



Este pequeno grande livro (118 páginas, com ilustrações de Cristina Borges Rocha) vale pelo estilo despojado e que inclui termos esquecidos e/ou pouco usados e pela maneira como Isabel Mateus nos consegue dar a perspetiva do animal, perfeitamente verosímil. Um cérebro, sem dúvida, menos incapacitado do que o nosso, mas, por isso mesmo, tão tocante. A inteligência sofisticada não está lá, mas aquilo que constitui a essência de um ser vivo: o sentido do dever, a fidelidade à família e a saudade dos tempos em que o mundo ainda fazia sentido, quando se dá conta de que tudo é perene e todo o fim é amargo. Restam as lembranças...


Nota: o livro pode ser adquirido online na Wook e na Bertrand.