Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

15 de setembro de 2016

Tu és a única Pessoa (3)



Helena deixou de reagir, deixou até de sentir revolta e medo. Os pides não faziam ideia do quanto ela aguentava, de como ela aprendera a anular-se, a desistir de reagir, de pensar, de sentir. De como aprendera a desligar-se do próprio corpo e do mundo. Apanhar bofetadas sem bem saber porquê era-lhe familiar. Crescera assim.



Em breve nas livrarias!

14 de setembro de 2016

O Fim dos Templários

Fonte da Imagem

A 14 de Setembro de 1307, partiram da chancelaria do rei francês Filipe IV cartas lacradas, de conteúdo secreto, para vários pontos do reino, com a ordem de serem abertas apenas a 13 de Outubro. Tratava-se da ordem de prisão de todos os Templários franceses que assim os apanhou de surpresa, não lhes dando tempo de se precaverem.

Entre os dias 24 e 25 de Outubro, o Mestre da Ordem Jacques de Molay confessou, sob tortura, os crimes de que era acusado, confissão que aliás desmentiu a 24 de Dezembro, mas que não o livrou de ser queimado em Paris, a 18 de Março de 1314. Na hora da morte, o Mestre francês lançou uma profecia: o papa e o rei haveriam de se lhe juntar ainda antes do término daquele ano. De facto, Clemente V morreu a 20 de Abril (pouco depois de autorizar a fundação do mosteiro de Santa Clara de Coimbra) e Filipe IV o Belo a 29 de Novembro.

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Através da bula Pastoralis praeeminentiae, o papa Clemente V recomendou a todos os príncipes da Cristandade a prisão dos Templários e a confiscação dos seus bens, à semelhança do que se passava em França, e, por toda a Europa, os freires são presos, torturados e queimados. A Ordem do Templo só viria a ser definitivamente extinta a 22 de Março de 1312, através da bula Vox in excelso.

A Península Ibérica constituiu uma exceção. Dom Dinis suprimiu a Ordem, mas manteve os seus membros na clandestinidade. Sabedor da situação, o papa Clemente V enviou-lhe, a 30 de Dezembro de 1308, a bula Callidi serpentis vigil, recomendando-lhe a prisão definitiva dos Templários. Alguns eclesiásticos portugueses, como os Cónegos Regrantes de Santa Cruz e o bispo da Guarda, insistiram em que se cumprisse a bula papal. No fundo, pretendiam apoderar-se dos bens que haviam pertencido aos Templários e Dom Dinis iniciou um processo para que esses bens fossem incorporados na Coroa.

A 12 de Maio de 1310, depois de o Concílio de Salamanca declarar a inocência dos Templários hispânicos, Dom Dinis e Fernando IV de Castela estabeleceram um pacto de defesa e conservação dos bens dos freires contra qualquer decisão em contrário, mesmo vinda do papa. Jaime II de Aragão associou-se em 1311 a este acordo.

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Fonte da Imagem

À semelhança do cunhado aragonês, Dom Dinis acabou por criar uma nova Ordem, a Ordem de Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, autorizada pelo papa João XXII através da bula Ad ea ex quibus, de 14 de Março de 1319, em que instava os freires a manterem a cruzada religiosa contra os sarracenos. Todos os bens que haviam pertencido aos Templários portugueses foram transferidos para a Ordem de Cristo a 24 Junho de 1319. Os primeiros estatutos da Ordem foram aprovados a 11 de Junho de 1321.



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O meu romance sobre Dom Dinis está à venda sob a forma de ebook, por exemplo, na LeYa Online, na Wook, na Kobo e na Amazon (pagamento em euros); Amazon (pagamento em dólares).

No Brasil, está disponível na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura.

Para adquirir a versão em papel, contacte-me através do email andancas@t-online.de.

13 de setembro de 2016

Eleição do papa português

Wikipedia


A 13 de Setembro de 1276 foi eleito o único papa português, Mestre Pedro Julião, também conhecido por Pedro Hispano, antigo deão da Sé de Lisboa. Adotou o nome de João XXI, mas foi curto o seu pontificado. Viria a morrer a 20 de Maio de 1277, de acidente numas obras no palácio dos papas, em Viterbo.

12 de setembro de 2016

Tratado de Alcanices

Selo comemorativo (circulou de 12-09-1997 a 30-09-2001)

12 de Setembro é uma data muito importante na História de Portugal. Foi neste dia, no ano de 1297, que se definiram novas fronteiras entre Portugal e Castela, no Tratado de Alcanices, fronteiras que sofreram alterações mínimas nos últimos 719 anos, o que faz de Portugal um caso único na Europa. Foi através do Tratado de Alcanices que Moura, Serpa, Noudar e Mourão foram incluídas no território português, além de alguns lugares de Ribacoa, como Castelo Rodrigo, Almeida e Sabugal.



O Tratado de Alcanices, celebrado entre Dom Dinis e Dom Fernando IV, sob a tutela da mãe deste, Dona Maria de Molina, pois o rei castelhano tinha apenas onze anos, serviu ainda para estabelecer um duplo consórcio:

- o infante Dom Afonso de Portugal, futuro rei Afonso IV, desposaria Dona Beatriz de Castela, irmã de Fernando IV. O infante português tinha, à altura, apenas seis anos, a infanta castelhana era um pouco mais nova. Casariam em Maio de 1309.
- a infanta Dona Constança de Portugal, de sete anos, ficou prometida ao próprio rei Fernando IV de Castela.

Em casos destes era costume as noivas mudarem-se para o seu novo lar, a fim de serem criadas pelos sogros, pelo que Dom Dinis e Dona Isabel trocaram a filha Constança pela infanta castelhana. Dona Maria de Molina e Dona Isabel prometeram-se cuidar da filha alheia como se da própria se tratasse.

Solicitaram-se dispendiosas bulas de dispensa de parentesco ao papa, pois os infantes castelhanos eram primos de Dom Dinis, tendo sido o pai deles, o falecido Sancho IV de Castela, tio do rei português.

Também se solicitaram bulas de legitimação do jovem rei Fernando IV e de seus irmãos, já que o casamento dos pais nunca havia sido legitimado, igualmente por parentesco. Fernando IV foi, durante muito tempo, contestado na sua condição de soberano por tios e primos e manteve-se no trono não só devido ao pulso firme de sua mãe Maria de Molina, mas também com a ajuda de Dom Dinis.

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Tratado de Alcanices (versão portuguesa arquivada na Torre do Tombo)


Da parte castelhana, o dinheiro para as bulas só foi disponibilizado quatro anos mais tarde, em Junho de 1301, depois das Cortes de Burgos/Zamora. Os bispos de Lisboa e do Porto acompanharam o arcebispo de Toledo a Roma e, em Setembro de 1301, Bonifácio VIII outorgou as bulas que foram solenemente publicadas na catedral de Burgos a 7 Dezembro de 1301.

O casamento do rei Fernando IV com Dona Constança de Portugal realizou-se em Janeiro de 1302, fazendo da infanta portuguesa rainha de Castela. Durou apenas dez anos, terminando com a morte súbita de Fernando IV, a três meses do seu 27º aniversário, já tendo nascido o seu herdeiro, o futuro Afonso XI de Castela, neto de Dom Dinis e de Dona Isabel. Dona Constança morreu pouco tempo depois com apenas 23 anos, vítima de uma febre.


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9 de setembro de 2016

Dom Dinis e Dona Isabel (3)

Continuando a tese de que Dom Dinis teria tido uma relação difícil com Dona Isabel, um excerto do meu romance em que o rei se revela muito amargurado:

Naquele momento, Dinis odiou-a por ela o submeter ao que ele considerava tirania. Isabel era uma tirana que o sujeitava às suas vontades e aos seus caprichos. E a Dinis pouco importava que tais vontades e caprichos adviessem da sua devoção e da sua espiritualidade. Recusando-se a cumprir os seus deveres primordiais, a chamada rainha santa, a quem ninguém se atrevia a pôr defeitos e cujas virtudes se exaltavam, cometia afinal uma falta imperdoável!
Porque lhe destinara Deus tal consorte? Por mais pecados que ele cometesse e por mais defeitos que possuísse, achava o castigo descomunal. Ele, que se impunha perante o reino, falhava com a própria consorte!
Isabel nunca lhe obedecera, nem nunca se lhe submetera, mesmo quando lhe dera a impressão de o fazer. Aquela rainha não acatava ordens de ninguém que pertencesse a este mundo.


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8 de setembro de 2016

Tu és a única Pessoa (2)



A aura de solidão que a envolvia arrepiou-o. Uma redoma sombria parecia pairar sobre ela, naquela hora em que se exultava a liberdade alcançada. Lena continuava presa por amarras invisíveis, haviam-lhe tecido uma teia diabólica à volta que nem a revolução parecia conseguir rasgar. Leonel recordar-se-ia daquela imagem pela vida fora, a imagem de uma jovem que fora presa e torturada e cuja família nem sequer lhe vinha dar um abraço.





Em breve nas livrarias!

6 de setembro de 2016

Deposição de Dom Sancho II

Em Portugal viviam-se, à altura, tempos agitados, com Sancho II a não conseguir evitar o caos provocado por contestações da nobreza e do clero. A situação atingira tal ponto, que altos dignitários do clero português se haviam apresentado em França ao pai de Dinis, vendo-o como única solução para restabelecer a ordem. Lograram obter o apoio do papa Inocêncio IV, que, numa bula, declarou Sancho II rex inutilis. Estava traçado o caminho que haveria de levar Afonso III ao trono, depois de uma guerra civil que culminou com a morte do irmão no exílio, em Toledo.

A 6 de Setembro de 1245, uma delegação portuguesa jurou, em Paris, obediência ao conde de Bolonha, futuro rei Dom Afonso III, pai de Dom Dinis.

Na verdade, o pai de Dom Dinis não estava destinado a ser rei, pois era mais novo do que o irmão Sancho. Porém, durante o reinado de Dom Sancho II, instalou-se a confusão no reino e a delegação que se dirigiu a Paris exigia justiça e a imposição da ordem, apelando ao irmão do monarca. A 24 de Julho, o papa Inocêncio IV emitiu a bula de deposição de Sancho II, Grandi non immerito, em que o soberano foi considerado rex inutilis.

O futuro Dom Afonso III jurou respeitar as liberdades da igreja, mas, na verdade, envolveu-se numa série de conflitos com o clero, foi inclusive acusado de adultério e incesto ao casar-se com Dona Beatriz de Castela. A situação culminou com o interdito em Portugal, lançado por Alexandre IV em Maio de 1255.

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5 de setembro de 2016

Não há livros infantis maus

Well-meaning adults can easily destroy a child’s love of reading: stop them reading what they enjoy, or give them worthy-but-dull books that you like, the twenty- first-century equivalents of Victorian “improving” literature. You’ll wind up with a generation convinced that reading is uncool and, worse, unpleasant».

Estou inteiramente de acordo com o escritor Neil Gaiman. Ele considera não haver livros maus para a infância, as crianças devem ler aquilo de que gostam, caso contrário, podem criar aversão pela leitura.

Além disso, diz algo no qual já penso há muito tempo: A hackneyed, worn-out idea isn’t hackneyed and worn out to someone encountering it for the first time. Realmente, nunca entendi bem porque é  que os escritores e os ilustradores estão sempre à procura de novas formas de escrever e de ilustrar. Sim, claro que novas ideias são precisas, mas acho que se exagera. Uma coisa corriqueira e vista mil vezes por um adulto pode ser uma grande novidade para uma criança. Quando deparo com ideias originais, mas um pouco estranhas, embora notáveis do ponto de vista artístico, pergunto-me sempre se uma criança de três ou quatro anos, que ainda não viu muito do mundo, precisa de tanto vanguardismo. Certos projetos apenas agradam a adultos e servem para satisfazer o ego dos próprios criadores.

Por isso, mais uma vez concordo com Neil Gaiman, quando diz: It’s tosh. It’s snobbery and it’s foolishness, quando se desdenha de um livro infantil pelos motivos apontados.


Nota: as citações foram tiradas do artigo Why We Read and What Books Do for the Human Experience. E, já agora, cliquem e leiam o texto completo!


3 de setembro de 2016

Todos os que escrevem?

Todos os que escrevem – julgo eu – gostam que os seus textos dêem origem a críticas, comentários e ideias interessantes.

Então porque se perguntam os editores tantas vezes porque há tanta gente a escrever? Escrevendo mal ou bem, com ou sem talento, todos, mesmo todos, o fazem com essa esperança. De notar que a autora do texto "linkado" não diz «todos os escritores», mas «todos os que escrevem». Não seria isso razão para encarar com menos arrogância quem não tem um talento de génio?

Pois é, da teoria à prática vai uma grande distância. E há frases que soam tão bonitas, tão modestas...



1 de setembro de 2016

Dom Dinis e Dona Isabel (2)


Imagem Codex Manesse

Sou de opinião que a relação entre Dom Dinis e Dona Isabel não teria sido fácil, situação aliás latente na narração do milagre das rosas. Embora essa lenda não seja exclusiva do par real português (o milagre das rosas atribuído a Santa Elisabete da Turíngia é semelhante), é evidente a não-aceitação por parte de Dom Dinis de tanto fervor caritativo da sua rainha. No meu romance, eu alargo essa rejeição ao fervor espiritual de Dona Isabel.

É também curioso constatar que, em quarenta e quatro anos de casamento, o par real teve apenas dois filhos, nascidos entre 1290 e 1291. Dom Dinis só morreria em 1325, trinta e quatro anos depois de nascer o seu último filho com Dona Isabel.


Em meados do mês, quando os calores abafados deram lugar a trovoadas monumentais, chegaram finalmente notícias. De Aragão! Com apenas vinte e seis anos, Afonso III morrera de repente, nas vésperas do seu casamento com a filha de Eduardo I de Inglaterra! À falta de um herdeiro, o trono fora ocupado por seu irmão Jaime.
Isabel isolou-se totalmente, ficando inalcançável. Acordando no meio das noites de trovejar violento, sozinho e triste, o rei deu consigo a desejar ter Aldonça a seu lado. E continuava a perguntar-se que tipo de sentimentos o ligava à consorte. Durante aqueles quase três anos de felicidade em comum, pensara, muitas vezes, que Isabel era a mulher da sua vida. Parecia não se encher dela, como normalmente acontecia com as barregãs. Por outro lado, toda aquela espiritualidade, assim como as qualidades de curandeira e vidente, assustavam-no. Não deixava de ser uma ironia na vida dele: a mulher que ele mais desejava, afigurava-se-lhe inalcançável. Parecia-lhe estar longe, apesar de viver a seu lado.
Algumas semanas mais tarde, Isabel procurou-o. Parecia flutuar, em vez de andar. A palidez e a magreza davam um tom transparente à pele, realçando o negrume dos olhos. Na sua amargura, Dinis não conseguiu evitar uma tirada áspera:
- Se assim continuais, cedo fareis companhia a vosso irmão!
Logo se arrependeu daquela rudeza, mas Isabel manteve o semblante sereno, imune, como sempre ficava depois de meditação e jejum intensivos. E retorquiu muito calma:
- Não vos preocupeis! Ainda me estão reservados vários anos de vida.
Dinis absteve-se de perguntar quem lhe assegurara tal.





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