Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

17 de outubro de 2017

Da Igualdade



Não sou contra as diferenças, pelo contrário! Claro que há diferenças inatas entre meninos e meninas. O problema é que a vida não é sempre só a preto e branco, tem muitas cores e matizes. Deixando de parte a homossexualidade (que eu aceito e respeito, mas o cerne da questão, neste caso, é outro), há meninas que se assemelham a meninos e vice-versa. Se os pais insistirem muito em clichés (meninas-princesas e meninos-aventureiros), limitam a liberdade de escolha.

Ao educar uma menina para ser princesa e fada do lar, quando o que ela quer mesmo é ser jogadora de futebol, está programado o sofrimento de uma das partes (pais ou filha). E se um menino quiser ser educador de infância? Nem se atreve a expressar esse seu desejo.

Todos devem ter liberdade de escolha, sem preconceitos. Os famigerados blocos da Porto Editora (que regressaram às livrarias) reforçam os clichés, ou seja, limitam o espaço de manobra, o poder de escolha. Não adianta apregoar que há liberdade, quando os pais e educadores manipulam as crianças para que elas sejam aquilo que eles desejam. Um rapaz que deseje ser educador de infância deve ser elogiado, em vez de ridicularizado, ou pressionado de modo a levá-lo a desistir. Tratar de e educar crianças é do mais nobre que há. É, por exemplo, um grande erro pôr essas tarefas nas mãos de babás ignorantes, só porque são mulheres. Uma rapariga também não deve ser desviada do seu caminho, se desejar ser jogadora de futebol, ou condutora de autocarro.

Penso que seria uma boa solução comprar os dois blocos da Porto Editora, tanto para uma rapariga, como para um rapaz. Era o que eu faria, se tivesse filhos e eles se interessassem pelos blocos, porque dizer-lhes que não prestavam, só lhes alimentaria a curiosidade. Compraria os dois e dava aos filhos liberdade de escolher com quem se identificassem mais. Não lhes impunha uma identidade, do género: tu és menina, tens de gostar de princesas e vestidos cor-de-rosa, em vez de brincares com camiões, barcos, ou dares pontapés numa bola. Por outro lado, se ela preferisse realmente a princesa cor-de-rosa, é claro que não a contrariava. O importante seria que a escolha viesse dela.

Muita gente não sabe, ou não quer, definir corretamente o conceito de igualdade. De um lado, está quem jura que meninos e meninas nascem exatamente iguais, com os mesmos gostos e desejos; do outro, está quem receia que, à custa de tanta igualdade, qualquer dia, não haja homens nem mulheres. São posições extremistas, nunca de aconselhar.

A verdadeira igualdade existe na diferença, há que pôr a dignidade humana acima de tudo. Porque haveremos nós de considerar algumas características (masculinas ou femininas) superiores a outras? Porque tem mais valor saber construir uma casa do que amamentar um bebé? Porque tem mais valor ser um matemático brilhante do que ser uma boa enfermeira? Porque é considerado superior ser diretor de um banco em relação a mudar fraldas e contribuir para que uma criança cresça feliz? Não é a igualdade física, ou dos interesses, ou mesmo a intelectual, que é importante. Cada um tem o seu talento e as suas capacidades, independentemente de ser homem ou mulher. A dignidade do ser humano deve ser respeitada, em todos os casos, em todas as profissões, em ambos os sexos. 


14 de outubro de 2017

Insanidade




Depois de várias semanas de pausa, retomo as publicações no blogue. A pausa não foi 100% voluntária, eu não pretendia estar tanto tempo sem publicar, mas as férias em Portugal nunca me dão grande tempo para escritas.

Para esta rentrée, escolhi a opinião sobre o livro Insanidade, de André Arrátel Torrão, um jovem oriundo da freguesia transmontana do Lombo, concelho de Macedo de Cavaleiros, e que é meu parente afastado.

Penso ser esta a sua obra de estreia e tenho a dizer que me despertou muito interesse. Nota-se uma habilidade nata do autor para contar uma história, com bom ritmo narrativo e a criação de suspense. Eu situaria este livro no chamado romance gótico. André Torrão soube criar uma atmosfera muito interessante e invulgar, dando-me a sensação de estar a ler um conto dos Irmãos Grimm para adultos.

A ação situa-se algures no século XIX, numa povoação imaginária. Mortimer O'Donoghue, o fidalgo local, sem pais nem irmãos e viúvo pela segunda vez, procura noiva, gerando agitação nas famílias da aldeia. Depois de escolhida a rapariga, Melissa Jones, prepara-se um casamento cheio de pompa e circunstância.

Mortimer esconde, porém, um segredo familiar terrível e, logo no dia do casamento, Melissa nota que a mansão onde passará a viver encerra algo de estranho em si. O segredo vai-se revelando aos poucos, também em flash-backs com cenas da infância de Mortimer, deixando a moça cada vez mais surpreendida e receosa. O leitor segue em suspenso o desenrolar dos acontecimentos.

Apesar de toda a vida Mortimer ter sido marcada por uma violência fora do comum, serve de alegoria para os segredos que as famílias encerram no seu seio, alegoria constatada na altura em que Melissa diz ao marido: «a tua família não era nada daquilo que eu julgava», ao que ele responde: «nenhuma família é o que parece».

André Arrátel Torrão revela talento e espero que continue a escrever.


5 de setembro de 2017

Bodas de Prata (parte 2)!

Por vezes, não é fácil encontrar a prenda certa para a ocasião certa. E eu comecei a pensar: qual será o melhor presente para o Horst, nas nossas Bodas de Prata? E o que gostaria eu mais de receber?

Tinha de ser algo original e perene. E lembrei-me: uma sessão de fotografias. Mas como deve ser! Não fotografias tiradas por telemóvel, ou tablet, mas num estúdio, com fotógrafo (neste caso, fotógrafa) profissional.

O Horst gostou da ideia e assim fizemos. Aproveitámos para levar a nossa Lucy, que faz parte da nossa pequena família. A Lucy completará os 14 anos em Outubro. Quantas mais oportunidades teremos de tirar boas fotografias com ela?

Aqui estão alguns dos resultados, com e sem Lucy:






31 de agosto de 2017

A Polémica dos Blocos

Ricardo Araújo Pereira quis ridicularizar a polémica à volta dos blocos de atividades para crianças, da Porto Editora, mas, afinal, ainda apontou mais defeitos aos famigerados livrinhos. Diz ele que a questão dos labirintos aconteceu por terem sido duas ilustradoras diferentes a criá-los. E eu pergunto: porque é que os revisores da editora não corrigiram?

Por outro lado, deu a conhecer mais absurdos. As meninas parece que são mais cultas. Leem e vão ao museu, enquanto os rapazes só pensam em brincar. Engraçado, como o conhecido humorista (que eu aliás aprecio) usa isto como justificação para dizer que os blocos, afinal, não são tão maus. Afinal, os meninos também aparecem em desvantagem!

Simplesmente ridículo!

Eu gostava de saber porque se publicam livros separados, se, na escola, aprendem todos com os mesmos. Porque não incluir tudo no mesmo livro? Dava mais liberdade criativa. O menino e a menina podiam ser protagonistas em exercícios diferentes e, nalguns, principalmente nos que dizem respeito à leitura e às idas ao museu, deviam atuar os dois juntos, em equipa. Seria muito mais pedagógico.

Há muita gente que acha tratar-se de um tema sem importância, posição da qual discordo totalmente. Livros são sempre um tema sério, sejam infantis, ou não. Acresce dizer que a Porto Editora compreendeu perfeitamente a recomendação da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, não se queixou de ter sido vítima de censura e está disposta a rever os conteúdos. Para mim, isto é a aceitação do erro (o que pressupõe a sua existência) e vontade de o corrigir.




Da Porto Editora saíram dois bloquinhos,
Um p’ró menino, outro p’rá menina.
Engane-se quem julgue que eram miminhos,
Choveu indignação abaixo e acima.

Labirintos simples para princesas,
Mas só porque as ilustradoras eram diferentes.
E os revisores, senhores, estão ceguetas?
Precisarão de novas lentes?

Retire-se do mercado, da loja, do caneco!
Ressurge a Velha Senhora de lápis na mão.
É a censura do politicamente correto.
Pois, minha gente, o Trump é que tem razão!

Meninas dedicam-se à leitura e vão ao museu,
Meninos só querem brincar com carrinhos.
«De que se queixam?», faz o humorista escarcéu,
Afinal, a todos se desanca nos lombinhos.

E assim vai a educação em Portugal,
Quando comem todos, é uma alegria.
Os estereótipos aí estão, de pedra e cal,
O negócio à frente da pedagogia.

Meninos e meninas juntos a apreciar pintura?
Um bloco para todos, como é na escola?
Onde já se viu, aqui não há mistura!
Diz o lusitano, esse grande estarola.

Erguem-se vozes num medo desalmado,
Que mundo é este, tão descaracterizado,
Sem meninas dóceis, a mexer os tachos?
E nem um piropo, nem um “apalpanço”,
Para alegrar os malandrões do rapinanço?
Construam-se muros, teçam-se farpados!
Guardemos o nosso jardim à beira-mar plantado!