Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

18 de setembro de 2018

O Guardião do Silêncio





Maravilhoso pequeno-grande livro, que passa/passou despercebido neste complexo mundo editorial, em que se edita tanta coisa que não interessa a ninguém e onde meia dúzia de editoras comandam o mercado de um país com pouco hábitos de leitura. Entre a quantidade de autores portugueses contemporâneos que tenho lido (incluindo vencedores e finalistas de importantes prémios literários), coloco esta obra de Ana Paula Mateus num grupo de quatro ou cinco eleitos.

David, um pintor com apenas um gato por companhia, vive num velho moinho perto da praia, amargurado, remoendo o arrependimento de não ter aproveitado melhor o amor que surgiu na sua vida, uma mulher, cujo retrato ele insiste em pintar, tentando tornar visível o silêncio que sente dentro de si. Matilde é uma professora que vive suspensa numa relação proibida, sem aparente solução à vista. Dá passeios solitários pela praia, onde não pode deixar de reparar no moinho, e acaba por se cruzar com David.

A autora conta-nos as tragédias que envolvem estas duas personagens numa linguagem poética, mas fluida, que deixa sempre o enredo em primeiro plano. Este romance (eu considero-o um romance, apesar de a autora o definir como “quase romance”) mostra-nos como a tristeza pode ser bela.


16 de setembro de 2018

Memórias de Dona Teresa na Feira do Livro do Porto


«Estou a morrer. Na solidão de um quarto humilde, de paredes despidas.
Conheci o poder, acreditava dominar este mundo e o outro. Julgava poder sair da minha pele, remando contra a maré, dando vazão à ânsia indomável que me consumia. Venci vagas e julguei-me invencível, mesmo quando novas surgiam, cada vez mais altas, atiçadas por vento impiedoso, que desencorajava quem tencionava abrigar-me.
Quão solitário procedimento! Recusei-me a crer que fora longe demais, quando as vagas me roubavam as forças. Recusei-me a aceitar que remava sem avançar, que enfim recuava, até ser despejada na praia, derrotada, fraca, enferma…»

In "Memórias de Dona Teresa"

É já amanhã, da Feira do Livro do Porto:




18 de agosto de 2018

O Princípio da Noite



Este romance está escrito de forma pouco usual: capítulos muito curtos (média de duas a três páginas), que funcionam como episódios, recortes da vida de sete adolescentes. Esta forma de escrita facilita a leitura, também por não se deter excessivamente em pormenores descritivos.

Através dos sete adolescentes, são abordados vários temas da sociedade atual, incluindo os problemas de uma família migrante na Europa. Não é definido o país em que vivem, nem de onde vem a família. O que está aqui em causa é a cultura europeia e a dificuldade de integração de gente que, pelo seu aspeto físico, não deixa margem para dúvidas quanto à sua origem.

Os sete jovens frequentam o liceu e uma grande amizade parece uni-los, numa solidariedade própria da fase, uma ajuda no enfrentar das dificuldades e dos medos na passagem à idade adulta. No entanto, o leitor apercebe-se de que uma ameaça paira sobre a sua amizade. Como diz o texto da contracapa, «as acções das personagens (…) são condicionadas pelos pensamentos, palavras, actos e omissões umas das outras». De facto, por trás das aparências, há bastante falta de comunicação e de interesse pelos sentimentos uns dos outros,  uma amizade superficial que funciona nos tempos de liceu, mas que acaba por sucumbir, quando as personagens mudam de vida, cumprindo-se inclusive a ameaça que sempre pairou no ar.

Esta falta de interesse pelo que realmente move as pessoas também se aplica à relação entre pais e filhos, verificando-se igualmente falta de comunicação, preferindo os pais ocuparem-se com os seus próprios problemas e frustrações.

Tiago Patrício, nascido em 1979, já deu provas do seu talento. Venceu, entre outros, o Prémio Jovens Escritores em 2007, o Prémio Agustina Bessa-Luís em ficção, com o romance Trás-os-Montes, e foi selecionado para várias residências literárias. Penso, no entanto, que este romance tem um problema: a quantidade de personagens principais torna difícil ao leitor construir um perfil de cada uma delas, apesar de o autor tentar facilitar essa tarefa com o método dos capítulos curtos. Mas há apenas espaço para dar alguma profundidade a três personagens e o leitor acaba por ter dificuldade em avaliar as outras que, depois de uma grande ausência, tornam a entrar no enredo.