Enquanto
considerarmos o Mal como algo exterior a nós, uma espécie de personagem
invisível, que nos acompanha e nos faz cair em tentação, nada mudará para melhor. O Mal,
como o Bem, não existem independentes de nós. Eles estão dentro de nós. E,
tanto um, como o outro, são semeados durante a infância. Humilhações,
injustiças e violências fazem germinar o Mal. Amor, apoio e respeito fazem
germinar o Bem. Não nos desculpemos com forças exteriores que nos fazem cair em
tentação! Olhemos para dentro de nós e tenhamos a coragem de admitir que nem
tudo correu como deveria ter corrido. Aceitemos as nossas frustrações, os
nossos rancores, os nossos medos! Não culpemos, porém, os responsáveis, que
pensaram estar a fazer o seu melhor. Tenhamos antes a coragem de corrigir, mesmo
que, para isso, tenhamos de renegar aquilo que nos ensinaram! Enquanto
vivermos, é sempre tempo de nos modificarmos.
16 de março de 2019
O Bem e o Mal
11 de março de 2019
Contos do Portugal Profundo - e uma história brasileira (8)
«E numa tarde de chuva, amodorrada, lenta, preguiçosa, com o padre no locutório a disfarçar bocejos enquanto as velhotas desfiavam rosários de pecados, pequenas maldades femininas, má-língua com as vizinhas, ofensas rancorosas à nora, ao genro, patifarias, pequenos furtos até, falhas tão numerosas como as contas dos seus terços, tão anódinos como a crença ingénua na possibilidade de mover a seu favor a vontade de Deus, não com o viver cristão, mas com a repetição infindável de pais-nossos, avés-marias, salve-rainhas em melopeias desprovidas de sentido - eis que volta a Piedade, a alegrar a tarde do pároco, que via finalmente alguma utilidade no seu trabalho».
In "A Abafadora", de José Cipriano Catarino
À venda na Amazon:
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6 de março de 2019
Amar mais o neto do que a filha?
Normalmente, os avós são mais descontraídos com os
netos do que o que foram com os filhos, o que é compreensível. Não sentindo a
mesma responsabilidade, conseguem aproveitar melhor os momentos com os netos,
são mais pacientes e apercebem-se melhor de certos encantos próprios das crianças.
Tudo isto não quer, porém, dizer que amam mais os
netos do que os filhos. Pelo menos, não devia ser assim. Os pais são as pessoas
mais importantes na vida nos filhos, um amor que não pode ser substituído por
nada, nem por ninguém. Não serão os filhos dignos de que os pais retribuam esse
amor?
Na minha opinião, há algo de errado, sempre houve, no
amor que sentem pelos filhos, em quem tem dúvidas destas.
4 de março de 2019
Contos do Portugal Profundo - e uma história brasileira (7)
«O mundo era feito de sombras. Eram sombras o que me rodeava e eu mesmo era uma. Olhava as pessoas na rua e só via escuridão. Ouvia, no café, os projectos que as vozes alardeavam e tudo me parecia cinzento. O meu cérebro era uma mancha negra de perguntas, um gerador de problemas. Porque se movia esta gente como um carreiro de formigas? Que buscavam elas? Para que faziam projectos se a vida, traiçoeira, lhes cortaria as pernas quando menos esperassem? Dava por mim a pensar que, afinal, todos estávamos enganados (...) À excepção de uma reduzida minoria, todos nós caminhávamos num fio de vida ilusório».
In "O Cisne", de João J. A. Madeira
À venda na Amazon:
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28 de fevereiro de 2019
Como eu escrevo
Li esta interessante entrevista a Fernando Naporano e pus-me a fazer considerações sobre a maneira como escrevo. Saiu este texto:
Escrevo prosa: romances e contos. Levanto-me
muito cedo e gosto mais de escrever durante a manhã. De tarde, não tenho
ocasião e, ao serão, não consigo ser criativa. O ato de criação é, para mim,
muito cansativo e só me sinto apta a ele na frescura da manhã. Ao serão,
aproveito para fazer revisões. Revejo inúmeras vezes aquilo que escrevo, no
mínimo, dez vezes, algumas passagens ou cenas seguramente vinte ou trinta
vezes.
Tento sempre escrever entre duas a
três horas seguidas. Menos do que duas horas, não compensa, e mais do que três,
não consigo, começo a ficar cansada e vazia.
Para escrever um romance histórico,
é claro que tenho de fazer muita pesquisa. Já os contos são ideias que me
surgem, não preciso de pesquisar nada. Tenho alguns contos por publicar e
muitos mais na cabeça.
Nunca sinto medo de não corresponder
às expectativas. Escrevo aquilo que sinto. Quem gosta, gosta; quem não gosta,
não gosta.
Com projetos longos, romances de duzentas
ou mais páginas, fico um pouco ansiosa. Antigamente, ficava mais, tinha medo de
me esquecer de ideias que me surgiam logo no início para o meio ou o fim do
texto. Com o tempo, fiquei mais calma, a experiência ensinou-me que essas
ideias raramente se perdem. Pelo contrário: à medida que o enredo avança,
surgem outras melhores. Às vezes, porém, é difícil parar de escrever, quando penso que ainda tenho mais de cem ou de duzentas à
minha frente.
Escrevo seguramente de maneira
diferente hoje do que há dez ou vinte anos, quando comecei. Sou mais sucinta e
consigo “chamar” melhor os sentimentos. No início, estava bastante bloqueada.
Sentia necessidade de escrever, mas, por vezes, não sabia bem o quê. Hoje,
identifico mais facilmente.
O conselho que daria a mim mesma, se pudesse recuar,
seria o conselho que daria a qualquer principiante: pratica, escreve, sempre,
só com a prática se aprende!
Tenho dois grandes projetos que não
sei se chegarei a realizar. O primeiro seria um romance sobre a vida de Cristo,
com o foco na sua relação com a família. Há passagens da Bíblia que falam em
irmãos de Jesus. Como se daria ele com esses irmãos? Há outra passagem em que
ele diz que um profeta é reconhecido em todo o lado, menos na sua própria casa.
A família desconfiaria da sua sanidade mental? Também é curioso que Jesus nunca
se dirija a Maria com a palavra “mãe”, diz sempre “mulher”. Maria foi elevada,
pelo Cristianismo, a modelo de mãe ideal e, no entanto, o seu próprio filho
nunca a apelida de “mãe”. «Que queres tu, mulher?» pergunta Jesus, quando ela o
aborda, nas bodas de Canaã. Tudo isso seriam aspetos da sua vida que gostaria
de explorar. De uma maneira geral, interessam-me muito as relações familiares,
porque pouco do que as famílias expõem corresponde à realidade. Desconfio,
porém, que nunca chegue a realizar este projeto.
O segundo seria um romance que
caracterizaria a vida numa aldeia transmontana, ao longo de várias gerações.
Ando a pesquisar a minha família e a vida na aldeia-natal do meu pai com esse
fito e já constatei que as relações entre as pessoas estão carregadas de
violência. De novo, as relações familiares, aquilo que fica escondido, as
tragédias que se dão e ninguém consegue explicar (e, no entanto, têm sempre uma
explicação, nada do que fazemos é por acaso). Este projeto já me parece mais
realizável.
25 de fevereiro de 2019
No Luxemburgo
As Memórias de Dona Teresa podem não estar à venda na Bertrand e na Wook. Mas vão estar com a luxemburguesa Librairie Pessoa, no 19e Salon du Livre et des Cultures du Luxembourg, em 1,2 e 3 de março.
O meu profundo agradecimento à São Gonçalves.
P.S. O livro está à venda em algumas livrarias independentes e online, na loja da editora. Se o procurarem e vos disserem que está esgotado, digam que a própria autora vos afiançou que isso não é verdade!
O meu profundo agradecimento à São Gonçalves.
P.S. O livro está à venda em algumas livrarias independentes e online, na loja da editora. Se o procurarem e vos disserem que está esgotado, digam que a própria autora vos afiançou que isso não é verdade!
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Memórias de Dona Teresa
20 de fevereiro de 2019
Constança - A princesa traída por Pedro e Inês
Foi muito interessante ler um romance sobre D. Constança
Manuel, a princesa que casou com D. Pedro I e foi mãe do rei D. Fernando. Tendo o
caso amoroso de Pedro e Inês atingido nível de culto no nosso imaginário
coletivo, há a tendência para esquecer a esposa traída.
Tudo indica que a princesa se terá apercebido da paixão
entre os dois, já que Inês de Castro foi afastada da corte, sendo confinada ao
castelo castelhano de Albuquerque, perto da raia portuguesa. Isto será
igualmente indício de que Constança terá sofrido com o caso.
Isabel Machado, a autora deste livro, retrata uma
Constança muito sofredora, também devido ao seu passado. Estivera casada com o
rei castelhano Afonso XI, mas este repudiou-a, sem consumar o matrimónio, e
encarcerou-a no castelo de Toro, a fim de casar com a infanta D. Maria de
Portugal, irmã de D. Pedro! Esta rainha, porém, não teve igualmente grande
sorte com o rei castelhano, pois Afonso XI sempre preferiu a barregã Leonor
Nunes de Gusmão, com quem teve vários filhos, situação que, depois da sua
morte, levaria a uma guerra civil em Castela.
A estadia de Constança Manuel na corte portuguesa limitou-se
a seis anos, dando três filhos à luz: o infante D. Luís, que morreu com poucos
dias de vida; a infanta D. Maria, que casou em Aragão; e o infante D. Fernando,
que viria a ser o 9º rei de Portugal e o último da dinastia Afonsina. Segundo o
imaginário popular, a princesa terá morrido de desgosto pela paixão entre o
marido e a sua aia e melhor amiga, versão que a autora corrobora.
Este romance alterna entre a primeira pessoa (a
própria Constança) e a terceira pessoa. Não penso que houvesse esta
necessidade, mas é assunto passível de discussão. Tem momentos bons e
empolgantes, ao lado de outros mais fracos, do ponto de vista literário, e há
situações de enredo mal resolvidas. O carácter de D. Pedro permanece
enigmático, o que aliás não é uma crítica, já que esta personalidade continua
envolvida em muito mistério. Gostei de ver um retrato favorável de D. Afonso IV,
fiel à sua esposa Beatriz, incomodado com o desprezo a que o genro de Castela vota
a filha e revoltado com o sofrimento que a paixão entre Pedro e Inês provoca na
nora Constança. É notória a relação conflituosa que tem com o filho, o que nos
leva à pergunta ainda não respondida: o que de facto originou o assassinato de
Inês? Mas isso é assunto para outro romance, pois deu-se vários anos depois da
morte de Constança Manuel, a protagonista deste.
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