Folha de São Paulo, 7 de Maio de 2026 (Instagram):
O Vaticano publicou um documento em que inclui depoimentos de dois fiéis LGBTQIA+ e reconhece o papel da Igreja Católica na "solidão, angústia e estigma" enfrentados por pessoas dessas minorias. O texto ainda critica os impactos da chamada terapia de conversão, conhecida popularmente como "cura gay", e descreve seus efeitos como devastadores. O relatório foi elaborado por integrantes de um grupo de estudos que inclui bispos, padres, uma freira e um leigo. Publicado na terça (5) com o título "Critérios teológicos e metodologias sinodais para o discernimento compartilhado de questões doutrinárias, pastorais e éticas emergentes", o texto aborda questões consideradas controversas na Igreja, incluindo a inclusão de pessoas LGBTQIA+.
É curioso encontrar informações em língua portuguesa sobre este documento do Vaticano, publicado no passado dia 5 de maio, apenas em sites brasileiros (busca Google). Também em alemão e inglês a referência é escassa e quase se limita a páginas que costumam ocupar-se exclusivamente dos direitos LGBTQIA+.
Resumindo-me ao inglês, idioma dominado por muitos portugueses, só encontrei dois links, na primeira página de pesquisa, referentes a meios de comunicação social que não se ocupam exclusivamente da comunidade LGBTQIA+:
Vatican criticizes conversion therapy, features gay Catholic testimony in 'historic' report
Vatican sending new signals of openness but limitations in outreach to LGBTQ+ Catholics
Não compreendo a escassa divulgação deste interessante documento. Sou, há muitos anos, assinante do Jornal Católico da diocese de Hildesheim. Nos últimos tempos, têm surgido artigos sobre a comunidade LGBTQIA+, finalmente referindo as milhares de pessoas a ela pertencentes que trabalham para a Igreja Católica alemã, tanto em regime remunerado, como de voluntariado. O seu trabalho é aceite. As suas opções sexuais, não. Quando há convívios, ou eventos, os outros trabalhadores e voluntários levam as suas famílias: a mulher, ou o marido, namorado/a, filhos. As pessoas LGBTQIA+, ou não vão, ou fazem-no sozinhas, pois sabem que os seus parceiros não seriam aceites. Para não falar de quem mantém o seu modo de vida em segredo.
A Igreja Católica alemã tem vindo, recentemente, a reconhecer o sofrimento a que essa comunidade está sujeita. Para dar um exemplo dessa angústia com heterossexuais: imaginem que faziam voluntariado numa qualquer instituição religiosa, mas eram casados com uma pessoa de etnia diferente. E, sabendo que pessoas dessa etnia não eram bem aceites, nunca falavam da vossa família, nem levavam a mulher, ou o marido, e os filhos a convívios e festas. Talvez até mantivessem o casamento em segredo. Ninguém duvida de que se trata de uma situação humilhante. Triste, frustrante. Mesmo assim, não desistiam do vosso voluntariado, porque sabiam ser imprescindível. E talvez alimentassem a esperança de que, um dia, seriam integrados como qualquer outra pessoa.
Terá a Igreja Católica, ou qualquer outra instituição religiosa, legitimidade ética para fazer esse tipo de discriminação? Legitimidade para condenar crentes a uma vida humilhante?
A discriminação e o preconceito baseiam-se na ignorância e na falta de informação (ou na falta de vontade em ser informado). Ser-se LGBTQIA+ não é uma mania. Nem sequer um distúrbio psicológico. Nasce-se assim! É raro, mas acontece. E ninguém tem culpa da maneira como nasce. A ideia de que a Ciência só admite versões masculinas e femininas dos seres vivos é uma falácia, uma visão completamente desactualizada. Nem no mundo animal isso acontece.
Os pesquisadores encontram-se ainda a explorar a ciência por trás do sexo e do género, mas é claro que o sistema binário macho/fêmea é inadequado para explicar a diversidade encontrada na Natureza. Sexo, género e sexualidade são cada vez mais vistos como uma espécie de espectro (tradução minha, do inglês: Researchers are still exploring the science behind sex and gender but it is clear that the male / female binary is inadequate to explain the diversity found throughout nature. Sex, gender and sexuality are increasingly all seen as being on a spectrum).
A biologia é muito complicada. O sexo de uma pessoa não é apenas definido por cromossomas, como se costuma pensar: XX é uma mulher; XY é um homem. A biologia troca-nos os passos. Há genes, proteínas, receptores de hormonas e muitas outas coisas desconhecidas por nós leigos que provocam desvios ao sistema binário. Na verdade, à luz dos conhecimentos actuais, já não se pode falar num sistema binário. Infelizmente, estas evidências científicas são mantidas quase em segredo. Porquê?
*SRY - o único gene, no cromossoma Y, que realmente importa para definir o sexo masculino.
As combinações XY e XX não são as únicas.
São excertos de um texto de Rebecca Helm, publicado a 20 de Dezembro de 2019, no Twitter, quando ela era Professora Assistente na Universidade da Carolina do Norte Asheville. Entretanto, Rebecca Helm especializou-se em Biologia Marinha e pertence à Universidade de Georgetown. A tradução para português não é minha. Encontrei-a no Facebook e considero-a bem feita.
Facto: o sexo biológico, diferente do "sexo cromossómico", é complicado e baseado em diferenças mínimas. Tão mínimas, que são raras. Mas existem! Não é uma questão de falta de juízo, muito menos, de moda. As pessoas LGBTQIA+ sempre existiram, há referências a elas na Grécia Antiga, apenas não eram assim denominadas. Hoje está cientificamente provado: há pessoas com muitas dificuldades em definir o seu sexo, seja qual for o seu aspeto físico. Mas uma coisa é certa: trata-se de seres humanos, estão protegidos pelos Direitos Humanos e têm de ser tratados com a dignidade votada a qualquer pessoa.
As pessoas LGBTQIA+ não querem impor as suas escolhas sexuais a ninguém. Desejam apenas ser aceites na sociedade, assim como os seus parceiros e famílias, pois, como todos nós, sofrem com discriminações. Compreendo que é uma situação difícil. Choca muita gente, cria insegurança e deixa-nos sem jeito perante as perguntas das crianças. Mas não seria, digamos, mais cristão aceitar essas pessoas com naturalidade? Explicar às crianças que há pessoas que nascem com características diferentes, características essas determinadas, não por elas, mas pela diversidade biológica? Proponho outra solução: em vez de serem mantidas em segredo, estas informações biológicas deviam constar dos programas escolares de Biologia. Trata-se de factos comprovados e, por mais que pense, não vejo razão para não o fazer.
Nos comentários a este meu post, talvez tenha chocado ao dizer que ser anti-LGBTQIA+ era ser anti-cristão. Hoje, vou descrever a situação de outra maneira. Podemos sentirmo-nos inseguros ou desconfortáveis na presença de gente LGBTQIA+. Mas, como cristãos, não podemos ser “anti”! Não podemos aliás ser “anti” em relação a ninguém. Foi esta a lição que Cristo nos ensinou: somos todos iguais perante Deus.
A Igreja católica está a caminhar nesse sentido. Pelo menos, reconhece esses seres humanos, menciona-os nos seus documentos, e reconhece igualmente o sofrimento a que têm sido sujeitos.
Francisco deu o primeiro passo. E Leão XIV, como vemos, não foge ao assunto. Não é uma questão de agenda. É uma questão de humanidade.
Termino este meu texto como a bióloga Rebecca Helm fez com o seu:

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