Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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5 de outubro de 2019

Efemérides históricas à volta da formação de Portugal (5)

Há quem assinale a data de 5 de Outubro de 1143 como a da independência de Portugal. É um facto que, em Zamora, Afonso VII, o imperador da Hispânia, reconheceu o título de rei a seu primo e Portugal como reino. Contudo, não prescindiu da vassalagem de Afonso Henriques.

Zamora (2).JPG


Atentemos ao que diz José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques (2007; extractos das páginas 207 a 214):

No Verão de 1143, chegou ao reino de Leão o cardeal legado da Sé Apostólica Guido de Vico (…) Guido parece ter-se dirigido primeiro a Portugal. Há informações acerca da sua estadia no Porto e em Coimbra.
(…)
De Coimbra, o legado dirigiu-se a Valhadolid, onde, em 19 e 20 de Setembro, celebrou um concílio.
(…)
Depois de ter encerrado o concílio, o legado papal dirigiu-se a Zamora, onde estava a 4 e 5 de Outubro, e onde se reuniu com os reis de Portugal e de Leão. A este encontro chamam os historiadores modernos a «conferência de Zamora». Tem sido considerada como a reunião que selou o acordo entre Afonso Henriques e Afonso VII, que marcou o reconhecimento pelo segundo da dignidade régia do primeiro, e que permitiu a celebração de um tratado, que talvez incluísse uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos, mas do qual, infelizmente, não existe nenhum texto.
(…)
A 13 de Dezembro de 1143, Afonso Henriques dirigiu uma carta ao papa declarando que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos do cardeal Guido, como cavaleiro de São Pedro (…) Também se torna quase certo que esta decisão obtivera o acordo do cardeal, uma vez que a carta declara que o rei tinha prestado homenagem nas suas mãos. (…) Estes factos significam, por sua vez, a realização de conversações anteriores, talvez por ocasião da passagem de Guido por Coimbra [ou seja, antes da conferência de Zamora].

Tratado de Zamora.png


Consideremos este ponto importantíssimo: antes de se dirigir a Zamora, Afonso Henriques prestou homenagem ao cardeal Guido de Vico. Porquê? Só podia ser por saber que o primo não prescindiria da sua condição de vassalo! Como imperador, Afonso VII podia ter reis (e tinha) como vassalos, por isso, o reconhecimento do título real a Afonso Henriques e de reino a Portugal não significa uma aceitação da independência por parte dele.

Neste sentido escreve igualmente o Prof. Miguel Gomes Martins em 1147 - A Conquista de Lisboa (2017):

[Na conferência de Zamora deve ter sido também debatido] o compromisso por parte de Afonso Henriques de não voltar a intervir militarmente na Galiza (…) Este ponto pode mesmo ter sido decisivo para o que se passou de seguida, ou seja, para que Afonso VII, em retribuição e talvez por pressão do legado [papal], reconhecesse o título de rei a Afonso Henriques, algo a que o imperador não deve ter colocado grandes entraves, já que em nada beliscava a sua supremacia face ao primo, que continuaria (…) na sua dependência vassálica. Pelo menos, assim o pensava, pois desconhecia o que secretamente tinha sido negociado em Coimbra, semanas antes, entre Afonso Henriques e Guido de Vico, ou seja, a preparação da vassalagem do monarca português à Santa Sé, acto que necessitava ainda de ser formalizado pelo rei, mas acima de tudo, pelo papado (p. 98).

1147 A Conquista de Lisboa.jpg

Temos aqui uma situação muito curiosa e que costuma ser ignorada: o cardeal Guido de Vico aceitou a homenagem de Afonso Henriques, prometendo libertá-lo do jugo de Afonso VII e, passadas semanas, serviu de mediador num encontro em que o rei português não contestou a sua condição de vassalo do imperador hispânico! Como se explica que um legado papal tivesse tal atitude?

A explicação estará em negociações secretas levadas a cabo entre D. João Peculiar, arcebispo de Braga, e o cardeal Guido de Vico, que terão incluído o casamento de D. Afonso e D. Mafalda de Sabóia. José Mattoso (2007) considera o arcebispo de Braga uma figura chave em todo este processo. Chega a afirmar que D. João Peculiar terá contribuído tanto como o próprio Afonso Henriques para a independência de Portugal.

João Peculiar.JPG
Estátua do arcebispo D. João Peculiar, em Braga.

A 13 de Dezembro de 1143, cerca de dois meses depois do encontro de Zamora, Afonso Henriques encontrou-se em Braga com o arcebispo D. João Peculiar e com os bispos do Porto e de Coimbra, a fim de se escrever a missiva (Claves regni celorum) a enviar ao papa, conforme combinara com o cardeal, solicitando vassalagem à Santa Sé. Ora, se o primo já tivesse reconhecido a independência de Portugal, tal passo seria desnecessário.

Este pedido de vassalagem chegou, porém, a Roma numa altura conturbada, em que se realizaram dois conclaves no espaço de seis meses. Inocêncio II, o papa que enviara Guido de Vico à Hispânia, morreu antes do regresso do cardeal. O seu sucessor, Celestino II, faleceu, antes de responder ao rei português e foi finalmente Lúcio II quem enviou a bula Devotionem tuam, datada de 1 de Maio de 1144. Quando finalmente o nosso primeiro rei a segurou nas mãos, porém, deve ter ficado desiludido.
Em primeiro lugar, o papa não o intitulava rei, mas sim «dux portugallensis». E não dizia claramente que Afonso Henriques estaria livre da suserania do primo, optando por uma linguagem difusa: promete-lhe, tanto a ele, como aos seus sucessores, a protecção de São Pedro para as suas almas e para os seus corpos.

Afonso Henriques viu-se, assim, numa situação bastante ambígua: Roma aceitava-o vassalo (e o censo em ouro), ao garantir-lhe a protecção de São Pedro. Mas intitulava-o apenas de «duque»!
O nosso primeiro rei teria de esperar ainda mais de trinta anos para ver reconhecido o seu título real, por parte da Santa Sé. Tinha já cerca de setenta anos, quando recebeu a Bula Manifestis Probatum de Alexandre III.

Manifestis_Probatum.jpg



5 de outubro de 2013

870º Aniversário da Conferência de Zamora

Conferência de Zamora

Parece ser mais correto falar da «Conferência de Zamora», do que do «Tratado de Zamora», já que não há certeza de que tenha havido algum tratado. Mas é certo que houve uma conferência com a presença do legado papal Guido de Vico. Afonso VII terá reconhecido o título real a Afonso Henriques. Mas tê-lo-á libertado da sua suserania?

Um acontecimento polémico, que continua a suscitar muitas dúvidas. A fim de obter mais informações, leia o que escrevi aqui e aqui.


11 de outubro de 2012

O Tratado que não houve (ou que houve, mas não com o conteúdo que lhe costumamos atribuir)

Assinalei, a 5 de Outubro, mais um aniversário sobre o Tratado de Zamora. Nesse dia, porém, João José Cardoso, através de uma nota na barra lateral do Aventar, chamava a atenção para um texto seu, que defendia que o Tratado de Zamora muito simplesmente não existe e nem é provável que tenha existido.

Bem, eu estava consciente de que não será correto atribuir a esse tratado a fundação da nação portuguesa independente, como, aliás, aqui e aqui referi. Mas a hipótese de ele nem sequer ter existido fez-me pegar, novamente, na biografia de D. Afonso Henriques, da autoria de José Mattoso (Temas e Debates 2007). E, já agora, chamo a atenção para duas coisas:

Primeiro, eu não escrevo livros históricos e, sim, ficção baseada na História, pelo que, nos meus livros, há muita imaginação e subjetividade. Quem lê um romance, porém, deve ter em conta que se trata disso mesmo.

Segundo: li a citada biografia há quatro anos, tirei as minhas notas e nunca mais lhe havia pegado, pelo que não estava já bem certa do que o Prof. Mattoso dizia acerca deste assunto.

Resolvi, assim, citar as passagens que me parecem mais relevantes, lembrando que o Prof. Mattoso não é dono da verdade (algo que ele, aliás, admite; atentemos à primeira frase deste livro: Não é preciso ser historiador profissional para perceber que não se pode traçar a biografia de uma personagem medieval sem uma grande dose de imaginação). Mas ele é, sem dúvida, um dos melhores historiadores portugueses de todos os tempos. Acima de tudo, é honesto e empenhado em esclarecer as mentiras e efabulações criadas durante o Estado Novo, que, infelizmente, ainda pairam no nosso imaginário coletivo.


Extratos tirados das páginas 207 a 214: 

No Verão de 1143, chegou ao reino de Leão o cardeal legado da Sé Apostólica Guido de Vico (…) O legado vinha, pois, à Hispânia procurar o apoio político e económico de que o papa necessitava. (…) Guido parece ter-se dirigido primeiro a Portugal. Há informações acerca da sua estadia no Porto e em Coimbra.
(…)
De Coimbra, o legado dirigiu-se a Valhadolid, onde, em 19 e 20 de Setembro, celebrou um concílio.
(…)
Depois de ter encerrado o concílio, o legado papal dirigiu-se a Zamora, onde estava a 4 e 5 de Outubro, e onde se reuniu com os reis de Portugal e de Leão. A este encontro chamam os historiadores modernos a «conferência de Zamora». Tem sido considerada como a reunião que selou o acordo entre Afonso Henriques e Afonso VII, que marcou o reconhecimento pelo segundo da dignidade régia do primeiro, e que permitiu a celebração de um tratado, que talvez incluísse uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos, mas do qual, infelizmente, não existe nenhum texto.
(…)
A 13 de Dezembro de 1143, Afonso Henriques dirigiu uma carta ao papa [Claves regni celorum] declarando que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos do cardeal Guido, como cavaleiro de São Pedro (miles Sancti Petri) (…) Também se torna quase certo que esta decisão obtivera o acordo do cardeal, uma vez que a carta declara que o rei tinha prestado homenagem nas suas mãos. (…) Estes factos significam, por sua vez, a realização de conversações anteriores, talvez por ocasião da passagem de Guido por Coimbra [ou seja, antes da conferência de Zamora].
(…)
Se Afonso VII teve então conhecimento da homenagem que Afonso Henriques diz ter prestado nas mãos do legado (…) causa alguma surpresa verificar a pouca resistência que Afonso VII parece ter oferecido a este acto que punha em causa a sua autoridade de suserano de toda a Hispânia (…) e que contrariava o pacto de Tui de 1137.

Conclusões:
1 - Será mais correto falar da «Conferência de Zamora» do que do «Tratado de Zamora».
2 - A ter havido um tratado, debruçou-se, essencialmente, sobre a repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos.
3 – Não se nega, porém, que o encontro terá marcado o reconhecimento pelo segundo [Afonso VII] da dignidade régia do primeiro [Afonso Henriques], embora o imperador não tenha prescindido da condição de vassalo do primo, como havia feito, seis anos antes, em Tui.
4 – Como aqui disse, não é um erro considerar Portugal uma nação independente desde 1143 (embora não propriamente a partir de 5 de Outubro), já que Afonso Henriques, antes do encontro de Zamora, terá prestado homenagem nas mãos do cardeal, como se depreende da carta claves regni.

Trata-se, em suma, de um processo complexo e demorado (como o eram, muitas vezes, os assuntos medievais), cheio de ambiguidades entre os dois primos, netos do imperador Afonso VI. O reconhecimento oficial da independência de Portugal só se deu a 23 de Maio de 1179, data da Bula Manifestis Probatum, de Alexandre III. E aqui está ela, copiada da página da Direcção-Geral de Arquivos (para a visualizar com mais pormenor, aceda ao site):
 


5 de outubro de 2012

869º Aniversário do Tratado de Zamora

Assinatura do Tratado de Zamora
Hoje, que passa mais um ano sobre este Tratado, resolvi voltar ao assunto, controverso, como o prova a troca de comentários com o Juvenal, em Fevereiro passado.

Costuma assinalar-se a data de 5 de Outubro de 1143 como o da independência de Portugal, inclusive, nos livros escolares. É um facto que, no Tratado de Zamora, Afonso VII, o imperador da Hispânia, reconheceu o título de rei a seu primo e Portugal como reino (esta é de facto a data em que deixa de existir o Condado Portucalense). Contudo, Afonso VII não prescindiu da vassalagem de Afonso Henriques. É verdade que entre o nosso primeiro rei e o imperador da Hispânia nunca houve uma cerimónia de vassalagem, ou seja, Afonso Henriques nunca lha prestou oficialmente. Mas assinou dois tratados (Tui e Zamora), onde estava escrito que ele lhe devia vassalagem

Repare-se: isto nunca impediu Afonso Henriques de se considerar um rei independente. Agiu como tal desde a Batalha de Ourique, em 1139, onde foi aclamado rei pelos seus guerreiros. Mas o verdadeiro reconhecimento do seu título real só ficou estabelecido na Bula Manifestis Probatum, de 23 de Maio de 1179, assinada pelo papa Alexandre III.

José Filipe Photo
No entanto, ao refletir sobre a troca de comentários com o Juvenal, considerei que, realmente, não é errado considerar Portugal um reino independente desde 1143, já que, por alturas do Tratado de Zamora, Afonso Henriques terá prestado homenagem ao cardeal Guido de Vico, legado papal, que lhe prometeu a proteção da Santa Sé, ou seja, a independência em relação a qualquer poder temporal, o que incluía o do imperador da Hispânia.

Este ato, no entanto, não ficou registado por escrito. Seguindo as instruções do cardeal Guido de Vico, Afonso Henriques enviou a Roma a carta claves regni, mas, na sua resposta, em 1144, o papa Lúcio II não foi conclusivo, intitulando o nosso primeiro rei de dux (duque) em vez de rex (rei).

Mas, enfim: Portugal pode ser considerado um reino independente desde 1143, já que o cardeal Guido de Vico aceitou a homenagem de Afonso Henriques, libertando-o do jugo de Afonso VII. Não será é muito correto apontar o Tratado de Zamora como prova documental deste facto, já que, nesse documento, tanto Afonso Henriques, como o cardeal (!) dão o dito por não dito. E isto, nas costas do imperador!

Resumindo:

25 de Julho de 1139, Batalha de Ourique - Afonso Henriques é aclamado rei de Portugal pelas suas tropas e não mais deixa de utilizar este título;

5 de Outubro de 1143, Tratado de Zamora - O imperador Afonso VII reconhece oficialmente o título real a Afonso Henriques, não prescindindo, porém, da sua vassalagem. Por outro lado, antes da assinatura do Tratado, numa cerimónia discreta (poder-se-á dizer "secreta"; de qualquer maneira, às escondidas do imperador), o cardeal Guido de Vico aceitara a homenagem de Afonso Henriques, libertando-o do jugo de Afonso VII.

1 de Maio de 1144, Bula Devotionem tuam de Lúcio II - O Papa aceita a vassalagem de Afonso Henriques (o que o liberta da suserania do imperador hispânico), mas intitula-o dux portucalensis;

23 de Maio de 1179, Bula Manifestis Probatum de Alexandre III - Afonso Henriques é reconhecido como rei e Portugal como reino independente.

Zamora, nas margens do rio Douro (Duero)

10 de maio de 2011

Tratado de Zamora

Zamora, nas margens do rio Douro


Há quem indique o dia 5 de Outubro de 1143 como a data da formação do reino de Portugal independente, mas tal não é correcto. É verdade que, no Tratado de Zamora, o imperador de toda a Hispânia, D. Afonso VII, reconheceu o título real a seu primo, fazendo de Portugal um reino. Porém, à semelhança do que acontecera em Tui, Afonso Henriques declarou-se, mais uma vez, vassalo do imperador! O que quer dizer que o Tratado de Zamora, no fundo, mais não foi do que a confirmação do Tratado de Tui, que Afonso Henriques desrespeitara, ao invadir, mais uma vez, a Galiza. Com isso, forçou D. Afonso VII a reconhecer-lhe o título real, mas não conseguiu a tão almejada independência. Aliás, o imperador seu primo nunca lha reconheceu oficialmente.


            Afonso VII reconheceu o título real a seu primo, mas, à semelhança do que fora estabelecido em Tuy, concedeu-lhe o senhorio da cidade leonesa de Astorga. E o suserano dava o governo de uma cidade ou de uma região dos seus domínios ao seu vassalo, precisamente como prova da dependência deste. Afonso Henriques aceitou o senhorio, mas, como sempre, não prestou a homenagem formal, nas mãos do primo, como o fizera nas do cardeal. A situação entre os dois netos de Afonso VI permanecia ambígua: subentendia-se uma relação entre suserano e vassalo, sem, no entanto, se proceder à cerimónia oficial.
Ficou ainda estabelecida uma repartição dos direitos de conquista sobre territórios muçulmanos. O rei português era autorizado a expandir o seu reino para sul, mas deveria confinar-se ao oeste de al-Andalus, denominado al-Gharb, pois o imperador reclamava para si os territórios a leste do rio Guadiana. O que obrigava Afonso a prescindir de Badajoz, apesar de esta cidade ter sido, no passado, a capital de um reino taifa que incluía Lisboa.

Assinatura do Tratado de Zamora


A independência do reino português só seria atingida, depois de Afonso Henriques ser aceite como vassalo do Papa. Para isso, ainda antes de partir para Zamora, o nosso primeiro rei terá prestado homenagem ao cardeal Guido de Vico, em Coimbra.


E assim prestou D. Afonso Henriques a sua homenagem à Sé Apostólica, na pessoa de Guido de Vico. Como era costume, ajoelhou-se perante o cardeal, que tomou as suas mãos nas dele. Afonso declarou-se miles Sancti Petri (cavaleiro de São Pedro) e afirmou não reconhecer a autoridade de nenhum outro poder eclesiástico ou secular, a não ser a do Papa.
Ficou ainda combinado que confirmaria este seu juramento por escrito.



Temos aqui uma situação muito curiosa e que costuma ser ignorada na formação do nosso país: o cardeal Guido de Vico aceitou a homenagem de Afonso Henriques, libertando-o do jugo de Afonso VII e, logo em seguida, serviu de mediador num tratado em que o rei português se declarava vassalo do imperador hispânico! Trata-se, no fundo, de uma verdadeira traição à pessoa do imperador! Como é que um legado papal concordou com tal manobra?

A explicação estará em negociações secretas levadas a cabo entre D. João Peculiar, arcebispo de Braga, e o cardeal Guido de Vico, que terão incluído o casamento de D. Afonso e D. Mafalda de Sabóia. O próprio Prof. Mattoso indicia esta possibilidade, na sua biografia de Afonso Henriques, ao considerar o arcebispo de Braga uma figura chave em todo este processo. O conhecido historiador chega a afirmar que D. João Peculiar terá contribuído tanto para a independência de Portugal, como o próprio Afonso Henriques. Já vai sendo altura de darmos a este importante prelado o destaque que ele merece!

Estátua de D. João Peculiar, em Braga

Continuarei com este tema no próximo post.

16 de abril de 2011

A importância de D. Châmoa Gomes na vida de D. Afonso Henriques (III)



Com a liberdade que me dá a qualidade de romancista, Afonso Henriques viu, na vinda do cardeal Guido de Vico à Hispânia, uma oportunidade de conseguir autorização para casar com a sua amada Châmoa Gomes, como ele próprio lhe revela:


            Depois de se sentar e a encarar, achou-a mais apetecível do que nunca. A camisa de noite desenhava-lhe o contorno das pernas, ligeiramente afastadas. Os braços, agora pousados sobre o regaço, já não cobriam o peito e Afonso adivinhava-lhe os seios bonitos por entre as pregas do tecido. Precisou de um pouco de tempo para se concentrar e encontrar uma maneira de iniciar o seu relato:
            - Já deves ter ouvido dizer que receberemos, neste Verão, a visita de um legado do Papa Inocêncio II.
- Sim, as aias comentaram qualquer coisa. Porquê?
- O arcebispo, a quem tu chamas nomes tão feios, até acha que pode levar o cardeal a libertar-me do jugo de meu primo e...
            - Vens-me outra vez com o imperador e a homenagem? - interrompeu-o ela, levantando-se. - Arrancas-me da cama, a meio de noite, por causa dessa história?
            - Acalma-te, não tornes a acordar os pequenos! Senta-te e ouve-me até ao fim.
            Obedeceu-lhe, contrariada. Afonso olhou-a em silêncio durante algum tempo, antes de perguntar:
            - E se eu expuser a nossa situação ao cardeal?
            Châmoa escancarou as esmeraldas:
            - A nossa situação? Que queres dizer com isso?
            - Refiro-me a uma conversa a sós com o cardeal, em que lhe explico que a mãe dos meus dois filhos descende da família condal mais poderosa da Galiza. Guido de Vico compreenderá a urgência em legitimar as crianças. E se o conseguir pôr do meu lado, o arcebispo perderá qualquer poder de interferência!
            Châmoa fixava-o como se ele fosse um animal exótico. De repente, levantou-se de um salto e exalou, de respiração cortada:
            - Afonso, meu amor, mas isso é uma ideia brilhante!
            Estava tão encantadora, com as esmeraldas a luzirem de entusiasmo, os cabelos sedosos espalhados pelos ombros, o peito a arfar de excitação. Afonso manteve-se sentado, como se nada daquilo o impressionasse, e acrescentou:
            - A ideia só tem a desvantagem de ainda demorar a pôr em prática. Mas, dadas as circunstâncias, arranjarás mais um pouco de paciência, não é verdade?
            - Naturalmente.
            - Ainda há outra coisa que tens que levar em conta: só falarei com o cardeal, depois de o arcebispo ter resolvido a questão da minha vassalagem. Não pretendo arriscar de maneira nenhuma o sucesso do seu plano.
            - Como queiras... Conquanto me prometas que falarás com esse cardeal sobre nós, enquanto ele cá estiver.
            Afonso levantou-se, aproximou-se dela e puxou-a para si. Desta vez, ela não ofereceu resistência. Como era bom tornar a senti-la assim abandonada nos seus braços, cheirar-lhe os cabelos sedosos e o pescoço macio.

Mas o arcebispo de Braga, seu grande amigo, D. João Peculiar, antecipou-se-lhe, negociando, com o cardeal, o casamento com D. Mafalda (ou Matilde) de Sabóia:




            Guido de Vico bocejou:
            - Com isto, despachámos os assuntos do dia, não é verdade?
            - Bem… - João Peculiar tossicou. – Desejava a vossa colaboração para mais uma questão, eminência.
            Guido de Vico passou a mão pela testa, num gesto de impaciência. Mas, em seguida, cruzou as mãos sobre a barriga e anunciou:
            - Sou todo ouvidos.
            - Trata-se do matrimónio de D. Afonso Henriques.
            O cardeal permitiu-se uma expressão de espanto, ao erguer as sobrancelhas.
            - Do matrimónio?
            - Já ouvistes certamente dizer que ele tenciona casar com a sua barregã.
            - Sim. Mas também me chegou aos ouvidos que essa... senhora, que já lhe deu dois varões, tem origem nobre.
            - É verdade - admitiu o arcebispo a contragosto. - É filha do antigo conde de Toroño, que, humilhado pelo imperador, acabou por professar no mosteiro beneditino de Pombeiro. E, pelo lado da mãe, é sobrinha do conde de Trava, o nobre mais poderoso da Galiza.
            - Ora, caro arcebispo, sei que sois muito cioso dos vossos deveres. Mas nós prelados também não nos devemos afastar demasiado do mundo terreno. Bem sabeis que uniões desse tipo são toleradas pela Igreja e D. Afonso estaria longe de ser o primeiro monarca a fazer um casamento desses. Até vos digo: os dois pequenos deviam ser legitimados o mais depressa possível, a fim de assegurar a descendência do pai.
D. João Peculiar sentiu um calafrio, mas manteve a pose:
            - Nada poderia ser mais desvantajoso para el-rei de Portugal do que uma união matrimonial com uma parenta dos Trava. Eu diria até que seria uma verdadeira tragédia!
            O arcebispo explicou toda a situação, sem se esquecer de mencionar as razões que sustentariam uma anulação do matrimónio.
            Guido de Vico reflectiu, tornou a passar a mão pela testa, enfastiado, e acabou por dizer:
            - Não estou em condições de julgar o caso, assim de repente. Terei que confiar no vosso juízo. Se dizeis que a união é inconveniente... pois será. No entanto, continuo a não perceber em que vos possa ser útil.
            - Sou de opinião que D. Afonso devia casar com uma donzela, cuja família estivesse livre de quaisquer influências do poder imperial hispânico, a fim de melhor marcar a distância que obterá ao confiar-se à Santa Sé. Vós, eminência, conheceis as famílias mais nobres da Cristandade. Não poderíeis dar uma sugestão que fosse?
            - Eu? Bem... talvez. Mas porque haveria D. Afonso, que já não é nenhum jovem imberbe, de casar com uma dama proposta por mim?
            - A libertação da suserania do imperador depende de vós, não é verdade? Digamos que, a fim de a merecer, ele teria que fazer certas concessões... Por exemplo, que Roma se reserve o direito de decidir sobre quem deverá ser a futura rainha de Portugal. - Depois de uma pausa: - Peço-vos que considereis este assunto, eminência! Nem imaginais o peso que me tiraríeis dos ombros.

O cardeal acaba por propor a união com a filha do conde Amadeu III de Sabóia.

Em breve, D. Châmoa Gomes se haveria de afastar da vida de D. Afonso Henriques, deixando-lhe, no entanto, dois filhos, que teriam sido criados na corte coimbrã. O mais velho, Fernando Afonso, terá até lutado pelo seu direito de suceder ao pai. Na sua biografia de D. Afonso Henriques, o Prof. Mattoso fala-nos na existência de tensões e conflitos, talvez mesmo conflitos graves, entre o herdeiro D. Sancho e o meio-irmão Fernando Afonso, pois a derrota e a diminuição física de Afonso Henriques no desastre de Badajoz criaram no reino um ambiente de apreensão.

Mas isso só aconteceria quase trinta anos depois do Tratado de Zamora, o próximo assunto de que aqui falarei.

14 de abril de 2011

A importância de D. Châmoa Gomes na vida de D. Afonso Henriques (II)

Para o meu romance, eu não podia deixar de pegar na ideia de que D. Afonso Henriques terá tentado casar com D. Châmoa Gomes. Estava apaixonado, ela pertencia à alta nobreza galega e, além disso, tinham, pelo menos, um filho: Fernando Afonso. Terão tido um outro, Pedro Afonso, mas há fontes que identificam este nome com um meio-irmão do nosso primeiro rei.




Aos barões portucalenses não agradava tal casamento. As razões são referidas numa conversa entre D. Egas Moniz e D. João Peculiar, arcebispo de Braga:


            - Estamos, porém, todos de acordo, em que D. Afonso não deve casar com D. Châmoa Gomes, não é verdade?
            - Aqui para nós, eminência, não seria melhor?
- Pelo amor de Deus, D. Egas!
- Rendamo-nos à evidência! Afinal, D. Châmoa é filha e sobrinha de condes. Deu a D. Afonso um menino forte e saudável e o segundo filho vem a caminho... É capaz até de já ter nascido, enquanto aqui conversamos.
- O herdeiro de D. Afonso Henriques não pode ser um sobrinho do conde de Trava! Morresse o soberano nos próximos tempos (Deus nos livre de tal destino), os Trava logo tratariam de manter o pequeno Fernando sob a sua influência. Um casamento destes tem que ser evitado a todo o custo!
            - Mas como conseguiremos mudar os intentos do próprio D. Afonso?
            O arcebispo reduziu os olhos perspicazes a duas linhas e retorquiu:
            - Talvez nem seja tão difícil quanto isso.
            - Não? D. Châmoa pode levá-lo a fazer um casamento clandestino. E o que Deus uniu...
            - Pode tornar-se a separar!
            - Que dizeis, eminência?
            - A Igreja tem o poder de anular uniões matrimoniais. Neste caso, haveria até duas razões de peso. Em primeiro lugar, podia-se invocar o incesto...
            - Santo Deus!
            - O incesto vai até ao sexto grau de parentesco, D. Egas! D. Châmoa é sobrinha de D. Fernão Peres, que viveu numa união de facto com D. Teresa. O que faz dele o padrasto de D. Afonso Henriques. E faz primos dos dois amantes!
            O arcebispo fez uma pausa, a fim de beber mais um pouco de água, e prosseguiu:
            - Vejamos agora a segunda razão de peso: à morte de D. Paio Soares da Maia, D. Châmoa ingressou no convento beneditino de Vairão, à semelhança de muitas viúvas nobres…
            - Oh sim, com as consequências que se conhecem. Viúvas novas e, acima de tudo, bonitas não se deviam precipitar.
            - O mais importante é que, por pouco tempo que fosse, D. Châmoa se fez monja. Qualquer casamento lhe está proibido! E não esqueçamos que deixou o mosteiro para se amancebar ao senhor de Tougues. Este motivo, por si só, não seria impeditivo de uma nova união matrimonial. Mas, entre nós, D. Egas, quereremos nós ver uma dama de passado tão pouco recomendável ocupar o trono de Portugal? Porque é de um trono real que se trata! Embora não reconhecido oficialmente, D. Afonso vem-se intitulando rei há mais de um ano.
            Egas remeteu-se ao silêncio e, depois da curta pausa, o clérigo acrescentou:
            - D. Châmoa que construa as suas armadilhas! Não é ela que me tira o sono. O verdadeiro problema assenta no facto de D. Afonso nem se preocupar em procurar uma noiva apropriada... e o tempo vai passando.
            - O nosso rei meteu-se numa bela alhada. Com uma parenta dos Trava! Muitas vezes, penso ser esta uma maldição que a própria mãe lhe lançou.

Fiz, por isso, de D. João Peculiar, arcebispo de Braga e grande amigo e colaborador de D. Afonso Henriques, o opositor mais acirrado do rei nesta questão. E liguei o assunto a mais dois, de elevada importância: o Tratado de Zamora e o casamento do monarca com D. Mafalda de Sabóia. D. João Peculiar terá pensado encontrar a solução do problema na vinda do Cardeal Guido de Vico à Hispânia, em 1143. A intenção do legado papal é participar em dois concílios, um em Valhadolid e outro em Girona, mas também servirá de mediador num tratado a assinar entre Afonso Henriques e o imperador, em que este reconhecerá o título real ao primo. Falo do Tratado de Zamora, assinado a 5 de Outubro de 1143.




Mas o que tem tudo isto a ver com D. Châmoa Gomes e o casamento do rei com D. Mafalda? A ideia foi-me "dada" pelo Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, que, na sua História de Portugal (Editorial Verbo), nos diz que poderá ter sido o cardeal Guido de Vico quem advogou, junto de Afonso Henriques, o casamento com a filha do conde Amadeu III de Sabóia. E como se lembraria o cardeal de fazer uma coisa dessas? Talvez o arcebispo de Braga lhe tivesse pedido para o fazer, a fim de acabar, de vez, com o problema chamado D. Châmoa Gomes.

Para apimentar mais o meu romance, Afonso Henriques, que não fazia ideia dos planos do seu amigo arcebispo, terá, ele próprio, visto na vinda do cardeal uma oportunidade de conseguir autorização para o casamento com a sua amada.

Mais no próximo post.