Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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9 de junho de 2012

O Desastre de Badajoz - III

A fim de permitir a fuga de D. Afonso Henriques por uma porta mais pequena e menos vigiada, inventei uma manobra de diversão, a fim de iludir o inimigo: um ataque à alcáçova, onde ainda se encontravam os mouros refugiados.


Afonso esperou algum tempo perto da alcáçova, observando o ataque, a fim de convencer o inimigo de que dirigia as operações. Quando lhe foi dito que a porta do rio se tinha aberto, sem que ninguém desse conta, fez-se ao caminho, cavalgando cerro abaixo, dobrando curvas e esquinas, em ruelas tão estreitas, que o cavalo mal lá cabia. Seguiam-no os seus dois filhos, D. Gualdim Pais, Soeiro Viegas e mais quatro cavaleiros. O alferes-mor Pêro Pais oferecera-se para ficar nas imediações da alcáçova, a fim de que os mouros e os leoneses não dessem cedo demais pelo truque.
Se os que seguiam Afonso tinham duvidado, no serão anterior, de que ele ainda possuísse destreza e força, depressa mudaram de opinião. O rei cavalgava tão rápido, que eles não conseguiam acompanhá-lo de perto. Dir-se-ia que uma força diabólica o guiava. O seu peso de consciência?
No momento fulcral, pareceu turvar-lhe a coerência. Ao chegar à última curva antes da porta, Afonso, de tão ansioso de a atravessar, não freou convenientemente a montada. O animal fez a curva, mas empinou-se em frente à pequena porta, encimada pelo habitual arco em forma de ferradura. O rei dominou-o, forçando-o a passar pela abertura. Mas o cavalo tinha-se desequilibrado um pouco e fez com que a perna direita do rei raspasse na parede, ao lado da porta. E o joelho de Afonso acabou por chocar com enorme violência contra o ferrolho de ferro.
Afonso passou para o lado de fora das muralhas a dar um berro, provocado pela dor lancinante, e puxando involuntariamente as rédeas da montada. O animal tornou a empinar-se e, desta vez, sem acção na perna direita, o soberano não se conseguiu segurar e caiu ao chão. Também o cavalo perdeu o equilíbrio, sobre as rochas íngremes. E caiu sobre Afonso.
O facto de os outros cavalgarem algumas jardas mais atrás, acabou por se tornar vantajoso, pois conseguiram parar, antes de serem envolvidos no acidente. Desmontaram e foram direitos ao monarca, que se mantinha estatelado no chão, enquanto o cavalo logo se levantara. Soeiro Viegas, Fernando e Pedro ajoelharam-se ao pé do rei, tiraram-lhe o elmo e puxaram-lhe o almofre e a coifa para trás. Afonso jazia sem sentidos. A sua cabeleira branca colava-se, junto com o suor e o pó, à face pálida.
- Meu Deus - lançou Pedro. - Estará morto?

Daqui

D. Afonso Henriques não estava morto, mas ficou incapacitado de andar e montar para o resto da sua vida. Além disso, viu-se sujeito aos favores do genro, que foi magnânimo e não se apoderou do reino português, contentando-se com o recuperar de territórios galegos em posse do monarca luso e da promessa deste de respeitar a fronteira do Guadiana.

Tudo isto terá sido uma humilhação difícil de digerir para D. Afonso Henriques. Porém, não posso deixar de o admirar, pelo menos, no que diz respeito à sua incapacidade física. Um homem com a sua energia e a sua força de vontade, que se viu impedido de se deslocar pelos seus próprios meios, reagiu e manteve a dignidade, até à morte, cerca de quinze anos mais tarde. Ninguém contestou o seu poder, todos continuaram a obedecer-lhe e a venerá-lo. E, segundo as pesquisas históricas mais recentes, D. Afonso Henriques terá ainda conseguido evitar uma guerra civil, quando o seu filho ilegítimo, mais velho que o infante D. Sancho, aspirou ao trono português.

7 de junho de 2012

O Desastre de Badajoz - II

 
O escudeiro do rei preparava-se para lhe enfiar o elmo por cima do almofre, mas Afonso empurrou-o para o lado, bradando ao amigo:
- Não vedes que Badajoz se nos transforma numa armadilha gigantesca? Ficaremos entalados entre os leoneses e os mouros. Através da porta que liga a alcáçova ao exterior, os infiéis poderão munir-se de mantimentos.
Depois de uma hesitação, Soeiro Viegas replicou:
- Foram cometidos vários erros. Mas o maior de todos foi subestimar el-rei de Leão!
Afonso encarou-o furioso. Veio-lhe à ideia a última conversa com a filha Teresa. Agora, Soeiro Viegas dava razão à infanta! Como se atreviam eles a acusá-lo? Estaria a ficar velho, incapaz?
Num misto de fúria, desespero e arrependimento, agarrou as vestes do fidalgo e bradou-lhe:
- Dizei-o, de uma vez, com mil diabos! Nunca deveria ter acedido ao pedido de ajuda de Geraldo Sem Pavor! Não vos quis dar ouvidos e cai na ratoeira! Vamos, tendes coragem de o dizer?
Afastou-o de si, com um safanão. Soeiro Viegas permaneceu impassível. E Afonso acabou por murmurar:
- Entrarmos em conflito uns com os outros seria o próximo erro. É tempo de acabar com eles.

Muralhas de Badajoz

Os portugueses viram-se tão aflitos em Badajoz, sitiados por leoneses e mouros, que se acabou por se decidir a fuga de D. Afonso Henriques por uma porta pequena e menos vigiada. Confesso que tenho problemas com esta decisão: D. Afonso Henriques a escapulir-se, deixando os seus guerreiros à mercê do inimigo? Não combina com o seu caráter. Mas haveria uma razão de peso: seria a única hipótese de manter a independência de Portugal, já que o nosso primeiro rei estava nas mãos do rei de Leão.
É impossível saber o que se passou entre D. Afonso Henriques e os seus barões, nessa noite de todas as decisões. Eu tentei imaginar:

 
Nesse serão, Afonso reuniu-se com os seus barões e logo avisou:
- Não admito mais discussões sobre o que deveria ter sido feito, ou evitado. Em vez disso, concentremos as nossas forças, à procura de uma solução, que nos tire deste buraco em que nos enfiamos.
Depois de um momento de silêncio, seu filho Pedro Afonso sugeriu:
- Rendamo-nos!
O irmão dirigiu-se-lhe furioso:
- Não deves estar bom da cabeça! El-rei de Portugal não se pode render ao de Leão. Seria o fim do nosso reino.
O mais novo insistiu, dirigido ao pai:
- Ele é vosso genro. Porque não tentais negociar com ele?
- Estou numa posição deveras desvantajosa para negociar com D. Fernando - replicou o rei. - Ele bem poderia aproveitar esta oportunidade para se apossar do nosso reino. E eu prefiro morrer, a cair-lhe nas mãos!
(...)
Afonso começou a conformar-se com a ideia (da fuga). O reino era a obra da sua vida, uma obra que ele construía há mais de quarenta anos, desde aquele dia de São João Baptista, em que montara o seu cavalo, a fim de o guiar para a sua primeira batalha, no campo de São Mamede. E esta obra, que tanto trabalho, sacrifício e persistência lhe custara, corria o perigo de se esfumar. Porque Afonso estava convencido de que el-rei de Leão se apossaria de Portugal, caso ele se lhe rendesse. E ele não queria continuar a viver, se isso significasse assistir ao desmoronar da sua obra.
Afonso pôs-se pálido, o que lhe realçava os olhos raiados de sangue. O cabelo, usado agora mais curto, estava quase todo branco e começava a rarear-lhe no alto da cabeça. Ao vê-lo assim, afundado na sua cadeira, os outros olhavam-no como se, pela primeira vez, se apercebessem de que o seu soberano, o grande Afonso Henriques, aquela lenda viva, a quem tantos atribuíam forças sobrenaturais, estava a ficar velho.

Daqui

5 de junho de 2012

O Desastre de Badajoz - I

Sandra Serra

Em Maio de 1169, com cerca de 60 anos, D. Afonso Henriques terá cometido o maior erro da sua vida: foi em auxílio de Geraldo Sem Pavor, que conseguira entrar na cidade de Badajoz, mas que falhara a ocupação da alcáçova, onde se refugiara o rei mouro com os seus guerreiros. Seria grande a vontade do nosso primeiro rei em conquistar esta cidade, pois para lá se dirigiu, embora tivesse acordado com D. Fernando II de Leão, em Celanova, que a margem esquerda do Guadiana pertencia à zona de influência leonesa.


           Havia três dias que Afonso e o exército português tinham ocupado Badajoz, mas o rei mouro persistia, barricado na alcáçova. Dificilmente morreria à sede, pois as fortalezas mouras eram conhecidas pelas suas fontes. Os víveres, porém, já deveriam ser escassos.
As muralhas de Badajoz, com os seus merlões de remate piramidal, assentavam em rochas, sobre um cerro sobranceiro ao Guadiana, e estavam reforçadas pelos habituais torreões quadrados. Além disso, gozavam, tanto a norte, como a oeste, da protecção do rio. Afonso admirava, por isso, a habilidade de Geraldo Sem Pavor e do seu bando, em terem conseguido penetrar na cidade. O guerreiro vilão havia expulsado os habitantes mouros e judeus e os seus homens ocuparam as melhores casas, algumas delas, já vazias, à altura da invasão, pois os habitantes mais ricos e influentes tinham-se refugiado na alcáçova. Os moçárabes haviam sido autorizados a ficar e viviam agora lado a lado com os soldados portugueses.
Senhor de Badajoz, o exército de Afonso não montara acampamento. E, como o calor de fins de Maio quase não se aguentava, os guerreiros adoptaram o ritmo do bando do Sem Pavor: orgias pela noite fora, em que bebiam e se divertiam com as rameiras, que ninguém se lembrava de expulsar, independentemente da sua religião. Dormiam, assim, toda a manhã.

Badajoz
A indisciplina e a desorganização no exército português são uma das razões apontadas pelos historiadores para explicar o fracasso de Badajoz. Eu reforcei este aspeto com uma rivalidade entre D. Fernando Afonso, filho ilegítimo do rei português, e D. Pêro Pais da Maia, alferes-mor do reino, o que acabava por dividir o exército em duas fações. Na verdade, os dois eram meio-irmãos, ambos filhos de D. Châmoa Gomes, o que penso que poderia ter originado um rancor entre eles. D. Fernando Afonso almejaria ser alferes-mor (como acabou por ser) e D. Pêro Pais da Maia nunca teria digerido bem o facto de D. Afonso Henriques não ter casado com sua mãe. São invenções minhas, a fim de enriquecer o enredo, mas é curioso verificar que, depois da aventura de Badajoz, D. Pêro Pais da Maia se incompatibilizou com o nosso primeiro rei, refugiando-se na corte leonesa.


Na sua quarta noite em Badajoz, Afonso foi arrancado da cama, pois as rixas tinham tomado dimensões incontroláveis. Acompanhado da sua guarda, o rei cavalgou pelas ruas da cidade, vendo com os seus próprios olhos como centenas dos seus soldados, incendiados pela euforia do álcool e misturados com saltimbancos e outras figuras mais sinistras, se batiam uns com os outros. Algumas bulhas acabavam em sangue, pois havia sempre quem fosse lesto a puxar da sua adaga, ou do seu punhal.

D. Fernando II de Leão, que assinara um pacto de defesa mútua com o califa de Sevilha, e apesar de ser genro de D. Afonso Henriques, acabou por surgir com o seu exército, em auxílio do rei mouro de Badajoz. As tropas leonesas sitiaram a cidade, encurralando os portugueses e libertando os mouros, comunicando diretamente com a alcáçova.


É difícil encontrar uma resposta para o erro estratégico cometido por D. Afonso Henriques. Talvez não acreditasse que o genro viesse ajudar os mouros. Ou talvez pensasse que os mouros, encurralados na alcáçova, se rendessem rapidamente. Na verdade, os portugueses já tomavam conta de Badajoz há três ou quatro dias, quando os leoneses surgiram. Teria D. Fernando II, de facto, hesitado em agir contra o sogro?