Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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4 de fevereiro de 2020

Os criadores da mulata

Costuma dizer-se que o dinheiro, ou o poder, estragam o carácter. Na verdade, acontece o contrário: o dinheiro, ou o poder, mostram o verdadeiro carácter, aquele que foi recalcado. O adquirir de poder, ou de riqueza, abre novas possibilidades, surge a oportunidade de dar livre curso a desejos e práticas que muitos mantinham secretos.

Penso que se passa algo parecido com a libertação da xenofobia que alguns portugueses têm manifestado. Durante muito tempo, houve a convicção de que não existia racismo em Portugal. E a prova era que, em muitos países europeus, havia partidos de extrema-direita, notoriamente xenófobos, com bons resultados eleitorais, enquanto que, em Portugal, tudo continuava pacato. Confirmava-se: o nosso jardinzinho à beira-mar era um oásis.

O surgimento do partido Chega parece ter soltado a rolha que se mantinha sob pressão. Agora, sim, muitos mostram, sem pruridos, aquilo que lhes ia no interior. A melhor prova de que há racismo é o facto de este novo partido ter passado de 1,29%, nas últimas eleições, para 6,2%, nas últimas sondagens, muito à custa de uma simples frase do seu líder: mandou uma deputada negra regressar à "sua" terra. Ah, mas o homem foi provocado, coitado, a dita senhora deu-lhe cabo da paciência, precisava de uma lição. Enfim, um homem não é de ferro… (Isto faz-me lembrar outras coisas que não digo, para não me desviar do tema).

Quero, no entanto, fazer um parênteses para declarar que não estou a apoiar a proposta de Joacine Katar Moreira de devolver a África peças de arte que se encontram nos museus portugueses. Na verdade, não tenho competência para deliberar sobre esse assunto. Não sou, porém, contra a discussão de tal proposta, escutando vários pontos de vista, pois é algo que ocupa igualmente os governos de outros países europeus. O que eu veementemente condeno é a atitude do líder do partido Chega. Nada, no meu entender, a justifica. Mas o que mais me choca não é o comportamento condenável de um político (infelizmente, não é raro, entre políticos). O que mais me choca é a tal atitude ter ajudado a disparar as intenções de voto no seu partido.

Diz-se que os portugueses criaram a mulata, já em criança ouvia. E já nesse tempo, eu achava que havia algo de muito errado, nessa frase. Como Deus criou o homem (como sabem, o masculino serve para os dois géneros), o português criou a mulata - interessante, aqui, usa-se a forma feminina, embora seja inevitável que o garanhão luso tenha igualmente criado o mulato em proporções idênticas. Não estava mais de acordo com o funcionamento da nossa língua dizer que o português criou o mulato?

Mas ninguém fala no mulato, só na mulata. Porquê? Ora, porque a mulata é uma mulher lindíssima, sensual, que faz ferver o sangue dos homens. Quantos sonhos as mulatas já alimentaram, quantos poemas e canções já lhe foram dedicados… E quantos desses portugueses casaram com as mulatas que idolatravam? Bem, convenhamos que essa perfeição feminina transporta em si os genes negros… Por isso, não misturemos as coisas! A mulata serve para a diversão; casar é com a branca! Embora possa ser uma branca moreninha, assim com um tom de pele próximo do da mulata…

“Os portugueses criaram a mulata” - esta frase, que se diz com orgulho (não fôssemos nós um país de poetas) encerra, em si, um verdadeiro tratado sobre racismo e machismo. Hoje, fico-me pelo racismo, esse, que André Ventura ajudou a libertar. Acho que até lhe devíamos agradecer por, finalmente, nos mostrar a verdade. Espero que contribua para que deixemos de mentir a nós próprios.


Nota: Texto originalmente publicado aqui


16 de fevereiro de 2019

Esgotado ou Não Disponível?

Não se compreende!
O livro existe e está disponível, tanto na editora, como na distribuidora.
A situação na wook.pt e na bertrand.pt está assim, pelo menos, desde o dia 18 de janeiro (quando dei conta).
Já não peço que esteja em todas as livrarias, isso é privilégio só para alguns, que aprendi a aceitar. Mas que custava estar disponível online?
Para que conste: isto também é o mercado livreiro em Portugal!







8 de novembro de 2018

A Tempestade do IVA

A recusa da Ministra da Cultura em não baixar o IVA das touradas gerou uma tempestade num copo de água. Já estamos habituados a que os defensores deste tipo de espetáculo adotem comportamentos próprios dos populistas, ou seja, em vez de argumentarem, fogem ao assunto, refugiando-se em afirmações e comparações absurdas e/ou ridículas. O pior é quando pessoas que nos habituámos a respeitar adotam também esse tipo de comportamentos. Muito me surpreenderam as palavras de Miguel Sousa Tavares, na sua qualidade de comentador da TVI, uma pessoa que, apesar de ter uma visão diferente da minha, sempre considerei inteligente.

Disse ele que o «deputado do PAN aterroriza mais do que um touro» e, pelos vistos, acha revoltante que um único deputado faça a diferença no Parlamento. Sinceramente, não entendo onde está aqui o problema. Houvesse mais deputados a fazerem a diferença! A maior parte está lá a fazer sala, seria bom que houvesse muitos mais a lutar apaixonada e empenhadamente pelas suas causas, sejam elas quais forem! E o homem afinal aterroriza quem? Criancinhas? Políticos? Comentadores televisivos? Se o Miguel Sousa Tavares tem medo dele, talvez fosse bom questionar-se porquê.

Diz ainda o conhecido comentador que não compreende que uma maioria imponha algo a uma minoria por uma questão de gosto. Em primeiro lugar, fico satisfeita por ele reconhecer que a maioria é contra as touradas. Não se trata, porém, de uma questão de gosto, uma redução que os aficionados gostam de praticar, a fim de menorizar o problema. Os opositores às touradas lutam contra um espetáculo de tortura de animais. Não é uma questão de gosto, é uma questão de ética. Eu até posso aceitar que se matem animais para a nossa alimentação, mas não aceito que sejam mal tratados, muito menos, que sejam torturados para gáudio de uma multidão ávida de ver correr o sangue. É a ética que está em causa, não um gosto pessoal.

Miguel Sousa Tavares ironizou com o facto de as touradas serem transmitidas a horas tardias. Não é por impressionar as crianças, diz ele, é com medo de que as crianças se encantem com tão lindo espetáculo equestre! E então não é possível assistir a uma exibição desse tipo, sem aturar sadismo? Na Alemanha, as crianças e os jovens adoram espetáculos equestres, principalmente, as meninas. Na província alemã, há inúmeras quintas onde se pode aprender a montar e que são frequentadas por uma multidão de raparigas, desde os cinco ou seis anos, miúdas que adoram cavalos e póneis. O CHIO em Aachen (Aix-la-Chapelle, em francês) é um show equestre anual esperado com muita ansiedade, um acontecimento que atrai não apenas famílias alemãs, também muitas estrangeiras, e onde se pode assistir a magníficas exibições, sem o espetáculo degradante da tortura.

Termino com a afirmação mais absurda que ouvi nos últimos tempos: é assim (proibindo as touradas) que nascem os Bolsonaros! Isto é típico de populistas, é uma afirmação bombástica, bem característica de quem não tem argumentos. Trump e o próprio Bolsonaro ficariam orgulhosos de Miguel Sousa Tavares. O que mais me entristece é que esta afirmação nem é dele, mas de uma outra pessoa, que muito admiro: Manuel Alegre! E o mais irónico, no meio disto tudo, é que a maior parte dos aficionados e toureiros portugueses são realmente grandes admiradores de Trump e Bolsonaro!

Pois é, os Bolsonaros estão do outro lado, meus senhores, do vosso! É no que dá adotarem discursos indignos de vós! Defendam as vossas causas, mas defendam-nas com decência, com inteligência, com argumentos, com pés e cabeça!


23 de julho de 2018

Santuário de Nossa Senhora de Balsamão



Conheço este Santuário, fundado por um clérigo polaco, desde criança, pois avista-se do Lombo, a aldeia-natal do meu pai, no concelho de Macedo de Cavaleiros.


 O mosteiro inclui uma residencial onde se podem passar férias bem tranquilas.





As paisagens que de lá se podem admirar são de cortar a respiração.




Também há lugar para uns gatinhos que são alimentados pelo pessoal que trabalha no restaurante da residencial.


Numa próxima oportunidade, publicarei fotografias da igreja de Balsamão.


20 de maio de 2017

«Uma vitória na Eurovisão não serve para nada»


São palavras do Professor Marco Neves e eu concordo com elas. Mas vamos por partes!

Uma vitória portuguesa num palco internacional serve sempre para alguma coisa, quanto mais não seja, para que uma data de outros países tomem, por momentos, consciência de que existimos o que, convenhamos, já não é nada mau. Também serve, e isso será o mais importante, para nos aumentar a autoestima durante um determinado tempo.

O problema é que temos uma enorme tendência para exagerar. Dizemos logo que demos uma grande lição aos outros países e que esta vitória foi muito importante para a música portuguesa. Nem uma coisa nem outra é verdade!

Não demos lição nenhuma a ninguém! Salvador Sobral não foi o primeiro concorrente a cantar sozinho, na língua materna, sem efeitos de luzes e de sons. Quase todos os anos surge, pelo menos, uma participação desse género, que normalmente fica bem classificada. E, muitas vezes, o/a vencedor/a destaca-se precisamente pela simplicidade (não tanta como a dele, mas indubitavelmente mais simples do que os outros). Quem acompanha o Eurofestival todos os anos, como eu, sabe bem que assim é.

Achei aliás a atitude de Salvador Sobral, no fim, um pouco arrogante, ao dizer: «a música não é fogo de artifício, é sentimento». O apresentador tinha-lhe passado o microfone perguntando-lhe se ele queria dizer alguma coisa à Europa. Penso que estava a pensar em agradecimentos, ou algo do género. Salvador saiu-se com essas palavras pouco elegantes, desprezando a participação dos outros concorrentes. Foi a mesma coisa que dizer: “os outros não prestaram para nada, eu é que trouxe aqui uma canção de jeito”. Foi pouco elegante, admitamos! Se o tivesse dito no nosso país, numa qualquer entrevista… Mas disse-o a um microfone ligado a centenas de milhões de pessoas, na cara dos "colegas" de percurso!

Quanto ao efeito desta vitória na música portuguesa… É nulo! Valerá talvez apenas para consumo interno, pois, a nível internacional, não haverá mudanças. O júri alemão deu doze pontos ao Salvador Sobral e, no programa que acompanhou a transmissão do festival, elogiou o nosso cantor. Isso, porém, não quer dizer que na Alemanha (o caso que conheço melhor) o interesse pela música portuguesa irá aumentar, pelo menos, não significativamente. Ainda não ouvi a canção na rádio alemã, nem me apercebi que andasse alguém à procura dela. Por isso, muito me admira que um músico experiente como Tozé Brito vá dizer ao Telejornal que a vitória foi muito importante para a música portuguesa. Mas ele acredita mesmo nisso?

Parafraseando Marco Neves, mais uma vez, «esta vitória foi como um sonho vindo das profundezas da nossa infância». Para mim foi realmente o seu aspeto mais importante. Tantas vezes, desde miúda, invejei os países que se fartavam de ter votos, perguntando-me a mim mesma que sensação tal nos provocaria. Agora já sei, graças ao Salvador.

Obrigada, Salvador Sobral!

http://www.tsf.pt/cultura/interior/primeiro-concerto-de-salvador-sobral-desde-a-eurovisao-8491226.html