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3 de setembro de 2013
Naquele Tempo (22)
O segundo problema que carece de um estudo aprofundado é o da crise da corte portuguesa provocada pelo desastre de Badajoz de 1169. Como se sabe, provocou a associação ao trono de Sancho I e desencadeou várias alterações nos mais importantes cargos da cúria, entre elas o exílio do alferes Pêro Pais da Maia. Tudo isto mostra a eclosão de graves conflitos internos. Fiz notar estes factos em 1983 (Alfa, II, 84), mas até aqui, que eu saiba, nada mais se adiantou sobre ele. Seria preciso medir as suas efectivas dimensões e as suas consequências na política interna do país.
A verdade é que o reino parece ter sido governado, a partir daí, pelo príncipe Sancho. Qual o papel que Afonso Henriques passou a desempenhar? Poder-se-ão encontrar alguns indícios que permitam averiguar este problema? Neste sentido, seria necessário estudar mais de perto a actuação militar de Sancho I enquanto príncipe (...)
A propósito deste facto, convém notar que se conhece hoje, com mais detalhes do que nos anos 40 [do século XX], a profunda angústia que invadiu o reino exactamente nesta ocasião, e que se agravou com a morte de Afonso Henriques em 1185 e com as invasões almóadas de 1190 e 1191.
A nova face de Afonso Henriques - pág. 479
Nota: a problemática que se gerou a seguir ao desastre de Badajoz, que incluía a rivalidade entre o infante Sancho e o seu meio-irmão Fernando Afonso, foi explorada por mim em Afonso Henriques - o Homem. Na minha opinião, trata-se de um capítulo fascinante da nossa História medieval, infelizmente, mal conhecido. Sobre o desastre de Badajoz pode ler aqui.
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12 de agosto de 2013
Naquele Tempo (21)
Mas a dificuldade de distinguir a História da Epopeia continua até hoje. Foi preciso uma profunda alteração política para que a História propriamente dita fosse possível nas universidades, mas parece ser ainda difícil fazê-la penetrar nos discursos políticos, na imprensa e na vida pública. O mito insinua-se constantemente nas comemorações de factos gloriosos do passado e seduz poderosamente as comissões encarregadas de as promoverem. Reveste-se, então, das cores sedutoras de «busca da identidade nacional».
(...)
De facto, o tratamento da figura de Afonso Henriques produziu em Portugal os mais curiosos resultados desde que a crítica histórica penetrou entre nós. Inconscientemente, mesmo os historiadores que professavam um racionalismo militante se empenhavam na tentativa de dotar alguns dos grandes mitos nacionais de uma efectiva consistência histórica. Tornar o imaginário não só verosímil mas também real, pelos métodos seguros, científicos, escrupulosos, do positivismo e da erudição mais exigentes - eis o grande empenhamento, o persistente esforço de muitos dos nossos mais veneráveis historiadores nacionais, desde a época romântica até aos que ensinaram nas academias e universidades nos anos 40 a 60 [do século XX], e cujos propósitos foram seguidos por não poucos vulgarizadores de efectivo mérito científico até aos dias de hoje. Uma das suas figuras predilectas foi, naturalmente, a do fundador da nacionalidade.
As três faces de Afonso Henriques, págs. 456/457
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22 de julho de 2013
Naquele Tempo (20)
À protecção divina sucedeu a ideia de uma quase sobrenatural permanência do «espírito nacional» (Volksgeist) através de todas as vicissitudes do tempo, a indesmentida capacidade de vencer os inimigos ou de renascer da morte apesar de todas as derrotas, a inesgotável proliferação dos heróis capazes de dar a vida pela pátria, o incessante renascimento dos chefes adequados ao momento histórico ou mesmo genialmente capazes de conduzir a nação a admiráveis sucessos. Ao propor o ideal da heroicidade a todos os cidadãos, pelo simples facto de a narrar como história do povo lusíada, a épica quinhentista veio em socorro dos historiadores da nação e marcou indelevelmente cronistas e memorialistas portugueses até aos nossos dias. De uma forma ou de outra, obcecou românticos e liberais, a geração de 70 e os integralistas, os republicanos e os nacionalistas. A grande missão dos historiadores foi, para eles, sucessivamente, ensinar a preservar o «espírito nacional» presente nas instituições municipais, fazer ressurgir a pátria da decadência em que havia caído depois da epopeia marítima, ajudar a recuperar as boas tradições nacionais, esquecendo as contaminações estrangeiradas de ideiais corrompidos e corruptores, ou, pelo contrário, difundir o espírito do progresso para Portugal ser digno do seu passado. E, todavia, todos os historiadores modernos se consideraram, em Portugal, movidos pela racionalidade e descrentes de mitos. Inconscientemente, punham a ciência ao serviço do mito.
As três faces de Afonso Henriques, págs. 455/456
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8 de julho de 2013
Naquele Tempo (19)
Ora as noções de que aqui falo estão tão arreigadas na consciência cultural de todos, que é preciso lembrar constantemente uma realidade que poderia ser óbvia há seiscentos anos, mas não o é hoje de modo algum. Aparentemente não há muita dificuldade em recordar que, se o país surgiu como Estado independente em 1128, teria de ser precedido de uma realidade política bem diferente. Foi precisamente pelo facto de os autores dos anos 30 e 40 [do século XX], que se ocuparam muito deste assunto, terem partido de uma noção de Estado independente análogo ao que hoje existe, que eles postularam a existência de formas por assim dizer proféticas da nacionalidade, que se teriam ocultado antes, porventura desde a pré-história, sob aparências diversas, e que eles procuraram descobrir, como quem desenterra um tesouro. A ideia de Pátria como realidade sagrada, e por isso mesmo eterna, exigia que a fundação da nacionalidade não fosse mais do que a resposta a um apelo da natureza injustamente reprimido durante séculos. Para quem aplicava ao passado os conceitos fundamentais da ideologia então dominante, não era fácil de conceber a formação de Portugal como um longo processo, que começava propriamente com a fundação do Estado e não antes dele.
Capítulo Autonomias fronteiriças e formação nacional, ps. 445/446
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23 de abril de 2013
Naquele Tempo (18)
Entretanto, durante o período de anarquia anterior a 1250, também se registam revoltas urbanas pontuais. O caso mais conhecido situa-se de novo no Porto, onde, em 1237 ou 1238, o bispo desencadeou uma violenta repressão antipopular. Sabemo-lo por meio de uma carta do concelho da cidade a todos os bispos do reino (J. Mattoso, 1982b, p. 341), na qual lhes pedia que interviessem junto do seu prelado para reprimir a sua violência. Dizia-se nela que o bispo tinha conseguido atrair cavaleiros para os incitar contra os cidadãos, provocando destruições na cidade e enforcando muitos habitantes, havia vendido publicamente os seus filhos e mulheres como se fossem sarracenos, e tinha praticado outros abusos. Pela mesma altura, os franciscanos queixavam-se também de que o bispo tinha mandado queimar e saquear o seu convento. Estes dois documentos mostram que as violências do bispo se deviam a resistências da gente da cidade contra as suas exigências, o que, por sua vez, desencadeou novas reacções de parte a parte.
Capítulo Revoltas e revoluções na Idade Média portuguesa, p. 414
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8 de abril de 2013
Naquele Tempo (17)
É verdade que em Portugal não havia corrida de touros por ocasião dos doutoramentos, como em Salamanca. Mas os presentes e banquetes que o graduado tinha de oferecer deviam ser suficientes para os arruinar por completo ou endividar por muitos anos.
Eis o que prescrevem os estatutos de 1431 (CUP, doc. 949). Na atribuição do grau ao bacharel, este tinha de oferecer luvas aos reitores, a todos os graduados e aos lentes, e dar de uma a três coroas de ouro à Universidade, outro tanto ao mestre ou doutor, e uma ao bedel. O licenciado tinha de oferecer doces (confectiones) e vinho, pagava três coroas de ouro à Universidade, outras tantas ao padrinho e a cada um dos doutores, além de dar uma faixa a cada um dos doutores e uma veste condigna ao bedel. O mestrando tinha de se apresentar no acto com uma veste «óptima e honesta» e convidava os presentes para uma refeição (collatio) antes do acto; oferecia a cada um dos quatro mestres um barrete, um cinto, um punhal e um par de luvas; mais um barrete, além de «o que quisesse», a cada um dos doutores; no fim pagava um banquete. Enfim, o doutorando tinha de ir vestido com uma capa de bom pano, forrada de boas peles no Inverno e de seda no Verão, dava vestes novas ao padrinho, oferecia ao bedel uma boa veste forrada de pano e com capuz, pagava cinco coroas de ouro à Universidade, presenteava todos os doutores e mestres, mesmo de outras faculdades, o chanceler e subchanceler com barretes e luvas, e todos os graduados, oficiais e pessoas notáveis com luvas; pagava também as suas próprias insígnias - o barrete e o anel -, e convidava para um banquete todos os graduados, mesmo os doutores de outras faculdades e todos os oficiais da Universidade.
A estas despesas acresciam ainda: para o mestrando, o pagamento dos músicos, sobretudo dos trombeteiros, que acompanhavam o cortejo antes da cerimónia da concessão do grau; para o doutorando, o cortejo que o levava de sua casa até à catedral, para aí ouvir a missa solene do Espírito Santo, e daí seguia até à Universidade; e, depois do banquete, o cortejo a cavalo que percorria toda a cidade até ao Mosteiro de São Domingos, onde as festas terminavam com o ofício solene das vésperas na capela de Santa Maria da Escada. Provavelmente o doutorando tinha ainda de presentear os celebrantes da missa na catedral e os dominicanos que cantavam as vésperas em São Domingos.
Capítulo O suporte social da Universidade de Lisboa-Coimbra (1290-1537), pág. 402
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27 de março de 2013
Naquele Tempo (16)
A velha tese do total desaparecimento da escravatura durante a Idade Média nunca teve grande sucesso entre nós. Os compêndios falavam nisso, mas os medievalistas sabiam que a escravatura se havia prolongado durante séculos, sobretudo em virtude das presas capturadas por ocasião da guerra com os muçulmanos. A obra clássica de Charles Verlinden, em 1995, mostrou mesmo que nos países mediterrânicos e concretamente em Portugal não chegou a haver um verdadeiro hiato entre a escravatura propriamente medieval e o comércio de negros capturados em África desde a primeira metade do século XV. O recente livro de divulgação de Jacques Heers, de 1981, já traduzido em português (1983), veio enquadrar todo o problema da escravatura medieval como uma característica do mundo mediterrânico, principalmente nos sectores urbanos, estudou as suas modalidades e a sua relação com o serviço doméstico e esboçou mesmo uma certa geografia da distribuição e dos circuitos comerciais.
(...) mesmo no Norte do país, em Aveiro e no Porto, se praticava a compra e venda de escravos, até de escravos brancos. Domingos Anes de Vilar era decerto um mercador especializado neste tipo de negócio, visto que adquire uma moura e vende pouco depois uma branca. Podemos alcançar uma ideia do seu preço no princípio do século XIV. Confirma-se, pois, o que Heers concluíra, ou seja, que a prática da escravatura se manteve, principalmente em meios urbanos e como complemento do serviço doméstico, englobando sobretudo o mundo feminino.
Páginas 379/380 - Comércio de escravos em Portugal no século XIV
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28 de fevereiro de 2013
Naquele Tempo (15)
(...) os árabes estabeleceram-se sobretudo nas antigas províncias romanas da Bética, da Tarraconense e da Lusitânia. Distribuíram destacamentos de tropas berberes na Galécia e na Lusitânia do Norte, mas aqui a ocupação foi efémera. Em 743 os Berberes revoltaram-se contra o vali da Hispânia e refluíram para o Sul. O Norte do Douro ficou assim numa situação de ausência de um poder superior, visto que o reino das Astúrias, fundado em 720, dominava apenas uma pequena parte da região montanhosa setentrional cujo núcleo central nem sequer tinha sido efectivamente ocupado pelos Romanos nem pelos Visigodos. A expansão do reino das Astúrias a norte do Douro foi lenta, e desencadeou resistências da parte das populações cristãs locais, sobretudo na Galécia; só chegou ao Douro no reinado de Afonso III, em 868.
Discutiu-se muito sobre as condições em que ficou a região a norte do Douro durante o período de 743 a 868, ou seja, até ao estabelecimento de condes delegados de Afonso III na Galiza, Leão e Castela.
(...) a maioria dos historiadores acreditou no abandono completo e até na desertificação de todo o vale do Douro, como meio estratégico de defesa contra as incursões islâmicas. Sánchez-Albornoz fez, até, do despoblamiento o ponto fulcral da sua interpretação da história medieval espanhola. Sabe-se hoje que exagerou excessivamente a extensão e o grau do fenómeno. No vale do Douro, sobretudo no seu curso português, mas também na área leonesa e na Meseta castelhana, permaneceram várias cidades e muitas povoações. Tudo leva a crer que foi precisamente aí que nasceram os concelhos medievais, a mais típica organização local da Idade Média ibérica.
Páginas 354/355 - A nobreza e os cavaleiros-vilãos na Península Ibérica (séculos X a XIV)
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3 de fevereiro de 2013
Naquele Tempo (14)
É de supor que quem queria subir de nível procurasse noiva acima do seu. As hipóteses de o conseguir, porém, não garantiam automaticamente a ascenção social: pelo menos, quando a diferença era grande, um casamento deste género podia ser considerado, como acontecia regularmente noutras regiões feudais, nomeadamente na Catalunha, como uma forma de sancionar a vassalagem do respectivo noivo. É provável que, pelo menos em caso em que se podem presumir relações de vassalagem, mais ou menos clara, isto acontecesse também em Portugal. Os estudos destes casos não são fáceis porque as relações de dependência feudal são, em Portugal, pouco explícitas.
(...)
Mais claros são certos casos de matrimónios de nobres de categoria média ou inferior desposarem herdeiras (não filhas segundas) de linhagens prestigiadas e por esse meio garantirem a sua passagem a níveis superiores de aristocracia. Leontina Ventura (1992) deu alguns exemplos típicos situados na época de transformações que foi o reinado de Afonso III e a este propósito estudou particularmente o caso típico dos Briteiros (com A. Resende de Oliveira, 1995). Este último foi pouco depois objecto de outra análise por J. C. Miranda (1996), dado o seu especial interesse por incluir a história de um rapto de mulher de condição superior.
A maior parte das vezes, porém, os casamentos verificam-se entre membros da mesma categoria social e servem justamente para garantirem a sua perpetuação.
(...)
Como se poderia esperar, o casamento com noivas de condição inferior patenteia, só por si, a decadência da linhagem (...) mesmo quando constituem um recurso para resolver endividamentos.
A mulher é, portanto, o principal elemento dinamizador das relações sociais, como observou Lévi-Strauss.
Páginas 342/343, Perspectivas actuais sobre a nobreza medieval portuguesa
28 de dezembro de 2012
Naquele Tempo (13)
Estes factos não estancaram a imigração de nobres galegos para Portugal. Este movimento prolongou-se praticamente durante todo o século XII. Observe-se, antes de mais, que a expulsão de Fernão Peres de Trava depois de São Mamede não o impediu de voltar pouco depois a Portugal, para sufragar a alma de D. Teresa, que não sobreviveu muitos meses ao seu exílio na Galiza. Seu irmão Bermudo pode também ter tido conflitos com Afonso Henriques, mas nem por isso deixou de constituir família em Portugal. Apesar destas rivalidades, Afonso Henriques contava na mesma com apoiantes galegos, como os senhores de Toronho e de Límia, cuja colaboração deve ter passado pela homenagem prestada ao príncipe português, o que provocou várias intervenções armadas de Afonso VII para os reduzir à obediência. Por outro lado, [Afonso Henriques] teve como alferes entre 1130 e 1136, e como mordomo-mor entre 1146 e 1159, o nobre galego, filho do conde de Sobrado, Fernão Peres dito Cativo. Tal como os nobres de que falámos anteriormente, com excepção de Fernão Peres de Trava, era certamente um juvenis, um filho segundo, que veio servir o príncipe de Portugal como cavaleiro e depois se tornou membro importante da corte; tornou-se origem de uma linhagem radicada em Portugal, a família de Soverosa, cujos membros desempenharam funções políticas importantes. As suas ligações ao reino de Leão reforçaram-se imediatamente, depois da morte de Afonso Henriques, quando o filho de Fernão Cativo, Vasco Fernandes, que também foi mordomo-mor, foi substituído no seu cargo por Mem Gonçalves de Sousa, o que provocou o seu exílio para a corte do rei Fernando II de Leão, que o nomeou governador de Zamora entre 1186 e 1194. Mas os filhos de Vasco Fernandes continuaram em Portugal, na corte de Sancho I.
Páginas 316/317, A nobreza medieval portuguesa no contexto peninsular
12 de dezembro de 2012
Naquele Tempo (12)
O importante, do nosso ponto de vista, é que a batalha [de São Mamede] constituiu, ao mesmo tempo, uma afirmação de independência dos nobres portucalenses contra uma eventual submissão à alta nobreza galega. De facto, como vimos, todos os nobres que mencionámos até aqui pertenciam a famílias de nível condal. Foi certamente este facto que provocou a reacção dos barões portucalenses. Desde a morte do conde Nuno Mendes de Portucale em 1071, representavam a camada superior da nobreza regional. Se se mantivesse o casamento de D. Teresa com Fernão Peres de Trava, mesmo que ela se viesse a tornar rainha de um reino independente, isso significaria a relegação dos nobres portucalenses para segundo plano. Viam-se, portanto, ameaçados pela concorrência galega nas suas próprias terras e funções curiais.
Quer isto dizer que o núcleo fundamental da nobreza portucalense, depois de ter começado a adoptar um comportamento próprio e de proclamar a sua autonomia, demonstrou a sua capacidade para se opor em conjunto a outra nobreza regional, e deu a essa oposição uma expressão política ao eleger como chefe o príncipe Afonso Henriques. Não se trata, porém, obviamente, de um movimento «nacional», mas de uma associação de interesses expressa em termos vassálicos, o que quer dizer, em termos precários. Só a permanência desse vínculo ao longo de séculos e a sua conjugação com muitos outros factores permitiriam fazer dele o ponto de partida para uma futura e ainda longínqua solidariedade nacional.
A nobreza medieval portuguesa no contexto peninsular, página 316
18 de novembro de 2012
Naquele Tempo (11)
(...) depois dos clérigos da chancelaria régia e, logo a seguir, dos clérigos em geral, cuja formação específica os induzia a formularem mais facilmente conceitos abstractos, aquele grupo social que mais rapidamente adquiriu consciência de uma certa identidade nacional (em termos obviamente diferentes daqueles que viriam a impor-se no século XIX) foi a nobreza. E dentre as diversas categorias da nobreza, naturalmente, em primeiro lugar os vassalos régios, os membros da corte e os que de alguma maneira dependiam do rei, como eram, por exemplo, os alcaides e os ricos-homens governadores de terras. Como veremos adiante por meio de vários indícios, este facto não significa que a consciência da identidade nacional fosse, entre os nobres, exactamente igual à de hoje.
Com efeito, essa consciência não resultava apenas do vínculo ao rei por parte dos súbditos, como vassalos que eram. Nascia igualmente da contraposição aos nobres dos outros reinos peninsulares. Esta contraposição não se concebia, porém, em termos por assim dizer «nacionalistas».
A nobreza medieval portuguesa no contexto peninsular, página 312
30 de outubro de 2012
Naquele Tempo (10)
A existência na Península Ibérica de vários reinos independentes não impediu que os habitantes de cada um deles, sobretudo os mais cultos, se considerassem como Hispani, isto é, como habitantes de uma entidade geográfico-cultural que sucedia à antiga dioesecis Hispaniarum do tempo do Império Romano. O fenómeno da restrição do conceito de «espanhóis» aos súbditos do Estado espanhol é, como se sabe, um fenómeno moderno. Antes disso, a concepção da Península Ibérica como um todo, com a sua identidade própria, independentemente dos reinos que a compunham, foi uma ideia corrente e indiscutível durante toda a Idade Média, como demonstrou já há meio século António Maravall, entre vários outros autores. Este fenómeno, todavia, não impedia os súbditos de cada um dos reinos de terem igualmente consciência da sua identidade como Castelhanos, Leoneses, ou Portugueses.
A nobreza medieval portuguesa no contexto peninsular, página 311
3 de outubro de 2012
Naquele Tempo (9)
A citação de hoje foi-me inspirada pelo surgir de um suposto evangelho, onde se poderá concluir que Jesus Cristo foi casado. Não vou pôr a sua credibilidade em causa, deixo isso para os peritos,
mas aproveito para lembrar que o celibato eclesiástico não existia
nos primeiros séculos do Cristianismo. A situação da
Península Ibérica, no início da Idade Média, é referida pelo Prof. Mattoso, nas páginas 58 e 59, inseridas no Capítulo: “Barregão – barregã: notas de semântica”:
Por outro lado, parece também certo que a prática da
igreja visigótica admitia a vida conjugal dos clérigos. É o que se deduz dos
cânones 42 e 44 do concílio IV de Toledo, do ano 633 (…)
O casamento dos clérigos é, portanto, legítimo se a
mulher não for viúva, repudiada ou prostituta, e se for celebrado com o acordo
do bispo (…)
É possível, no entanto, que o casamento ou concubinato
do clero fosse uma matéria altamente controversa, como parecem dar a entender
outras prescrições conciliares e as situações que elas tentam reprimir,
aparentemente sem grandes resultados. Não é provável que a situação de
desorganização e conflito que se seguiu à invasão árabe e se manteve até ao
século XI fosse muito propícia à generalização do celibato eclesiástico. De
facto, ainda no concílio de Compostela de 1056 aparece uma prescrição acerca
dos presbyteris et diaconibus
coniugatis.
Mesmo depois da Reforma Gregoriana, no século XI, que instituiu, definitamente, o celibato eclesiástico, os hábitos custaram a mudar. Ainda no tempo de D. Dinis, séculos XIII/XIV, se tentava pôr na ordem os padres que, na impossibilidade de casarem, continuavam a manter barregãs, como um direito que lhes assisitisse. E, ao contrário do que se pensa, o povo medieval era muito condescendente nesses casos.
Mesmo depois da Reforma Gregoriana, no século XI, que instituiu, definitamente, o celibato eclesiástico, os hábitos custaram a mudar. Ainda no tempo de D. Dinis, séculos XIII/XIV, se tentava pôr na ordem os padres que, na impossibilidade de casarem, continuavam a manter barregãs, como um direito que lhes assisitisse. E, ao contrário do que se pensa, o povo medieval era muito condescendente nesses casos.
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27 de setembro de 2012
Naquele Tempo (8)
«A nobreza participou, evidentemente, na guerra externa durante os séculos XI a XIII. Mas seria grave ilusão atribuir-lhe os principais méritos da conquista do território, como tentavam fazer crer muitos nobres já no fim do século XIII e acreditou também a historiografia recente. Na verdade, depois da participação directa de exércitos de condes e magnates na ocupação do vale do Douro no século XI, o papel activo coube entre 1064 e 1147, ou seja, entre a conquista de Coimbra e a de Lisboa, a nobres de categoria média ou inferior das zonas de Viseu, Lamego e Coimbra, por vezes, sob o comando de condes galegos, como os Travas, e aos cavaleiros-vilãos dos concelhos. Coube, mais tarde, entre 1147 e 1217, aos exércitos de Afonso Henriques e de seu filho Sancho, às ordens militares e a certos bandos de marginais, como o comandado por Geraldo Sem Pavor, o Cid português. Coube, enfim, predominantemente às ordens militares entre 1217 e 1249, a data da conquista definitiva do Algarve. Os membros da alta nobreza que participaram no exército régio foram apenas os altos dignitários da corte, entre eles o alferes. É de supor que esta participação foi pouco mais do que honorífica. A intervenção efectiva deve-se sobretudo a cavaleiros de segunda e terceira categoria, que militavam ao lado de cavaleiros-vilãos (...) Daí o sentido predominantemente profissional da categoria do «cavaleiro» até ao princípio do século XIII (e mesmo depois), o carácter tardio da identificação da nobreza com a cavalaria, a imprecisão terminológica do vocábulo e alguma resistência social ao ideal da cavalaria».
Página 293, A nobreza medieval portuguesa (séculos X a XIV)
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31 de agosto de 2012
Naquele Tempo (7)
«Quero-me referir à ideia de que os Descobrimentos são um fenómeno europeu e não apenas um fenómeno português. Quero com isto dizer que a curiosidade pelo mundo asiático ou africano não se encontra apenas em Portugal mas também noutros países ocidentais; é uma atitude corrente na Europa de então. Se as grandes iniciativas das viagens exploratórias pertencem, em primeiro lugar,e durante um certo tempo, a portugueses, também não se pode negar que nelas participaram igualmente, como técnicos, armadores, ou inspiradores, muitos italianos, e ainda que às viagens portuguesas se seguiram, não muito tempo depois, as dos espanhóis ou de outros povos europeus (...) Quero, enfim, dizer que o fenómeno só se pode compreender na sua amplitude, quando se relaciona com a conjuntura económica e demográfica de toda a Europa e com o sistema de pensamento ou a atitude perante o mundo, característicos da civilização europeia».
Página 215, O mar a descobrir
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11 de agosto de 2012
Naquele Tempo (6)
"Apesar da quantidade de privilégios de que D. Dinis a dotou (Universidade) e de vários soberanos lhe terem aumentado os rendimentos, nomeadamente em 1345, 1411 e 1474, é preciso esperar pelo princípio do século XVI para que as estruturas universitárias pareçam adquirir uma certa solidez (...) Nem do ponto de vista social, nem do ponto de vista cultural, se pode descortinar qualquer papel de relevo tomado pela Universidade, como instituição de cultura na vida portuguesa e muito menos na vida internacional.
Com a documentação que possuímos (...) não é fácil explicar este fenómeno, que requereria uma análise muito detalhada. As circunstâncias da época não favoreciam o seu desenvolvimento, mas não bastam, só por si, para responder à questão. Com efeito, a comparação com a maioria das universidades europeias, que também tiveram de enfrentar a grave crise da época, não pode deixar de acentuar esta impressão."
(Página 212, A universidade portuguesa e as universidades europeias)
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11 de julho de 2012
Naquele Tempo (5)
"Apesar de o Direito ser, decerto, a matéria mais cultivada na Universidade portuguesa, os seus professores não alcançaram nunca competência suficiente (ou suficientemente reconhecida) para concorrer com os mestres de Salamanca ou de Bolonha. D. Dinis e D. João I não se contentaram com a consulta dos doutores portugueses. Para questões mais importantes recorreram ambos aos da Universidade italiana, como aconteceu, de resto, com particulares num processo especialmente complicado, em 1408.
Não admira, portanto, que nas outras matérias a debilidade da Universidade portuguesa fosse ainda maior. Esta inferioridade explica, e de certa maneira comprova-se também, pelo facto de os estudantes portugueses, sobretudo aqueles que depois desempenharam papel intelectual, político ou eclesiástico de relevo, terem frequentado preferentemente universidades estrangeiras, sobretudo Salamanca e Bolonha, mas também Paris e Oxford (os franciscanos, pelo menos) e muitas outras universidades italianas."
(Página 207, A universidade portuguesa e as universidades europeias)
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21 de junho de 2012
Naquele Tempo (4)
"Para todos, porém, mesmo para Fernão Lopes, embora ele não o diga, era indispensável dotar a cidade dos símbolos da sua nobreza, da sua riqueza e da sua segurança. Eram, nesta época, os símbolos monumentais concretos, visíveis e bem elevados acima do casario: as grandes igrejas ou catedrais que atraíam a protecção divina, os palácios onde moravam os detentores do poder, as altas torres que se podiam ver de muito longe e das quais se controlava um largo território, e finalmente as muralhas que não serviam só para proteger dos inimigos, mas também para separar o espaço onde reinava uma certa liberdade individual daquele onde a maioria estava sujeita ao trabalho da terra e a tributação.
Portanto, para todos, a cidade, sede do poder, da riqueza, da ordem, da racionalidade. Pólo organizador do espaço e da sociedade. Centro do mundo. Íman de bens, de homens e de saber. Lugar do encontro entre Deus e todos os homens. Prefiguração da Jerusalém celeste".
(Página 191, A cidade medieval na perspectiva da história das mentalidades)
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29 de fevereiro de 2012
Naquele Tempo (3)
Ou: Aspectos menos conhecidos da Idade Média
«O casamento só foi considerado um sacramento e, por isso,
indissolúvel, depois do século XI; tardou séculos a generalizar-se como
cerimónia litúrgica imposta a todos os fiéis.
(...)
O
casamento de facto e o casamento privado (ou casamento "de juras") eram
considerados legítimos, praticaram-se sem oposição da Igreja até ao
concílio de Trento (realizado no século XVI), e continuaram a ser a forma mais corrente de união matrimonial entre as classe populares até à mesma época.
(...)
A
moral clerical sempre foi severa para com o adultério, mas era
razoavelmente tolerante para com as relações conjugais entre pessoas
livres.»
(Páginas 20/21, A moral clerical e a sua evolução)
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