Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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28 de dezembro de 2011

Passatempo Fado/Cruz de Esmeraldas

Como prometido, aqui ficam extractos de textos que, apesar de não terem vencido o passatempo, são dignos de menção.

A Ana Sofia Allen cita Fernando Pessoa: "O fado é o cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou". Identificando o fado como "dor transformada em música", Ana Sofia Allen explica porque o fado é entendido noutros cantos do mundo:

Com o coração [os estrangeiros] sentem o que as palavras não entendem - um profundo pesar e um encantamento próprio que só o fado pode dar.
(...)
E tal como um insecto pode ser preservado em âmbar durante milhares de anos, o fado continuará a preservar e a alimentar a essência humana, com o mesmo brilho e profundidade da resina.
(...)
A partir de agora, o fado (...) é um tesouro do mundo. Um tesouro que fala de Portugal, da sua cultura, da sua língua, dos seus poetas, mas também de algo comum a todo o ser humano - os sentimentos.

O Pedro enviou um dos seus poemas, que, na sua simplicidade e economia de palavras, tanto dizem:

o fado moderno
o fado antigo
o fado da tasca
é tudo fado

de verdade, o fado
é fugidio
é o fado do eu
o fado da dor

A Cristina Tordo intitula o seu texto Fado de um rio e faz um interessante paralelismo entre o fado, que nasce "alheio às limitações de uma cultura", e o Tejo, que não sabe "o que é ser-se prisioneiro de uma fronteira, limitações dos homens":

Na melodia de uma guitarra este lamento é poema, num canto que de tanta boémia, soa a santidade.
(...)
Por viver na alma do povo, o fado herdou a liberdade em ser do mundo, como um copo de taberna que transborda sobre a mesa. Mas tal como o Tejo, o fado será sempre nosso!

Os meus agradecimentos a todos os que participaram. Surgirão novas oportunidades (com outros temas), pois tenciono repetir esta experiência gratificante.

26 de dezembro de 2011

Passatempo Fado/Cruz de Esmeraldas

"A algunos de mis amigos de España (aunque también de otros países) no les gusta el fado. A mi sí."

Bartolomé Bauzá


Devido à qualidade e beleza de alguns textos, a escolha foi difícil. Decidi-me pelo de Bartolomé Bauzá, apesar de, em parte, ser escrito em castelhano. Ou talvez por causa disso! Habituada a considerar o fado algo de que só os portugueses falam (em 19 anos de Alemanha, só uma única pessoa me falou no fado, sem eu o ter referido antes), confesso que me surpreendeu esse jeito de escrever sobre o fado em castelhano. Sobretudo em castelhano! E, no meio da hesitação, teria de haver algo que ditasse a decisão final.

Num próximo post publicarei extractos de outros textos de que gostei particularmente. Para já, deixo-vos com o vencedor:


A algunos de mis amigos de España (aunque también de otros países) no les gusta el fado. A mi sí. Oí que el fado tenía sus orígenes en las cubiertas de proa de los barcos que hacían la ruta de ultramar.

Eu sou marinheiro, como o meu pai e os meus dois avôs;  talvez para compreender o fado é preciso entender primeiramente o mar.

La mar, como decimos en España. En femenino, como un nombre de mujer.

Maria Lisboa. María del Mar.

Un amigo mío -otro, a éste le gusta el fado- me citaba a Rilke: hace falta una vida para escribir un verso.

Faz falta uma vida para cantar um fado...
Faz falta uma vida para ouvir um fado...

Faz falta uma vida para compreender o fado.

Quizá es porque no han vivido. No lo suficiente. No con intensidad. No en la mar.

Não com saudades.

No con miedo.  Separados de quién se quiere.

María del Mar. Maria Lisboa.

Isso são saudades…

Para trabajar en la cubierta de proa de un barco hace falta ser un hombre duro. Miro hacia atrás, a la costa que se aleja. Todavía hay alguna gaviota con nosotros.

Nao gosto do meu companheiro. Ele tem um walkman. Rock and Roll.
Eu tenho, as gaivotas, ainda.
Eu tenho o fado. Cá, na minha cabeça.
Lá, na costa. Nos seus lábios cantores.

Definitivamente, no me gusta ese tipo.

María del Mar. Maria Lisboa.

27 de novembro de 2011

Fado

A propósito da classificação do Fado como Património Imaterial da Humanidade, lembrei-me de um texto que escrevi para o Delito de Opinião, respondendo ao amável convite do Pedro Correia, e que tornei a publicar aqui no Andanças. O seu título era Herança Islâmica e eu citava o lindíssimo livro de Adalberto Alves, Em busca da Lisboa Árabe (Edições CTT, 2007).





Adalberto Alves fala-nos no drama vivido pelos últimos mouros em terras portuguesas, depois de D. Manuel I decretar, em 1496, a expulsão do reino de todos os que não se convertessem à fé católica. Muitos conseguiram simular uma integração, mas ficaram sujeitos às mais variadas atribulações, no que constituiu um dos maiores dramas da História da Península do século XVI. Como nos diz o autor na obra referida: “transformados em marginais, rufiões e desclassificados, ébrios de fatalidade, frequentavam ainda Alfama e Mouraria vagueando como fantasmas gastos, sob a pálida memória dos seus antepassados”; “inventam um género musical e com ele cantam o seu fado”; “ao percorrermos certas alfurjas esquecidas de Lisboa antiga, parece sentirmos ainda como que os ecos longínquos desses fados esquecidos, onde o árabe se enroupava em português para exprimir o lamento dos humilhados do destino.”

No livro, é ainda reproduzida, na página 147, uma fotografia do autor na companhia de Amália Rodrigues, que, como Adalberto Alves nos diz, “estava intimamente convicta da parentela entre o fado e a música árabe, que muito apreciava”.

Eu sei que esta teoria é polémica, mas eu acredito nela. E seria bom que os portugueses, a propósito desta classificação, se lembrassem dos mouros; se lembrassem de que a herança islâmica é muito forte no nosso país; referissem que essa herança terá tido mais importância para a formação do nosso carácter do que o que se costuma aceitar; referissem que, se não fossem os mouros, talvez não existisse o Fado.