Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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24 de maio de 2015

Licor Chamoa


Tendo familiares em Santa Maria da Feira, adquiri uma ligação afetiva a essa cidade, na infância e na juventude, em férias que lá passei e em inúmeras visitas aos meus tios e primos. Depois, as vidas tomaram outros rumos e, no meu caso, a ida para a Alemanha, em 1992, afastou-me de pessoas e lugares.

Felizmente há acasos que despertam coisas adormecidas dentro de nós. Há uns anos, escrevi o meu romance sobre D. Afonso Henriques decidida a explorar facetas desconhecidas do monarca. E descobrir que ele terá tido uma grande paixão, com quem terá pretendido debalde casar, foi quase como abrir uma caixinha de joias, de cuja existência ninguém desconfiava.

O nome da protagonista era Châmoa Gomes, uma relação que, aliás, parece ter acabado com o casamento do monarca. As razões perderam-se no tempo. Eu é que não podia perder a oportunidade! E, quando precisei de localizar uma cena decisiva, veio-me ao pensamento a imagem do castelo de Santa Maria da Feira, que tantas vezes visualizei, da varanda dos meus tios.


A decisão acarretou consequências agradáveis. Como já aqui tinha referido, Miguel Bernardes, um empresário feirense ligado à restauração, liderou o processo de criação e produção do licor de Chamoa, baseado nessa paixão de D. Afonso Henriques e tornado na bebida oficial da Viagem Medieval, que se realiza todos os anos em terras de Santa Maria.

 
 Ontem, estive precisamente em Santa Maria da Feira e o Daniel Santos, promotor do 2711, guiou-me aos locais onde se vende o licor e se pode ler um pequeno excerto do meu livro. Fiquei com o tal brilho nos olhos, referido pelo Daniel. E travei conhecimento com o próprio Miguel Bernardes, proprietário do Praceta Restaurante, onde adorámos almoçar. Entre outras delícias, o meu marido ficou maravilhado com o bife Praceta, servido com um molho que inclui chocolate e que prova o poder de criação do Miguel Bernardes. De entre as ideias que ele ainda apresentará, talvez arranje inspiração em mais algum dos meus romances…

Com o Daniel e o Miguel Bernardes, a tentar controlar as diabruras da Lucy
 Aproveito para agradecer mais uma vez ao Daniel o tempo que nos dispensou, proporcionando-nos um dia excecional, pois tivemos ainda oportunidade de apreciar o Teatro de Rua de Santa Maria da Feira, já que a nossa visita coincidiu com a edição deste ano.


 

11 de setembro de 2014

Licor de Chamoa

Como já aqui referi, Afonso Henriques, quando ia pelos vinte e oito anos,  ter-se-á perdido de amores por D. Châmoa (ou Flâmula) Gomes, pertencente à alta nobreza galega. Os dois tiveram, pelo menos, um filho e o nosso primeiro rei talvez tenha tencionado casar com ela. Mas deparou com três grandes obstáculos:
1º Passado pouco recomendável para esposa de um monarca.
2º Sobrinha de Fernão Peres de Trava, o que queria dizer que o sucessor do nosso primeiro rei pertenceria, neste caso, à família galega que tantas dores de cabeça dera aos barões portucalenses.
3º Fizera-se monja em Vairão, depois de enviuvar, pelo que o casamento lhe estava proibido.

Se quiserem ler mais sobre este caso, por mim explorado no romance Afonso Henriques - o Homem, podem fazê-lo aqui, aqui e aqui.

Situei uma das cenas desta relação amorosa no castelo de Santa Maria da Feira. Soube agora que um empresário feirense ligado à restauração, Miguel Bernardes, liderou o processo de criação e produção do licor de Chamoa, lançado em agosto de 2013 e tornado na bebida oficial da Viagem Medieval, que se realiza todos os anos em terras de Santa Maria. É aromatizado com frutos silvestres, servido em pequenas porções (copinhos) e obedece a rituais muito próprios, associados ao histórico amor de Afonso Henriques e Châmoa Gomes.


 


O BizFeira, projeto de promoção e internacionalização de empresas e negócios de Santa Maria da Feira, tem vindo a promover o licor por todo o país e até no estrangeiro

Quem diria que o meu romance teria tanto impacto e serviria de tanta inspiração ;-)


16 de abril de 2011

A importância de D. Châmoa Gomes na vida de D. Afonso Henriques (III)



Com a liberdade que me dá a qualidade de romancista, Afonso Henriques viu, na vinda do cardeal Guido de Vico à Hispânia, uma oportunidade de conseguir autorização para casar com a sua amada Châmoa Gomes, como ele próprio lhe revela:


            Depois de se sentar e a encarar, achou-a mais apetecível do que nunca. A camisa de noite desenhava-lhe o contorno das pernas, ligeiramente afastadas. Os braços, agora pousados sobre o regaço, já não cobriam o peito e Afonso adivinhava-lhe os seios bonitos por entre as pregas do tecido. Precisou de um pouco de tempo para se concentrar e encontrar uma maneira de iniciar o seu relato:
            - Já deves ter ouvido dizer que receberemos, neste Verão, a visita de um legado do Papa Inocêncio II.
- Sim, as aias comentaram qualquer coisa. Porquê?
- O arcebispo, a quem tu chamas nomes tão feios, até acha que pode levar o cardeal a libertar-me do jugo de meu primo e...
            - Vens-me outra vez com o imperador e a homenagem? - interrompeu-o ela, levantando-se. - Arrancas-me da cama, a meio de noite, por causa dessa história?
            - Acalma-te, não tornes a acordar os pequenos! Senta-te e ouve-me até ao fim.
            Obedeceu-lhe, contrariada. Afonso olhou-a em silêncio durante algum tempo, antes de perguntar:
            - E se eu expuser a nossa situação ao cardeal?
            Châmoa escancarou as esmeraldas:
            - A nossa situação? Que queres dizer com isso?
            - Refiro-me a uma conversa a sós com o cardeal, em que lhe explico que a mãe dos meus dois filhos descende da família condal mais poderosa da Galiza. Guido de Vico compreenderá a urgência em legitimar as crianças. E se o conseguir pôr do meu lado, o arcebispo perderá qualquer poder de interferência!
            Châmoa fixava-o como se ele fosse um animal exótico. De repente, levantou-se de um salto e exalou, de respiração cortada:
            - Afonso, meu amor, mas isso é uma ideia brilhante!
            Estava tão encantadora, com as esmeraldas a luzirem de entusiasmo, os cabelos sedosos espalhados pelos ombros, o peito a arfar de excitação. Afonso manteve-se sentado, como se nada daquilo o impressionasse, e acrescentou:
            - A ideia só tem a desvantagem de ainda demorar a pôr em prática. Mas, dadas as circunstâncias, arranjarás mais um pouco de paciência, não é verdade?
            - Naturalmente.
            - Ainda há outra coisa que tens que levar em conta: só falarei com o cardeal, depois de o arcebispo ter resolvido a questão da minha vassalagem. Não pretendo arriscar de maneira nenhuma o sucesso do seu plano.
            - Como queiras... Conquanto me prometas que falarás com esse cardeal sobre nós, enquanto ele cá estiver.
            Afonso levantou-se, aproximou-se dela e puxou-a para si. Desta vez, ela não ofereceu resistência. Como era bom tornar a senti-la assim abandonada nos seus braços, cheirar-lhe os cabelos sedosos e o pescoço macio.

Mas o arcebispo de Braga, seu grande amigo, D. João Peculiar, antecipou-se-lhe, negociando, com o cardeal, o casamento com D. Mafalda (ou Matilde) de Sabóia:




            Guido de Vico bocejou:
            - Com isto, despachámos os assuntos do dia, não é verdade?
            - Bem… - João Peculiar tossicou. – Desejava a vossa colaboração para mais uma questão, eminência.
            Guido de Vico passou a mão pela testa, num gesto de impaciência. Mas, em seguida, cruzou as mãos sobre a barriga e anunciou:
            - Sou todo ouvidos.
            - Trata-se do matrimónio de D. Afonso Henriques.
            O cardeal permitiu-se uma expressão de espanto, ao erguer as sobrancelhas.
            - Do matrimónio?
            - Já ouvistes certamente dizer que ele tenciona casar com a sua barregã.
            - Sim. Mas também me chegou aos ouvidos que essa... senhora, que já lhe deu dois varões, tem origem nobre.
            - É verdade - admitiu o arcebispo a contragosto. - É filha do antigo conde de Toroño, que, humilhado pelo imperador, acabou por professar no mosteiro beneditino de Pombeiro. E, pelo lado da mãe, é sobrinha do conde de Trava, o nobre mais poderoso da Galiza.
            - Ora, caro arcebispo, sei que sois muito cioso dos vossos deveres. Mas nós prelados também não nos devemos afastar demasiado do mundo terreno. Bem sabeis que uniões desse tipo são toleradas pela Igreja e D. Afonso estaria longe de ser o primeiro monarca a fazer um casamento desses. Até vos digo: os dois pequenos deviam ser legitimados o mais depressa possível, a fim de assegurar a descendência do pai.
D. João Peculiar sentiu um calafrio, mas manteve a pose:
            - Nada poderia ser mais desvantajoso para el-rei de Portugal do que uma união matrimonial com uma parenta dos Trava. Eu diria até que seria uma verdadeira tragédia!
            O arcebispo explicou toda a situação, sem se esquecer de mencionar as razões que sustentariam uma anulação do matrimónio.
            Guido de Vico reflectiu, tornou a passar a mão pela testa, enfastiado, e acabou por dizer:
            - Não estou em condições de julgar o caso, assim de repente. Terei que confiar no vosso juízo. Se dizeis que a união é inconveniente... pois será. No entanto, continuo a não perceber em que vos possa ser útil.
            - Sou de opinião que D. Afonso devia casar com uma donzela, cuja família estivesse livre de quaisquer influências do poder imperial hispânico, a fim de melhor marcar a distância que obterá ao confiar-se à Santa Sé. Vós, eminência, conheceis as famílias mais nobres da Cristandade. Não poderíeis dar uma sugestão que fosse?
            - Eu? Bem... talvez. Mas porque haveria D. Afonso, que já não é nenhum jovem imberbe, de casar com uma dama proposta por mim?
            - A libertação da suserania do imperador depende de vós, não é verdade? Digamos que, a fim de a merecer, ele teria que fazer certas concessões... Por exemplo, que Roma se reserve o direito de decidir sobre quem deverá ser a futura rainha de Portugal. - Depois de uma pausa: - Peço-vos que considereis este assunto, eminência! Nem imaginais o peso que me tiraríeis dos ombros.

O cardeal acaba por propor a união com a filha do conde Amadeu III de Sabóia.

Em breve, D. Châmoa Gomes se haveria de afastar da vida de D. Afonso Henriques, deixando-lhe, no entanto, dois filhos, que teriam sido criados na corte coimbrã. O mais velho, Fernando Afonso, terá até lutado pelo seu direito de suceder ao pai. Na sua biografia de D. Afonso Henriques, o Prof. Mattoso fala-nos na existência de tensões e conflitos, talvez mesmo conflitos graves, entre o herdeiro D. Sancho e o meio-irmão Fernando Afonso, pois a derrota e a diminuição física de Afonso Henriques no desastre de Badajoz criaram no reino um ambiente de apreensão.

Mas isso só aconteceria quase trinta anos depois do Tratado de Zamora, o próximo assunto de que aqui falarei.

14 de abril de 2011

A importância de D. Châmoa Gomes na vida de D. Afonso Henriques (II)

Para o meu romance, eu não podia deixar de pegar na ideia de que D. Afonso Henriques terá tentado casar com D. Châmoa Gomes. Estava apaixonado, ela pertencia à alta nobreza galega e, além disso, tinham, pelo menos, um filho: Fernando Afonso. Terão tido um outro, Pedro Afonso, mas há fontes que identificam este nome com um meio-irmão do nosso primeiro rei.




Aos barões portucalenses não agradava tal casamento. As razões são referidas numa conversa entre D. Egas Moniz e D. João Peculiar, arcebispo de Braga:


            - Estamos, porém, todos de acordo, em que D. Afonso não deve casar com D. Châmoa Gomes, não é verdade?
            - Aqui para nós, eminência, não seria melhor?
- Pelo amor de Deus, D. Egas!
- Rendamo-nos à evidência! Afinal, D. Châmoa é filha e sobrinha de condes. Deu a D. Afonso um menino forte e saudável e o segundo filho vem a caminho... É capaz até de já ter nascido, enquanto aqui conversamos.
- O herdeiro de D. Afonso Henriques não pode ser um sobrinho do conde de Trava! Morresse o soberano nos próximos tempos (Deus nos livre de tal destino), os Trava logo tratariam de manter o pequeno Fernando sob a sua influência. Um casamento destes tem que ser evitado a todo o custo!
            - Mas como conseguiremos mudar os intentos do próprio D. Afonso?
            O arcebispo reduziu os olhos perspicazes a duas linhas e retorquiu:
            - Talvez nem seja tão difícil quanto isso.
            - Não? D. Châmoa pode levá-lo a fazer um casamento clandestino. E o que Deus uniu...
            - Pode tornar-se a separar!
            - Que dizeis, eminência?
            - A Igreja tem o poder de anular uniões matrimoniais. Neste caso, haveria até duas razões de peso. Em primeiro lugar, podia-se invocar o incesto...
            - Santo Deus!
            - O incesto vai até ao sexto grau de parentesco, D. Egas! D. Châmoa é sobrinha de D. Fernão Peres, que viveu numa união de facto com D. Teresa. O que faz dele o padrasto de D. Afonso Henriques. E faz primos dos dois amantes!
            O arcebispo fez uma pausa, a fim de beber mais um pouco de água, e prosseguiu:
            - Vejamos agora a segunda razão de peso: à morte de D. Paio Soares da Maia, D. Châmoa ingressou no convento beneditino de Vairão, à semelhança de muitas viúvas nobres…
            - Oh sim, com as consequências que se conhecem. Viúvas novas e, acima de tudo, bonitas não se deviam precipitar.
            - O mais importante é que, por pouco tempo que fosse, D. Châmoa se fez monja. Qualquer casamento lhe está proibido! E não esqueçamos que deixou o mosteiro para se amancebar ao senhor de Tougues. Este motivo, por si só, não seria impeditivo de uma nova união matrimonial. Mas, entre nós, D. Egas, quereremos nós ver uma dama de passado tão pouco recomendável ocupar o trono de Portugal? Porque é de um trono real que se trata! Embora não reconhecido oficialmente, D. Afonso vem-se intitulando rei há mais de um ano.
            Egas remeteu-se ao silêncio e, depois da curta pausa, o clérigo acrescentou:
            - D. Châmoa que construa as suas armadilhas! Não é ela que me tira o sono. O verdadeiro problema assenta no facto de D. Afonso nem se preocupar em procurar uma noiva apropriada... e o tempo vai passando.
            - O nosso rei meteu-se numa bela alhada. Com uma parenta dos Trava! Muitas vezes, penso ser esta uma maldição que a própria mãe lhe lançou.

Fiz, por isso, de D. João Peculiar, arcebispo de Braga e grande amigo e colaborador de D. Afonso Henriques, o opositor mais acirrado do rei nesta questão. E liguei o assunto a mais dois, de elevada importância: o Tratado de Zamora e o casamento do monarca com D. Mafalda de Sabóia. D. João Peculiar terá pensado encontrar a solução do problema na vinda do Cardeal Guido de Vico à Hispânia, em 1143. A intenção do legado papal é participar em dois concílios, um em Valhadolid e outro em Girona, mas também servirá de mediador num tratado a assinar entre Afonso Henriques e o imperador, em que este reconhecerá o título real ao primo. Falo do Tratado de Zamora, assinado a 5 de Outubro de 1143.




Mas o que tem tudo isto a ver com D. Châmoa Gomes e o casamento do rei com D. Mafalda? A ideia foi-me "dada" pelo Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, que, na sua História de Portugal (Editorial Verbo), nos diz que poderá ter sido o cardeal Guido de Vico quem advogou, junto de Afonso Henriques, o casamento com a filha do conde Amadeu III de Sabóia. E como se lembraria o cardeal de fazer uma coisa dessas? Talvez o arcebispo de Braga lhe tivesse pedido para o fazer, a fim de acabar, de vez, com o problema chamado D. Châmoa Gomes.

Para apimentar mais o meu romance, Afonso Henriques, que não fazia ideia dos planos do seu amigo arcebispo, terá, ele próprio, visto na vinda do cardeal uma oportunidade de conseguir autorização para o casamento com a sua amada.

Mais no próximo post.

12 de abril de 2011

A importância de D. Châmoa Gomes na vida de D. Afonso Henriques (I)

O aspecto menos conhecido da vida de D. Afonso Henriques é o amoroso, sabe-se apenas que casou com D. Mafalda (ou Matilde) de Sabóia. O que não se costuma referir é que ele já ia perto dos quarenta e que D. Mafalda faleceu doze anos depois, na sequência do nascimento da infanta D. Sancha, o sétimo filho do casal.

José Filipe Photo


O primeiro filho ilegítimo do nosso primeiro rei nasce por volta de 1139/40, ao tempo da Batalha de Ourique e da sua aclamação de rei. Antes disso, não se lhe conhecem amantes, o que já intrigou alguns historiadores. Há, aliás, uma versão interessante, seguida, entre outros, pelo Dr. Paulo Loução, Director da editora Ésquilo: D. Afonso Henriques ter-se-ia, muito jovem, ligado aos Templários, os cavaleiros monges obrigados ao voto da castidade. A Ordem do Templo desempenhou um papel muito importante, tanto ao tempo do Condado Portucalense,  como na formação do reino de Portugal. E é curioso verificar que, pouco depois da Batalha de São Mamede, o jovem Afonso Henriques, ao confirmar a doação do Castelo de Soure aos Templários, declarou-se, ele próprio irmão da Ordem do Templo. Mas queria ele dizer que pertencia à Ordem, ou, apenas, que se sentia muito ligado a ela?


Cavaleiro Templário


De qualquer maneira, quando ia pelos vinte e oito anos, Afonso Henriques ter-se-á perdido de amores por D. Châmoa, ou Flâmula, (estes nomes medievais...) Gomes, pertencente à alta nobreza galega. Possuía, no entanto, dada a sua posição de nobre e para os padrões da época, um passado bastante atribulado. D. Châmoa Gomes casara, muito nova (talvez com catorze ou quinze anos), com D. Paio Soares da Maia, dando à luz três filhos, mas logo enviuvando. Ingressou no mosteiro de Vairão, o que não a impediu de se envolver com D. Mem Rodrigues de Tougues, engravidando e deixando o convento (coisa, aliás, proibida). Porém, o fidalgo faleceu ainda antes do filho nascer e, só depois desta infelicidade, ela se envolveu com D. Afonso Henriques.




Como se vê, um enredo digno de romance, de série televisiva, de filme... Quem diria que a vida de Afonso Henriques englobava tais peripécias? Os verdadeiros problemas, porém, começaram quando esta senhora se cruzou com ele. O Prof. Freitas do Amaral, na sua biografia de Afonso Henriques, diz-nos:

...não foi apenas uma ligação amorosa de que nasceu um filho. Foi muito mais do que isso: D. Afonso Henriques - no auge da sua pujança pessoal e da sua trajectória militar e política - conhece uma mulher, de quem se enamora intensamente, e que será a grande paixão da sua vida (...) é uma rapariga da melhor nobreza galega, jovem e bonita por certo, de seu nome Flâmula Gomes, que é nem mais nem menos do que uma sobrinha de Fernão Peres de Trava - o amante de D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques (...) Com ela terá querido, empenhadamente, casar.

Se D. Afonso Henriques tencionava realmente casar com D. Châmoa Gomes, tinha três grandes obstáculos pela frente:

1º Passado pouco recomendável para esposa de um monarca.
2º Sobrinha de Fernão Peres de Trava, o que queria dizer que o sucessor do nosso primeiro rei pertenceria, neste caso, à família galega que tantas dores de cabeça dera aos barões portucalenses.
3º D. Châmoa fizera-se monja em Vairão, depois de enviuvar, pelo que o casamento lhe estava proibido (segundo as leis da Igreja, uma vez freira, ela não podia deixar de o ser).

Sabemos que não casaram, ou seja, D. Afonso Henriques, que tanto lutava pelos seus objectivos e que estava habituado a vencer os seus combates, terá perdido esta "batalha". Darei conta disso no próximo post.