Perguntado porque deixara de tomar rapé, costume indicativo de homem pensador e estudioso, respondeu que alguns escritores modernos atribuíam ao amoníaco, parte componente do rapé, o deperecimento das faculdades retentivas, pela acção deletéria que o poderoso alcali exercitava sobre a massa encefálica. Além de que a fumarada do charuto, sobre ser purificante e antipútrida, dava aos alvéolos solidez, e consistência aos dentes.
In "A Queda Dum Anjo", Camilo Castelo Branco
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5 de agosto de 2014
29 de julho de 2014
Nada como ler os clássicos (7)
Meu amado Calisto. Cá soube pelo mestre-escola que tens botado algumas falas nas cortes, e que tens muita sabedoria. O senhor abade já cá veio ler-me um pedaço do teu dito, e oxalá que seja para bem da religião. Olha se botas abaixo as décimas, que é o mais necessário. Aqui veio um padre de Miranda para tu o despachares para abade; e o regedor também quer que tu lhe arranjes um hábito de Cristo para ele, e uma pensão para a tia Josefa, que é viúva de um sargento de milícias de Mirandela. Assim que arranjares isso, manda para cá.
Saberás que mandei trocar os dois barrosãos à feira dos onze, e comprei vacas de cria. Os cevados não saíram de boa casta, e acho que será bom trocá-los na feira dos dezanove. A porca ruça teve dez leitões ontem de madrugada. E, com isto, olha se isso lá acaba depressa, que eu ando por cá triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal dos rins, e muito despegada do peito. Hoje vou ver medir dois carros de centeio, que vão para a feira, por isso não te enfado mais. Desta tua mulher muito amiga,
Teodora
In "A Queda Dum Anjo", Camilo Castelo Branco
Saberás que mandei trocar os dois barrosãos à feira dos onze, e comprei vacas de cria. Os cevados não saíram de boa casta, e acho que será bom trocá-los na feira dos dezanove. A porca ruça teve dez leitões ontem de madrugada. E, com isto, olha se isso lá acaba depressa, que eu ando por cá triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal dos rins, e muito despegada do peito. Hoje vou ver medir dois carros de centeio, que vão para a feira, por isso não te enfado mais. Desta tua mulher muito amiga,
Teodora
In "A Queda Dum Anjo", Camilo Castelo Branco
22 de julho de 2014
Nada como ler os clássicos (6)
Foi neste instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado esquerdo do peito, entre a quarta e a quinta costela, um calor de ventosa, acompanhado de vibrações eléctricas, e vaporações cálidas, que lhe passaram à espinha dorsal, e daqui ao cérebro, e pouco depois a toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor mais virginal.
Disto não deu tento Adelaide nem a outra gente.
Duas enfermidades há aí, cujos sintomas não descobrem as pessoas inexpertas; uma é o amor, a outra é a ténia. Os sintomas do amor, em muitos indivíduos enfermos, confundem-se com os sintomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa prática para discriminá-los. Passa o mesmo com a ténia, lombriga por excelência. O aspecto mórbido das vítimas daquele parasita, que é para os intestinos baixos o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os sintomas de graves achaques, desde o hidrotórax até à espinhela caída.
In "A Queda Dum Anjo", Camilo Castelo Branco
Só não concordo com: «os sintomas do amor (...) confundem-se com os sintomas do idiotismo». Mas não deixa de ser um interessante naco de prosa.
Disto não deu tento Adelaide nem a outra gente.
Duas enfermidades há aí, cujos sintomas não descobrem as pessoas inexpertas; uma é o amor, a outra é a ténia. Os sintomas do amor, em muitos indivíduos enfermos, confundem-se com os sintomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa prática para discriminá-los. Passa o mesmo com a ténia, lombriga por excelência. O aspecto mórbido das vítimas daquele parasita, que é para os intestinos baixos o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os sintomas de graves achaques, desde o hidrotórax até à espinhela caída.
In "A Queda Dum Anjo", Camilo Castelo Branco
Só não concordo com: «os sintomas do amor (...) confundem-se com os sintomas do idiotismo». Mas não deixa de ser um interessante naco de prosa.
15 de julho de 2014
Nada como ler os clássicos... (5)
- Ninguém devera casar sem muito ler e sem aplaudir aqueles preceitos do casamento, escritos pelo eminentíssimo Plutarco.
- Não conheço - disse a dama... - Li Le mariage de Balzac.
- Não sei quem é: deve ser francês.
- Pois não leu?
- Eu não leio francês. Não me chega o meu tempo para tirar águas sujas de poços infectos. Plutarco é oráculo nesta matéria. Um pensamento lhe li que me chegou à medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu explicado. Diz ele algures: «Não podem as mulheres convencer-se de que Pasifaé, bem que esposa dum rei, se enamorasse apaixonadamente de um touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menosprezam maridos beneméritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela libertinagem.»
In A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco
- Não conheço - disse a dama... - Li Le mariage de Balzac.
- Não sei quem é: deve ser francês.
- Pois não leu?
- Eu não leio francês. Não me chega o meu tempo para tirar águas sujas de poços infectos. Plutarco é oráculo nesta matéria. Um pensamento lhe li que me chegou à medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu explicado. Diz ele algures: «Não podem as mulheres convencer-se de que Pasifaé, bem que esposa dum rei, se enamorasse apaixonadamente de um touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menosprezam maridos beneméritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela libertinagem.»
In A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco
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24 de maio de 2014
Nada como ler os clássicos... (4)
O presidente: - Fica reservada para amanhã a palavra ao senhor doutor Libório de Meireles, e está fechada a sessão.
O doutor Libório de Meireles era o deputado portuense, que pedira a palavra, durante o discurso de Calisto Elói.
- Que sairá daquele arganaz? - perguntou o morgado de Agra ao abade Estevães.
- Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros.
Calisto sorriu-se e disse:
- Estou bem aviado, se ele escreveu livros!
In A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco
O doutor Libório de Meireles era o deputado portuense, que pedira a palavra, durante o discurso de Calisto Elói.
- Que sairá daquele arganaz? - perguntou o morgado de Agra ao abade Estevães.
- Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros.
Calisto sorriu-se e disse:
- Estou bem aviado, se ele escreveu livros!
In A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco
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8 de maio de 2014
Nada como ler os clássicos... (3)
Tosquenejou muitas noites sobre os bacamartes pulvéreos; e, desde que a manhã raiava até horas de almoço, ia à margem do Douro, que lhe lambia a ourela da quinta, declamar, como Demóstenes nas ribas marítimas, ao estridor de um açude e das rodas de duas azenhas. Os moleiros, que o viam bracejar, e lhe ouviam o vozeamento, benziam-se, pensando que o sábio treslera, ou coisa má lhe entrara no corpo.
In A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco
In A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco
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6 de maio de 2014
A Queda Dum Anjo
Se Eurico, o Presbítero me pareceu datado, em relação a A Queda Dum Anjo eu não tenho dúvidas: é um clássico!
Nota-se que o escritor viveu no século XIX? Nota-se. Mas aí é que está a arte de um clássico: a ironia em relação aos valores e à sociedade em que o autor viveu não perdeu nada da sua vivacidade. Lê-se sem aquela sensação de ter envelhecido. Mais: pode perfeitamente aplicar-se aos nossos dias, na sua crítica ao provincianismo bacôco e à verbe dos políticos, no seus discursos de encher chouriços.
Camilo Castelo Branco é um autor esplêndido, a descobrir (falo por mim). Concentrei-me tanto no Eça, que me distraí deste, que afinal é mesmo obrigatório.
Neste livro, contam-se as venturas e desventuras de Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, de Miranda do Douro, que se vê em plena Lisboa como deputado. Apesar de se verificar o cliché da cidade que corrompe o mais puro serrano, ler A Queda Dum Anjo não é só aprender bom português. É igualmente aprender a conhecermos melhor este nosso país e as suas gentes (todos nós).
Tenho publicado excertos da obra e seguir-se-ão mais alguns, para poderem julgar com a própria cabeça.
Nota: li a edição digital do Projecto Adamastor (download gratuito).
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2 de maio de 2014
Nada como ler os clássicos... (2)
Não obstante, o ministro do Reino redobrou instâncias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha escrito revistas de espectáculos, e recitava versos dele ao piano, cuja falta ou demasia de sílabas a bulha dos sonoros martelos disfarçava.
In A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco
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24 de abril de 2014
Nada como ler os clássicos...
IL.mo E EX.mo SR. ANTÓNIO RODRIGUES SAMPAIO
Meu amigo.
Volto a oferecer-lhe uma das minhas bagatelas. Chamo assim, para me fingir modesto, bagatelas a umas coisas que eu reputo no máximo valor.
(início de carta de Camilo Castelo Branco ao seu editor, in A Queda dum Anjo)
Meu amigo.
Volto a oferecer-lhe uma das minhas bagatelas. Chamo assim, para me fingir modesto, bagatelas a umas coisas que eu reputo no máximo valor.
(início de carta de Camilo Castelo Branco ao seu editor, in A Queda dum Anjo)
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