Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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9 de junho de 2015

Os Segredos de Jacinta (26)



Ele não contradisse aquela possibilidade. Encarou a vastidão do Tejo, com uma ruga na testa. Jacinta fixou igualmente a sua atenção no rio-mar. O sol já ia baixo, mas ainda refletia na água, que, de tão serena, se podia julgar ser possível andar sobre ela, uma superfície prateada.

Jacinta tornou a sentir-se envolvida pela luminosidade. Murmurou:

- Disseste que a vida começa de novo. A vida está sempre a começar, desde que o queiramos. Mas sem nada se apagar. É essa a vantagem do renascer. Quem nasce pela primeira vez, é atirado indefeso para braços que tanto podem ser fortes, como frouxos, carinhosos, como cruéis. O recém-nascido não está em condições de escolher. Mas nós estamos. Façamos as pazes connosco próprios, acarinhemos o recém-nascido que vive dentro de nós, esse ser frágil que já fomos, que requer atenção e cuidados, mas que nós facilmente rejeitamos e olvidamos. Só quando o abraçamos, aceitando todas as suas fraquezas, nos sentimos fortalecidos para começar de novo, uma outra vida.

Afastou-se, sem mais uma palavra. Pedro não tentou impedi-la, nem sequer chamou por ela. De que adiantaria tentar agarrar o sol que desaparecia no horizonte?


2 de junho de 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (25)



«É um mundo cruel para as mulheres, este em que vivemos», dissera-lhe a velha do Serro do Cão.
Jacinta conhecera várias formas de crueldade. Mas também a Emília, que vivera ao abrigo da família, conhecera crueldades, outro tipo de crueldades, aquelas com que se modelavam as moças, como se elas fossem pedaços de barro nas mãos de um oleiro. Não lhes davam voz. Quiçá nem sequer lhes dotassem o rosto de uma boca.


26 de maio de 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (24)



Jacinta não sabia o que pensar. Tornou a agradecer ao irmão Ambrósio, mas não conseguia partilhar da sua euforia. Duvidava que el-rei e o arcebispo se lembrassem dela, uma mulher, depois de terminado o pesadelo. E quiçá D. João Peculiar houvesse exagerado nas suas afirmações, a fim de agradar ao monge. Ou o próprio irmão Ambrósio, no seu entusiasmo, houvesse visto aceitação e admiração a mais nas atitudes dele.
            Tornou a concentrar-se no seu labor, estava ainda longe de poder repousar. E o seu ceticismo em relação ao ataque do dia seguinte provou não ser infundado. Se bem que houvesse um pequeno avanço, o desfecho foi, mais uma vez, catastrófico. Os ingleses conseguiram evitar que a torre pegasse fogo e, dotado de um novo sistema de rodízios, o engenho não ficou atolado na areia. Os mouros, porém, atreveram-se a uma surtida, por um dos postigos virados ao rio, e dera-se novo massacre, na areia, que se empapara com o sangue dos corpos.
Os combates só foram retomados dois dias mais tarde, quando finalmente se deu a viragem. Os ingleses chegaram às muralhas com a torre. E, antes que pudessem usar o passadiço que lhes permitiria alcançar o adarve, os sarracenos depuseram as armas. Anunciaram que desejavam negociar tréguas, mas apenas com el-rei de Portugal!
Aos cruzados não agradava que D. Afonso Henriques negociasse sozinho com o alcaide, sendo de opinião que os portugueses pouco contributo haviam dado para o sucesso do cerco. Seguiu-se uma série de contratempos e insubordinações e, na noite de 22 para 23 de outubro, um grupo penetrou traiçoeiramente na cidade, buscando um tesouro que se dizia escondido pelos mouros.
- Os cruzados ainda deitam tudo a perder – lamentou o irmão Ambrósio, – quando julgávamos haver o pesadelo chegado ao fim!
D. Afonso Henriques acabou por controlar a situação, garantindo a subjugação dos estrangeiros, mas a busca do tesouro, que não existia, resultara em mais cadáveres pelas ruas da cidade, incluindo mulheres e crianças. Também o velho bispo moçárabe foi encontrado no meio de uma poça de sangue, de goela cortada.


19 de maio de 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (23)



Os mouros provaram não tencionar desistir. Martim Moniz e o seu grupo conseguiram forçar a abertura da porta, mas os sarracenos adiantaram-se, saindo e provocando grande matança entre os cavaleiros portugueses. Martim Moniz tentou impedir que fechassem novamente os portões e acabou por morrer esmagado.
O ataque deixou feridos a agonizar na encosta da alcáçova e, embora já houvesse gente a tratar deles, o irmão Ambrósio rogou a Jacinta que fosse em seu auxílio, pois mais ninguém curava como ela.
Seguiu o monge até ao local, apesar de fatigada, com as madeixas a soltarem-se-lhe da trança, acossadas pelo vento forte. Movia-se entre os mortos e feridos dando as suas ordens, de sentimentos fechados, constatando haver poucos guerreiros a quem acudir, pelo que se despacharia lesta. Não lhe parecia, aliás, haver tarefas que exigissem a sua intervenção e censurou interiormente o irmão Ambrósio, que a arrastara até ali sem necessidade.
Antes de volver ao acampamento, deu mais uma volta, por descarga de consciência. Perto do cemitério islâmico, ouviu alguém berrar. Virou-se e viu um guerreiro que ainda não estava a ser assistido e que se tentava arrastar. Gritou-lhe:
- Deixai-vos estar! Vou a caminho!
O homem rebolou, ficando deitado de costas. Jacinta viu-lhe a barriga ensanguentada. Mas viu algo mais que a fez sentir-se como se lhe tivessem igualmente furado as entranhas. Ao rebolar, o cavaleiro perdera o capelo de ferro e o cabelo escapava-se-lhe do almofre, agitando-se ao vento. Cabelo de um castanho inconfundível!


12 de maio de 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (22)



- Que desgraça, D. Jacinta! Que grande matança… Os cruzados estão desesperados… Hão mister de auxílio… Vós sabeis falar latim… E sois tão boa curandeira…
Os mouros haviam dado a volta à situação, disparando setas incendiárias com as suas bestas, ao abrigo dos merlões quadrados. As fundas baleares dos alemães e flamengos arderam e a pesada torre dos ingleses acabou atolada na areia e igualmente consumida pelo fogo. Os cruzados fugiram desordenadamente, sob a chuva de projéteis vinda do adarve.
Jacinta reuniu as suas ajudantes e seguiram o irmão Ambrósio com o seu grupo de monges, encosta abaixo. Viram os corpos espalhados entre as muralhas e a colina do oriente, mas nem todos estavam mortos. Braços agitavam-se, ouviam-se gritos desesperados, alguns arrastavam-se a esvair-se em sangue.
O grupo de Jacinta juntou-se aos que já tentavam tirar dali os sobreviventes. Não se abeiravam, contudo, das muralhas, receando que ainda viesse uma ou outra seta moura, pelo que se viam obrigados a ignorar os feridos que nesse local de perigo jazessem. Agiam por instinto, no meio do desespero daqueles que viam a morte à frente e imploravam salvação. No ar empestado com o odor metálico do sangue e dos engenhos queimados, tentavam suster as hemorragias com panos. Alguns monges dedicavam-se aos moribundos, murmurando as orações da extrema-unção, garantindo-lhes que iriam direitos ao Paraíso, procurando assim aliviar as suas almas atormentadas.
Entretanto Jacinta e as outras mulheres dirigiram-se às tendas onde se depositavam os feridos. Tentar salvá-los era, porém, uma tarefa quase inglória, além de que não havia como minorar o sofrimento e as dores. Labutaram pela noite fora, tão ensopadas em sangue como os seus enfermos.